domingo, 30 de junho de 2024
DDD
sábado, 5 de fevereiro de 2022
CdF - Outras histórias: Hello World
Dois anos haviam se passado desde aquele período onde Rafaela foi afastada do conselho da Lótus. No regresso dela a empresa sofreu financeiramente com alguns acionistas debandando, porém no começo do segundo ano um dos maiores grupos educacionais do mundo viu potencial e investiu pesado, o que permitiu um crescimento ainda maior com todos os benefícios aos funcionários que a mandatária gostava de manter.
Outra tarde de sexta começava e, no setor de comunicação a baixa demanda daquele dia permitia inúmeras conversas paralelas e revisão de conteúdos já aprovados, variações de peças já usadas em outros anos para servirem de gaveta ou um mero referencial. Desde a saída de Borges, Bethina assumiu a chefia do setor e, na estante ao fundo da sala podiam se ver alguns troféus em premiações de comunicação, ainda faltava o peixe grande que viria da Riviera Francesa, porém todos ali sabiam que ele viria, mais cedo ou mais tarde.
Dois andares acima Pablo, um dos responsáveis por manter o site da Lótus funcionando bebericava uma caneca de café pensativo. Haviam dias que ponderava se deveria dar esse passo, esse salto no escuro. Lembrou-se de um dos seus personagens de jogos preferido, onde ele subia as torres mais altas e pulava em uma carroça com feno, esse era o salto de fé. Ajustando os óculos que insistiam em correr pelo nariz o jovem de cabelos escuros, pele branca, corpo com IMC dentro do que se tem por normalidade e vinte e três anos de idade abriu uma tela extra além do compilador java que denunciava dezenas de erros no código, menos mal, antes eram centenas.
Com dois cliques em um ícone logo abaixo da lixeira ele abriu o software de envio de mensagens para qualquer pessoa na empresa, tudo de forma criptografada e usando os próprios servidores da Lótus como motor, nada estava na internet dentro desse programa. Correu a lista de possíveis nomes. Ana, Beatriz, Bethina, Carlos, Eduardo, Fernanda, Freya. Parou. Um clique decidido em cima do nome da redatora senior do setor de comunicação. Digitou uma frase e ponderou se devia enviar. Um alt+tab e a compilação ainda estava em curso tinha mais alguns minutos de espera que poderiam ser buscando mais café ou dando o salto de fé.
- Dona Fernanda - Optou pelo salto - Posso falar com a senhora?
O silêncio o sufocou mais que o dia em que, por uma miserável ponto-e-vírgula toda a parte responsiva do site parou de funcionar. Foram os dezesseis minutos mais tensos de sua vida até agora. Online. Digitando.
- Claro - Do outro lado da tela Fernanda tentava entender o que alguém do T.I. queria com ela, será que tinha clicado em algo que não devia? - Pois não? - Um instante se passou, Pablo, agora com a respiração mais cadenciada pousou as mãos sobre o teclado, seu ímpeto foi congelado - Mas antes - Parada cardíaca do jovem - Sem essa de senhora, não sou tão velha assim haha.
O suor frio correu a espinha por todas as suas vertebras mesmo com o ar condicionado ligado. "Respira fundo, vai, agora você consegue." pensava enquanto as mãos voltavam para o teclado.
- Gostaria de conversar com você, se possível pessoalmente... tem como?
- Tem sim - Fernanda franziu o cenho pensando na frase de Bethina que um dia a curiosidade a levaria à ruína, claro que ela dizia isso em um contexto do eterno jogo de RPG que nunca terminavam - Onde?
- Aqui na T.I. tem muita gente.
- Aqui na comunicação só tem gente haha - A redatora ajustou uma mecha de cabelo atrás da orelha percebendo que poderia ser algo grave - Eu conheço um lugar... você tem como sair agora?
- Tenho, me dê cinco minutos.
- Perfeito, te encontro na porta do seu setor.
- Beleza.
Pela cabeça de Fernanda passou um milhão de coisas, desde um admirador secreto até alguém que descobriu o segredo da Rafaela e queria saber o que fazer com a informação, enquanto subia os dois andares pelo elevador pensava porque ela, em meio a dezenas de funcionários, tinha sido a escolhida. Talvez porque fosse uma das funcionárias mais velhas da empresa, quase... seis anos. Bastante tempo. Quando parou na porta do T.I. podia sentir o ar gelado vazando por baixo da porta e pensou que ali deveria estar metade de conta de luz do prédio inteiro. A porta se abriu e o polo norte vazou um instante.
- O-obrigado por vir - Pablo tinha o olhar caído - Dona Fernanda.
- Esquece essa coisa de dona - Ela tocou sutilmente o ombro do rapaz - Me chama só de Fernanda.
- Ta bem... Don.. Fernanda.
- Melhor assim - A redatora sorriu - Vem, conheço um lugar ótimo para conversar, sem distrações.
- Onde?
- Lá em cima.
- Em uma das salas de reunião da presidência? - O jovem acompanhava Fernanda que trajava uma saia longa que lhe deixava apenas os pés fora do tecido e, na parte de cima uma blusa com estampa desbotada. - Mas... lá não é... só da presidência?
- Não, é mais pra cima - Do bolso da saia Fernanda tirou a chave que tinha cópia faziam seis longos anos - É no terraço.
- No terraço? - Pablo estranhou que Fernanda tivesse a chave, porém tinha ouvido falar da horta que havia ali.
Tão logo a porta foi aberta a brisa jogou os cabelos de Fernanda para trás como uma onda. Já pablo, com camisa social, calça jeans e cabelo cheio de gel pouco foi afetado pelo vento. Um pequeno corredor entre painéis solares e uma horta com alface, couve, morangos além de temperos diversos culminava em um par de bancos com vista para a área não tão povoada da Metrópole. Sentaram-se.
- Então, o que queria conversar?
- Eu... - Pablo não sabia por onde começar, tinha ensaiado essa conversa tantas vezes na sua mente que agora estava procurando a palavra, era como se o seu código-fonte tivesse um erro crasso e não mostrasse nem mesmo um hello world. Respirou fundo uma, duas, na terceira a compilação da sua linguagem funcionou - Desculpa falar assim... Mas, desde que descobri que a senhora... digo, você é uma mulher trans eu...
- Tem curiosidade em saber como é? - Fernanda sentiu um pouco de raiva do rapaz na sua frente, era mais um nerd curioso querendo saber se ela tinha cortado o pau fora, se sentia prazer, se toparia alguma coisa a mais, ela ponderou sair e cantar a pedra à Freya que tomaria a decisão em demitir ou não - É sério, me fez sair do meu posto por uma curiosidade adolescente?
- Não não, calma. - Pablo tentava compilar o código da fala o mais rápido que conseguia - Aqui - Ele pegou o celular, desbloqueou e abri as fotos - Eu às vezes gosto de me montar como menina e...
- ... E você acha que pode ser trans? - Fernanda respirou profundamente mal olhando a tela do pequeno aparelho, não era a primeira vez que via algo assim - Sugiro você procurar uma psicóloga, o plano de saúde da firma tem umas ótimas.
- Não, não é nada disso - O rapaz tentava controlar sua oxigenação para que pudesse ter clareza no pensamento - Eu gosto de ser homem, eu só queria... sei lá, uma amiga.
- Estou ouvindo - Fernanda baixou a guarda, ele parecia com ela, anos atrás - O que exatamente espera?
- Eu moro em uma quitinete a meia cidade daqui, vim do interior do estado trabalhar na Lótus, mesmo morando aqui faz alguns anos eu não tenho amigos... - O olhar de Pablo se iluminou - Porém quando eu soube da sua história, da sua jornada eu fiquei... impactado.
- Impactado como?
- Bem... - Um sorriso se desenhou no canto dos lábios dele - ... Eu li o seu livro e gosto da ideia ser crossdresser, porém sozinho não tem graça...
- Bom, você tem a internet inteira né?
- A internet é legal, mas falta... humanidade.
- Saquei. - Fernanda ainda tentava pensar o que faria por ele. - Mas assim... beleza, a gente é amigo e aí? Você vai querer que eu vá na sua casa e fique te vendo se montar?
- B-bem - A ideia de Pablo em linhas gerais era essa, no entanto lembrou do Altaïr e resolveu dar seu segundo salto de fé do dia - Eu acabei vendo nas suas redes que você e a dona Bethina vão em eventos de anime... cosplay e essas coisas...
- E você quer uma carona?
- É... sei lá, algo assim...
- Alguém junto para te dar coragem de sair do armário.
- Tipo isso, mas sem a parte do armário, eu estou de boa com minha sexualidade...
- Então o problema são só as roupas?
- São, como vim de uma cidade muito pequena eu fico encucado com isso, fico achando que é errado e...
- Tudo bem - Fernanda entendeu o ponto dele, se tivesse tido esse apoio desde o começo talvez as coisas tivessem sido menos traumáticas e demoradas - Só que eu vou precisar falar com a Bê primeiro... mas ela é... de boa... que dia é hoje...
- Seis...?
- Ah, perfeito, a TPM dela já foi, fica mais fácil de domar a fera.
- Então...?
- Eu vou te ajudar, vou testar meus dotes de maquiadora - Fernanda, enfim, olhou as fotos com mais esmero - E vou te passar o contato de uma mina que faz roupas sob medida, mas relaxa, ela é bem discreta e não é careira... foi ela que fez meu vestido de noiva inclusive.
- Sério? - Pablo tinha os olhos marejados por trás dos óculos - Só...
- Eu sei, não vou falar com ninguém, só com a Bê... me adiciona aí na sua agenda que, durante o final de semana, quem sabe, marcamos algo.
Se abraçaram enquanto Pablo voltava a agradecer Fernanda. Caminharam sendo brindados pela brisa Leste-Oeste que, ela jurava, sentir o cheiro do mar vindo junto do vento. Antes de passar pela porta ela pegou um galho de manjericão, molho de tomate ficava infinitamente mais saboroso com ele.
Ao fim da pequena escada que levava do andar da sala da presidência ao terraço se despediram. O jovem entrou no elevador enquanto Freya, no fundo do corredor olhava fixamente para Fernanda que a cumprimentou com um aceno de cabeça. A secretária leal de Rafaela fez um gesto como quem diz que está de olho. A redatora fez uma careta e mostrou a língua relembrando o que já tinham vivido juntas. Quer dizer, Fernando viveu, Fernanda meio que só assistiu. Por oito andares ela pensou em fazer uma sessão com Rafaela, Freya, Vali e aquele outro rapaz que aparecia esporadicamente na cobertura. Será que Bethina toparia? Soltou o ar pesadamente voltando ao setor de comunicação que estava idêntico a pouco menos de uma hora atrás. Menos mal.
sexta-feira, 30 de abril de 2021
CdF - Epílogo
Epilogo
sexta-feira, 23 de outubro de 2020
CdF s3e2: Pedal
segunda-feira, 10 de agosto de 2020
CdF s3e1 - Surpresa
Ainda lembro da primeira crise forte, foi no meio da noite com Fernanda tossindo muito, antes que eu pudesse ampará-la ela saiu para o banheiro e a tosse cessou. Sorri aliviada esperando o sono voltar... mas algo dentro de mim não deixou. Da fresta da janela vinha o ruído típico da Metrópole acordando com uma fina brisa que dava ao sexto dia do ano um ar de outono. Me levantei indo até a porta do banheiro fechada que vazava luz por baixo. Bati uma vez. Silêncio. Bati duas. Nada. Bati a terceira.
- Amor - Falei em tom preocupado voltando a bater - Tudo bem aí?
Silêncio. Com o histórico dela eu odiava o silêncio. Já ponderava como faria pra arrombar a porta e levá-la às pressas pro hospital. Testei a fechadura. Não estava trancada. No fundo do box podia ver uma silhueta abaixada sentada no chão. Meu primeiro pensamento - e que se tornou ação - foi me aproximar.
- Fica longe - A voz desafinada tomou conta do ambiente - Vai embora! - Os soluços de choro se misturavam às ondas sonoras que preenchiam o diminuto cômodo - Eu sou uma aberração!
Tinha dito à psicologa que saberia lidar com as prováveis crises dela durante a parte medicamentosa da transição, mas vê-la se chamar de aberração foi como uma faca entrando no meu peito. Naquele momento tudo que podia fazer foi abraçá-la até a crise passar e dormimos ali mesmo. No dia seguinte ela me pediu desculpa.
Os dias que se seguiram também não foram fáceis. Quase toda noite, nas mais variadas intensidades, Fernanda se achava uma aberração, um ser entre o masculino e o feminino. Toda a puberdade condensada em um ano e meio, talvez dois anos. Pesquisei o que fazer. Perguntei à psicologa e as duas voltaram com o mesmo resultado: só o tempo. Negócio é fazer como minha mãe sempre disse: se você quer mesmo ver o céu noturno iluminado tem que segurar o rojão. Por isso aguentei firme uma semana.
Pensei em pedir ajuda para Freya, mas não tinha como, ela estava na Itália com Rafaela e aquele outro rapaz. Aguenta firme, Bethina. Você é forte. Dez dias se passaram e as férias já estavam no fim. Talvez uma rotina ajudasse. Umas poucas pessoas voltaram dias antes do restante dos funcionários porque teríamos reuniões internas para alinhar discursos. Fernanda preferiu se esconder atrás da máscara de menino, o foda que eu não podia julgar ela, tudo a seu tempo.
Logo depois da primeira reunião Freya notou meu estado e, tão logo conseguiu, me puxou de lado para conversar.
- Você tá bem? - Ela me olhava preocupada - Parece que você não dorme fazem noites...
- É porque eu não durmo mesmo - Eu estava com tremedeiras - Eu sabia que ia ser difícil... mas tanto...
- Fala de Fernanda?
- Sim.
- Me conta.
- Ah... ela tem tido umas reações adversas aos remédios, tido uns surtos de noite... aí mesmo que nos últimos dias ela esteja mais tranquila eu não consigo pregar o olho direito.
- Entendi... - Freya puxou o celular do bolso, mandou uma mensagem meio longa, achei um pouco falta de respeito mas ela é minha superior, então né, melhor esperar, vai que é algo mais importante que meu drama pessoal - A dona Rafaela quer falar contigo.
- É? - Estava em uma condição tão lamentável que nem me arrepiei com a situação - Sobre o que ela quer falar?
- Surpresa.
Caminhei da pequena sala de reuniões onde estava conversando com Freya pelo corredor até a sala da presidência. Fernanda me mandou mensagem toda amorosa perguntando o que tinha acontecido. A bipolaridade de humor dela era ágil, pelo visto a rotina era o que ela precisava para entrar um pouco nos eixos. Respondi que Rafaela tinha me chamado para discutir alguns detalhes de design de alguns produtos. Uma mentira que não fazia mal algum. Bati de leve na porta e ouvi a voz característica da chefa falando para eu entrar.
- Mandou me chamar, chefa?
- Mandei... - Rafaela estava com o olho fixo no monitor do notebook, dois segundos depois me olhou de cima abaixo - Realmente, Freya tem razão, você está só o pó da gaita.
- Como assim?
- Está com olheiras, ombros caídos... - Ela se levantou e caminhou na minha direção - Eu nem consigo imaginar pelo que você está passando com Fernanda... mas eu tenho uma proposta.
- Proposta? - Arqueei a sobrancelha - Que proposta?
- Vou te dar um final de semana em um spa, só pra você... - Ela me tocou os lábios quando eu ia falar - E pode deixar que eu cuido de Fernanda por esses dias, sei quais botões tocar pra acalmar aquela borboletinha saindo do casulo... e quando Fernanda perguntar diga que vai fazer um curso na Cidade Maravilhosa, se ela não acreditar diga pra vir falar comigo.
Não ousei questionar. Não conseguia reagir. Não que fosse a coisa mais certa do mundo, mas sentia que precisava desse espacinho, desses dois dias para pensar em tudo e relaxar e confiava em Rafaela cuidando de Fernanda. Sem qualquer outra reação a abracei, gesto que foi retribuído. Quem disse que chefe é tudo ruim e não liga pra funcionário mesmo? Pelo visto queimei minha língua.