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domingo, 30 de junho de 2024

DDD

Enfim consegui emprestada a tecnologia da Jazz Corp. que me permite falar com uma versão minha do passado, ela usou para falar com sua versão de cinco anos atrás, porém eu reconfigurei a máquina e entrei em contato com minha versão de mais de vinte anos atrás. Por estar ligando para o ano de 1998 não tem como usar vídeo chamada nem e-mail... Por isso apelei para a boa e velha ligação telefônica. A data atual é algum dia entre abril e junho. Não consegui definir um dia específico, só o dia de um acontecimento e um horário aproximado. Silêncio, ta chamando.

- Alô? - Eu tinha me esquecido como minha voz era mais aguda quando era mais nova.

- Alô, tudo bem?

- Tudo... Quem ta falando?

- Antes de responder essa pergunta eu quero te pedir que espere eu terminar de falar, não desligue, pode ser?

- Pode... É trote né? É o primo do Ronaldo né?

- Não, não é trote - Suspirei, merda, eu devia ter planejado isso melhor antes de ter feito essa ligação, ter feito um briefing, uma cadeia de perguntas e afirmações... Bom, o negócio é improvisar - Vai soar estranho, mas... Eu sou você, do futuro.

- Que? - A voz parecia incrédula, não julgo, me conheço o suficiente pra desconfiar de tudo - Vou desligar.

- Espera, espera... Eu sei de coisas sobre você que mais ninguém sabe.

- Prove.

- Você odeia a fase 5 do Duke Nukem porque ela é um labirinto e você odeia labirintos, sempre odiou a sensação de desorientação, por isso sempre aprendeu a criar pontos de referência.

- T-tá... - A voz dele estava hesitante - C-como você...

- Eu sei porque eu sou você, sei que do lado do telefone tem um colchão dobrado, senta nele, vamos conversar um pouco...

- Eu... É... E... Quando você ta? Tipo o ano.

- 2024 - Acho que consegui, respirei fundo, consegui a abertura - Pois é, o mundo não acabou nos anos 2000 e o bug do milênio não afetou quase nada, teve o caso de um hospital que foram registrar no sistema e a criança nasceu em 1900, mas, fora isso, não teve nada de relevante.

Ele riu enquanto o ouvia sentar. O chão daquela casa de madeira rangia e aquele telefone branco tinha espaço para ser pego e posto ao lado do tal colchão que ouvi ele sentar. Não podia perder muito tempo porque sabia que, por mais que a tecnologia da Jazz Corp. fosse estável não sustentava a ligação com o passado tão longínquo por muito tempo.

- Caralho... - Ele suspirou - E como você... Eu... Nós estamos?

- Olha... Não vou mentir, a gente não anda muito bem, mas nada que não possa ser remediado, algumas coisas a curto prazo e outras a médio... Mas vivi... Ou melhor nós vivemos muita coisa legal, conhecemos muita gente, perdemos o contato com muitas pessoas que pro seu eu de agora é importante, doeu, mas foi para o melhor, o futuro mostrou que elas não eram tão boas pessoas... Além disso moramos muitos anos bem perto do mar.

- E... Casamos? Digo - Tinha certeza dessa pergunta tanto quanto a de que nós dois ruborizamos com ela - A Ariadne casou com a gente...?

- É... Não, na verdade depois do Ensino Médio você nem vai mais morar aí.

- Como assim?

- Eu tenho pouco tempo na ligação... A tecnologia que estou usando ainda não sustenta longas ligações, ainda mais com um passado tão remoto.

- Mas aí não é só ligar de novo?

- Em teoria sim, só que o quê você acha que é uma ligação longa na verdade está durando alguns segundos e, depois que desligar, você não vai lembrar de praticamente nada de nossa conversa, talvez ache que o que viveu é sua criatividade... Porque cara, você é muito criativa, sua imaginação é foda.

- Eu... Obrigad... Espera - Merda, um ato falho - Você disse "criativa"?

- É... Eu sei do seu desejo de ter um feitiço, algo pra se transformar nas modelos da revista só pra sentir as roupas, as poses... poder ter aquela sensação... Aliás - Hora de gastar a melhor carta - Liguei hoje justamente por ser um dia diferente do seu habitual, eu sei o quê você acabou de fazer e, antes de tente negar eu quero te dizer que ta tudo bem ta?

- O... O quê eu fiz? - Típica atitude minha: negar até o fim - O quê você acha que eu fiz?

- Você acordou mais cedo - Um sinal de interferência cortou um pouco o som - E Foi ver o guarda-roupas dos seus pais, esses dias você viu algo lá que te despertou uma curiosidade diferente, te deu a fagulha de um novo desejo, o toque do tecido na ponta dos dedos foi gostoso né?

- Foi... - O tom culposo dele era pesado, quase uma confissão dum crime - Mas é errado...

- Não, não é errado, é o quê você é.

- Mas e o quê vão falar de mim se souberem que eu...

- ... Que você vestiu uma saia, se olhou no espelho e sorriu?

- Não sei se gosto dessa conversa...

- Eu sei que tudo isso é confuso hoje, que você se sente sozinho por não ter com quem conversar e eu queria poder te dizer que as coisas vão melhorar daqui pra frente... Mas vou ser sincera e dizer que não vai - Suspirei pesadamente - A gente vai passar muitos problemas antes de que qualquer tipo de ajuda possa existir ou qualquer apoio possa aparecer...

- V-você ligou para me dar noticias ruins?

- Não é esse o ponto... Eu só quero ser sincera com voc... Digo, comigo pra que você esteja preparado pro que está por vir - Um latido ao fundo, minha primeira cachorrinha, reconheceria aquele ganido de longe - E que tudo isso que vai acontecer vai te transformar em uma pessoa melhor...

- Não sei o que pensar.

- Ta tudo bem, vou te dizer que, de uma forma torta, mas tudo vai ficar até que bem... - Outro chiado na ligação e o cheiro de plástico derretendo começou a aguçar minhas narinas - Eu não tenho muito mais tempo e, por isso vou te falar algo que, agora, não vai fazer muito sentido...

- Ta... Ta bem.

- Acredite em você, vai acontecer muita merda, muita gente vai sair de nossa vida e algumas outras vão aparecer e vão ser ótimas e vão ser o apoio que você precisa pra se sentir feliz, porque eu sei que esse teu coraçãozinho vive apertado, desejando ser o que você acha que não tem como ser, mas, num futuro... Vai ser.

- O que quer dizer com isso?

- Pode ser que o feitiço que você tanto desejou ser real... Pode ser que ele possa existir realmente.

- Pode??? - A animação na voz voltou, pelo visto eu era bipolar desde aquela época - Como?

- No futuro você vai conhecer uma pessoa que vai te... An... empurrar a comprar uma saia sua, só sua, nada mais de usar a da nossa mãe escondida... O tamanho pode ser que não seja o ideal, mas vai te fazer, me fazer sorrir de novo como você sorriu agora a pouco com aquela saia da sua... Nossa mãe.

- Quanto no futuro? O quê vai acontecer depo - Um ruído cortou a voz - Alô? Alô??

- Meu equipamento está superaquecendo, mas quero te dizer pra sempre acreditar em você, ser fiel ao que você acredita e deixando abertura pra acreditar em coisas novas... Ah e nunca pare de escrever, você escreve bem pra caralh - Um ruído alto atravessou a ligação, hora de começar a finalizar - Vai demorar um tempo até você aceitar e entender tudo isso que estou dizendo... Na real vai demorar anos, mas quando começar a entender vai conseguir se aceitar como a linda mulher que nasceu pra ser... Eu... - Hesitei um instante - ainda não cheguei lá, mas, sinto que entrei nesse processo e, até agora, tem sido um caminho de umas descobertas internas tão lindas que... Apesar de não aparentar externamente que estávamos avançadas, cá dentro estamos nos aprontando para os próximos passos...

- E... Eu... - A respiração ofegante e a pausa denunciava a emoção - E... Por que agora? Tipo... Por que demorar tanto tempo? Por que eu não comecei isso... Sei lá, hoje?

- Essa é a pergunta mais foda que eu tento responder todos os dias, do por que esperar tanto tempo... Porém acho que tudo acaba acontecendo no tempo certo - Essa era uma resposta que eu me dava toda hora, como se fosse totalmente convincente, mas não era, no entanto por agora eu não preciso que meu eu-do-passado saiba de todo o peso das dúvidas e dores n'alma que ele vai sentir nos próximos anos, melhor dar uma analogia que faça sentido - Tipo os gols do Marcelinho batendo falta... - Assim como os jogos no computador, o futebol, mais especificamente o Corinthians, foram, e ainda são, um lugar de consolo, uma quase fuga da realidade que me ajuda a segurar as pontas até aqui - Quando menos se espera ele bate e faz aquele golaço...

- Entendi... - A respiração dele estava mais calma - Acho.

- Meu tempo está acabando... Queria poder te falar tanta coisa... Mas o quê eu posso te dizer é que vai passar e a gente, apesar tudo, vai sobreviver e vai fazer o feitiço funcionar... Nunca duvide disso, Lu... Te amo.

- Lu...? Eu... - A ligação começou a falhar mais - Alô? Alô? Al...

Um som metálico atravessou nossas vozes e o silêncio se fez junto com o cheiro de queimado. A tecnologia superaqueceu e derreteu a tomada. Preciso trocar a tomada e devolver tudo pra Jazz Corp. Suspirei enrolando o fio. Espero que meu eu entenda. Levantei para colocar tudo na mochila. Ao passar na frente do espelho com o cabelo solto parei um instante e o espelho me sorriu. Acho que minha versão do passado entendeu a mensagem. Arrumei uma mecha de cabelo atrás da orelha e segui... Merda, esqueci de falar das bitcoins.

sábado, 5 de fevereiro de 2022

CdF - Outras histórias: Hello World

Dois anos haviam se passado desde aquele período onde Rafaela foi afastada do conselho da Lótus. No regresso dela a empresa sofreu financeiramente com alguns acionistas debandando, porém no começo do segundo ano um dos maiores grupos educacionais do mundo viu potencial e investiu pesado, o que permitiu um crescimento ainda maior com todos os benefícios aos funcionários que a mandatária gostava de manter.


Outra tarde de sexta começava e, no setor de comunicação a baixa demanda daquele dia permitia inúmeras conversas paralelas e revisão de conteúdos já aprovados, variações de peças já usadas em outros anos para servirem de gaveta ou um mero referencial. Desde a saída de Borges, Bethina assumiu a chefia do setor e, na estante ao fundo da sala podiam se ver alguns troféus em premiações de comunicação, ainda faltava o peixe grande que viria da Riviera Francesa, porém todos ali sabiam que ele viria, mais cedo ou mais tarde.


Dois andares acima Pablo, um dos responsáveis por manter o site da Lótus funcionando bebericava uma caneca de café pensativo. Haviam dias que ponderava se deveria dar esse passo, esse salto no escuro. Lembrou-se de um dos seus personagens de jogos preferido, onde ele subia as torres mais altas e pulava em uma carroça com feno, esse era o salto de fé. Ajustando os óculos que insistiam em correr pelo nariz o jovem de cabelos escuros, pele branca, corpo com IMC dentro do que se tem por normalidade e vinte e três anos de idade abriu uma tela extra além do compilador java que denunciava dezenas de erros no código, menos mal, antes eram centenas.


Com dois cliques em um ícone logo abaixo da lixeira ele abriu o software de envio de mensagens para qualquer pessoa na empresa, tudo de forma criptografada e usando os próprios servidores da Lótus como motor, nada estava na internet dentro desse programa. Correu a lista de possíveis nomes. Ana, Beatriz, Bethina, Carlos, Eduardo, Fernanda, Freya. Parou. Um clique decidido em cima do nome da redatora senior do setor de comunicação. Digitou uma frase e ponderou se devia enviar. Um alt+tab e a compilação ainda estava em curso tinha mais alguns minutos de espera que poderiam ser buscando mais café ou dando o salto de fé.


- Dona Fernanda - Optou pelo salto - Posso falar com a senhora?


O silêncio o sufocou mais que o dia em que, por uma miserável ponto-e-vírgula toda a parte responsiva do site parou de funcionar. Foram os dezesseis minutos mais tensos de sua vida até agora. Online. Digitando.


- Claro - Do outro lado da tela Fernanda tentava entender o que alguém do T.I. queria com ela, será que tinha clicado em algo que não devia? - Pois não? - Um instante se passou, Pablo, agora com a respiração mais cadenciada pousou as mãos sobre o teclado, seu ímpeto foi congelado - Mas antes - Parada cardíaca do jovem - Sem essa de senhora, não sou tão velha assim haha.


O suor frio correu a espinha por todas as suas vertebras mesmo com o ar condicionado ligado. "Respira fundo, vai, agora você consegue." pensava enquanto as mãos voltavam para o teclado.


- Gostaria de conversar com você, se possível pessoalmente... tem como?


- Tem sim - Fernanda franziu o cenho pensando na frase de Bethina que um dia a curiosidade a levaria à ruína, claro que ela dizia isso em um contexto do eterno jogo de RPG que nunca terminavam - Onde?


- Aqui na T.I. tem muita gente.


- Aqui na comunicação só tem gente haha - A redatora ajustou uma mecha de cabelo atrás da orelha percebendo que poderia ser algo grave - Eu conheço um lugar... você tem como sair agora?


- Tenho, me dê cinco minutos.


- Perfeito, te encontro na porta do seu setor.


- Beleza.


Pela cabeça de Fernanda passou um milhão de coisas, desde um admirador secreto até alguém que descobriu o segredo da Rafaela e queria saber o que fazer com a informação, enquanto subia os dois andares pelo elevador pensava porque ela, em meio a dezenas de funcionários, tinha sido a escolhida. Talvez porque fosse uma das funcionárias mais velhas da empresa, quase... seis anos. Bastante tempo. Quando parou na porta do T.I. podia sentir o ar gelado vazando por baixo da porta e pensou que ali deveria estar metade de conta de luz do prédio inteiro. A porta se abriu e o polo norte vazou um instante.


- O-obrigado por vir - Pablo tinha o olhar caído - Dona Fernanda.


- Esquece essa coisa de dona - Ela tocou sutilmente o ombro do rapaz - Me chama só de Fernanda.


- Ta bem... Don.. Fernanda.


- Melhor assim - A redatora sorriu - Vem, conheço um lugar ótimo para conversar, sem distrações.


- Onde?


- Lá em cima.


- Em uma das salas de reunião da presidência? - O jovem acompanhava Fernanda que trajava uma saia longa que lhe deixava apenas os pés fora do tecido e, na parte de cima uma blusa com estampa desbotada. - Mas... lá não é... só da presidência?


- Não, é mais pra cima - Do bolso da saia Fernanda tirou a chave que tinha cópia faziam seis longos anos - É no terraço.


- No terraço? - Pablo estranhou que Fernanda tivesse a chave, porém tinha ouvido falar da horta que havia ali. 


Tão logo a porta foi aberta a brisa jogou os cabelos de Fernanda para trás como uma onda. Já pablo, com camisa social, calça jeans e cabelo cheio de gel pouco foi afetado pelo vento. Um pequeno corredor entre painéis solares e uma horta com alface, couve, morangos além de temperos diversos culminava em um par de bancos com vista para a área não tão povoada da Metrópole. Sentaram-se.


- Então, o que queria conversar?


- Eu... - Pablo não sabia por onde começar, tinha ensaiado essa conversa tantas vezes na sua mente que agora estava procurando a palavra, era como se o seu código-fonte tivesse um erro crasso e não mostrasse nem mesmo um hello world. Respirou fundo uma, duas, na terceira a compilação da sua linguagem funcionou - Desculpa falar assim... Mas, desde que descobri que a senhora... digo, você é uma mulher trans eu...


- Tem curiosidade em saber como é? - Fernanda sentiu um pouco de raiva do rapaz na sua frente, era mais um nerd curioso querendo saber se ela tinha cortado o pau fora, se sentia prazer, se toparia alguma coisa a mais, ela ponderou sair e cantar a pedra à Freya que tomaria a decisão em demitir ou não - É sério, me fez sair do meu posto por uma curiosidade adolescente?


- Não não, calma. - Pablo tentava compilar o código da fala o mais rápido que conseguia - Aqui - Ele pegou o celular, desbloqueou e abri as fotos - Eu às vezes gosto de me montar como menina e...


- ... E você acha que pode ser trans? - Fernanda respirou profundamente mal olhando a tela do pequeno aparelho, não era a primeira vez que via algo assim - Sugiro você procurar uma psicóloga, o plano de saúde da firma tem umas ótimas.


- Não, não é nada disso - O rapaz tentava controlar sua oxigenação para que pudesse ter clareza no pensamento - Eu gosto de ser homem, eu só queria... sei lá, uma amiga.


- Estou ouvindo - Fernanda baixou a guarda, ele parecia com ela, anos atrás - O que exatamente espera?


- Eu moro em uma quitinete a meia cidade daqui, vim do interior do estado trabalhar na Lótus, mesmo morando aqui faz alguns anos eu não tenho amigos... - O olhar de Pablo se iluminou - Porém quando eu soube da sua história, da sua jornada eu fiquei... impactado.


- Impactado como?


- Bem... - Um sorriso se desenhou no canto dos lábios dele - ... Eu li o seu livro e gosto da ideia ser crossdresser, porém sozinho não tem graça... 


- Bom, você tem a internet inteira né?


- A internet é legal, mas falta... humanidade.


- Saquei. - Fernanda ainda tentava pensar o que faria por ele. - Mas assim... beleza, a gente é amigo e aí? Você vai querer que eu vá na sua casa e fique te vendo se montar?


- B-bem - A ideia de Pablo em linhas gerais era essa, no entanto lembrou do Altaïr e resolveu dar seu segundo salto de fé do dia - Eu acabei vendo nas suas redes que você e a dona Bethina vão em eventos de anime... cosplay e essas coisas...


- E você quer uma carona?


- É... sei lá, algo assim...


- Alguém junto para te dar coragem de sair do armário.


- Tipo isso, mas sem a parte do armário, eu estou de boa com minha sexualidade...


- Então o problema são só as roupas?


- São, como vim de uma cidade muito pequena eu fico encucado com isso, fico achando que é errado e...


- Tudo bem - Fernanda entendeu o ponto dele, se tivesse tido esse apoio desde o começo talvez as coisas tivessem sido menos traumáticas e demoradas - Só que eu vou precisar falar com a Bê primeiro... mas ela é... de boa... que dia é hoje...


- Seis...?


- Ah, perfeito, a TPM dela já foi, fica mais fácil de domar a fera.


- Então...?


- Eu vou te ajudar, vou testar meus dotes de maquiadora - Fernanda, enfim, olhou as fotos com mais esmero - E vou te passar o contato de uma mina que faz roupas sob medida, mas relaxa, ela é bem discreta e não é careira... foi ela que fez meu vestido de noiva inclusive.


- Sério? - Pablo tinha os olhos marejados por trás dos óculos - Só...


- Eu sei, não vou falar com ninguém, só com a Bê... me adiciona aí na sua agenda que, durante o final de semana, quem sabe, marcamos algo.


Se abraçaram enquanto Pablo voltava a agradecer Fernanda. Caminharam sendo brindados pela brisa Leste-Oeste que, ela jurava, sentir o cheiro do mar vindo junto do vento. Antes de passar pela porta ela pegou um galho de manjericão, molho de tomate ficava infinitamente mais saboroso com ele.


Ao fim da pequena escada que levava do andar da sala da presidência ao terraço se despediram. O jovem entrou no elevador enquanto Freya, no fundo do corredor olhava fixamente para Fernanda que a cumprimentou com um aceno de cabeça. A secretária leal de Rafaela fez um gesto como quem diz que está de olho. A redatora fez uma careta e mostrou a língua relembrando o que já tinham vivido juntas. Quer dizer, Fernando viveu, Fernanda meio que só assistiu. Por oito andares ela pensou em fazer uma sessão com Rafaela, Freya, Vali e aquele outro rapaz que aparecia esporadicamente na cobertura. Será que Bethina toparia? Soltou o ar pesadamente voltando ao setor de comunicação que estava idêntico a pouco menos de uma hora atrás. Menos mal.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

CdF - Epílogo

 Epilogo


"
Ontem foi, provavelmente, o dia mais tenso na vida da Fernanda. A primeira vez que ela foi totalmente como a mulher linda que ela é. Haviam se passado alguns meses e o ano passado acabou voando tão rápido e com tanta coisa sendo feita simultaneamente que, mesmo com tudo agendado, ela não se sentiu a vontade para bagunçar a Lótus. Ainda não.

Lembro bem do dia que fui comunicar a Rafaela que, depois da virada do ano, ela não teria mais um funcionário e sim uma funcionária. Ela quis saber detalhes, me chamou para o almoço naquele restaurante que nunca foi pro meu bico e contei tudo. Falei das crises, das conversas que tínhamos e de todos os próximos passos. Acho que era meio de outubro ou um pouco antes... Ela quis saber até se Fernanda faria a cirurgia. Respondi que sim, dali alguns dias e, por isso, íamos nos ausentar. Por incrível que pareça ela aceitou de boa, era como se ela soubesse o quanto Fê precisava daquele apoio, aquela base.

E pensar que a cirurgia ocorreu tão bem e a recuperação foi tão rápida que me assustei. Ver Fernanda, agora uma mulher por dentro e por fora me causou uma pequena estranheza inicial... mas, tudo estava ali. Rafaela deixou que ela ficasse de licença um prazo maior do que o do atestado. Naquele tempo ela fez inúmeras demandas pro meu setor para algumas propagandas inclusivas de pessoas trans e coisas do tipo. Além disso promoveu cursos, seminários internos... ela tinha o poder de pavimentar um bom caminho até o regresso da borboleta agora dona das próprias asas.

Aquele ano a Lótus entrou em férias alguns dias antes para algumas reformas no prédio ou algo do tipo. Ainda bem, pois nesses dias extras pudemos correr atrás dos documentos. Quando a identidade saiu Fernanda ficou longos minutos olhando para a própria imagem naquela foto minúscula e que todo mundo sai horrível. Por algum complô do universo ela saiu linda, essa desgraçada aprendeu a se maquiar tão bem quanto eu.

Passados alguns dias fomos ao shopping juntas, ela uma mulher mais alta e eu, para não ficar muito baixa, tive que me virar com salto. Naquele dia senti saudade do meu all star. Depois fomos a um pagode e lembrei daquele dia da sessão de fotos... ela estava maravilhosa. Ficamos alguns dias na Ilha que a mãe dela mora e depois fomos passear pela Metrópole. Eu confesso que ia ficando tensa conforme o dia do regresso ao trampo ia chegando... como ela reagiria? Como os outros reagiriam? Que medo.

No dia do regresso todo mundo olhou com estranheza, alguns perguntaram quem era, outros descobriram logo de cara, mas, fora a estranheza, não notei nenhum preconceito ou até mesmo algo que pudesse soar ofensivo. O treinamento somado às constantes evoluções do mundo foram determinantes para que chegássemos aqui... aquela pandemia fez muita gente repensar o que era certo e o que era errado também. A recepcionista olhou estranho, achei que ela ia dizer alguma coisa como não ser de deus ou coisa do tipo... graças que não.

No fim a aceitação dela foi tão boa e tão positiva que acho que tive medo a toa. Mas também, conhecendo minha borboletinha como conheço, sei que ela tem incontáveis voos a realizar ainda. Sobretudo agora que é minha subordinada na empresa... vai ser uma nova fase pra nós duas, um aprendizado. Não sei como acharam que eu era boa o suficiente para substituir o Borges que foi trabalhar numa multinacional de alimentos com, dizem, um salário menor mas com muitas viagens internacionais pra fazer pela nova empresa. Sucesso pra ele.

Guardei esse último instante para olhá-la na janela, escovando o cabelo seminua. A cada passada os fios pareciam ganhar mais brilho, aquela cintura mais desenhada, os seios que vieram um pouco menores que os meus e aquela bunda... ah aquela bunda. Os anos de ciclista dela estavam ali naquele patrimônio que é só meu. O foda de pensar nas mudanças estéticas de Fernanda é ver o quanto ela não mudou por dentro. Continua uma criança que coleciona carrinho e gosta de ver corrida de carro na TV, que cozinha divinamente bem, tem um senso de humor único... o tanto de coisa que mudou nela não mudou em nada o meu sentimento por ela, aliás, mudou sim. Amo ela cada dia mais sendo dona de si, sendo a mulher que ela nasceu para ser e o melhor: sendo minha mulher. Nada é mais perfeito que isso.
"

- E aí, o quê achou?

- Que nós duas - Fernanda me olhou fixamente - temos um futuro brilhante escrevendo.


- Acha mesmo?


- Acho sim - Ela deu uma olhada para a tela - Algumas pequenas adaptações e pode virar um livro, quem sabe filme, série... já pensou?


- Não viaja, mô...


- Não tô viajando.


E assim, selamos o contrato de parceria com um beijo. Oficialmente temos uma história para começar a contar e que irá durar muitos e muitos anos ou, como diria o poeta: infinito enquanto dure. E, enquanto durar, será repleto de amor.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

CdF s3e2: Pedal

Eu devia ter tomado uma atitude muito tempo atrás, meses atrás mas não tomei e agora ela parecia tão grande quando, na verdade, era só o que eu sempre desejei e pronto. Confesso que tinham dias que eu não queria tomar os remédios, não queria me olhar no espelho... mas, no fundo, eu notava que aquela silhueta que brotava no espelho era quem eu sempre quis ser, era a criatura que eu tanto namorei nos aplicativos que trocam o rosto, nas malfadadas tentativas de me maquiar... estava vindo, porém eu ia me desapegar do Fernando pra sempre e isso era o que mais me assustava.

Junto da terapia me foi sugerida uma rotina fixa, atividades que eu pudesse me focar cem por cento do tempo até não ter mais tantos surtos quanto tive no começo do ano. A ideia era ótima e o apoio de Bethina era o que me impedia de saltar da janela. Mas, ao mesmo tempo, eu me sentia egoísta obrigando ela a viver isso tudo. 

A imensa verdade é que essa criação de uma rotina ajudou pra caralho, no entanto não posso ficar o tempo todo fazendo alguma coisa, tem momentos que preciso de uma dose de ócio pra aflorar a criatividade, foi numa dessas que eu chamei Bethina pra pedalar no parque depois do trabalho na sexta. Ela quis reclamar mas acho que a exaustão a fez aceitar. Claro que eu não tinha a menor vontade de ficar andando a esmo nas ciclovias e sim achar um banco, respirar um pouco de ar puro...

- Sabê, Bê - Era curioso como o parque estava tão vazio, achar um lugar pra sentar foi extremamente fácil - Às vezes acho que eu tô atrapalhando a sua vida.

- Às vezes você fala umas bobagens - Ela sorriu me olhando de canto - Mas vamos ver, por que você acha isso?

- Ah sei lá - Respirei fundo tentando fugir daqueles olhos - Sou uma criatura meio bizarra ainda... estou na fronteira do que eu sou e quero ser...

- E...?

- E isso atrapalha sua vida cara, você merece alguém mais centrado, mais certo das ideias e não essa...

Não tive como continuar. Bethina puxou meu rosto e me deu um beijo tão apaixonado que não sei como contive a inundação de lágrimas dentro das pálpebras, de repente todo aquele diálogo, todas as minhas palavras, todo o parque, a Metrópole, o país, o planeta, o universo e toda a criação deixaram de existir e só nós duas estávamos ali, não poderia precisar quanto tempo durou, mas foi o suficiente para fazer qualquer núvem que pairava em meu pensamento ficar seriamente desnorteada.

- Sabe qual o seu problema Fê? - Não consegui responder, apenas fiz a negativa com o queixo - Você pensa demais... lembra o dia que você comprou sua primeira saia?

- L-lembro - A lágrima escorreu - Eu já te contei essa história?

- Não, mas eu sou hacker e achei teu blog velho.

- Olha ela - Enxuguei a lágrima - Continue.

- Então... Você teve a decisão, foi lá, comprou, pagou e quando ela chegou pelo correio você se sentiu a pessoa mais realizada do mundo, nada importava, sem passado, sem futuro... só aquele ventinho frio por baixo e a sensação de liberdade... - As lágrimas voltaram - Me diz, as saias seguintes foram tão prazerosas quanto essa?

- Não tanto... não vou dizer que virou algo normal, porque ainda me dá certos calafrios entrar em uma loja e comprar algo pra minha sobrinha, afilhada ou até mesmo noiva...

- Noiva? - Bethina me deu um tapa no braço - A senhorita anda me traindo é?

- Não! - Corei de leve - É só...

- Eu sei boba. - Pausamos um instante - E que você não quer entrar em uma loja e dizer que é pra você? Poder experimentar... me diz, quantas vezes você comprou o tamanho errado e teve que voltar na loja pra trocar?

- Poucas... 

- A maioria você aceita a derrota e joga a peça no canto e na primeira doação de natal você se livra delas, tô ligada.

- Nossa... você tem um jeitinho tão cínico de falar essas coisas...

- Você diz cínico e eu digo verdadeira... agora 'bora pra casa.

Eu estava ali durante todo o trajeto até em casa, eu respondia, falava mas não me sentia aqui, tudo estava martelando dentro da cabeça. Ela tinha razão. Perdi no par ou ímpar e ela escolheu que eu fosse tomar banho primeiro. Acho que ela já esperava essa reação minha e por isso me fez confrontar o espelho. Cá estava eu vendo meu reflexo, cabelo solto, rosto afinando, seios já despontando e ereções quase nulas... e talvez fosse isso aí, esse é o objetivo que eu, desde aquela primeira vez que vi a possibilidade de me montar e agora a oportunidade real de me tornar a mulher que sempre quis ser. Respirei fundo e entrei debaixo do chuveiro enquanto o cheiro de comida vinha da cozinha. 

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

CdF s3e1 - Surpresa

Ainda lembro da primeira crise forte, foi no meio da noite com Fernanda tossindo muito, antes que eu pudesse ampará-la ela saiu para o banheiro e a tosse cessou. Sorri aliviada esperando o sono voltar... mas algo dentro de mim não deixou. Da fresta da janela vinha o ruído típico da Metrópole acordando com uma fina brisa que dava ao sexto dia do ano um ar de outono. Me levantei indo até a porta do banheiro fechada que vazava luz por baixo. Bati uma vez. Silêncio. Bati duas. Nada. Bati a terceira.

- Amor - Falei em tom preocupado voltando a bater - Tudo bem aí?

Silêncio. Com o histórico dela eu odiava o silêncio. Já ponderava como faria pra arrombar a porta e levá-la às pressas pro hospital. Testei a fechadura. Não estava trancada. No fundo do box podia ver uma silhueta abaixada sentada no chão. Meu primeiro pensamento - e que se tornou ação - foi me aproximar.

- Fica longe - A voz desafinada tomou conta do ambiente - Vai embora! - Os soluços de choro se misturavam às ondas sonoras que preenchiam o diminuto cômodo - Eu sou uma aberração!

Tinha dito à psicologa que saberia lidar com as prováveis crises dela durante a parte medicamentosa da transição, mas vê-la se chamar de aberração foi como uma faca entrando no meu peito. Naquele momento tudo que podia fazer foi abraçá-la até a crise passar e dormimos ali mesmo. No dia seguinte ela me pediu desculpa.

Os dias que se seguiram também não foram fáceis. Quase toda noite, nas mais variadas intensidades, Fernanda se achava uma aberração, um ser entre o masculino e o feminino. Toda a puberdade condensada em um ano e meio, talvez dois anos. Pesquisei o que fazer. Perguntei à psicologa e as duas voltaram com o mesmo resultado: só o tempo. Negócio é fazer como minha mãe sempre disse: se você quer mesmo ver o céu noturno iluminado tem que segurar o rojão. Por isso aguentei firme uma semana.

Pensei em pedir ajuda para Freya, mas não tinha como, ela estava na Itália com Rafaela e aquele outro rapaz. Aguenta firme, Bethina. Você é forte. Dez dias se passaram e as férias já estavam no fim. Talvez uma rotina ajudasse. Umas poucas pessoas voltaram dias antes do restante dos funcionários porque teríamos reuniões internas para alinhar discursos. Fernanda preferiu se esconder atrás da máscara de menino, o foda que eu não podia julgar ela, tudo a seu tempo. 

Logo depois da primeira reunião Freya notou meu estado e, tão logo conseguiu, me puxou de lado para conversar.

- Você tá bem? - Ela me olhava preocupada - Parece que você não dorme fazem noites...

- É porque eu não durmo mesmo - Eu estava com tremedeiras - Eu sabia que ia ser difícil... mas tanto...

- Fala de Fernanda?

- Sim.

- Me conta.

- Ah... ela tem tido umas reações adversas aos remédios, tido uns surtos de noite... aí mesmo que nos últimos dias ela esteja mais tranquila eu não consigo pregar o olho direito.

- Entendi... - Freya puxou o celular do bolso, mandou uma mensagem meio longa, achei um pouco falta de respeito mas ela é minha superior, então né, melhor esperar, vai que é algo mais importante que meu drama pessoal - A dona Rafaela quer falar contigo.

- É? - Estava em uma condição tão lamentável que nem me arrepiei com a situação - Sobre o que ela quer falar?

- Surpresa.

Caminhei da pequena sala de reuniões onde estava conversando com Freya pelo corredor até a sala da presidência. Fernanda me mandou mensagem toda amorosa perguntando o que tinha acontecido. A bipolaridade de humor dela era ágil, pelo visto a rotina era o que ela precisava para entrar um pouco nos eixos. Respondi que Rafaela tinha me chamado para discutir alguns detalhes de design de alguns produtos. Uma mentira que não fazia mal algum. Bati de leve na porta e ouvi a voz característica da chefa falando para eu entrar.

- Mandou me chamar, chefa?

- Mandei... - Rafaela estava com o olho fixo no monitor do notebook, dois segundos depois me olhou de cima abaixo - Realmente, Freya tem razão, você está só o pó da gaita.

- Como assim?

- Está com olheiras, ombros caídos... - Ela se levantou e caminhou na minha direção - Eu nem consigo imaginar pelo que você está passando com Fernanda... mas eu tenho uma proposta.

- Proposta? - Arqueei a sobrancelha - Que proposta?

- Vou te dar um final de semana em um spa, só pra você... - Ela me tocou os lábios quando eu ia falar - E pode deixar que eu cuido de Fernanda por esses dias, sei quais botões tocar pra acalmar aquela borboletinha saindo do casulo... e quando Fernanda perguntar diga que vai fazer um curso na Cidade Maravilhosa, se ela não acreditar diga pra vir falar comigo.

Não ousei questionar. Não conseguia reagir. Não que fosse a coisa mais certa do mundo, mas sentia que precisava desse espacinho, desses dois dias para pensar em tudo e relaxar e confiava em Rafaela cuidando de Fernanda. Sem qualquer outra reação a abracei, gesto que foi retribuído. Quem disse que chefe é tudo ruim e não liga pra funcionário mesmo? Pelo visto queimei minha língua.

sábado, 25 de julho de 2020

CdF s2e22 - Céu

Nossa, nem dá pra acreditar que já estamos no final de mais um ano. Um ano com tantos altos e baixos, com tantas reviravoltas, provavelmente o ano com mais surpresas da minha vida. A começar por tudo que aconteceu na Lótus, Rafaela tomando um golpe que lembrou aquele que a presidenta levou alguns anos atrás, mas, como se fosse uma história escrita por alguém completamente bipolar e que vai decidindo o que acontece conforme escreve, as coisas foram se encaixando e Rafaela voltou ao posto de CEO da Lótus e recontratou a imensa maioria. Alguns já tinham achado outro emprego e preferiram ficar lá, eu confesso que quase cogitei isso, mas a volatilidade da vida de freelancer é muito grande e não quero mais isso pra vida.

Agora com relação à Fernanda o ano foi uma ascendente tão linda. Tivemos nossos momentos ruins, nossas brigas, ela dormindo no sofá, eu dormindo no sofá... nada que estragasse o sentimento. Caminhei até a geladeira, peguei uma coca gelada. Fernanda está decidida a assumir sua real personalidade e encarar tudo que isso pode acarretar, amo essa coragem dela. Bebi um gole do líquido negro do capitalismo, puta merda que coisa boa.

O caminho daqui em diante seria doloroso pra nós duas, mas eu tenho fé em meus orixás que tudo vai ser bom, que é na dor da caminhada que se valoriza a chegada. Com hoje se vão três meses que Fernanda começou com o tratamento, ela diz que sente algumas dores pequenas, nada que incomode ou estrague o dia, mas sei que ela mente mal, porque à vezes a vejo se contorcer de dor e a merda é que não tenho muito o que fazer além de me mostrar presente. A psicologa inclusive me disse isso: que é ótimo Fernanda ter alguém do lado enquanto passa por tudo isso. Ela teria uma puberdade que dura anos em um ano e meio... ia ser foda, mas a gente segura o rojão. Falar nisso... caminhei até a porta do banheiro.

- Ow princesa - Fazia quase uma hora que ela estava no banho - Assim a gente vai se atrasar.

- Tô quase acabando - A voz abafada me deixou em um misto de preocupação com curiosidade, não era raro ela se trancar no banheiro pra chorar, uma das noites no sofá foi por isso dela esconder seus sentimentos pra não me preocupar - Só escovar o cabelo... aí cê me ajuda com a maquiagem, amor?

- Claro, mas anda logo - Alarme falso, a voz estava serena - Não gosto de chegar atrasada em lugar nenhum e acredito que vai ter trânsito para um caralho até lá.

- Relaxa, dona Bethina - Ela abriu a porta e uma coluna de vapor a seguiu - Ainda temos horas pra chegar lá, além do que não é longe.

- Eu tô super relaxada, aquela sua massagem ontem foi incrível - Fernanda estava enrolada na toalha quando passou indo para o quarto - Ano que vem faz de novo?

- Ano que... - Ela fez careta fechando a porta - Já começou as piadinhas do ano que vem né.

- Ah sim, já postei no grupo das minhas primas várias desse tipo... elas até falaram de me banir.

Ri indo até o banheiro que parecia que tinha sido invadido por uma bomba de fumaça. Desembacei o espelho com a toalha e comecei a me maquiar, nada muito trabalhado, só o suficiente pra valorizar a mulher maravilhosa que eu sou. Até nisso Fernanda me influenciou, minha auto-estima subiu nos últimos tempos. Dez minutos e eu estava pronta. Vestido branco, pouco acima do joelho, decote pequeno, cabelo com os cachos todos definidos, umas pulseiras pra fazer barulho além do anel de noivado. Quando entrei na Lótus e conheci Fernanda eu não me importava muito com minha aparência, qualquer roupa servia. Camiseta, jeans, tênis baixo e pronto. Tinha muito pouca roupa de menininha. Até nisso ela me mudou... No visor do celular já eram quase vinte horas.

Voltei à sala onde calcei a sandália de salto baixo e presa no peito do pé. Bolsa em cima do sofá e estava pronta. A porta do quarto abriu como se fosse em câmera lenta. Fernanda com uma saia longa branca indo até próximo dos pés e uma blusinha dourada, nos pés uma rasteirinha completava o visual hippie-de-cidade dela. Podia jurar que era peruca aquele cabelo, mas não, essa desgraçada conseguiu deixar o cabelo liso com pequenas ondas... ou será que era um efeito dos hormônios? Vai saber.

- Me ajuda com a maquiagem, amor?

- Me dá um segundo...

- Pra que? - Ela me olhou franzindo a testa - Que foi?

- Estou admirando o quão linda é a filha da puta da minha noiva.

- Não exagera... - Senti uma onda de baixa-estima vindo nela - Não ta tanto assim...

- Calaboca - E eu sabia interromper isso, era meio passivo-agressivo, mas funcionava - Você ta maravilhosa! Quer casar comigo?

- A gente já vai casar - Pronto, o cenho dela aliviou - Agora me ajuda com a maquiagem que já estamos atrasadas...

- "Estamos atrasadas" sério? - A fiz sentar, apesar do tom era em tom de brincadeira - A princesa fica mais de uma hora no banho sendo que eu já estava pronta e eu que sou a culpada pelo nosso atraso é? 

- É que você já é maravilhosa, não demora muito pra se arrumar - Ela sentou jogando o cabelo pra trás - Já eu tenho que remar muito pra chegar aos seus pés.

- Besteira - Dei um beijo na testa dela - Você é maravilhosa também.

Dito isso ela se calou enquanto eu fazia uma maquiagem suave. Uma sombra, um pouco de pó, base pra cobrir uma espinha no queixo, batom e ela estava incrível. Ninguém diria que, até meses atrás, ela era ele. Pensar nisso me trouxe uma nostalgia diferente. Me fechei um pouco na minha introspecção. O ano dela provavelmente foi mais emocionante que o meu com uma demissão e demissão cancelada. E agora estávamos as duas dentro de um carro do aplicativo. Fernanda conversava com a motorista que dizia que aquela era a última corrida da noite e que estava indo para casa onde o marido fazia a ceia de ano novo.

Conforme eu previ tinha trânsito, todo mundo queria chegar na avenida central para ver os fogos e o lugar que estávamos indo ficava no caminho. Olhei no relógio da rua e já eram passado das vinte e uma horas. O convite dizia que a ceia era depois da meia noite, após os fogos... mas sentia que a gente tinha que chegar logo. Chegamos na frente daquele prédio alto, Fernanda pagou uma bela gorjeta para a motorista enquanto eu descia. Mesmo menininha ela seguia cavalheiro... cavalheiro... cavalheira. Acho que cavalheirismo é algo além de gênero, depois pesquisaria.

- 'Bora garota - Ela desceu arrumando um eventual amassado no tecido da saia e agora era ela quem me puxava - Não quero perder a comida.

- Nossa - Despertei da minha bolha de introspecção - Depois reclama que engordou né.

- Nem engordo - Passamos pelo porteiro e entramos no elevador, o espelho do veículo evidenciou os quase vinte centímetros de diferença na altura - É culpa dos hormônios.

- Sei, aham - Falei segurando o riso - Tu que é esfomeada, isso sim!

Chegamos no último andar. A cobertura. No mesmo andar apenas mais um apartamento, com um capacho de loja barata. Fernanda tocou a campainha enquanto eu enganchava no braço dela. Uma criatura híbrida abriu a porta. Era nítidamente um homem em trajes de empregada francesa. 

- E-entrem - Rafaela tinha começado um novo experimento? Olhei pra minha companheira - A senhora aguarda vocês na sacada.

- Obrigada - Fernanda agradeceu enquanto a criatura se retirava voltando para a cozinha - A Rafaela não perde tempo...

- Então...

- Yes, uma sissy - Ela sorriu enquanto caminhavamos na direção da sacada - Tem jeito.

- Você já foi assim? Quero dizer... tipo empregadinha.

- Já - Ela corou suavemente - Foi uma época pra me definir e me descobrir.

- Um dia você podia escrever um livro sobre esse rolê todo...

- Quando ficar velha, quem sabe?

Assim que chegamos na sacada foi como aquelas entradas em saloon de filmes de velho oeste. Os poucos convidados todos nos olharam, não cheguei a notar se a música parou, mas Freya e aquele outro rapaz que trabalhava para a Rafaela, se não me engano o nome era Vali, vieram em nossa direção. Cumprimentos feitos ficamos em conversas alheias, filmes, séries, a vida... nada que fosse tão grandioso.

Logo os fogos começaram a colorir o céu, ora vermelho, ora azul, ora verde, amarelo, branco, rosa, roxo... a cobertura de Rafaela ficava próximo do epicentro das festividades na Metrópole e o céu estrelado com pouca poluição dava às luzes ainda mais brilho.

Pelo segundo ano seguido Fernanda passou empoderada de si e da incrível criatura que nascia ali naqueles comprimidinhos diários. Cada nova explosão levava uma mágoa, uma dor em vê-la ter algumas reações adversas... mas fazia parte né? Senti a mão dela apertar mais a minha e só então me dei conta que estávamos com os olhos rasos em lágrimas, a tal da comunicação não-verbal que ela dizia termos. Certa vez minha mãe falou que o choro de felicidade que é compartilhado é o mais lindo que há... e não é que ela tem razão? Antes do fim das explosões que saudavam a chegada de um novo ano um beijo se fez e, a julgar pelo silêncio da sacada, não éramos o único casal agarrados reforçando laços de sentimento.

- Muito bem - Ao fim do espetáculo Rafaela se posicionou na cabeceira da mesa - Cheguem todos aqui mais perto, sentem-se - Ela pegou a taça, movimento repetido por todos os presentes - O ano que passou foi de muita provação e superação de barreiras - Notei o olhar dela à Fernanda que, com um suave inclinar lateral de cabeça agradeceu a parte que lhe cabia - Todos que estão aqui são pessoas que eu confio e quero dividir os momentos de felicidade como os de agora... - Algum buchicho se fez - Eu sei que prometi não falar de trabalho em um momento como esse... mas eu quero dividir com todos vocês, em primeira mão, que, a partir de hoje, a Lótus irá subir de patamar, nosso pioneirismo e qualidade tanto nos materiais quanto no profissional foi recompensado com o que vou dizer agora - Ela pausou, buscou o fôlego, todo esse suspense me deixava bolada - No apagar de luzes do ano saiu o resultado do edital de fornecimento de materiais pro governo do estado e nós fomos a empresa vencedora! Brindemos!

Por essa eu não esperava. Os copos se tocavam, as pessoas riam, conversavam sobre a imensa porta que se abria, definitivamente o próximo ano vai ser de muitas mudanças, a começar por Fernanda dando entrada nos documentos, seguir a terapia, a medicação e, se tudo correr bem, decidir se vai operar ou não... confesso que pra mim tanto faz, desde que ela esteja feliz e comigo eu topo tudo e agora, com a empresa decolando, topar tudo significa ao infinito e além. 

Bem vindo, ano novo, hora de enterrar velhas neuras, superar velhas mágoas e seguir em frente. Como diz Fernanda, Alea jacta est.

domingo, 19 de julho de 2020

CdF s2e21: Arrumação

Nunca desejei que um final de semana passasse tão rápido. Nem mesmo o pit-stop no posto para calibrar os pneus da minha bicicleta a caminho da Lótus me fez mudar de humor e desejar tanto chegar. Assim que passei a portaria dona Vera veio me abraçar, dizer que fiz falta nas manhãs dela. Aquela teoria da Bethina de que ela nutria algum sentimento por mim cada vez fazia mais sentido, ou não, ela era uma pessoa de bom coração e temente ao deus dela, fazia o bem e sempre tinha um sorriso.

Como era de se esperar passei pela operação onde os poucos funcionários conversavam amenidades sobre o final de semana, sobre a atualização mais recente de algum jogo coreano... os nerds seguiam nerds. Cheguei no setor e Borges, em sua mesa, caneca de café preto fumegante olhava as estatísticas da rodada de futebol. Passei por ele deixando minha mochila na cadeira. Foi quanto fui notada.

- Fernando! - Tinha de aguentar mais um tempo com essa persona que não mais me pertencia - Resolveu voltar ao caos da cidade grande? - Sem nenhuma cerimônia ele me abraçou, correspondi ao gesto - Foi boa a viagem?

- ô, foi ótima - Desfizemos o abraço - Fui visitar minha mãe...

- ... E apresentar a nora pra ela?

- Basicamente. - Típico humor masculino, rimos brevemente - E como tão as coisas por aqui?

- Se arrastando... - Ele chegou mais perto olhando em volta - Mas tem algo legal rolando, ouvi dizer que...

- Eu já sei.

- Sabe?

- Claro, eu não seria da área de comunicação se não soubesse das coisas... inclusive já tenho um release pronto na cabeça, só preciso esperar o momento pra ter os detalhes exatos.

Liguei o computador sendo saudado pelo discreto papel de parede do shen-long e ícones posicionados ao redor da imagem ficando o cronograma na base do mitológico dragão. Não teria tempo de escrever nada agora. Em dois minutos tudo isso aqui ia mudar, de novo. Mesmo sendo digital eu podia ouvir o relógio em seu tic-tac, internamente o despertador tocou e veio o chamado para todos irem para a sala de reunião principal, no andar da presidência.

Saí rápido, queria estar na primeira fila para ver o que ia acontecer. Dos setores mais remotos da Lótus até aqui em cima não demoravam cinco minutos, mas tinha muita gente pra poucos elevadores, logo, quando bateram dez minutos o último técnico do setor de produtos chegou.

Henrique Arantes, homem de corpo franzino, terno mal cortado, parcialmente calvo estava no palco, microfone na mão, notebook conectado ao projetor. Começou dizendo o óbvio de que a empresa havia faturado menos do que o esperado e por isso cortes seriam necessários. Só agora tinha me dado conta de que Freya estava sentada do meu lado com seu inconfundível tailleur de grife e um belíssimo sapato loubotin com solado vermelho. Quando chegou nos gráficos extremamente mal feitos a submissa me cutucou jogando as sobrancelhas pra cima como quem diz para prestar atenção no que aconteceria dali em diante, antes que eu pudesse perguntar as duas portas do auditório se abriram atrás de nós.

- Prendam esse homem - Rafaela vinha elegante a um nível que jamais a vi, saia de couro branco colada ao corpo, meia fina, blusa preta por baixo de um blazer branco, cabelos soltos e nos pés um sapato do mesmo designer italiano - Tenho aqui as provas de que há fraude nesses balanços.

- C-como ousa entrar assim? - O atual CEO da Lótus ficou descompassado - Você foi demovida do conselho por...

- ... Por preferir o bem-estar do funcionário a um lucro absurdo para os acionistas - Dois seguranças entravam logo atrás de Rafaela no papel de Domme Rafaela que carregava uma pasta com papéis - Freya, me ajuda aqui.

- Pois não - A jovem pegou das mãos de sua senhora um pendrive que logo projetava uma apresentação super esmerada - A vontade.

- Então, meus caros funcionários - Rafaela tomou o microfone de Henrique Arantes - Eu fui retirada do conselho por dar mais vantagens a vocês do que o habitual do mercado, porém isso tudo refletia em mais produtividade, no entanto, fraudando balanços, esse homem convenceu os acionistas de que a empresa não estava dando o lucro esperado... - Ela respirou e eu puxei o celular para anotar os tópicos do futuro release - Levei alguns meses para recolher todos os documentos e conseguir me reunir com o conselho que, no final da semana passada, me reconduziu à presidencia da Lótus - Se caísse uma agulha no fundo da sala ela pareceria um disparo tamanho o silêncio que estava no ambiente - Seguranças, podem levar esse homem daqui, a viatura já o aguarda para levá-lo às mãos da justiça.

- Não ouçam essa louca - Os dois armários seguraram cada um em um braço do ex-CEO o conduzindo pelo corredor onde as expressões iam de surpresa à vingança realizada - Ela está mentindo, enganando todos vocês!

- Enfim - Logo que o homem foi conduzido para fora todos seguiam completamente perdidos e sem reação até que eu comecei um aplauso que logo ganhou força e todos aplaudiam - É muito bom ver todos vocês aqui... porém creio que faltam alguns não é mesmo? - A chave virou e a Rafaela-Domme saiu dando espaço para a versão mais humana - A partir de agora todas as demissões feitas nos últimos meses estão revogadas e eu irei, pessoalmente, entrar em contato com todos que foram demitidos propondo não só seu religamento à Lótus imediato como também um bônus pelo incômodo... - Ela sorriu dando uma sutil piscada para mim - De resto é isso, agora voltem ao trabalho... temos muita coisa pra fazer!

Os aplausos se intensificaram ganhando a companhia de alguns assobios. Ao fim daquela ovação todos voltaram aos seus postos, no elevador eu já escrevia o release com toda a velocidade para não perder nenhuma ideia que passava pela minha cabeça. Fui o último do setor a chegar, porém logo joguei o texto no computador, revisei e encaminhei para Borges dar seus toques pessoais. Mais uma revisada e o escrito rodou por todos os funcionários da comunicação antes de ser enviado à Freya que, prontamente, encaminhou à Rafaela.

A hora do almoço esse era o único assunto. Mesmo pessoas de empresas vizinhas perguntaram e a história foi se espalhando rápido. Amanhã, provavelmente, a imprensa já estaria ciente de tudo e querendo marcar entrevistas, afinal, a Lótus sempre esteve na vanguarda do ensino e da educação, era um dos tijolinhos dourados da reconstrução de tudo depois daquele governo desastroso.

Ainda tinha a chave do terraço, por isso resolvi fazer o pós-almoço lá. Meditar um pouco, agradecer aos céus tudo que havia acontecido... esse lugar aqui era um dos meus favoritos no mundo. Não era o prédio mais alto muito menos o mais bonito da região, porém sentia algo diferente nele e nem eram por minhas hortaliças. Algo místico. Foi quando o som de passos se fizeram atrás de mim, cadenciados, firmes, decididos. Dei espaço no banco.

- Senti falta desse lugar aqui... - Rafaela se sentou ao meu lado com um café daquela loja cara - Sua hortinha deu uma nova vida pra esse lugar.

- Verdade - Ela estava com o olhar sereno, típico de quem recupera o trabalho inteiro da sua vida em uma jogada de mestre - A propósito, parabéns, seu retorno triunfal foi legal de assistir.

- Gostou? - A dominadora não escondia o sorriso no canto dos lábios - Acredita que fiquei desde sábado a noite escolhendo roupa?

- Valeu a pena.

- Valeu?

- Valeu sim - A olhei com o canto do olho - Não faz muito o meu estilo, mas eu usaria numa boa.

- Me lembrarei disso quando você for minha executiva de comunicação - Ela riu - Soube que andou viajando...

- Sim, fui ver minha mãe.

- Apresentar a Bethina, imagino.

- Não só isso - Respirei fundo - Fui falar sobre tudo até aqui...

- Tudo... - Rafaela ficou pensativa um instante se virando em seguida - Tudo... Tudo?

- Tudo, falei da minha história até aqui, dos próximos passos, da transição e tudo mais.

- E ela?

- Ficou confusa - Tentei segurar uma lágrima fujona - Mas com o tempo ela vai entender...

- Vai sim, as mães sempre entendem nossas escolhas, às vezes demora um pouco, mas ao verem as crias felizes, elas entendem e aceitam... - Mordi o lábio por dentro, não queria que aquela lágrima virasse mais, Rafaela notou - Fico feliz de ter ajudado a lagarta a virar essa borboleta pronta pra voar... e quando vai ser o casamento?

- Ainda não pensamos em data.

- Quando pensar me avisa, temos uma política na empresa de dar bons presentes aos funcionários, aliás, falar nela, Bethina volta a trabalhar aqui ainda essa semana - Ela franziu a cara tentando parecer má - Não me decepcionem, nada de ficar se agarrando pelos cantos.

Gargalhamos nos levantando. Um abraço forte e tudo pareceu tão leve que o restante do dia passou voando. Logo estava em casa e depois outro dia e mais outro e Bethina ao meu lado foi como a cereja de um bolo da melhor delicatesse da Metrópole. Nem mesmo a ida à terapia nas semanas seguintes foi tão marcante e emblemática quanto aquela segunda-feira na parte final do inverno com cara de primavera.

CdF s2e20: Retorno

Viagens de ônibus sempre foram relaxantes, desde sempre, gostava de viajar, ver tudo ir ficando para trás diante dos meus olhos na janela. Não raro eu acabava dormindo e acordando já no destino. Hoje penso que os sons dentro do veículo são como ASMR que meu corpo encontra uma mansidão gostosa.

Mas, dessa vez, desejei que motorista ultrapassasse os limites de velocidade e chegasse antes. Tinha tantas coisas para resolver na Metrópole que estava quase pedindo pra ir correndo na frente, tamanha minha ansiedade. Ao meu lado Bethina cochilava com os fones enterrados na orelha. Na tela do telefone podia ver que era um dos incontáveis podcasts sobre design que ela tanto gostava de ouvir.

A cada quilômetro a quantidade de edificações deixava evidente da aproximação do destino. Já reconhecia uma ou outra silhueta de prédio, nome de rua e, quando o ônibus virou bruscamente para a direita a rodoviária se tornou uma unidade no horizonte. No mesmo instante que estacionamos Bethina acordou. Conhecendo-a como conheço sabia que ela odiava ouvir palavras nos primeiros minutos depois de despertar. Ela se espreguiçou olhando pela janela.

- Chegamos? - Fiz que sim com a cabeça - Boa menina, aprende rápido.

Ri fazendo caretinha. Ela tirou os fones enrolando e jogando na minha mochila. Fiz o mesmo. Pegamos nossas bagagens e chamamos um carro pelo aplicativo. Ambas estávamos cansadas e o motorista notou isso ficando em silêncio quase toda a viagem. A cidade com pouco trânsito fez o trajeto ser cumprido em menos de uma hora quando o normal seriam uma hora e meia.

Tiramos as malas. Subimos ao nosso andar. Abri a porta do apartamento. Bethina foi reto para o banheiro e eu fui ver se tudo estava no seu devido lugar. Mania de quem viaja achar que a casa vai mudar algo. Devia ser algum tipo de TOC ou algo semelhante. Por sorte tudo estava no seu lugar. Reboquei as malas até a lavanderia já tirando as peças e jogando na máquina de lavar.

- Tô morrendo de fome, quer uma pizza? - Bethina veio na minha direção - Aliás, você nem notou que dia é hoje né...

- Pizza é uma boa - Liguei a máquina de lavar - É domingo, amanhã já volto ao batente.

- Não coisa loira - Ela riu pegando o celular - Hoje é sexta, tem o final de semana inteiro ainda... vai tomar um banho enquanto eu peço a pizza.

Ri pegando meu telefone. Estranho, jurava que já era domingo, mas que bom. Entrei no banho e lembrei que meu pijama estava lavando. Nada muito demorado, pela diminuta janela do banheiro notei que já era noite. Ao ir pro quarto uma camisola que se estendia até abaixo dos joelhos me esperava na cama. "De volta ao normal" pensei vestindo ela. Parei um instante na frente do espelho da porta do guarda-roupas. O material não era o mais requintado, mas era confortável e deixava a impressão de não estar usando nada, além disso acompanhava um roupão para usar por cima. Escovei o cabelo displicentemente e voltei à sala. Bethina estava olhando o catálogo do serviço de Streaming.

- Sua vez, aproveita que deixei o banheiro quentinho.

- Não vou precisar de pé de pato né? - Rimos enquanto ela se levantou passando por mim - Puta merda, como você é gostosa amor, se não estivesse cansada te comia aqui mesmo.

- Cansada do que? Foi você que veio dirigindo?

- Besta - Ela me roubou um selinho - O dinheiro da pizza ta ali em cima da mesa, pedi duas e ganhei uma brotinho doce, meia chocolate e meia prestigio além do refrigerante.

- Ótimo uso dos P do marketing.

- Nossa, depois dessa vazei.

Gargalhei enquanto Bethina entrou no banheiro. Coloquei a primeira música que o YouTube me recomendou, fiquei entretida olhando o clipe e o celular tentando saber se era real e oficial o que Bethina tinha me mostrado. Mas ninguém respondia. Provavelmente estavam em suas festinhas privadas. Aproveitei pra mandar mensagem pra terapeuta que respondeu perguntando se trouxe as conchinhas dela. Pior que tinha. A música dos anos noventa só foi quebrada pela campainha. Meu coração parou por um instante. Eu precisaria atender a porta. Puta merda. Respira Fernanda, respira. Assume logo essa mulher maravilhosa que você nasceu pra ser. Um. Dois. Três. Vai. Me levantei pegando o dinheiro na mesa e arrumando o robe por cima de tudo. Destranquei a porta.

- Foi daqui que pediram uma de lombo com catupiri e outra a moda da casa? - A bolsa era muito maior que o entregador, entreguei o dinheiro e ele as pizzas, pareceu uma troca justa - Valeu, boa noite, dona.

Corei suavemente. Fiz questão de demorar alguns segundos pra fechar a porta, queria ver se ele olharia de novo. Dito e feito, uma olhada rápida por cima do ombro esquerdo me fez ser inundada por um sentimento bom. Bethina com a toalha nos cabelos assistiu toda a cena sem comentar uma só palavra. Ela trajava o pijama.

- É gostoso isso né? - Ela veio na minha direção pegando uma das caixas e o refrigerante - Essa coisa de se sentir bonita... desejada... acredito que seja algo novo pra você.

- Vou parar de ir na psicologa - Coloquei a outra caixa na mesa - Você anda manjando mais que ela.

- Não viaja, Fê - Ela já colocava os pratos na mesa - Acredito que quando vivia como menino você nunca se sentiu assim...

- Assim como?

- Bonita.

- Só nas vezes que invadia o quarto dos meus pais.

- Fazia a imagem do espelho saltar - Bethina colocou os copos e destampou as pizzas - Mas nunca teve a aprovação fora dele né...

- Pelo visto alguém andou estudando - Servi o refrigerante pra nós duas - Mas sim, até a Rafaela uns tempos atrás e, principalmente você, eu não teria chego onde cheguei... não estaria pronta nem preparada pra dar o maior salto de fé da minha vida.

- É bom te ouvir dizer isso e que bom que eu posso estar aqui pra te ajudar.

- Te amo, Bê - Tomei a mão dela na minha e dei um beijo suave - Agora 'bora comer antes que esfrie.

Jantamos conversando sobre coisas da viagem e do quanto nada mudou na nossa ausência o que comprovou, pelo menos pra nós, que sem a gente aqui o mundo não mudaria. Porém uma coisa que eu não julgava ser possível de acontecer havia acontecido no nosso período sabático. Seria mais uma virada em minha vida e, quem sabe, na de Bethina também. Mas era algo a se ver segunda-feira. Agora respirei fundo e tratei de relaxar com a escolha cinematográfica de minha cúmplice.

sábado, 18 de julho de 2020

CdF s2e19: Encaixe

A buzina do barco significou o fim daquelas pequenas férias, importantes não só para descansar como também para Fernanda colocar seus demônios sob seu controle. Tantos anos planejou àquela conversa e quando ela veio foi algo tão leve que se sentiu idiota de ter ficado tanto tempo protelando. 

Conforme o veículo se afastada do pier onde Sônia havia ficado Bethina ofereceu o colo à noiva ciente de que aqueles dias todos seriam o gás que precisava para encarar uma nova realidade. Muito embora uma mensagem, recebida no dia anterior a fez sorrir e ficar mais leve. Era algo tão incrivelmente bom que não conseguia imaginar como aconteceu, porém, assim que chegasse marcaria um café com a portadora de boas notícias. Mas esperaria chegar na Metrópole para as boas novas.

A travessia entre a ilha e o continente não costumava demorar mais do que quarenta minutos, uma hora se o mar estivesse mais agitado. Por ser fora de temporada haviam poucas pessoas na embarcação, meia dúzia de nativos, outra meia dúzia de turistas além do casal que não notava os olhares de estranhamento de um homem de idade aproximada dos cinquenta anos.

Uma vez atracado no continente todos os ocupantes desembarcaram tendo em Bethina e Fernanda os últimos a saírem do veículo. Caminhavam conversando alegremente sobre bons ensaios que fariam na próxima visita à ilha, sem nenhum pudor Fernanda dizia quais vestidos usaria e em quais horários, Bethina, por sua vez comentava ângulos de câmera, valores de exposição e detalhes técnicos. Ao sentarem para esperar o ônibus que as levaria até a cidade próxima onde passariam a noite para, só então, voltarem à Metrópole o homem não se aguentou.

- Chega a ser um desperdício uma mulher dessas com um viadão desses...

- Como é que é? - O espírito guerreiro de Bethina inflamou - Tá falando com a gente?

- Além de viadão é frouxo - o homem escarrou no chão em um ato que, na sua cabeça, significava desprezo - Não se fazem mais homens como antigamente... no meu tempo mulher minha não ia nem sair na rua com uma saia tão curta.

- Repete - Fernanda deixou a testosterona que ainda circulava nas veias dominar a ação se levantando e indo na direção do homem - Anda seu monte de bosta, repete.

- Olha só, a bichinha resolveu virar homem - O algoz gargalhava frente aos olhares perplexos do outro casal de turistas que aguardava o mesmo ônibus - Começa cortando esse cabelo, puta cabelo de viadão.

- Deixa pra lá, amor - Bethina respirou um segundo deixando o sangue esfriar - Não vale a pena brigar com um frustrado desses...

Quando Bethina deu um passo para o lado o homem passou como um vulto pelo seu lado indo na direção de Fernanda que, rememorando suas aulas de karatê na infância, desviou do golpe batendo com o ombro no queixo do agressor. Como se fosse um golpe de luta livre a morena fez posicionou as duas mãos para segurar o homem enquanto Fernanda lhe aplicava uma rasteira para, em seguida, imobilizá-lo. Toda a cena não durou mais do que dez segundos, mas para o casal foi epifania de que o relacionamento estava em perfeita sintonia.

Os outros dois que não participaram da briga, nesse meio tempo, haviam acionado a polícia que chegava para levar o homem. Queixa e flagrante. Desde que o antigo governo tinha sido varrido para fora do poder as poucas células de intolerância que restavam iam sendo dissolvidas. Os que não demonstravam aptidão em aprender a, no mínimo, aceitar que aquele tipo de pensamento não tinha mais vez no mundo atual, eram convidados a se retirar da sociedade. Soava um pouco ditatorial, mas era a única forma que o novo governo encontrou para resolver a situação diante da terra arrasada que encontrou.

Passados os instantes acalorados naquela tarde de final de julho os dois casais seguiram juntos para a cidade. Eles eram de lá mesmo, trabalhavam no setor portuário mas almejavam ir para o setor de logística ou até mesmo comunicação. Esse foi o mote para longas horas de conversa regados à boa comida e bebida gelada.

Já instaladas no hotel enquanto Fernanda estava no banho Bethina respondia às mensagens que recebia. Ao sair do banho a recém-empossada mulher quis saber o que tanto a noiva falava no celular. A morena se recusava em dar um fim às dúvidas, apenas dizia que sentia algo bom vindo no horizonte e era melhor elas dormirem pois o ônibus saía ao amanhecer.

Uma vez instaladas e ganhando a estrada Bethina não cabia dentro de si tamanha a alegria que tinha na palma da mão, Fernanda, em um lance rápido, tomou o celular da noiva e foi procurar, sob protestos, o que trazia tantos sorrisos ao rosto dela. Leu diversas mensagens aleatórias até chegar em um nome específico. Reconhecia a foto. Ousou ler.

- É sério isso?

- Sim! Seríssimo!

- Puta merda... - Fernanda não conteve as lágrimas - Motorista, acelera isso que estamos com pressa!

Nunca desejou tanto estar em um avião indo de Mar Redondo para a Metrópole. Tanta coisa para resolver e tantos quilômetros adiante, oito horas de estrada pela frente e um dia inteiro em casa para poder desarrumar as malas e lavar a roupa. Tentou enviar mensagem do seu número para a portadora de boas notícias, mas o sinal era péssimo e, entre ter uma crise de ansiedade e aprender a esperar, optou pela segunda e se deixou cochilar. Tudo estava, finalmente, se encaixando.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

CdF s2e18: Mansidão

Ver Fernanda na água, brincando de pular ondas me fazia sorrir. Puxei o ar sendo brindada pelo cheiro salgado do mar e de café. Sônia, mãe dela vinha com uma térmica e duas canecas.

- É uma pata né? - Ela se sentou ao meu lado na pedra - Posso te confessar uma coisa, minha filha?

- Claro! - Uma das xícaras veio à minha mão e logo a bebida dos deuses se fez presente - Sou toda ouvidos.

- Não fala pra ele... ela... mas eu ainda tô bem confusa com tudo isso sabe?

- Sei e te entendo perfeitamente...

- O desabafo é meu mas pode falar se quiser - Brindamos com café - Acredita que não consegui ensinar ela a beber isso aqui?

- Ah, nem me fala - Suspirei bebendo um gole e todo aquele vento gelado dissipou - Quando fui no apartamento dela eu estranhei.

- Aproveitando o ensejo - Ela bebeu um gole e a reação foi igual a minha - Como vocês se conheceram?

- A gente trabalhava na mesma empresa, papo vai, papo vem... ela é minha melhor dupla de criação, ela é, como redatora, o que eu sou como designer, nos completávamos tão bem que fomos notando afinidades e um dia ela torceu o pé e tirou uns dias de folga, quando fui lá, já com más intenções - Ri ruborizando um pouco - Acabou que nos conhecemos melhor...

- E ela já foi te falando desses... - Ela ponderou um instante - Desejos?

- Não! Isso eu fui descobrir na manhã seguinte... 

- Manhã seguinte - Dona Sônia franziu o cenho - Esses jovens de hoje - Rimos - Mas continue.

- ... Então, na manhã seguinte eu fui fuçar, porque na minha cabeça eu tava 'como que um cara legal desses, bonito, com um apartamento tão bem cuidado não tem ninguém?' e cheguei no guarda-roupas, achei saias, vestidos, sapatos... - A sogra tentava achar normal, mas a situação ainda era incômoda para ela, não tiro a razão - ... Fui pro conflito, falei que ela tinha alguém e tudo mais...

- E aí? Ele... ela confessou tudo?

- Não, ficou quieta e como eu também sou sangue quente saí de lá... resumindo: o stress da situação fez meu apêndice estourar e fui às pressas pro hospital, fiquei quase uma semana internada e sem conseguir falar com ela.

- Nossa senhora - Sônia deu um gole curto no café - E aí?

- Aí eu expliquei que não sumi por vontade própria, pressionei e ela assumiu tudo... foi bem... chocante... - Bebi um gole longo, puta merda como eu amo essa bebida - Por isso te entendo, sei o quanto é assustador tudo isso, ainda mais com filho, mas, com o tempo, você nota que é a mesma pessoa, não mudou, tudo o que você gostava nela está ali ainda e tem um milhão de coisas novas pra gostar... - Bebi mais um gole - Ou não, e assim é a vida.

- Nossa - Olhei para o lado e ela chorava copiosamente - Você devia trabalhar de terapeuta, leva jeito.

Nos abraçamos evitando desperdiçar o café já semi frio nas xícaras. Se para mim, que logo cedo, me descobri bissexual com preferência em meninas já foi difícil ter aceitação em casa, imagina isso, de repente o filho único vira... filha. O baque ia ser foda e era algo que ela só podia aceitar sozinha.

- Desculpa perguntar isso... - Desfizemos o abraço - Mas... a senhora é divorciada né?

- Eita - Ela enxugou a lágrima - Senhora é sua vovózinha - Rimos - Mas sim, nos separamos tem mais de dez anos...

- E o pai dela, por onde anda?

- Não sei ao certo, perdemos contato, mas a última vez que soube ele estava saindo do Uruguai e ia para o Chile, dizia querer conhecer o Atacama e quem sabe ser abduzido pela espaçonave que o trouxe...

- Sério?

- A parte da espaçonave é brincadeira, ele sempre gostou dessa coisa de alienígenas e tals - Ela sorriu um sorriso saudoso - Mas a parte do Chile sim.

- Que doideira... Ela nunca fala dele.

- Normal, o divórcio foi um tanto traumático pra ele - Ela passou a olhar o horizonte - Do nada as fundações da vida somem, até me admira que vocês estejam de anel e tudo - Olhei para meu anel - Ele sempre disse que não ia casar e tudo mais... digo, ela - Um longo suspiro - Vou demorar pra acostumar.

- Mas logo acostuma, eu precisei de uns dias pra assimilar tudo também...

- Ah, mas você é jovem - Ela se serviu de mais uma caneca de café - Vocês aprendem tudo rápido.

- Nahhh - Fiz careta - Fui fazer terapia pra aceitar bem...

- E aceitou? - Ela me olhou de canto - Quero dizer, está sendo, como dizem vocês jovens, de boa?

- Nem tanto viu, tem dias que é um pouco difícil assimilar tudo ainda...

- Se é difícil pra gente - Dona Sônia tomou um farto gole da bebida enquanto Fernanda ia saindo da água e vindo na nossa direção - Imagina pra ela - Eu não tinha resposta pra isso - Mas sei que vai cuidar bem dela.

- Sabe?

- Claro que sei.

- E como tem tanta certeza?

- Se não cuidar eu quebro sua cara - Ela me olhou rindo - Olha que imensidão de lugar pra enterrar um corpo... brincadeira, vejo que você é uma pessoa do bem, Bethina, vai ficar tudo bem.

Realmente essa viagem não era só para Fernanda, era pra mim também. O tanto de coisa que eu acabei descobrindo e encontrando aqui era, sem sombra de dúvidas, muito mais do que eu esperava. Dentro de mim uma mansidão se fazia vendo ela vindo, aspirei profundamente aquele ar delicioso. Foda-se minha cidade natal ou a Metrópole, aqui era meu novo lugar favorito no planeta. Essa senhorinha do alto dos seus sessenta e poucos anos me trouxe algo que eu não tinha, algo que eu não conseguia definir bem na bagunça que é a vida em uma grande cidade, a voz calma, a confusão em entender tudo, o café quase sem açúcar... acho que ganhei uma segunda mãe.

terça-feira, 9 de junho de 2020

CdF s2 e17 - Sujeira

- E aí - Bethina se sentou do meu lado na pedra em frente do mar - Como se sente?

- Como se tivesse tirado o mundo inteiro dos meus ombros.

- Não posso dizer que sei como é, mas acho que foi mais ou menos como quando falei pra minha mãe sobre gostar de meninas...

- Somos um nicho interessante - Ri arrumando uma mecha de cabelo que o vento insistia em tirar de trás da orelha - Quer dizer, eu sou o nicho do nicho.

- Mas ela nem se acha - Ela fez careta rindo em seguida - Falando um pouquinho sério agora... fiquei muito feliz pelo passo que você deu aqui, eu imagino que era isso que faltava para que se sentisse melhor...

- Era sim - Mexi os ombros - Era tudo que eu precisava para dar o próximo passo...

- Que vai ser?

- Você sabe - Hesitei um segundo - Transicionar.

- Muito bom te ouvir falar isso, sabe?

- É?

- Sua psi falou que a voz tem um poder fundamental na aceitação e compreensão das coisas, por isso falar, com a voz é fator primordial para que tudo se encaixe... tipo quando a gente estuda pra prova e conversa sobre com alguém.

- Faz sentido.

- Claro que faz, sou eu que estou dizendo.

- Ah, bem eu que me acho né. - Rimos - 'bora tomar um banho de mar?

- Cê ta doida, menina? Ta mó frio.

- Frio?

- Tô morrendo de frio, até toparia aquele teu chá fraco agora...

- E depois eu que sou fresca - Me levantei soltando o nó do vestido na nuca e o deixando cair revelando meu maiô roxo escuro, com o canto do olho notava Bethina me olhando, resolvi provocar - Que foi?

- Que bunda linda, puta merda, se não fosse minha noiva eu ia ter que te inventar... que ódio da sua bunda.

- Falou quem tem uma bunda mais redonda que a minha.

- Calaboca, vai logo nadar antes que eu te jogue na água.

Sabia que Bethina jamais teria força para me levantar e jogar no mar, mas o vento começava a mudar de lado e logo o frio viria tornando meu banho completamente impossível, no primeiro mergulho me virei para a imensidão agradecendo tudo que estava acontecendo. Não sei quanto tempo fiquei ali, em uma espécie de oração com o oceano. Quando saía da água pude ver minha mãe se aproximar de Bethina, conversarem algo e ela sair. Fiquei encucada nadando até a pedra.

- A água não ta gelada não? - Ela sorria me vendo sair e entregando uma toalha - Você sempre esqueceu da toalha...

- Obrigada - Sequei o corpo e deixei a toalha sobre os ombros - A água tá começando a esfriar, esse inverno vai ser frio.

- Provavelmente...

- Tem algo te incomodando, dona Sônia - Sabia reconhecer as microexpressões dela - diz ae.

- Eu passei os últimos dois dias lendo sobre o que você vai fazer, li relatos de pessoas que passaram pelo processo todo e... - Ela não conteve uma lágrima - Eu não sei o que pensar sabe? Quando você me mandou mensagem dizendo que vinha passar duas semanas aqui meu coração ficou radiante e apertado duma saudade estranha, eu sentia que vinha algo aí... E quando falou que ia trazer alguém achei que ia ser... - O choro foi interrompido pela face ruborizada - ... Um outro cara.

- Ah, mãe... - Ri em meio às lágrimas - Por muito tempo eu pensei que fosse gay ou algo assim sabe? Lutei comigo mesma, cheguei a ter algumas experiências... Digamos assim exóticas... Mas no fim a que mais faz sentido, a que me acalmou o espirito é como estou hoje.

- E por que nunca me falou sobre?

- Essa é a pergunta de um milhão de dinheiros... - O frio tomou minha espinha, mordi o lábio inferior pensando em quais palavras usar, como concatenar as ideias - Em parte porque nem eu sabia onde ia chegar, qual era o objetivo disso tudo, por que eu... - Respirei fundo - E em parte porque eu sentia aqui dentro que eu devia ser alguém antes de fazer qualquer coisa, ter um bom emprego, estabilidade financeira, um canto só meu...

- ... Acho que tenho que te pedir desculpas, então.

- Como assim?

- Sempre te cobrei tudo isso antes de querer ser quem se é, sempre disse coisas como 'pra ter seu lugar tem que ser alguém primeiro' - Ela não conteve às lágrimas, muito menos eu - Você me perdoa, filho?

Não consegui responder. Tudo que fiz foi chorar e abraça-la tão forte que pouco importava se eu estava molhada ou ela tivesse me chamado de filho, era impossível pra mim mensurar a avalanche de informações que ela havia recebido nos últimos dias e tinha que lidar assim, do nada. Perdi a noção de quanto tempo se passou, sei que quando reabri os olhos já estava escuro, a noite caiu tão pesada e rápida que as estrelas já polvilhavam o céu. Desfizemos o abraço, recoloquei o vestido e fui ofereci a mão.

- Não tem nada que pedir desculpa... - Começamos a caminhar até a casa - Vai parecer presunção... Mas faz terapia um tempo, ajuda pra caralho pra colocar os pensamentos em ordem.

- É uma... - Ela apertou minha mão - Você ta fazendo?

- Tô sim, a empresa paga uma muito boa... Falando nisso, a senhorita anda se cuidando né?

- Ando sim, mas não tomo mais os remédios - Fiz menção de falar algo - Esse cenário, minha casinha, o quintal... Vale mais que qualquer terapia.

- Dona Sônia dona Sônia - Entramos no carreiro que ia até a casa - Mas pelo menos marca com a doutora Pâmela... 

- Nossa... Você foi nela um tempão atrás... É desde aquela época?

- As dúvidas e questionamentos? Sim...

Entramos no pátio sendo saudadas pelo magnífico cheiro de molho carbonara feito pela Bethina. Nadar sempre me deixou com fome. Mas antes precisava de um banho pra tirar o sal da pele.

- Arrumei uma nora prendada - Sem a menor cerimônia minha mãe abriu a porta, Bethina dançava ao som de tell'me bout it, eu já conhecia aquele nível de felicidade dela ao cozinhar - E ao que tudo indica boa dançarina.

- Bondade sua, sogrinha.

- Quer ajuda? Aliás - Dona Sônia me olhou - Vai tomar banho, criatura que eu botei no mundo.

Não ousei questionar. Afinal, mães não se questionam, se obedecem. Passei pelo quarto e peguei uma calça mais larga e uma camiseta. Afinal, estava ficando friozinho e eu não pretendia sair de novo. Era notável o quanto essa casinha evoluiu desde a última vez que estive aqui, o banheiro agora tinha azulejo até o teto, o box era novo, fora as toalhas com cheiro de amaciante. Quando aquela ágora morna molhou a primeira camada do meu corpo senti o peso completo de tudo escorrer de meus ombros e seguir pelo ralo, como se fosse sujeira saindo do corpo. Pensando assim era uma boa metáfora. Nossos medos são sujeiras. Algumas persistentes. Algumas irremovíveis. Algumas chatas. Mas todas sujeiras. Mas uma sujeira que só sai com o sabão certo.

No meu caso, as lágrimas de felicidade.