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domingo, 30 de junho de 2024

DDD

Enfim consegui emprestada a tecnologia da Jazz Corp. que me permite falar com uma versão minha do passado, ela usou para falar com sua versão de cinco anos atrás, porém eu reconfigurei a máquina e entrei em contato com minha versão de mais de vinte anos atrás. Por estar ligando para o ano de 1998 não tem como usar vídeo chamada nem e-mail... Por isso apelei para a boa e velha ligação telefônica. A data atual é algum dia entre abril e junho. Não consegui definir um dia específico, só o dia de um acontecimento e um horário aproximado. Silêncio, ta chamando.

- Alô? - Eu tinha me esquecido como minha voz era mais aguda quando era mais nova.

- Alô, tudo bem?

- Tudo... Quem ta falando?

- Antes de responder essa pergunta eu quero te pedir que espere eu terminar de falar, não desligue, pode ser?

- Pode... É trote né? É o primo do Ronaldo né?

- Não, não é trote - Suspirei, merda, eu devia ter planejado isso melhor antes de ter feito essa ligação, ter feito um briefing, uma cadeia de perguntas e afirmações... Bom, o negócio é improvisar - Vai soar estranho, mas... Eu sou você, do futuro.

- Que? - A voz parecia incrédula, não julgo, me conheço o suficiente pra desconfiar de tudo - Vou desligar.

- Espera, espera... Eu sei de coisas sobre você que mais ninguém sabe.

- Prove.

- Você odeia a fase 5 do Duke Nukem porque ela é um labirinto e você odeia labirintos, sempre odiou a sensação de desorientação, por isso sempre aprendeu a criar pontos de referência.

- T-tá... - A voz dele estava hesitante - C-como você...

- Eu sei porque eu sou você, sei que do lado do telefone tem um colchão dobrado, senta nele, vamos conversar um pouco...

- Eu... É... E... Quando você ta? Tipo o ano.

- 2024 - Acho que consegui, respirei fundo, consegui a abertura - Pois é, o mundo não acabou nos anos 2000 e o bug do milênio não afetou quase nada, teve o caso de um hospital que foram registrar no sistema e a criança nasceu em 1900, mas, fora isso, não teve nada de relevante.

Ele riu enquanto o ouvia sentar. O chão daquela casa de madeira rangia e aquele telefone branco tinha espaço para ser pego e posto ao lado do tal colchão que ouvi ele sentar. Não podia perder muito tempo porque sabia que, por mais que a tecnologia da Jazz Corp. fosse estável não sustentava a ligação com o passado tão longínquo por muito tempo.

- Caralho... - Ele suspirou - E como você... Eu... Nós estamos?

- Olha... Não vou mentir, a gente não anda muito bem, mas nada que não possa ser remediado, algumas coisas a curto prazo e outras a médio... Mas vivi... Ou melhor nós vivemos muita coisa legal, conhecemos muita gente, perdemos o contato com muitas pessoas que pro seu eu de agora é importante, doeu, mas foi para o melhor, o futuro mostrou que elas não eram tão boas pessoas... Além disso moramos muitos anos bem perto do mar.

- E... Casamos? Digo - Tinha certeza dessa pergunta tanto quanto a de que nós dois ruborizamos com ela - A Ariadne casou com a gente...?

- É... Não, na verdade depois do Ensino Médio você nem vai mais morar aí.

- Como assim?

- Eu tenho pouco tempo na ligação... A tecnologia que estou usando ainda não sustenta longas ligações, ainda mais com um passado tão remoto.

- Mas aí não é só ligar de novo?

- Em teoria sim, só que o quê você acha que é uma ligação longa na verdade está durando alguns segundos e, depois que desligar, você não vai lembrar de praticamente nada de nossa conversa, talvez ache que o que viveu é sua criatividade... Porque cara, você é muito criativa, sua imaginação é foda.

- Eu... Obrigad... Espera - Merda, um ato falho - Você disse "criativa"?

- É... Eu sei do seu desejo de ter um feitiço, algo pra se transformar nas modelos da revista só pra sentir as roupas, as poses... poder ter aquela sensação... Aliás - Hora de gastar a melhor carta - Liguei hoje justamente por ser um dia diferente do seu habitual, eu sei o quê você acabou de fazer e, antes de tente negar eu quero te dizer que ta tudo bem ta?

- O... O quê eu fiz? - Típica atitude minha: negar até o fim - O quê você acha que eu fiz?

- Você acordou mais cedo - Um sinal de interferência cortou um pouco o som - E Foi ver o guarda-roupas dos seus pais, esses dias você viu algo lá que te despertou uma curiosidade diferente, te deu a fagulha de um novo desejo, o toque do tecido na ponta dos dedos foi gostoso né?

- Foi... - O tom culposo dele era pesado, quase uma confissão dum crime - Mas é errado...

- Não, não é errado, é o quê você é.

- Mas e o quê vão falar de mim se souberem que eu...

- ... Que você vestiu uma saia, se olhou no espelho e sorriu?

- Não sei se gosto dessa conversa...

- Eu sei que tudo isso é confuso hoje, que você se sente sozinho por não ter com quem conversar e eu queria poder te dizer que as coisas vão melhorar daqui pra frente... Mas vou ser sincera e dizer que não vai - Suspirei pesadamente - A gente vai passar muitos problemas antes de que qualquer tipo de ajuda possa existir ou qualquer apoio possa aparecer...

- V-você ligou para me dar noticias ruins?

- Não é esse o ponto... Eu só quero ser sincera com voc... Digo, comigo pra que você esteja preparado pro que está por vir - Um latido ao fundo, minha primeira cachorrinha, reconheceria aquele ganido de longe - E que tudo isso que vai acontecer vai te transformar em uma pessoa melhor...

- Não sei o que pensar.

- Ta tudo bem, vou te dizer que, de uma forma torta, mas tudo vai ficar até que bem... - Outro chiado na ligação e o cheiro de plástico derretendo começou a aguçar minhas narinas - Eu não tenho muito mais tempo e, por isso vou te falar algo que, agora, não vai fazer muito sentido...

- Ta... Ta bem.

- Acredite em você, vai acontecer muita merda, muita gente vai sair de nossa vida e algumas outras vão aparecer e vão ser ótimas e vão ser o apoio que você precisa pra se sentir feliz, porque eu sei que esse teu coraçãozinho vive apertado, desejando ser o que você acha que não tem como ser, mas, num futuro... Vai ser.

- O que quer dizer com isso?

- Pode ser que o feitiço que você tanto desejou ser real... Pode ser que ele possa existir realmente.

- Pode??? - A animação na voz voltou, pelo visto eu era bipolar desde aquela época - Como?

- No futuro você vai conhecer uma pessoa que vai te... An... empurrar a comprar uma saia sua, só sua, nada mais de usar a da nossa mãe escondida... O tamanho pode ser que não seja o ideal, mas vai te fazer, me fazer sorrir de novo como você sorriu agora a pouco com aquela saia da sua... Nossa mãe.

- Quanto no futuro? O quê vai acontecer depo - Um ruído cortou a voz - Alô? Alô??

- Meu equipamento está superaquecendo, mas quero te dizer pra sempre acreditar em você, ser fiel ao que você acredita e deixando abertura pra acreditar em coisas novas... Ah e nunca pare de escrever, você escreve bem pra caralh - Um ruído alto atravessou a ligação, hora de começar a finalizar - Vai demorar um tempo até você aceitar e entender tudo isso que estou dizendo... Na real vai demorar anos, mas quando começar a entender vai conseguir se aceitar como a linda mulher que nasceu pra ser... Eu... - Hesitei um instante - ainda não cheguei lá, mas, sinto que entrei nesse processo e, até agora, tem sido um caminho de umas descobertas internas tão lindas que... Apesar de não aparentar externamente que estávamos avançadas, cá dentro estamos nos aprontando para os próximos passos...

- E... Eu... - A respiração ofegante e a pausa denunciava a emoção - E... Por que agora? Tipo... Por que demorar tanto tempo? Por que eu não comecei isso... Sei lá, hoje?

- Essa é a pergunta mais foda que eu tento responder todos os dias, do por que esperar tanto tempo... Porém acho que tudo acaba acontecendo no tempo certo - Essa era uma resposta que eu me dava toda hora, como se fosse totalmente convincente, mas não era, no entanto por agora eu não preciso que meu eu-do-passado saiba de todo o peso das dúvidas e dores n'alma que ele vai sentir nos próximos anos, melhor dar uma analogia que faça sentido - Tipo os gols do Marcelinho batendo falta... - Assim como os jogos no computador, o futebol, mais especificamente o Corinthians, foram, e ainda são, um lugar de consolo, uma quase fuga da realidade que me ajuda a segurar as pontas até aqui - Quando menos se espera ele bate e faz aquele golaço...

- Entendi... - A respiração dele estava mais calma - Acho.

- Meu tempo está acabando... Queria poder te falar tanta coisa... Mas o quê eu posso te dizer é que vai passar e a gente, apesar tudo, vai sobreviver e vai fazer o feitiço funcionar... Nunca duvide disso, Lu... Te amo.

- Lu...? Eu... - A ligação começou a falhar mais - Alô? Alô? Al...

Um som metálico atravessou nossas vozes e o silêncio se fez junto com o cheiro de queimado. A tecnologia superaqueceu e derreteu a tomada. Preciso trocar a tomada e devolver tudo pra Jazz Corp. Suspirei enrolando o fio. Espero que meu eu entenda. Levantei para colocar tudo na mochila. Ao passar na frente do espelho com o cabelo solto parei um instante e o espelho me sorriu. Acho que minha versão do passado entendeu a mensagem. Arrumei uma mecha de cabelo atrás da orelha e segui... Merda, esqueci de falar das bitcoins.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Dúvidas (e lá vamos nós)

Olá, pessoas, como estão? Estou sem vir aqui mas é por falta de novidades... mas hoje tem coisa nova e provavelmente é o texto que eu mais protelei pra escrever aqui e, talvez, seja um dos mais íntimos e que estou com ele embolado dentro da cabeça. Não sei se por medo do que meus dedos vão escrever enquanto eu tento pensar nas palavras, não sei se pelo rumo que ele vai tomar. Se ele está postado aqui e vocês estão lendo é sinal que eu consegui escrever e postar.


Faz mais de uma semana, talvez mais de mês, que eu estou com o escrito na ponta da língua e quando vou escrever... ele foge. O foda é que, de uns dias pra cá, isso passou a me sufocar, por isso resolvi ligar um mix de LoFi HipHop do Nujabes e meio que forçar a sair, tipo quando estamos mal do estômago e tomamos algum remédio que faz sair... ok, péssimo exemplo, mas é meio assim que me sinto.


Sei que costumo dividir minha vida entre o antes e depois da saia, porém é inevitável, porque ela trouxe algo que me mostrou o outro lado do espelho (inclusive esse foi o título de um blog que tive muitos anos atrás, acho que apaguei ele faz muito tempo, enfim) e ele me sorriu. 


Já escrevi três parágrafos e ainda não consegui concatenar as ideias, que merda. Vamos começar pelo começo mais recente e de trás pra frente: Já se vão alguns dias que eu estou em crise de despersonalização, eu fico sempre com a sensação de que estou sonhando e isso acaba por me deixar apático com o que sinto/vejo/faço e é a porta dos fundos pra crise depressiva entrar com tudo. Como eu não sei a origem dessa crise atual eu estou achando que tem relação com um evento que aconteceu tem mais ou menos um mês...


*efeito de volta no tempo*


Não sei se vocês sabem mas eu gosto muito de ouvir podcasts, sobretudo os que contam histórias, sempre muito bom pra ouvir enquanto limpo a casa, lavo uma louça ou vou buscar pão ou coisa assim. Pois bem, um desses podcasts que ouço com certa regularidade é o GugaCast (Mari, se ler, desculpa, é a única vez que vou citar o nome ok?), gosto que contam histórias dos ouvintes e até fiquei interessado em mandar histórias pra lá, mas nunca fiz porque minhas histórias de vida não são lá grande coisa pra serem contadas num podcast que tem seus milhares de ouvintes. Vou admitir, quando vi o último episódio, com mais de duas horas e meia eu tive certa preguiça de dar o play, porém quando dei vi que eram histórias soltas de uns quarenta minutos cada uma, então tava show.


Como trabalho com comunicação gosto de estar de olho nas tendências e sempre buscando aprender mais sobre tudo e o último episódio era o especial LGBTQIAP+, esse assunto eu tenho real interesse até pra poder me comunicar da forma mais educada e inclusiva possível, sempre em busca de uma evolução.


Pois bem, no episódio em questão eu acabei atingido por várias histórias que me fizeram ora chorar de alegria, ora chorar sentindo a dor das histórias contadas, porém veio a última história e... Puta que pariu.


Eu já tinha tomado um spoiler de leve no instagram, porém ao ouvir o episódio, aquela história... mano do céu. Sem zoeira: eu deitei no chão e fiquei meia hora depois que acabou sem força pra nada. Sugiro que ouçam o episódio todo, mas a grande história é a última, não sei ao certo a minutagem. A propósito: quando forem ouvir, ouçam em um lugar que vocês possam chorar numa boa, não é recomendável ouvir na rua porque... bem... vocês vão acabar chorando litros, estejam avisades.


Mas enfim, conforme a personagem contava sua história eu fui me identificando demais. Quando ela falou que, aos nove anos, viu um vestido amarelo pendurado atrás da porta do banheiro quis muito vestir porém achou errado e não o fez... é muito paralelo com o que aconteceu comigo sabe? Outros relatos, outras passagens de vida e eu ficava igual aquele gif do Leonardo DiCaprio apontando. Pode ser que eu seja uma pessoa muito influenciável, mas seilá... me vi naquela história de um jeito que não sei explicar.


Ok, sei que quem ler talvez não vá ouvir o episódio e/ou não tenha paciência/tempo pra ouvir tudo então qual é o resumo? A personagem do conto (e a pessoa que dava nome ao podcast), depois de um tempo, descobriu-se uma mulher trans... Agora eu não sei se continuo escrevendo porque estou sentindo meu estômago borbulhando igual como quando fui fazer vestibular.


Ta, eu preciso tirar isso da cabeça e, quem sabe, isso ajude a dar um alivio pra cabeça, porém eu preciso de outra música, então vou dar play em um show do Portishead (uma banda que faz umas músicas que me inspiram na hora de escrever), então vamos lá:


Agora uma pequena volta no tempo até o dia que recebi a saia e o espelho me sorriu: os dias seguintes foram maravilhosos. Foi mais ou menos nessa época que surgiu a Fernanda (verdade seja dita: eu já usava esse nome na internet, pra aprimorar a escrita em gênero oposto ao meu) e eu, REALMENTE, achei que poderia ter duas personalidades, uma feminina e outra masculina, só que logo (logo = nos meses seguintes) isso dissipou e ficou um sentimento "tudo bem Lu usar saia" e assim estávamos até o começo da terapia onde essa dúvida ocorreu, porém na época eu estava mais tranquilo quanto a isso... o que fez até minha terapeuta respirar aliviada, porque ela não ia saber como lidar. Aliás, olhando hoje acho que ela se sentiu aliviada quando eu parei de ir... enfim, divagações.


Voltando ao momento presente: ocorre que ouvir aquele episódio do podcast me fez relembrar coisas que eu fazia quando criança/começo da adolescência. Além de entrar no quarto dos meus pais e vestir um tailleur lindo, com saia lápis camurça marrom-claro, camisa branca de botão, meia calça branca (fio 20 acho) e uma camisa de manga comprida em um tom de marrom-claro parecido com o da saia eu fazia outras coisas como, por exemplo: quando era adolescente eu tinha alguns amigos e a gente costumava pedalar com frequência e, por causa do calor, todo mundo acabava tirando a camiseta e, uns amarravam no guidão, outros no banco e eu colocava na testa, foi ali a primeira vez que senti a sensação de ter cabelo comprido e foi... incrível.


Quando terminei o ensino médio mudei de cidade (e de estado!) e lá tive uma forte crise depressiva que se estendeu por quase um ano onde eu mal comia, porém eu tinha uma coisa que sempre quis: o cabelo comprido. Talvez ali eu já tivesse um pequeno vislumbre do que poderia... ser. Quando estávamos pra mudar de cidade (e de estado, de novo!) fui convencido a cortar o cabelo, foram dias até conseguir me olhar no espelho de novo.


Mas, cidade nova e resolvi deixar crescer de novo. Passados mais algum tempo acabei cortando em parte por pressões domésticas e parte porque estava em um grande sei lá. Pois bem, fiz faculdade e acabei conhecendo muita gente legal e tals mas ninguém que me interessasse nem romântica nem sexualmente, vida que segue. No entanto, antes de eu me formar teve o ano de 2018, o ano zero, o ano que comprei a saia. Ali, com aqueles auspícios, eu resolvi não me tolher mais e seguir a minha verdade, ser fiel a mim mesmo, por isso deixei o cabelo crescer (pela terceira vez!) e até na formatura (2019) eu fui de cabelo já bem comprido... meu cabelo cresce mó rápido haha


Escrevi pra caralho, estou aqui sendo guiado por meus dedos e pensando se devo publicar esse texto... são 2:13 da manhã e eu estou, novamente, pensativo se posso (ou não) ser uma pessoa trans ou acabei me deixando influenciar pelo episódio. Queria ter condições de bancar uma terapia pra poder falar tudo isso, mas, por sorte, tenho esse blog que, organicamente, ninguém vai ler, só quem eu enviar o link.


Enfim, durante a escrita eu pausei várias vezes e acabei achando umas histórias interessantes (sobre Chevalier d'Eon) que, quem sabe, em algum momento traga aqui... é isso. Faz uma semana que estou em crise de despersonalização e, talvez, a "culpa" seja por eu não ter certeza sobre qual gênero eu sou. Sigo escrevendo "ele/dele" porém, não sem antes, dar uma pequena pausa antes e isso... me incomoda um pouco. Não sei dizer ao certo o que estou sentindo, por isso a ideia de estar frequentando uma terapia talvez fosse boa nesse momento... mas, o blog é o que tem pra hoje.


Merda. Achei que ia aliviar escrevendo tudo isso e, relendo uns pedaços, estou pensando seriamente em jogar esse escrito numa gaveta escura (não vou fazer) e esquecer dele por estar muito confuso e... ah, que se foda. Vou abrir o blogger e... hey, você está dentro da minha cabeça. Como diz uma música do Black Alien "cuidado pra não tropeçar, a mesa ainda ta aqui, porém mudei certezas de lugar"


Não revisei e nem vou, porque se começar a reler vou deletar partes inteiras então, desde já desculpa o textão e os eventuais erros de palavras escritas. De qualquer forma, obrigade quem leu e, se quiser deixar um comentário, fica a vontade.


Até breve o/


~ Lu

sábado, 5 de fevereiro de 2022

CdF - Outras histórias: Hello World

Dois anos haviam se passado desde aquele período onde Rafaela foi afastada do conselho da Lótus. No regresso dela a empresa sofreu financeiramente com alguns acionistas debandando, porém no começo do segundo ano um dos maiores grupos educacionais do mundo viu potencial e investiu pesado, o que permitiu um crescimento ainda maior com todos os benefícios aos funcionários que a mandatária gostava de manter.


Outra tarde de sexta começava e, no setor de comunicação a baixa demanda daquele dia permitia inúmeras conversas paralelas e revisão de conteúdos já aprovados, variações de peças já usadas em outros anos para servirem de gaveta ou um mero referencial. Desde a saída de Borges, Bethina assumiu a chefia do setor e, na estante ao fundo da sala podiam se ver alguns troféus em premiações de comunicação, ainda faltava o peixe grande que viria da Riviera Francesa, porém todos ali sabiam que ele viria, mais cedo ou mais tarde.


Dois andares acima Pablo, um dos responsáveis por manter o site da Lótus funcionando bebericava uma caneca de café pensativo. Haviam dias que ponderava se deveria dar esse passo, esse salto no escuro. Lembrou-se de um dos seus personagens de jogos preferido, onde ele subia as torres mais altas e pulava em uma carroça com feno, esse era o salto de fé. Ajustando os óculos que insistiam em correr pelo nariz o jovem de cabelos escuros, pele branca, corpo com IMC dentro do que se tem por normalidade e vinte e três anos de idade abriu uma tela extra além do compilador java que denunciava dezenas de erros no código, menos mal, antes eram centenas.


Com dois cliques em um ícone logo abaixo da lixeira ele abriu o software de envio de mensagens para qualquer pessoa na empresa, tudo de forma criptografada e usando os próprios servidores da Lótus como motor, nada estava na internet dentro desse programa. Correu a lista de possíveis nomes. Ana, Beatriz, Bethina, Carlos, Eduardo, Fernanda, Freya. Parou. Um clique decidido em cima do nome da redatora senior do setor de comunicação. Digitou uma frase e ponderou se devia enviar. Um alt+tab e a compilação ainda estava em curso tinha mais alguns minutos de espera que poderiam ser buscando mais café ou dando o salto de fé.


- Dona Fernanda - Optou pelo salto - Posso falar com a senhora?


O silêncio o sufocou mais que o dia em que, por uma miserável ponto-e-vírgula toda a parte responsiva do site parou de funcionar. Foram os dezesseis minutos mais tensos de sua vida até agora. Online. Digitando.


- Claro - Do outro lado da tela Fernanda tentava entender o que alguém do T.I. queria com ela, será que tinha clicado em algo que não devia? - Pois não? - Um instante se passou, Pablo, agora com a respiração mais cadenciada pousou as mãos sobre o teclado, seu ímpeto foi congelado - Mas antes - Parada cardíaca do jovem - Sem essa de senhora, não sou tão velha assim haha.


O suor frio correu a espinha por todas as suas vertebras mesmo com o ar condicionado ligado. "Respira fundo, vai, agora você consegue." pensava enquanto as mãos voltavam para o teclado.


- Gostaria de conversar com você, se possível pessoalmente... tem como?


- Tem sim - Fernanda franziu o cenho pensando na frase de Bethina que um dia a curiosidade a levaria à ruína, claro que ela dizia isso em um contexto do eterno jogo de RPG que nunca terminavam - Onde?


- Aqui na T.I. tem muita gente.


- Aqui na comunicação só tem gente haha - A redatora ajustou uma mecha de cabelo atrás da orelha percebendo que poderia ser algo grave - Eu conheço um lugar... você tem como sair agora?


- Tenho, me dê cinco minutos.


- Perfeito, te encontro na porta do seu setor.


- Beleza.


Pela cabeça de Fernanda passou um milhão de coisas, desde um admirador secreto até alguém que descobriu o segredo da Rafaela e queria saber o que fazer com a informação, enquanto subia os dois andares pelo elevador pensava porque ela, em meio a dezenas de funcionários, tinha sido a escolhida. Talvez porque fosse uma das funcionárias mais velhas da empresa, quase... seis anos. Bastante tempo. Quando parou na porta do T.I. podia sentir o ar gelado vazando por baixo da porta e pensou que ali deveria estar metade de conta de luz do prédio inteiro. A porta se abriu e o polo norte vazou um instante.


- O-obrigado por vir - Pablo tinha o olhar caído - Dona Fernanda.


- Esquece essa coisa de dona - Ela tocou sutilmente o ombro do rapaz - Me chama só de Fernanda.


- Ta bem... Don.. Fernanda.


- Melhor assim - A redatora sorriu - Vem, conheço um lugar ótimo para conversar, sem distrações.


- Onde?


- Lá em cima.


- Em uma das salas de reunião da presidência? - O jovem acompanhava Fernanda que trajava uma saia longa que lhe deixava apenas os pés fora do tecido e, na parte de cima uma blusa com estampa desbotada. - Mas... lá não é... só da presidência?


- Não, é mais pra cima - Do bolso da saia Fernanda tirou a chave que tinha cópia faziam seis longos anos - É no terraço.


- No terraço? - Pablo estranhou que Fernanda tivesse a chave, porém tinha ouvido falar da horta que havia ali. 


Tão logo a porta foi aberta a brisa jogou os cabelos de Fernanda para trás como uma onda. Já pablo, com camisa social, calça jeans e cabelo cheio de gel pouco foi afetado pelo vento. Um pequeno corredor entre painéis solares e uma horta com alface, couve, morangos além de temperos diversos culminava em um par de bancos com vista para a área não tão povoada da Metrópole. Sentaram-se.


- Então, o que queria conversar?


- Eu... - Pablo não sabia por onde começar, tinha ensaiado essa conversa tantas vezes na sua mente que agora estava procurando a palavra, era como se o seu código-fonte tivesse um erro crasso e não mostrasse nem mesmo um hello world. Respirou fundo uma, duas, na terceira a compilação da sua linguagem funcionou - Desculpa falar assim... Mas, desde que descobri que a senhora... digo, você é uma mulher trans eu...


- Tem curiosidade em saber como é? - Fernanda sentiu um pouco de raiva do rapaz na sua frente, era mais um nerd curioso querendo saber se ela tinha cortado o pau fora, se sentia prazer, se toparia alguma coisa a mais, ela ponderou sair e cantar a pedra à Freya que tomaria a decisão em demitir ou não - É sério, me fez sair do meu posto por uma curiosidade adolescente?


- Não não, calma. - Pablo tentava compilar o código da fala o mais rápido que conseguia - Aqui - Ele pegou o celular, desbloqueou e abri as fotos - Eu às vezes gosto de me montar como menina e...


- ... E você acha que pode ser trans? - Fernanda respirou profundamente mal olhando a tela do pequeno aparelho, não era a primeira vez que via algo assim - Sugiro você procurar uma psicóloga, o plano de saúde da firma tem umas ótimas.


- Não, não é nada disso - O rapaz tentava controlar sua oxigenação para que pudesse ter clareza no pensamento - Eu gosto de ser homem, eu só queria... sei lá, uma amiga.


- Estou ouvindo - Fernanda baixou a guarda, ele parecia com ela, anos atrás - O que exatamente espera?


- Eu moro em uma quitinete a meia cidade daqui, vim do interior do estado trabalhar na Lótus, mesmo morando aqui faz alguns anos eu não tenho amigos... - O olhar de Pablo se iluminou - Porém quando eu soube da sua história, da sua jornada eu fiquei... impactado.


- Impactado como?


- Bem... - Um sorriso se desenhou no canto dos lábios dele - ... Eu li o seu livro e gosto da ideia ser crossdresser, porém sozinho não tem graça... 


- Bom, você tem a internet inteira né?


- A internet é legal, mas falta... humanidade.


- Saquei. - Fernanda ainda tentava pensar o que faria por ele. - Mas assim... beleza, a gente é amigo e aí? Você vai querer que eu vá na sua casa e fique te vendo se montar?


- B-bem - A ideia de Pablo em linhas gerais era essa, no entanto lembrou do Altaïr e resolveu dar seu segundo salto de fé do dia - Eu acabei vendo nas suas redes que você e a dona Bethina vão em eventos de anime... cosplay e essas coisas...


- E você quer uma carona?


- É... sei lá, algo assim...


- Alguém junto para te dar coragem de sair do armário.


- Tipo isso, mas sem a parte do armário, eu estou de boa com minha sexualidade...


- Então o problema são só as roupas?


- São, como vim de uma cidade muito pequena eu fico encucado com isso, fico achando que é errado e...


- Tudo bem - Fernanda entendeu o ponto dele, se tivesse tido esse apoio desde o começo talvez as coisas tivessem sido menos traumáticas e demoradas - Só que eu vou precisar falar com a Bê primeiro... mas ela é... de boa... que dia é hoje...


- Seis...?


- Ah, perfeito, a TPM dela já foi, fica mais fácil de domar a fera.


- Então...?


- Eu vou te ajudar, vou testar meus dotes de maquiadora - Fernanda, enfim, olhou as fotos com mais esmero - E vou te passar o contato de uma mina que faz roupas sob medida, mas relaxa, ela é bem discreta e não é careira... foi ela que fez meu vestido de noiva inclusive.


- Sério? - Pablo tinha os olhos marejados por trás dos óculos - Só...


- Eu sei, não vou falar com ninguém, só com a Bê... me adiciona aí na sua agenda que, durante o final de semana, quem sabe, marcamos algo.


Se abraçaram enquanto Pablo voltava a agradecer Fernanda. Caminharam sendo brindados pela brisa Leste-Oeste que, ela jurava, sentir o cheiro do mar vindo junto do vento. Antes de passar pela porta ela pegou um galho de manjericão, molho de tomate ficava infinitamente mais saboroso com ele.


Ao fim da pequena escada que levava do andar da sala da presidência ao terraço se despediram. O jovem entrou no elevador enquanto Freya, no fundo do corredor olhava fixamente para Fernanda que a cumprimentou com um aceno de cabeça. A secretária leal de Rafaela fez um gesto como quem diz que está de olho. A redatora fez uma careta e mostrou a língua relembrando o que já tinham vivido juntas. Quer dizer, Fernando viveu, Fernanda meio que só assistiu. Por oito andares ela pensou em fazer uma sessão com Rafaela, Freya, Vali e aquele outro rapaz que aparecia esporadicamente na cobertura. Será que Bethina toparia? Soltou o ar pesadamente voltando ao setor de comunicação que estava idêntico a pouco menos de uma hora atrás. Menos mal.

domingo, 10 de maio de 2020

CdF s2 e13 - Relicário

Fernanda se calou tentando captar cada mínimo sinal do que estava ao seu redor. Apesar do álcool em seu sangue tentava lembrar qual tinha sido o caminho e, baseado nisso, poderia pensar o que havia no lado da cidade que estivesse. Da boate para a esquerda, reto alguns quarteirões e a venda. Depois disso uma para a direita e incontáveis quilômetros para frente com curvas esporádicas. Se o GPS interno dela estivesse funcionando bem estariam em um lado mais antigo da cidade.

Depois do quebra-molas e da conversa rápida da motorista com alguém externo o carro rodou não mais que um minuto. Tão logo o veículo parou Bethina foi logo abrindo a porta, o que trouxe uma lufada de ar gelado do lado exterior. Com as orelhas em pé tal qual uma criatura felina que ouve um ruído e busca mais sobre, Fernanda tentava ouvir alguma coisa. Só murmúrios, foi quando o outro lado do carro foi aberto e a aspirante à sequestradora tocou sutilmente o ombro da sequestranda.

- Vem cá, deixa eu tirar isso aqui... não sei porque a Bê quis por isso - Tão logo o pulso ficou livre Fernanda desceu ficando em pé - Segura em mim, espero que goste do que ela planejou.

- Ela planejou?

- Sim, ela não entrou em detalhes, mas disse que viu alguma coisa e resolveu te dar esse presente... como minha agenda tava vazia esse final de semana, topei na hora, tudo pra ver minha prima feliz.

- Prima?

- Ops - As duas caminhavam lentamente para dentro de uma estrutura - Eu não falei nada.

- O que as duas estão conversando hem? - Bethina tinha um tom duro, mas ao mesmo tempo doce. - Aposto que a linguaruda aí abriu o bico né.

- Eu não... sei que sua mão é pesada - As duas riram enquanto Fernanda tentava entender onde estava, o chão era duro e os sons da cidade eram mais baixos - leva ela? Vou pegar o equipamento.

- Claro! Já vou ligando as luzes também... - E assim Bethina segurou o braço da namorada e entraram na estrutura - O que está achando da noite, amor?

- Estou adorando esse mistério - Ela franziu o cenho - Quando chegarmos em casa vou gastar tudo que aprendi com minhas antigas Dommes.

- Vai nada, você é doce demais pra isso - O ambiente parecia vazio pelo eco das vozes - Sabe, amor... esses dias estava trabalhando e achei um meio que diário seu, curiosa que sou acabei lendo.

- É? - Fernanda tentava se lembrar do que tinha escrito, a verdade é que, quando foi parar a terapia anos atrás por falta de dinheiro, foi recomendado fazer um diário, nem que fosse uma vez por semana, pro caso de conseguir voltar às sessões poder falar tudo que aconteceu - E o que achou lá?

- Um dos seus desejos mais lindos... eu até imprimi - Da bolsa Bethina tirou uma folha de papel dobrado - "Semana dezenove: hoje depois de entregar alguns freelas que mal vão cobrir as contas do mês me peguei pensativo, onde eu quero chegar com tudo isso? Vesti a saia pra pensar melhor, talvez essa maluquice do BDSM seja só uma fuga pra algo maior, em uma situação onde sou obrigado a estar em uma posição que é a que eu quero estar na vida, não só durante uma sessão. Posso estar me precipitando, mas se hoje fosse a data final pra escolha eu escolheria ser menina, nem que fosse só pra modelar, me sinto melhor assim."

Foi impossível para Fernanda não lacrimejar debaixo da venda. Passou todo um filme na sua cabeça de tudo que passou até chegar aqui. Toda a curiosidade adolescente até descobrir um termo que lhe fez encontrar seu caminho depois de inúmeros desvios. Com ou sem permissão tirou a venda. "Foda-se a surpresa". As lágrimas a impediam de ver onde estava. Sem aviso abraçou Bethina.

- Se você não existisse eu tinha que te inventar, garota - Era nítida a emoção das duas naquele instante - Eu te amo, amo, amo e amo muito!

- E eu nem li a segunda parte - Bethina ainda tinha o papel à mão, levou alguns segundos para se recompor - "Semana vinte e um: Passei um dia inteiro de saia, cada vez que passava em frente do espelho ele me sorria, as fotos também... acho que nunca tirei tanta selfie linda. O foda é que eu não me sinto atraído por outros homens, mas que mulher vai querer uma criatura como eu? Tudo isso me deixa confuso. Cogitei comentar isso com minha antiga terapeuta, mas deixa pra quando voltar à normalidade das sessões..."

- E olha só - Fernanda limpava o rosto tentando não estragar a maquiagem - Encontrei uma mulher que quis a criatura que eu sou.

- Uma criatura linda! - Beijaram-se - Uma criatura maravilhosa que eu amo!

- Que coisa mais linda - A voz vinha da motorista carregando equipamento de fotografia e com a câmera na mão - Vocês são um casal lindo.

- Então, amor - Bethina se recompôs e saiu do abraço - Essa é minha prima, Bruna, ela é fotógrafa, adora fazer ensaios de minorias mas faz casamentos e velórios pra pagar as contas.

- Prazer - Fernanda ameaçou esticar a mão, mas Bruna já foi logo dando dois beijos, um em cada face do rosto - Eu já ouvi sua voz em algum lugar...

- Provavelmente, eu volte e meia estava na Lótus tirando umas fotos.

- Olha só! Sabia! Suas fotos são ótimas!

- Obrigada! Agora vamos posar, meninas?

E assim, uma noite que começou com inúmeras dúvidas e um glaciar completo na barriga de Fernanda, ganhava cores e calores de luzes profissionais instaladas no antigo prédio que era, também, o estúdio de Bruna. Ali achou todas as roupas que tinham sumido de seu guarda-roupas e muito mais. Seu coração quase saiu pela boca quando viu um vestido de noiva como sempre imaginou, inteiro feito de renda e com saia de tule por baixo... infelizmente ela era muito grande para a peça, porém Bethina foi para dentro da indumentária nupcial. Nesse meio tempo Fernanda estava dentro de um vestido preto com bolinhas pretas, saia de tule preto por baixo, uma perfeita pinup dos anos cinquenta, foi quando teve um estalo.

- Bê - Fernanda tomou a mão de Bethina na sua, apoiou o joelho direito no chão - Quer se casar comigo?

- Caralho - O coração de Bethina bateu uma vez em falso, quase sentiu o corpo desfalecer, o choro veio acompanhado do sorriso bobo de quem sempre sonhou com essa cena, talvez não dela dentro dum vestido de noiva e a namorada de pinup, mas, ainda assim era melhor do que ela jamais sonhou - Claro que eu aceito!

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

CdF: s2e7: Vinho

Hoje olhando Bethina cozinhar enquanto eu ficava no computador tentando escrever algo notei o quão idiota eu tinha sido até o momento. Tantos momentos que quase fui flagrada, tantas vezes que quis desistir de tudo apenas por achar que já tinha vivido aquela experiência juvenil. Agora eu estava em um dilema imenso: seguir pelo caminho da operação e virar uma mulher completa ou me manter essa criatura híbrida.
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Já diria o poeta que cada escolha é uma renúncia. Confesso que a ideia de apenas tomar os hormônios me atraía mais do que operar, teria peito, talvez tivesse uma ereção vez ou outra... seria a mulher que sempre quis sem deixar de ser o homem que nasci. "Homem". Pensar nesse termo me deu um peso absurdo. Até mesmo "mulher" me era estranho. Gostava de usar "menino" e "menina", talvez pela inocência das palavras. Enquanto olhava o cursor na tela em branco deixei a vista desfocar algumas vezes, hoje estava com uma bermuda mais larga, camiseta, cabelo preso por uma piranha... Bethina ao contrário estava com um belo vestido, o que contrastava com o fato dela estar limpando a cozinha.
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Desde aquela noite que tomei a decisão morávamos juntos. Ela devolveu o apartamento, trouxe suas coisas pra cá e tentávamos seguir dali. Por sorte eu tinha conseguido um bom espaço e tanto o quarto quanto a sala eram áreas grandes que cabia a pequena coleção de bonecas negras dela. Eram bonitas, alguns dos vestidos, inclusive, entraram na minha lista dos sonhos.
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Aquele cursor piscando me sufocava. Fechei o bloco de notas. Apelei pra uma banda que sempre me apoiou e foi dali que segui, de olhos completamente fechados, escrevendo as próximas linhas, sem pensar muito na ortografia, nas regras linguísticas e, sobretudo, esquecendo aquela maldita regra da redação publicitária de que menos é mais.
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A terapia me ajudou nos últimos tempos a ter uma confiança maior no que eu sou e onde eu quero chegar - ainda que com dúvidas - e, independente das opiniões alheias, eu estou firme nessa escolha. Claro que eu não vou estar firme como uma rocha e sim como um palanque de cerca no banhado, não caio para lado nenhum, porém não estou firme. Pensar isso me trouxe uma certa dor no, um certo desconforto, a vontade de pegar o telefone e ligar para ela agora e dizer tudo que estava entalado em minha garganta era tanta que eu não conseguia conter meus dedos digitando cada vez mais rápido, cada vez mais intensos, cada vez mais visceral. Eu sentia como se as palavras me dominassem e eu estivesse, enfim, pronta para dizer ao mundo inteiro "hey mundo, essa sou eu" e aceitar as consequências.
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Claro que essa síncope não durava muito e logo a racionalidade me dizia para repensar, que tudo não era tão simples como eu gostaria que fosse. Tomar no cu. Qual o problema com você, sociedade? Eu me sinto bem assim, eu gosto disso, eu estou disposta à críticas como "essa saia não combina com essa blusa" ou ainda "você veio de vestido longo? Nossa, ta muito calor pra isso", agora críticas ao fato de, biologicamente, eu ainda ser homem e estar de vestido? Qual o problema? São só pedaços de pano costurados de forma diferente. Merda. Pensar nisso tudo me cansava, me deprimia... mas era preciso.
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Que Bethina - agora no banheiro tomando um demorado banho de sábado - não me visse com a garrafa inteira de vinho diante do monitor. Eu precisava desse momento. Eu precisava dessa liberdade. Dessa fluidez de letras saindo de meu cérebro e indo por minhas terminações nervosas socando o teclado com velocidade e violência e se desenhando letras no monitor. O cursor solitário agora ganhava a companhia de cem, duzentas, trezentas, mil palavras. Estava tão rápido que fiquei com medo de não conseguir parar. Reabri os olhos passando a vista pelo que já fora escrito, nenhum erro. Apenas o nome de Bethina, que, para o corretor, tinha que ser sem o H que lhe dava charme e o transformava em algo único. Botão direito, adicionar palavra ao dicionário. Pronto. Toma essa, Word.
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Ela cantarola uma música. Give me a reason to be... a woman, I just wanna be a woman. Conhecia essa letra. Glory Box do Portishead era uma das música que me fazia soltar pequenos suspiros no começo da vida "adulta". Gostava da ideia de "be a woman", hoje tanto faz. Estaria mentindo se falasse que não gosto da ideia de me transformar em uma mulher completa. Ter, além dos peitos, uma bela vagina penetrável. O foda que isso, agora, se tornava algo tão secundário que já pensava na ideia de tomar os hormônios mas não ir pra mesa de cirurgia. Teria o peito, o rosto ficaria mais feminino, os incômodos pelos do corpo ou cairiam ou ficariam finos o suficiente para que a depilação fosse menos agressiva. E ainda manteria o pinto. Pinto. Que termo bosta.
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De repente bateu uma saudade da cobertura. Uma rápida olhada no relógio. Vinte horas e dois minutos. Certamente Vali estava preparando o jantar enquanto Rafaela e Freya ainda discutiam coisas da empresa. Confesso que a saudade se dissipou ao pensar que a vida ficaria limitada à uma só: o que Rafaela decidir seria a lei. Gostava do conceito. Gostava das práticas. Mas viver aquilo na totalidade? Sem chance. Soube de um dos amigos da minha ex-senhora que teria uma puta festa de carnaval, fechando um clube por três dias. Não lembro o nome da Domme que mandou o convite, mas devia ser algum daqueles nomes toscos baseados em algo dark ou gótico. Tinha horas que eu queria baixar meu lado publicitária naquela galera e dizer que uma Domme pode usar branco e se chamar Silvia. Rafaela, inclusive, era o melhor exemplo disso. Claro que o preto era a cor preferida da galera, mas o bordô, o roxo e até o tons escuros de azul e verde super combinavam com as práticas. Rebranding. Qualquer hora escrevia algo assim e mandava para Rafaela. Na pior das hipóteses ela ia rir.
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O chuveiro parou. Bethina levaria alguns minutos até secar o cabelo, passar todos os cremes, colocar alguma roupa extremamente confortável e reclamar que eu estava indo tomar banho muito tarde. Virei a última dose de vinho da garrafa em um gole longo. Não queimou nem nada. O efeito viria daqui meia hora ou menos, tontura, sentidos largos, sono... acho que o banho vai ficar para amanhã.
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Os olhos seguiam fechados como se eu pudesse sentir cada palavra que escrevia, mas, na verdade, eu pensava em tantas outras coisas enquanto escrevo, que nem sei dizer ao certo mais no que eu penso. A imensa verdade é que, assim, eu escrevo algo mais mental e menos visual, me preocupo menos se eu repeti tal palavra no decorrer desse parágrafo ou tenho que usar um sinônimo. A porta do banheiro abriu. Segui de olhos fechados digitando, estava tentando não pensar na conversa que teria com minha progenitora dali alguns dias sobre absolutamente tudo isso aqui. Pensar nisso, admito, me fez querer outra garrafa de vinho. Não tinha. Será que o mercado ainda estava aberto? "Não fode", foi a voz da minha consciência. Tinha tantas palavras passando ao mesmo tempo por minha cabeça que perdi totalmente a noção de tempo e espaço, eu estava flutuando, minha única certeza de ainda estar no mesmo lugar era o fato da gravidade ainda ser a mesma.
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_ Admiro pra caralho essa sua habilidade - A voz vinha de Bethina, meio metro atrás da minha orelha esquerda - Digitar sem olhar pro teclado ou mesmo pro monitor? Namoral amor, cê é foda.
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_ É prática - Respondi à ela enquanto escrevia exatamente a cena que acontecia - Com o tempo você não pensa mais na sequência do teclado e sim no que você quer dizer, seu cérebro entra em um moto tão automático que você não precisa pensar na ordem das letras e sim na ordem do que quer escrever...
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_ Tipo pedalar? Você diz que pedala no automático - Ela parou um instante - Você está transcrevendo o que estou dizendo? Puta merda, Fê...
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_ Não gosta? - Arqueei a sobrancelha ainda sem abrir os olhos - Quiser eu apago...
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_ Não, deixa... só é meio estranho você de olhos fechados digitando nessa velocidade e sem errar... puta que pariu, até meus palavrões você digita, pára com isso Fê, anda logo, parou.. vai tomar banho enquanto eu leio o que você escreveu.
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_ Não vou tomar banho hoje - Fiz caretinha - Tô com preguiça... mais a mais mal saí de casa.
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_ Namorada porquinha essa minha e... - ela parou completamente, abri os olhos - A senhorita andou bebendo, dona Fernanda? 
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_ Só um pouquin...
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_ Um pouquinho é o caralho, cê bebeu a garrafa toda garota.
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O flagrante é, sem sombra de dúvidas, uma das piores coisas para o mentiroso. Aquela vez da camisola até deu certo, mas a do guarda-roupas... não deu tempo de pensar em uma saída. Enquanto eu digitava Bethina falava algo sobre eu não poder beber tanto porque isso estimulava as inquietas sombras e muitos outros blá-blá-blá que ela falava e eu entrei em um modo onde não mais a ouvia. Podia continuar escrevendo sem me preocupar com o ruído ao meu redor. Quando ela começou a puxar a cadeira me lembrei de minha mãe quando vinha duas e tanto da manhã reclamar que eu ainda estava no computador. Bethina pausou suas palavras e ficou apenas lendo o que eu escrevia, a verdade é que eu adorava a voz dela e, mesmo tomando um bronca por quebrar um dos nossos acordos sobre bebida, eu ainda estava amando ouvir a voz dela. Eu era uma boba apaixonada? Com certeza. Curiosidade do momento: ela estava completamente dividida entre me tirar da frente do computador e me colocar, de roupa e tudo, debaixo do chuveiro e simplesmente seguir olhando o que eu escrevia. Sorri de canto.
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_ Desistiu?
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_ Não... estou te esperando terminar... - o tom de voz dela era amistoso, conciliador eu diria - Que pausa foi essa? Terminou?
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_ Não... se deixar eu fico escrevendo aqui indefinidamente...
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_ E sobre o quê escrevia quando saí do banho?
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_ Sobre... estar flutuando, sobre as possibilidades do meio do ano e todas as nuances que poderia significar aquela revelação...
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_ Poderia??? - O tom de voz dela agora mudou - Você me prometeu que ia falar tudo, garota.
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_ Escolha errada de palavras... poderá!
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_ Acho bom, agora dá um salvar aí que vou te dar banho e cama... chega pra mocinha hoje.
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A verdade é que, a presença do vinho só me fez ter mais inspiração pra escrever e, certamente, embalaria meu sono daqui alguns minutos. Não que precisasse, caminhar com Bethina pelos brechós das redondezas procurando peças tanto para ela quanto para mim era algo que eu nunca imaginei que fosse ter. E, mesmo caminhando horas, não encontramos nada que valesse nosso rico dinheirinho. Mas serviu para que eu tivesse ainda mais certeza que viver como menina a maior parte do tempo era o que eu queria e quero. Com a ameaça de puxar o computador da tomada termino esse longo texto escrito de olhos fechados e com um beliscão que me obriga a dizer algo que eu digo à ela o tempo todo: eu te amo, Bê.CdF

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

CdF s2e4 - Trovão

- Então foi isso, doutora - Tinha contado tudo que tinha acontecido nos últimos dias, minha conversa com Bethina no terraço, o vácuo dela, as respostas simples - E eu não sei o que fazer.

- Bom - Ela terminou de anotar algo - Se me permite a intimidade... cara, você foi meio cuzão com ela né? Aliás, você quer mesmo transicionar?

- Quero.

- Então, é pode pá ou nem rola - Adorava quando ela soltava uma gíria dessas, me lembrava alguns colegas da empresa - Se você ta com certeza do que vai fazer, o mundo inteiro vai ter que saber, inclusive seus pais.

Aquelas palavras eram como um tapa na cara. Mas era isso, eu precisava acordar, a decisão estava tomada, a junta de psicólogos estava marcada para começar logo depois da páscoa e eu sentia que essa era a resposta que eu tanto buscava, o que me impedia de passar mais de dois minutos na frente do espelho.

Uma garoa fina molhava a rua no caminho de volta para casa naquela sexta-feira. É como dizem em Portugal: chuva molha-tolos. Aparentemente eu não devia me molhar mas cheguei em casa ensopado, como precisava pensar fui direto para o banho. Teríamos alguns dias de folga no meio do ano por algo como alguma reforma pequena, troca dos servidores ou algo assim, eu realmente não ligava, mas seria uma semana inteira de folga. Talvez fosse essa a data que eu precisava.

Escancarei a janela do quarto pro ar de chuva entrar, no entanto ao longe já via algumas estrelas que venciam a poluição visual da Metrópole, por algum motivo resolvi colocar um vestido vermelho com cintura definida por um cinto preto, por baixo uma saia de tule ajudava a dar um volume maior pra bunda. Parei diante do espelho. Eu estava linda. Tsc. Ela tem razão. Hora de dar um salto de fé. Com a mão ainda tremendo suavemente digitei olhando o sorriso de Bethina na foto de avatar.

"No meio do ano."
"Quer ir comigo? Preciso do seu apoio."

O visor do pequeno aparelho mostrava vinte e duas horas e oito minutos. Ela ficou online e saiu. Merda. Eu sabia que ela não estava disposta a ir tão longe assim. Bem feito pra mim, fui confiar na pessoa errada e... calaboca, Fê. Ela te ama. Você ama ela. Talvez ela nem tenha visto ainda, do jeito que ela ralou com os novatos essa semana devia estar morta de cansada. Não surta ainda, espera pelo menos o dia raiar. Odiava minha consciência.

Fiquei trocando de canal na televisão até achar algo simples o suficiente para que não precisasse pensar, só ocupar o espaço entre meu inconsciente e meu consciente. Com cuidado me sentei no sofá tentando evitar ao máximo amarrotar esse vestido. Só agora notei que tinha colocado as luvas brancas, só faltava uma maquiagem digna pra completar. Certamente Freya faria algo maravilhoso em minutos.

Não conseguia prestar atenção na imagem de uma raposa tentando pegar um coelho na neve. A cada seis segundos tinha de verificar se Bethina me respondia. E a merda é que a bateria do celular estava próxima do zero. Droga. Caminhei até a cozinha, coloquei o aparelho para carregar. A tela acendeu "vinte e duas e cinquenta e quatro minutos". Melhor ir dormir. A campainha tocou. Merda. Merda. Merda.

Como que o irresponsável da portaria não avisa que tem alguém subindo? Eu levaria essa reclamação pro síndico na próxima reunião, francamente... com todo o cuidado do mundo caminhei até a porta, o olho mágico não mostrava absolutamente nada. Trote de crianças? Sério? Com receio abri um pouco a porta e a lufada de ar quente do corredor trouxe a figura de Bethina empurrando a porta.

- Olha só ela - O tom era amistoso ao mesmo tempo que era ácido - Então temos um martelo batido mesmo?

- S-sim! - Respirei fundo - Meio do ano!

- Certeza certeza? - Ela entrou fechando a porta e já me envolvendo em um abraço - Tu não me enrola, garota.

Era a primeira vez que ela me chamava de garota, pelo menos em todas as falas. Por algum motivo que desconhecia isso me deu mais energia, mais certeza de que aquele caminho, aquela decisão, era a ideal. Respondi concordando com a cabeça.

- É sim meu amor - Roubei um selinho rápido - Você vai comigo né?

- Se a chefia liberar eu vou sim.

- Vai liberar, falo com a Rafaela e tudo bem.

- Rafaela... - O olhar dela ficou perdido alguns instantes - É, vamos ver.

- E o que trouxe na sacola?

- Ahhhhh... a mocinha já está curiosa?

- Estou sim.

- Pois bem - Ela tirou a fita do cabelo já colocando em meus olhos - Vai ser uma surpresa - Pude sentir a respiração quente dela ao pé do meu ouvido - Você confia em mim?

- Cegamente - Com a venda eu mal conseguia ver sombras do que acontecia, foi nesse instante que a mão dela tomou a minha - Pra onde vamos?

- Calada - Ao menos estávamos caminhando pra dentro do apartamento até que Bethina parou de súbito - Aqui... ajoelha e fica caladinha enquanto eu me preparo.

- Vai brincar de Domme... - falei com um sorriso fino já mordiscando o lábio inferior - Gostei.

- Eu não te mandei calar a boca?

- Desculpa... - resolvi entrar na brincadeira, vamos ver até onde ela iria - ... senhora.

Ela não respondeu, na real eu não ouvia ela em lugar nenhum. Será que aquela maluquinha tá achando que vai me deixar de joelhos no meio da sala? Ah, foda-se, vou erguer a venda e ver o que tá rolando, ela não é a Rafaela.

- Tira esse dedo daí - A voz dela foi se aproximando - Abre bem a boca.

Confesso que tinha uma vaga ideia do que viria ali, provavelmente ela ainda estava decidindo o que fazer. Ah essas Dommes de primeira viagem. Fiquei quase um minuto de boca aberta esperando algo acontecer, fechei a boca respirando fundo.

- Quer ajuda?

- Eu já não te mandei calar essa boca, Fernanda? Será que vou ter que te amordaçar?

- Olha ela... até parece uma Domme.

- Pareço é? - Ela puxou meu cabelo fazendo minha cabeça ir rá trás - Vou te mostrar o que aprendi... ou melhor, a surpresa que te comprei.

- S-surpresa?

- Ah, agora a menina quer saber o que planejei pra esse momento... na-na-ni-na-não. - O tom de voz dela era intenso, decidido, lembrava quando ela saiu do hospital ou ainda quando discutimos no terraço da empresa - Levanta e fica paradinha - Atendi prontamente - Adorei o vestido... até com a saia de tule por baixo, é uma mocinha linda essa minha namorada, dá vontade de morder... - Alguns segundos de silêncio e a voz dela veio ao pé do meu ouvido, sussurrando - ... ou comer ela, que tal?

Confesso que não era uma das coisas mais inesperadas vindas de Bethina, mas ao mesmo tempo não encaixava direito a voz com o que era dito, essas frases caberiam facilmente na Flávia, Rafaela ou até mesmo na Freya, agora nela? O foda é que eu estava ficando excitado com a possibilidade do que estava por vir. O silêncio imperou quando a ouvi ir até a televisão e ligar alguma coisa, reconhecia o estilo, as batidas de LoFi HipHop eram hipnóticas e, certamente, mexiam com as ondas alfas do cérebro. Feito isso ela voltou a pegar minha mão.

- Pra onde agora, senhora?

- Mas que menina falante essa que eu arrumei... - Ela me guiava enquanto eu tentava lembrar a planta do apartamento, parecia ser a cozinha, mas o vento fresco denunciou o quarto - Deita aqui, de barriga pra cima... - Ao que deitei a mão gelada dela subiu por minhas coxas - Sem calcinha? Olha que menina safada essa... e essa coisinha durinha aqui? - Senti um peteleco na cabeça do meu pau que latejava frente a toda aquela cena que, por mais que a visão estivesse bloqueada, outros sentidos se intensificavam e me faziam vê-la em uma sinestesia quase perfeita do meu corpo - Hoje não vamos usar ela, agora afasta as pernas pra cima... - Não ousei desobedecer, queria ver até onde iria essa toca de coelho - isso, boa menina, se continuar assim vai ganhar um doce... aliás - Senti o corpo quente dela sobre o meu - Vamos tirar isso daqui e começar a brincadeira, não quero que perca nenhum detalhe.

Dito isso a venda saiu e meus olhos levaram alguns instantes até se habituarem à luz normal do quarto. Tão logo a imagem ganhou definição corri meu corpo com a vista, Bethina estava com uma blusa regata preta e uma leggin igualmente preta, algo destoava ao correr da cintura. Ergui o corpo e minhas suspeitas estavam se tornando fatos. Quis esboçar alguma reação, mas minha voz não saiu, sobretudo quando ela colocou o lubrificante pegajoso e gelado na entrada de meu cu, soltei a cabeça na cama sentindo o gelado escorrer pra além, tudo pra ser recolhido por algo maleável, um pouco escorregadio e grande.

Minha respiração se acelerava enquanto aquele membro de borracha tentava entrar, sentia minhas pregas cedendo, uma após a outra, até a cabeça daquele colosso me penetrava, a respiração se acelerou, os batimentos também subiram de ritmo, ainda assim a dor era menor que o prazer envolvido. O exato instante que a ponta ultrapassou a última barreira abri os olhos e afastei os lábios, a respiração outrora acelerada agora beirava a ofegância.

O tempo deixou de existir, só havia aquele objeto entrando cada vez mais fundo e a sensação de algo ia subir pelo meu canal intestinal e continuar sua escalada até onde fosse possível, o rosto virou lentamente na direção da janela no instante que uma chuva de pingos grossos romperam o céu. Quando, enfim, senti a pele de Bethina tocar a minha soube que acabou. Deixei as pálpebras fecharem uma ou duas vezes sentindo toda a extensão daquele consolo imenso dentro de minha bunda. Claro que já tinha tido experiências com brinquedos assim, mas nunca com alguém que eu amava e a sensação estava sendo praticamente indescritível. Ao fundo a música baixa era a única coisa que dizia que o tempo ainda estava andando.

Quando senti o corpo dela se afastando suavemente um raio rompeu o céu e a primeira estocada completou seu ciclo no exato instante que a energia acabou deixando toda aquela parte da Metrópole às escuras. Conforme minha excitação aumentava sentia que Bethina acelerava o ritmo, decididamente eu não duraria muito tempo nas mãos dela. Foi quando a velocidade diminuiu e o corpo dela veio sobre o meu, os lábios dela procuravam os meus, uma vez beijo iniciado o movimento outrora pausado voltou com cadência máxima até o instante em que o orgasmo explodiu em meu pau duro entre nossos corpos. Com delicadeza Bethina saiu lentamente tirando o brinquedo de dentro da minha bunda. Quando, enfim, saiu senti o dedo dela alisando.

- Acha que acabou, menina? - Voltei a sentir o corpo dela no meu - Eu também estou com tesão... - E antes que eu pudesse balbuciar qualquer palavra os joelhos dela pararam um de cada lado de minha cabeça - Me chupa, amor?

E assim, entre um trovão e outro toquei minha língua na intimidade de Bethia que continha os gemidos baixos passando a mão pelo corpo, vez por outra jurava que ela me olhava "trabalhando", mas era inevitável que logo ela não suportaria muito meu ritmo que agora tinha uma sutil ajuda do dedo indicador, os gemidos dela ganhavam volume conforme se aproximava do orgasmo até que pararam completamente. Antes que eu pudesse falar alguma coisa a boca dela voltou à minha e, entre trovões e barulho de chuva nos deixamos adormecer em um sono de reconciliação e com novos prazeres redescobertos.

Uma salva para o amor.