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domingo, 5 de janeiro de 2025

Montanha Russa

Olá, pessoas, como estão?


Por aqui as coisas andavam mornas pra frias nos últimos tempos, até por isso meu sumiço de tudo, é como se eu estivesse me escondendo em uma caverna e estivesse esperando que um anjo mágico brotasse na minha frente com um papel dobrado com a resposta.


Mas isso não acontece. Pelo menos não nessa versão da realidade em que o roteirista (ou a roteirista) é uma pessoa meio sádica que não se importa muito com o andamento da história ou o desenvolvimento das personagens, ou talvez a nossa vida perante a existência dessa pessoa seja tão breve que não dá nem tempo de se preocupar com um indivíduo em específico... Enfim, divaguei.


O ano de 2024 estava passando mais depressivo do que eu esperava e não tinha muita esperança pra nada novo até que chegou agosto e conheci uma pessoa que, sem me conhecer, topou ser minha cliente na produção de conteúdo pras redes sociais da empresa dela e a produzir alguns designs pros produtos dela (ela produz canecas personalidades e tals) e tem sido um período muito legal, uns poucos perrengues com as artes e... Hey, não é que eu sei fazer artes? Tava achando que minha personagem gastou pontos demais da ficha em "talento de escrita" e pouco no resto, mas acho que devo ter recebido alguns pontos extras pela jornada e... Ta fluindo legal com a cliente e, no começo do ano que vem, já espero conseguir alguns clientes a mais, antes preciso mapear algumas lojas, definir valores e toda uma gama de coisas que nunca fiz na vida mas estou disposta a seguir em frente e arriscar um pouco mais.


Tirando as novidades profissionais/financeiras eu voltei a fazer terapia. Puta merda como eu tava sentindo falta em ter um espaço seguro pra falar as coisas que eu queria falar, poder dividir um pouco esse peso que sinto nos ombros, sobretudo com a, cada vez maior, ascensão da Lu, cada dia mais eu sinto que ela está amadurecendo e pronta para ficar à superfície.


Esse ano a psi só triscou no assunto de uma eventual transição (escrever isso me dá frio na barriga) mas ela já avisou que, esse ano (eu estou escrevendo no finalzinho de 2024 e programei a postagem para o dia 5 de janeiro de 2025, quem acompanha o blog faz tempo vai saber o motivo, o restante eu vou falar lá no fim) vai aprofundar mais nesse assunto e que vai me ajudar a trazer à tona coisas que eu guardo a sete chaves, mas tudo dentro do meu tempo e respeitando as fases e cada passo que eu for dando... Vou falar na sinceridade: É maravilhoso ter esse apoio, esse "local seguro e de acolhimento" que é aquele consultório com uma bela paisagem na janela.


Estava quase dando por encerrado esse escrito e fui ver outros aqui do blog e tem um, de 2021, que eu digo que não sou trans, incrível como aquilo envelheceu mal haha

A grande e única verdade, a gigantesca resposta que eu sempre esperei, que estava na minha cara e há de me completar é essa e eu vou adorar a jornada que está por vir, prometo tentar escrever aqui com mais frequência, quem sabe usar esse blog como um diário (que não vai ser diário) pra ir guardando minhas palavras conforme o tempo avança e as coisas vão se cristalizando.


Ah e por que dia 5 de janeiro? Oras, é o dia que a minha primeira saia chegou. Ela que foi responsável por dividir o meu universo em antes dela e depois dela e agora uma nova etapa se inicia...  Mas é como falei com a Pam: A coisa ta saindo da imobilidade e isso dá um puta frio na barriga, mas é tipo montanha-russa: eu quero estar ali e vou curtir o que vem pela frente. E ela respondeu: Levanta os braços e grita, mas aproveita a experiência.

Haha, dona Pam, cê é foda e sabe que tem "culpa" por ter posto a gota que transbordou o copo e eu nunca vou conseguir agradecer por aquele incentivo carinhoso pra eu comprar a primeira saia: compra logo essa merda.


Enfim, era isso o que eu queria dividir hoje. Cuidem-se, bebam água e mantenham-se fiéis a vocês.


Até qualquer hora

~ Lu 

domingo, 30 de junho de 2024

DDD

Enfim consegui emprestada a tecnologia da Jazz Corp. que me permite falar com uma versão minha do passado, ela usou para falar com sua versão de cinco anos atrás, porém eu reconfigurei a máquina e entrei em contato com minha versão de mais de vinte anos atrás. Por estar ligando para o ano de 1998 não tem como usar vídeo chamada nem e-mail... Por isso apelei para a boa e velha ligação telefônica. A data atual é algum dia entre abril e junho. Não consegui definir um dia específico, só o dia de um acontecimento e um horário aproximado. Silêncio, ta chamando.

- Alô? - Eu tinha me esquecido como minha voz era mais aguda quando era mais nova.

- Alô, tudo bem?

- Tudo... Quem ta falando?

- Antes de responder essa pergunta eu quero te pedir que espere eu terminar de falar, não desligue, pode ser?

- Pode... É trote né? É o primo do Ronaldo né?

- Não, não é trote - Suspirei, merda, eu devia ter planejado isso melhor antes de ter feito essa ligação, ter feito um briefing, uma cadeia de perguntas e afirmações... Bom, o negócio é improvisar - Vai soar estranho, mas... Eu sou você, do futuro.

- Que? - A voz parecia incrédula, não julgo, me conheço o suficiente pra desconfiar de tudo - Vou desligar.

- Espera, espera... Eu sei de coisas sobre você que mais ninguém sabe.

- Prove.

- Você odeia a fase 5 do Duke Nukem porque ela é um labirinto e você odeia labirintos, sempre odiou a sensação de desorientação, por isso sempre aprendeu a criar pontos de referência.

- T-tá... - A voz dele estava hesitante - C-como você...

- Eu sei porque eu sou você, sei que do lado do telefone tem um colchão dobrado, senta nele, vamos conversar um pouco...

- Eu... É... E... Quando você ta? Tipo o ano.

- 2024 - Acho que consegui, respirei fundo, consegui a abertura - Pois é, o mundo não acabou nos anos 2000 e o bug do milênio não afetou quase nada, teve o caso de um hospital que foram registrar no sistema e a criança nasceu em 1900, mas, fora isso, não teve nada de relevante.

Ele riu enquanto o ouvia sentar. O chão daquela casa de madeira rangia e aquele telefone branco tinha espaço para ser pego e posto ao lado do tal colchão que ouvi ele sentar. Não podia perder muito tempo porque sabia que, por mais que a tecnologia da Jazz Corp. fosse estável não sustentava a ligação com o passado tão longínquo por muito tempo.

- Caralho... - Ele suspirou - E como você... Eu... Nós estamos?

- Olha... Não vou mentir, a gente não anda muito bem, mas nada que não possa ser remediado, algumas coisas a curto prazo e outras a médio... Mas vivi... Ou melhor nós vivemos muita coisa legal, conhecemos muita gente, perdemos o contato com muitas pessoas que pro seu eu de agora é importante, doeu, mas foi para o melhor, o futuro mostrou que elas não eram tão boas pessoas... Além disso moramos muitos anos bem perto do mar.

- E... Casamos? Digo - Tinha certeza dessa pergunta tanto quanto a de que nós dois ruborizamos com ela - A Ariadne casou com a gente...?

- É... Não, na verdade depois do Ensino Médio você nem vai mais morar aí.

- Como assim?

- Eu tenho pouco tempo na ligação... A tecnologia que estou usando ainda não sustenta longas ligações, ainda mais com um passado tão remoto.

- Mas aí não é só ligar de novo?

- Em teoria sim, só que o quê você acha que é uma ligação longa na verdade está durando alguns segundos e, depois que desligar, você não vai lembrar de praticamente nada de nossa conversa, talvez ache que o que viveu é sua criatividade... Porque cara, você é muito criativa, sua imaginação é foda.

- Eu... Obrigad... Espera - Merda, um ato falho - Você disse "criativa"?

- É... Eu sei do seu desejo de ter um feitiço, algo pra se transformar nas modelos da revista só pra sentir as roupas, as poses... poder ter aquela sensação... Aliás - Hora de gastar a melhor carta - Liguei hoje justamente por ser um dia diferente do seu habitual, eu sei o quê você acabou de fazer e, antes de tente negar eu quero te dizer que ta tudo bem ta?

- O... O quê eu fiz? - Típica atitude minha: negar até o fim - O quê você acha que eu fiz?

- Você acordou mais cedo - Um sinal de interferência cortou um pouco o som - E Foi ver o guarda-roupas dos seus pais, esses dias você viu algo lá que te despertou uma curiosidade diferente, te deu a fagulha de um novo desejo, o toque do tecido na ponta dos dedos foi gostoso né?

- Foi... - O tom culposo dele era pesado, quase uma confissão dum crime - Mas é errado...

- Não, não é errado, é o quê você é.

- Mas e o quê vão falar de mim se souberem que eu...

- ... Que você vestiu uma saia, se olhou no espelho e sorriu?

- Não sei se gosto dessa conversa...

- Eu sei que tudo isso é confuso hoje, que você se sente sozinho por não ter com quem conversar e eu queria poder te dizer que as coisas vão melhorar daqui pra frente... Mas vou ser sincera e dizer que não vai - Suspirei pesadamente - A gente vai passar muitos problemas antes de que qualquer tipo de ajuda possa existir ou qualquer apoio possa aparecer...

- V-você ligou para me dar noticias ruins?

- Não é esse o ponto... Eu só quero ser sincera com voc... Digo, comigo pra que você esteja preparado pro que está por vir - Um latido ao fundo, minha primeira cachorrinha, reconheceria aquele ganido de longe - E que tudo isso que vai acontecer vai te transformar em uma pessoa melhor...

- Não sei o que pensar.

- Ta tudo bem, vou te dizer que, de uma forma torta, mas tudo vai ficar até que bem... - Outro chiado na ligação e o cheiro de plástico derretendo começou a aguçar minhas narinas - Eu não tenho muito mais tempo e, por isso vou te falar algo que, agora, não vai fazer muito sentido...

- Ta... Ta bem.

- Acredite em você, vai acontecer muita merda, muita gente vai sair de nossa vida e algumas outras vão aparecer e vão ser ótimas e vão ser o apoio que você precisa pra se sentir feliz, porque eu sei que esse teu coraçãozinho vive apertado, desejando ser o que você acha que não tem como ser, mas, num futuro... Vai ser.

- O que quer dizer com isso?

- Pode ser que o feitiço que você tanto desejou ser real... Pode ser que ele possa existir realmente.

- Pode??? - A animação na voz voltou, pelo visto eu era bipolar desde aquela época - Como?

- No futuro você vai conhecer uma pessoa que vai te... An... empurrar a comprar uma saia sua, só sua, nada mais de usar a da nossa mãe escondida... O tamanho pode ser que não seja o ideal, mas vai te fazer, me fazer sorrir de novo como você sorriu agora a pouco com aquela saia da sua... Nossa mãe.

- Quanto no futuro? O quê vai acontecer depo - Um ruído cortou a voz - Alô? Alô??

- Meu equipamento está superaquecendo, mas quero te dizer pra sempre acreditar em você, ser fiel ao que você acredita e deixando abertura pra acreditar em coisas novas... Ah e nunca pare de escrever, você escreve bem pra caralh - Um ruído alto atravessou a ligação, hora de começar a finalizar - Vai demorar um tempo até você aceitar e entender tudo isso que estou dizendo... Na real vai demorar anos, mas quando começar a entender vai conseguir se aceitar como a linda mulher que nasceu pra ser... Eu... - Hesitei um instante - ainda não cheguei lá, mas, sinto que entrei nesse processo e, até agora, tem sido um caminho de umas descobertas internas tão lindas que... Apesar de não aparentar externamente que estávamos avançadas, cá dentro estamos nos aprontando para os próximos passos...

- E... Eu... - A respiração ofegante e a pausa denunciava a emoção - E... Por que agora? Tipo... Por que demorar tanto tempo? Por que eu não comecei isso... Sei lá, hoje?

- Essa é a pergunta mais foda que eu tento responder todos os dias, do por que esperar tanto tempo... Porém acho que tudo acaba acontecendo no tempo certo - Essa era uma resposta que eu me dava toda hora, como se fosse totalmente convincente, mas não era, no entanto por agora eu não preciso que meu eu-do-passado saiba de todo o peso das dúvidas e dores n'alma que ele vai sentir nos próximos anos, melhor dar uma analogia que faça sentido - Tipo os gols do Marcelinho batendo falta... - Assim como os jogos no computador, o futebol, mais especificamente o Corinthians, foram, e ainda são, um lugar de consolo, uma quase fuga da realidade que me ajuda a segurar as pontas até aqui - Quando menos se espera ele bate e faz aquele golaço...

- Entendi... - A respiração dele estava mais calma - Acho.

- Meu tempo está acabando... Queria poder te falar tanta coisa... Mas o quê eu posso te dizer é que vai passar e a gente, apesar tudo, vai sobreviver e vai fazer o feitiço funcionar... Nunca duvide disso, Lu... Te amo.

- Lu...? Eu... - A ligação começou a falhar mais - Alô? Alô? Al...

Um som metálico atravessou nossas vozes e o silêncio se fez junto com o cheiro de queimado. A tecnologia superaqueceu e derreteu a tomada. Preciso trocar a tomada e devolver tudo pra Jazz Corp. Suspirei enrolando o fio. Espero que meu eu entenda. Levantei para colocar tudo na mochila. Ao passar na frente do espelho com o cabelo solto parei um instante e o espelho me sorriu. Acho que minha versão do passado entendeu a mensagem. Arrumei uma mecha de cabelo atrás da orelha e segui... Merda, esqueci de falar das bitcoins.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

CdF - Epílogo

 Epilogo


"
Ontem foi, provavelmente, o dia mais tenso na vida da Fernanda. A primeira vez que ela foi totalmente como a mulher linda que ela é. Haviam se passado alguns meses e o ano passado acabou voando tão rápido e com tanta coisa sendo feita simultaneamente que, mesmo com tudo agendado, ela não se sentiu a vontade para bagunçar a Lótus. Ainda não.

Lembro bem do dia que fui comunicar a Rafaela que, depois da virada do ano, ela não teria mais um funcionário e sim uma funcionária. Ela quis saber detalhes, me chamou para o almoço naquele restaurante que nunca foi pro meu bico e contei tudo. Falei das crises, das conversas que tínhamos e de todos os próximos passos. Acho que era meio de outubro ou um pouco antes... Ela quis saber até se Fernanda faria a cirurgia. Respondi que sim, dali alguns dias e, por isso, íamos nos ausentar. Por incrível que pareça ela aceitou de boa, era como se ela soubesse o quanto Fê precisava daquele apoio, aquela base.

E pensar que a cirurgia ocorreu tão bem e a recuperação foi tão rápida que me assustei. Ver Fernanda, agora uma mulher por dentro e por fora me causou uma pequena estranheza inicial... mas, tudo estava ali. Rafaela deixou que ela ficasse de licença um prazo maior do que o do atestado. Naquele tempo ela fez inúmeras demandas pro meu setor para algumas propagandas inclusivas de pessoas trans e coisas do tipo. Além disso promoveu cursos, seminários internos... ela tinha o poder de pavimentar um bom caminho até o regresso da borboleta agora dona das próprias asas.

Aquele ano a Lótus entrou em férias alguns dias antes para algumas reformas no prédio ou algo do tipo. Ainda bem, pois nesses dias extras pudemos correr atrás dos documentos. Quando a identidade saiu Fernanda ficou longos minutos olhando para a própria imagem naquela foto minúscula e que todo mundo sai horrível. Por algum complô do universo ela saiu linda, essa desgraçada aprendeu a se maquiar tão bem quanto eu.

Passados alguns dias fomos ao shopping juntas, ela uma mulher mais alta e eu, para não ficar muito baixa, tive que me virar com salto. Naquele dia senti saudade do meu all star. Depois fomos a um pagode e lembrei daquele dia da sessão de fotos... ela estava maravilhosa. Ficamos alguns dias na Ilha que a mãe dela mora e depois fomos passear pela Metrópole. Eu confesso que ia ficando tensa conforme o dia do regresso ao trampo ia chegando... como ela reagiria? Como os outros reagiriam? Que medo.

No dia do regresso todo mundo olhou com estranheza, alguns perguntaram quem era, outros descobriram logo de cara, mas, fora a estranheza, não notei nenhum preconceito ou até mesmo algo que pudesse soar ofensivo. O treinamento somado às constantes evoluções do mundo foram determinantes para que chegássemos aqui... aquela pandemia fez muita gente repensar o que era certo e o que era errado também. A recepcionista olhou estranho, achei que ela ia dizer alguma coisa como não ser de deus ou coisa do tipo... graças que não.

No fim a aceitação dela foi tão boa e tão positiva que acho que tive medo a toa. Mas também, conhecendo minha borboletinha como conheço, sei que ela tem incontáveis voos a realizar ainda. Sobretudo agora que é minha subordinada na empresa... vai ser uma nova fase pra nós duas, um aprendizado. Não sei como acharam que eu era boa o suficiente para substituir o Borges que foi trabalhar numa multinacional de alimentos com, dizem, um salário menor mas com muitas viagens internacionais pra fazer pela nova empresa. Sucesso pra ele.

Guardei esse último instante para olhá-la na janela, escovando o cabelo seminua. A cada passada os fios pareciam ganhar mais brilho, aquela cintura mais desenhada, os seios que vieram um pouco menores que os meus e aquela bunda... ah aquela bunda. Os anos de ciclista dela estavam ali naquele patrimônio que é só meu. O foda de pensar nas mudanças estéticas de Fernanda é ver o quanto ela não mudou por dentro. Continua uma criança que coleciona carrinho e gosta de ver corrida de carro na TV, que cozinha divinamente bem, tem um senso de humor único... o tanto de coisa que mudou nela não mudou em nada o meu sentimento por ela, aliás, mudou sim. Amo ela cada dia mais sendo dona de si, sendo a mulher que ela nasceu para ser e o melhor: sendo minha mulher. Nada é mais perfeito que isso.
"

- E aí, o quê achou?

- Que nós duas - Fernanda me olhou fixamente - temos um futuro brilhante escrevendo.


- Acha mesmo?


- Acho sim - Ela deu uma olhada para a tela - Algumas pequenas adaptações e pode virar um livro, quem sabe filme, série... já pensou?


- Não viaja, mô...


- Não tô viajando.


E assim, selamos o contrato de parceria com um beijo. Oficialmente temos uma história para começar a contar e que irá durar muitos e muitos anos ou, como diria o poeta: infinito enquanto dure. E, enquanto durar, será repleto de amor.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Dois

 

Passou o dia 5 e, por N motivos eu não consegui postar o que eu queria... então esperei o dia certo pra fazer esse post. Então é hora de estralar os dedos e escrever um pouco.


Mas o que tem o dia 5 de janeiro de tão especial? Simples: faz 2 anos que eu recebi a saia, aquela que foi o divisor de águas do que eu era pro que eu sou. Foram tantas descobertas, tantas coisas que fixei no meu novo eu que acho que não consigo descrever em palavras sabe? Mas vou tentar.

Tive sessão de terapia (menines, papo sério: façam terapia! Procurando bem sempre acha uma bem gente boa e bem em conta) e comentei o quanto eu sentia que tinha mudado depois da saia e minha terapeuta (que vai ler aqui, pq vou mandar o link pra ela haha) disse "e a terapia?" e eu "a terapia ajudou pra caralho" e ajudou mesmo, porque ajudou a fixar algumas coisas cá dentro.

A primeira e talvez mais importante pra mim é: Não, eu não sou trans. Longe disso ser um problema, mas eu me identifico de boas com meu sexo de nascimento e só curto parecer, a ideia de deixar esse meu lado mais feminino sair pra dar umas voltas, pra fazer umas fotos, passar horas em lojas online fuçando é o meu objetivo.

Uma das coisas que me aquece o coração é a ideia de modelar, fazer do crossdressismo (transformei crossdresser em verbo haha) uma arte e quando eu digo arte é no objetivo principal da arte que é chocar, é causar a estranheza, é provocar o que já está estabelecido e, com isso, transformar um pouquinho que seja a realidade do mundo... aliás, se meus relatos, minhas dúvidas e minhas conclusões ajudarem UMA pessoa a se encontrar nesse mundo confuso já vai me deixar feliz num nível que não vou conseguir explicar.

A segunda é eu ter descoberto que crossdresser é o objetivo que quero, como já disse, é um processo lento, doloroso mas que hoje olho pra trás e vejo que, velho, valeu a pena... ta valendo a pena. E o projeto é seguir em frente, por enquanto não vou falar muito, mas conforme a coisa for ganhando forma vocês vão saber!

Um parênteses antes de encerrar: Os escritos de Fernandes vão voltar, essa temporada (a terceira) é a última... o que não quer dizer que não vou escrever mais pros Contos de Fernandes, mas né... quando eu terminar e escrever tudo que planejei a história vai fechar e depois acaba virando novelão e... não esse é o objetivo.


E que esses dois anos virem três, seis, dez, vinte e que eu possa inspirar outres crossdressers a saírem, fazerem o que der na telha quando quiser! Quem foi que definiu que vestido/saia é exclusivo do vestuário feminino? Nos próximos meses vou trazer um termo novo aqui pro blog que quero expandir, o tal do genderless que se aplica mais à moda e tals, mas ainda vou boltar um conteúdo show sobre isso! Me aguardem ;)

Ah, você menina/mulher que gosta de se montar como menino, aqui tem espaço pra vocês também viu? Se tem uma coisa que esse blog quer é ouvir a voz de todo mundo!


Agora pra comemorar esses dois anos da minha saia (ainda solitária) eu fiz uma foto na laje, durante o dia... não é uma mega foto mas fica de marco especial pra data que passou! Ei-la: 




Cuidem-se, bebam bastante água, cuidado com os embustes, sejam felizes e fieis a vocês em primeiro lugar! 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

CdF s3e2: Pedal

Eu devia ter tomado uma atitude muito tempo atrás, meses atrás mas não tomei e agora ela parecia tão grande quando, na verdade, era só o que eu sempre desejei e pronto. Confesso que tinham dias que eu não queria tomar os remédios, não queria me olhar no espelho... mas, no fundo, eu notava que aquela silhueta que brotava no espelho era quem eu sempre quis ser, era a criatura que eu tanto namorei nos aplicativos que trocam o rosto, nas malfadadas tentativas de me maquiar... estava vindo, porém eu ia me desapegar do Fernando pra sempre e isso era o que mais me assustava.

Junto da terapia me foi sugerida uma rotina fixa, atividades que eu pudesse me focar cem por cento do tempo até não ter mais tantos surtos quanto tive no começo do ano. A ideia era ótima e o apoio de Bethina era o que me impedia de saltar da janela. Mas, ao mesmo tempo, eu me sentia egoísta obrigando ela a viver isso tudo. 

A imensa verdade é que essa criação de uma rotina ajudou pra caralho, no entanto não posso ficar o tempo todo fazendo alguma coisa, tem momentos que preciso de uma dose de ócio pra aflorar a criatividade, foi numa dessas que eu chamei Bethina pra pedalar no parque depois do trabalho na sexta. Ela quis reclamar mas acho que a exaustão a fez aceitar. Claro que eu não tinha a menor vontade de ficar andando a esmo nas ciclovias e sim achar um banco, respirar um pouco de ar puro...

- Sabê, Bê - Era curioso como o parque estava tão vazio, achar um lugar pra sentar foi extremamente fácil - Às vezes acho que eu tô atrapalhando a sua vida.

- Às vezes você fala umas bobagens - Ela sorriu me olhando de canto - Mas vamos ver, por que você acha isso?

- Ah sei lá - Respirei fundo tentando fugir daqueles olhos - Sou uma criatura meio bizarra ainda... estou na fronteira do que eu sou e quero ser...

- E...?

- E isso atrapalha sua vida cara, você merece alguém mais centrado, mais certo das ideias e não essa...

Não tive como continuar. Bethina puxou meu rosto e me deu um beijo tão apaixonado que não sei como contive a inundação de lágrimas dentro das pálpebras, de repente todo aquele diálogo, todas as minhas palavras, todo o parque, a Metrópole, o país, o planeta, o universo e toda a criação deixaram de existir e só nós duas estávamos ali, não poderia precisar quanto tempo durou, mas foi o suficiente para fazer qualquer núvem que pairava em meu pensamento ficar seriamente desnorteada.

- Sabe qual o seu problema Fê? - Não consegui responder, apenas fiz a negativa com o queixo - Você pensa demais... lembra o dia que você comprou sua primeira saia?

- L-lembro - A lágrima escorreu - Eu já te contei essa história?

- Não, mas eu sou hacker e achei teu blog velho.

- Olha ela - Enxuguei a lágrima - Continue.

- Então... Você teve a decisão, foi lá, comprou, pagou e quando ela chegou pelo correio você se sentiu a pessoa mais realizada do mundo, nada importava, sem passado, sem futuro... só aquele ventinho frio por baixo e a sensação de liberdade... - As lágrimas voltaram - Me diz, as saias seguintes foram tão prazerosas quanto essa?

- Não tanto... não vou dizer que virou algo normal, porque ainda me dá certos calafrios entrar em uma loja e comprar algo pra minha sobrinha, afilhada ou até mesmo noiva...

- Noiva? - Bethina me deu um tapa no braço - A senhorita anda me traindo é?

- Não! - Corei de leve - É só...

- Eu sei boba. - Pausamos um instante - E que você não quer entrar em uma loja e dizer que é pra você? Poder experimentar... me diz, quantas vezes você comprou o tamanho errado e teve que voltar na loja pra trocar?

- Poucas... 

- A maioria você aceita a derrota e joga a peça no canto e na primeira doação de natal você se livra delas, tô ligada.

- Nossa... você tem um jeitinho tão cínico de falar essas coisas...

- Você diz cínico e eu digo verdadeira... agora 'bora pra casa.

Eu estava ali durante todo o trajeto até em casa, eu respondia, falava mas não me sentia aqui, tudo estava martelando dentro da cabeça. Ela tinha razão. Perdi no par ou ímpar e ela escolheu que eu fosse tomar banho primeiro. Acho que ela já esperava essa reação minha e por isso me fez confrontar o espelho. Cá estava eu vendo meu reflexo, cabelo solto, rosto afinando, seios já despontando e ereções quase nulas... e talvez fosse isso aí, esse é o objetivo que eu, desde aquela primeira vez que vi a possibilidade de me montar e agora a oportunidade real de me tornar a mulher que sempre quis ser. Respirei fundo e entrei debaixo do chuveiro enquanto o cheiro de comida vinha da cozinha. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Sessão de Terapia

Olá pessoas, como estão?

Sei que quase ninguém lê aqui e depois do livro que virou a história de Fernandes (CdF, pra quem chegou faz pouco tempo, é 'Cronicas de Fernandes') menos gente ainda lê (a média de acessos diz que tem entre 3 e 10 views por post), porém como o objetivo aqui nunca foi fazer sucesso e sim escrever uma história que foi surgindo conforme minhas dúvidas surgiam... é, até que rendeu né? E teremos uma temporada 3? Quién lo sabe? Eu adoro trilogias, quem sabe né? Mas por ora, vamos deixar assim.

A verdade é que criei esse blog como válvula de escape pra mim, uma pessoa confusa no que dizia respeito a sua sexualidade e suas neuras internas. Comprar a saia, pra mim, foi um divisor de águas imenso, me fez bem, melhorou minha auto-estima, porém trouxe consigo dezenas de dúvidas que vou escrever aqui mais como um desabafo do que como algo pra inspirar ninguém ok? Eu estou escrevendo a MINHA jornada até aqui.

O começo


Quando eu comprei a saia em finais de 2018 (juro, parece muito mais tempo) eu dividi minha personalidade, o Lu era o menino-hétero-bonitinho-que-curte-automobilismo e a Fê que era a menina-que-curte-rosa-e-tudo-do-universo-feminino, só que eu não me sentia bem com isso, aí eu comecei a "matar" a Fê, só que né, ficou uma sensação meio de vazio e resolvi pegar a personagem que eu já tinha criado (o Fernando é uma personagem que criei quase como uma fanfic dos escritos da Senhora Pam, o incrível e super recomendado Senhora de Três) e a minha ideia quando comecei a escrever era ir tateando as coisas sabem? Primeiro a ideia da personagem ser a sissy de uma domme era o meu desejo na época, depois a personagem "evoluiu" pra crossdresser (onde passei também) e por fim se descobriu que a personagem é, na verdade, uma mulher trans.

Eu não sei quantos de vocês que leem aqui também tem o hábito de escrever, mas quando eu escrevo eu não controlo o que minhas personagens vão fazer sabe? Eu tenho a ideia e deixo fluir e no fim eu acabo me surpreendendo com os rumos do que escrevo, por isso o próximo paragrafo...

No meio pro fim do ano passado eu estava realmente achando que eu poderia ser uma pessoa trans, sério mesmo, já estava lendo relatos, vendo os remédios que se toma e todo o processo, porém a ideia não me satisfazia, ela era como uma febre terçã, durava pouco e não era o caminho que eu queria... e assim o ano de 2019 se arrastou comigo usando a saia vez ou outra e contanto pra algumas pessoas e aí vem o próximo parágrafo.

Felicidade compartilhada


Como já contei naquele post eu senti uma alegria tão intensa e imensa por ter realizado isso que eu quis berrar pra todo mundo. Só que quase instantaneamente veio a realidade e falou "ow peraê" e lembrei que moro em Santa Catarina, um dos estados mais homofóbicos/racistas do Brasil (aqui é tutu alemón) então respirei fundo e, durante o ano de 2019, eu fui escolhendo a dedo as pessoas que eu falaria sobre e todas (até o momento umas 10 mulheres e 2 homens (tenho mais amigas que amigos, fazer o que né?)) super compreensivos, alguns até me falaram que era tão bom me ver feliz com algo (relembrar isso me mareja as vistas), porém tem uma única pessoa que eu queria falar só que por ora não tenho como que é minha mãe (Fernandes, te invejo) e acho que é isso que me falta pra ter uma felicidade interna plena... mas se a reação de todo mundo foi boa por que eu acho que da minha mãe vai ser diferente? Não sei. Esse é um dos mistérios da vida.

Um outro caminho


Comecei 2020 com um emprego na área que sou formado (publicidade) e o panorama era o melhor possível, estava conseguindo guardar uma grana, no meio do ano ia viajar pra SP pra "sentir" a cidade e conhecer pessoalmente algumas pessoas que só conheço da internet e em dezembro/janeiro eu pegaria as férias e ia de novo pra SP procurar emprego na minha área e, encontrando, eu me demitiria e ia pra cidade que quero morar sozinho já tem um tempo... só que aí veio o coronga e miou tanto os meus planos quanto da empresa que eu trabalhava, ou seja: fui demitido em abril, por sorte o Lu aqui é uma pessoa precavida e tinha uma reserva que durou até julho (pois é, daqui pra frente vai ser osso...) e agora estou correndo atrás de uns freelazinhos.

E como a vida é uma caixinha de surpresas minha prima me manda um vídeo de um cara chamado Guilherme Rocker, figura magricela com um cabelo incrível... pois bem, assisti alguns vídeos dele curtindo o estilo, porém o gatilho que fez a chave virar foi o documentário sobre o Walter Mercado que tem na netflix nossa de cada dia... lá alguém falou que o Walter era andrógino e essa palavra tipo explodiu na minha cabeça saca? Tipo aquele gif.. wooooow

Fui ler sobre e passei a me interessar pelo estilo e veio de encontro com algo que eu já tinha na cabeça desde o começo do ano...

Falando no começo do ano de volta: Quando eu entrei no emprego eu resolvi fazer terapia (menines, façam terapia, é ótimo!) e fui logo falando pra ela minhas neuras e tudo mais e ela tem me ajudado a normatizar essa coisa de usar saia na minha cabeça... eu falei uma frase que ela até guardou e foi uma paráfrase duma "ministra" do governo atual: Meninos usam azul e meninas rosa... e eu? Eu gosto do roxo.

(quem não sabe roxo é a mistura de azul com vermelho)

E aí sigo aqui, encantado por coisas roxas e cada vez mais interessado na ideia de ser andrógino, parece que o "não-escolher" também é uma forma de escolha afinal.

No mais é isso que eu queria dividir com vocês! E não se esqueçam de se permitir porque sim, você merece ser feliz hoje!

Até a próxima 
~ Lu

domingo, 19 de julho de 2020

CdF s2e20: Retorno

Viagens de ônibus sempre foram relaxantes, desde sempre, gostava de viajar, ver tudo ir ficando para trás diante dos meus olhos na janela. Não raro eu acabava dormindo e acordando já no destino. Hoje penso que os sons dentro do veículo são como ASMR que meu corpo encontra uma mansidão gostosa.

Mas, dessa vez, desejei que motorista ultrapassasse os limites de velocidade e chegasse antes. Tinha tantas coisas para resolver na Metrópole que estava quase pedindo pra ir correndo na frente, tamanha minha ansiedade. Ao meu lado Bethina cochilava com os fones enterrados na orelha. Na tela do telefone podia ver que era um dos incontáveis podcasts sobre design que ela tanto gostava de ouvir.

A cada quilômetro a quantidade de edificações deixava evidente da aproximação do destino. Já reconhecia uma ou outra silhueta de prédio, nome de rua e, quando o ônibus virou bruscamente para a direita a rodoviária se tornou uma unidade no horizonte. No mesmo instante que estacionamos Bethina acordou. Conhecendo-a como conheço sabia que ela odiava ouvir palavras nos primeiros minutos depois de despertar. Ela se espreguiçou olhando pela janela.

- Chegamos? - Fiz que sim com a cabeça - Boa menina, aprende rápido.

Ri fazendo caretinha. Ela tirou os fones enrolando e jogando na minha mochila. Fiz o mesmo. Pegamos nossas bagagens e chamamos um carro pelo aplicativo. Ambas estávamos cansadas e o motorista notou isso ficando em silêncio quase toda a viagem. A cidade com pouco trânsito fez o trajeto ser cumprido em menos de uma hora quando o normal seriam uma hora e meia.

Tiramos as malas. Subimos ao nosso andar. Abri a porta do apartamento. Bethina foi reto para o banheiro e eu fui ver se tudo estava no seu devido lugar. Mania de quem viaja achar que a casa vai mudar algo. Devia ser algum tipo de TOC ou algo semelhante. Por sorte tudo estava no seu lugar. Reboquei as malas até a lavanderia já tirando as peças e jogando na máquina de lavar.

- Tô morrendo de fome, quer uma pizza? - Bethina veio na minha direção - Aliás, você nem notou que dia é hoje né...

- Pizza é uma boa - Liguei a máquina de lavar - É domingo, amanhã já volto ao batente.

- Não coisa loira - Ela riu pegando o celular - Hoje é sexta, tem o final de semana inteiro ainda... vai tomar um banho enquanto eu peço a pizza.

Ri pegando meu telefone. Estranho, jurava que já era domingo, mas que bom. Entrei no banho e lembrei que meu pijama estava lavando. Nada muito demorado, pela diminuta janela do banheiro notei que já era noite. Ao ir pro quarto uma camisola que se estendia até abaixo dos joelhos me esperava na cama. "De volta ao normal" pensei vestindo ela. Parei um instante na frente do espelho da porta do guarda-roupas. O material não era o mais requintado, mas era confortável e deixava a impressão de não estar usando nada, além disso acompanhava um roupão para usar por cima. Escovei o cabelo displicentemente e voltei à sala. Bethina estava olhando o catálogo do serviço de Streaming.

- Sua vez, aproveita que deixei o banheiro quentinho.

- Não vou precisar de pé de pato né? - Rimos enquanto ela se levantou passando por mim - Puta merda, como você é gostosa amor, se não estivesse cansada te comia aqui mesmo.

- Cansada do que? Foi você que veio dirigindo?

- Besta - Ela me roubou um selinho - O dinheiro da pizza ta ali em cima da mesa, pedi duas e ganhei uma brotinho doce, meia chocolate e meia prestigio além do refrigerante.

- Ótimo uso dos P do marketing.

- Nossa, depois dessa vazei.

Gargalhei enquanto Bethina entrou no banheiro. Coloquei a primeira música que o YouTube me recomendou, fiquei entretida olhando o clipe e o celular tentando saber se era real e oficial o que Bethina tinha me mostrado. Mas ninguém respondia. Provavelmente estavam em suas festinhas privadas. Aproveitei pra mandar mensagem pra terapeuta que respondeu perguntando se trouxe as conchinhas dela. Pior que tinha. A música dos anos noventa só foi quebrada pela campainha. Meu coração parou por um instante. Eu precisaria atender a porta. Puta merda. Respira Fernanda, respira. Assume logo essa mulher maravilhosa que você nasceu pra ser. Um. Dois. Três. Vai. Me levantei pegando o dinheiro na mesa e arrumando o robe por cima de tudo. Destranquei a porta.

- Foi daqui que pediram uma de lombo com catupiri e outra a moda da casa? - A bolsa era muito maior que o entregador, entreguei o dinheiro e ele as pizzas, pareceu uma troca justa - Valeu, boa noite, dona.

Corei suavemente. Fiz questão de demorar alguns segundos pra fechar a porta, queria ver se ele olharia de novo. Dito e feito, uma olhada rápida por cima do ombro esquerdo me fez ser inundada por um sentimento bom. Bethina com a toalha nos cabelos assistiu toda a cena sem comentar uma só palavra. Ela trajava o pijama.

- É gostoso isso né? - Ela veio na minha direção pegando uma das caixas e o refrigerante - Essa coisa de se sentir bonita... desejada... acredito que seja algo novo pra você.

- Vou parar de ir na psicologa - Coloquei a outra caixa na mesa - Você anda manjando mais que ela.

- Não viaja, Fê - Ela já colocava os pratos na mesa - Acredito que quando vivia como menino você nunca se sentiu assim...

- Assim como?

- Bonita.

- Só nas vezes que invadia o quarto dos meus pais.

- Fazia a imagem do espelho saltar - Bethina colocou os copos e destampou as pizzas - Mas nunca teve a aprovação fora dele né...

- Pelo visto alguém andou estudando - Servi o refrigerante pra nós duas - Mas sim, até a Rafaela uns tempos atrás e, principalmente você, eu não teria chego onde cheguei... não estaria pronta nem preparada pra dar o maior salto de fé da minha vida.

- É bom te ouvir dizer isso e que bom que eu posso estar aqui pra te ajudar.

- Te amo, Bê - Tomei a mão dela na minha e dei um beijo suave - Agora 'bora comer antes que esfrie.

Jantamos conversando sobre coisas da viagem e do quanto nada mudou na nossa ausência o que comprovou, pelo menos pra nós, que sem a gente aqui o mundo não mudaria. Porém uma coisa que eu não julgava ser possível de acontecer havia acontecido no nosso período sabático. Seria mais uma virada em minha vida e, quem sabe, na de Bethina também. Mas era algo a se ver segunda-feira. Agora respirei fundo e tratei de relaxar com a escolha cinematográfica de minha cúmplice.

sábado, 18 de julho de 2020

CdF s2e19: Encaixe

A buzina do barco significou o fim daquelas pequenas férias, importantes não só para descansar como também para Fernanda colocar seus demônios sob seu controle. Tantos anos planejou àquela conversa e quando ela veio foi algo tão leve que se sentiu idiota de ter ficado tanto tempo protelando. 

Conforme o veículo se afastada do pier onde Sônia havia ficado Bethina ofereceu o colo à noiva ciente de que aqueles dias todos seriam o gás que precisava para encarar uma nova realidade. Muito embora uma mensagem, recebida no dia anterior a fez sorrir e ficar mais leve. Era algo tão incrivelmente bom que não conseguia imaginar como aconteceu, porém, assim que chegasse marcaria um café com a portadora de boas notícias. Mas esperaria chegar na Metrópole para as boas novas.

A travessia entre a ilha e o continente não costumava demorar mais do que quarenta minutos, uma hora se o mar estivesse mais agitado. Por ser fora de temporada haviam poucas pessoas na embarcação, meia dúzia de nativos, outra meia dúzia de turistas além do casal que não notava os olhares de estranhamento de um homem de idade aproximada dos cinquenta anos.

Uma vez atracado no continente todos os ocupantes desembarcaram tendo em Bethina e Fernanda os últimos a saírem do veículo. Caminhavam conversando alegremente sobre bons ensaios que fariam na próxima visita à ilha, sem nenhum pudor Fernanda dizia quais vestidos usaria e em quais horários, Bethina, por sua vez comentava ângulos de câmera, valores de exposição e detalhes técnicos. Ao sentarem para esperar o ônibus que as levaria até a cidade próxima onde passariam a noite para, só então, voltarem à Metrópole o homem não se aguentou.

- Chega a ser um desperdício uma mulher dessas com um viadão desses...

- Como é que é? - O espírito guerreiro de Bethina inflamou - Tá falando com a gente?

- Além de viadão é frouxo - o homem escarrou no chão em um ato que, na sua cabeça, significava desprezo - Não se fazem mais homens como antigamente... no meu tempo mulher minha não ia nem sair na rua com uma saia tão curta.

- Repete - Fernanda deixou a testosterona que ainda circulava nas veias dominar a ação se levantando e indo na direção do homem - Anda seu monte de bosta, repete.

- Olha só, a bichinha resolveu virar homem - O algoz gargalhava frente aos olhares perplexos do outro casal de turistas que aguardava o mesmo ônibus - Começa cortando esse cabelo, puta cabelo de viadão.

- Deixa pra lá, amor - Bethina respirou um segundo deixando o sangue esfriar - Não vale a pena brigar com um frustrado desses...

Quando Bethina deu um passo para o lado o homem passou como um vulto pelo seu lado indo na direção de Fernanda que, rememorando suas aulas de karatê na infância, desviou do golpe batendo com o ombro no queixo do agressor. Como se fosse um golpe de luta livre a morena fez posicionou as duas mãos para segurar o homem enquanto Fernanda lhe aplicava uma rasteira para, em seguida, imobilizá-lo. Toda a cena não durou mais do que dez segundos, mas para o casal foi epifania de que o relacionamento estava em perfeita sintonia.

Os outros dois que não participaram da briga, nesse meio tempo, haviam acionado a polícia que chegava para levar o homem. Queixa e flagrante. Desde que o antigo governo tinha sido varrido para fora do poder as poucas células de intolerância que restavam iam sendo dissolvidas. Os que não demonstravam aptidão em aprender a, no mínimo, aceitar que aquele tipo de pensamento não tinha mais vez no mundo atual, eram convidados a se retirar da sociedade. Soava um pouco ditatorial, mas era a única forma que o novo governo encontrou para resolver a situação diante da terra arrasada que encontrou.

Passados os instantes acalorados naquela tarde de final de julho os dois casais seguiram juntos para a cidade. Eles eram de lá mesmo, trabalhavam no setor portuário mas almejavam ir para o setor de logística ou até mesmo comunicação. Esse foi o mote para longas horas de conversa regados à boa comida e bebida gelada.

Já instaladas no hotel enquanto Fernanda estava no banho Bethina respondia às mensagens que recebia. Ao sair do banho a recém-empossada mulher quis saber o que tanto a noiva falava no celular. A morena se recusava em dar um fim às dúvidas, apenas dizia que sentia algo bom vindo no horizonte e era melhor elas dormirem pois o ônibus saía ao amanhecer.

Uma vez instaladas e ganhando a estrada Bethina não cabia dentro de si tamanha a alegria que tinha na palma da mão, Fernanda, em um lance rápido, tomou o celular da noiva e foi procurar, sob protestos, o que trazia tantos sorrisos ao rosto dela. Leu diversas mensagens aleatórias até chegar em um nome específico. Reconhecia a foto. Ousou ler.

- É sério isso?

- Sim! Seríssimo!

- Puta merda... - Fernanda não conteve as lágrimas - Motorista, acelera isso que estamos com pressa!

Nunca desejou tanto estar em um avião indo de Mar Redondo para a Metrópole. Tanta coisa para resolver e tantos quilômetros adiante, oito horas de estrada pela frente e um dia inteiro em casa para poder desarrumar as malas e lavar a roupa. Tentou enviar mensagem do seu número para a portadora de boas notícias, mas o sinal era péssimo e, entre ter uma crise de ansiedade e aprender a esperar, optou pela segunda e se deixou cochilar. Tudo estava, finalmente, se encaixando.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

CdF s2e18: Mansidão

Ver Fernanda na água, brincando de pular ondas me fazia sorrir. Puxei o ar sendo brindada pelo cheiro salgado do mar e de café. Sônia, mãe dela vinha com uma térmica e duas canecas.

- É uma pata né? - Ela se sentou ao meu lado na pedra - Posso te confessar uma coisa, minha filha?

- Claro! - Uma das xícaras veio à minha mão e logo a bebida dos deuses se fez presente - Sou toda ouvidos.

- Não fala pra ele... ela... mas eu ainda tô bem confusa com tudo isso sabe?

- Sei e te entendo perfeitamente...

- O desabafo é meu mas pode falar se quiser - Brindamos com café - Acredita que não consegui ensinar ela a beber isso aqui?

- Ah, nem me fala - Suspirei bebendo um gole e todo aquele vento gelado dissipou - Quando fui no apartamento dela eu estranhei.

- Aproveitando o ensejo - Ela bebeu um gole e a reação foi igual a minha - Como vocês se conheceram?

- A gente trabalhava na mesma empresa, papo vai, papo vem... ela é minha melhor dupla de criação, ela é, como redatora, o que eu sou como designer, nos completávamos tão bem que fomos notando afinidades e um dia ela torceu o pé e tirou uns dias de folga, quando fui lá, já com más intenções - Ri ruborizando um pouco - Acabou que nos conhecemos melhor...

- E ela já foi te falando desses... - Ela ponderou um instante - Desejos?

- Não! Isso eu fui descobrir na manhã seguinte... 

- Manhã seguinte - Dona Sônia franziu o cenho - Esses jovens de hoje - Rimos - Mas continue.

- ... Então, na manhã seguinte eu fui fuçar, porque na minha cabeça eu tava 'como que um cara legal desses, bonito, com um apartamento tão bem cuidado não tem ninguém?' e cheguei no guarda-roupas, achei saias, vestidos, sapatos... - A sogra tentava achar normal, mas a situação ainda era incômoda para ela, não tiro a razão - ... Fui pro conflito, falei que ela tinha alguém e tudo mais...

- E aí? Ele... ela confessou tudo?

- Não, ficou quieta e como eu também sou sangue quente saí de lá... resumindo: o stress da situação fez meu apêndice estourar e fui às pressas pro hospital, fiquei quase uma semana internada e sem conseguir falar com ela.

- Nossa senhora - Sônia deu um gole curto no café - E aí?

- Aí eu expliquei que não sumi por vontade própria, pressionei e ela assumiu tudo... foi bem... chocante... - Bebi um gole longo, puta merda como eu amo essa bebida - Por isso te entendo, sei o quanto é assustador tudo isso, ainda mais com filho, mas, com o tempo, você nota que é a mesma pessoa, não mudou, tudo o que você gostava nela está ali ainda e tem um milhão de coisas novas pra gostar... - Bebi mais um gole - Ou não, e assim é a vida.

- Nossa - Olhei para o lado e ela chorava copiosamente - Você devia trabalhar de terapeuta, leva jeito.

Nos abraçamos evitando desperdiçar o café já semi frio nas xícaras. Se para mim, que logo cedo, me descobri bissexual com preferência em meninas já foi difícil ter aceitação em casa, imagina isso, de repente o filho único vira... filha. O baque ia ser foda e era algo que ela só podia aceitar sozinha.

- Desculpa perguntar isso... - Desfizemos o abraço - Mas... a senhora é divorciada né?

- Eita - Ela enxugou a lágrima - Senhora é sua vovózinha - Rimos - Mas sim, nos separamos tem mais de dez anos...

- E o pai dela, por onde anda?

- Não sei ao certo, perdemos contato, mas a última vez que soube ele estava saindo do Uruguai e ia para o Chile, dizia querer conhecer o Atacama e quem sabe ser abduzido pela espaçonave que o trouxe...

- Sério?

- A parte da espaçonave é brincadeira, ele sempre gostou dessa coisa de alienígenas e tals - Ela sorriu um sorriso saudoso - Mas a parte do Chile sim.

- Que doideira... Ela nunca fala dele.

- Normal, o divórcio foi um tanto traumático pra ele - Ela passou a olhar o horizonte - Do nada as fundações da vida somem, até me admira que vocês estejam de anel e tudo - Olhei para meu anel - Ele sempre disse que não ia casar e tudo mais... digo, ela - Um longo suspiro - Vou demorar pra acostumar.

- Mas logo acostuma, eu precisei de uns dias pra assimilar tudo também...

- Ah, mas você é jovem - Ela se serviu de mais uma caneca de café - Vocês aprendem tudo rápido.

- Nahhh - Fiz careta - Fui fazer terapia pra aceitar bem...

- E aceitou? - Ela me olhou de canto - Quero dizer, está sendo, como dizem vocês jovens, de boa?

- Nem tanto viu, tem dias que é um pouco difícil assimilar tudo ainda...

- Se é difícil pra gente - Dona Sônia tomou um farto gole da bebida enquanto Fernanda ia saindo da água e vindo na nossa direção - Imagina pra ela - Eu não tinha resposta pra isso - Mas sei que vai cuidar bem dela.

- Sabe?

- Claro que sei.

- E como tem tanta certeza?

- Se não cuidar eu quebro sua cara - Ela me olhou rindo - Olha que imensidão de lugar pra enterrar um corpo... brincadeira, vejo que você é uma pessoa do bem, Bethina, vai ficar tudo bem.

Realmente essa viagem não era só para Fernanda, era pra mim também. O tanto de coisa que eu acabei descobrindo e encontrando aqui era, sem sombra de dúvidas, muito mais do que eu esperava. Dentro de mim uma mansidão se fazia vendo ela vindo, aspirei profundamente aquele ar delicioso. Foda-se minha cidade natal ou a Metrópole, aqui era meu novo lugar favorito no planeta. Essa senhorinha do alto dos seus sessenta e poucos anos me trouxe algo que eu não tinha, algo que eu não conseguia definir bem na bagunça que é a vida em uma grande cidade, a voz calma, a confusão em entender tudo, o café quase sem açúcar... acho que ganhei uma segunda mãe.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

CdF s2 e16: Oceano

Sempre torci para que esse dia não chegasse e, ao mesmo tempo, era a coisa que eu mais queria que acontecesse. Tenho certeza que se Bethina não estivesse ao meu lado eu jamais teria a coragem do que estava prestes a fazer. Desde que saímos da Metrópole eu me fechei em uma introspecção tão profunda que, todas as dúvidas que eu ainda tinha, desmanchavam-se tal qual linhas de tetris.

Sentados na mesa da cozinha, cheiro de bolo de cenoura fiz as apresentações de Bethina, falei do nosso noivado e que tínhamos planos. Minha mãe apenas sorria acompanhando tudo com uma generosa xícara de café. Mesmo sendo uma ilha era frio essa época do ano. Não sabia se queria minha cúmplice do meu lado ou não. No fim a própria disse que ia fazer uma ligação e já voltava. Esse era o momento. Eu sabia que não tinha telefonema nenhum e que ela estaria debaixo da janela ouvindo tudo e intervindo caso fosse necessário.

- A senhora não mudou nada, mãe... - Tomei a mão dela na minha - Só esse cabelo platinado.

- Gostou? Fiz luzes - Rimos - Já você... voltou ao cabelo comprido... conheceu alguém... ta trabalhando no que gosta...

- Verdade...

- ... Mas tem algo que está te incomodando - A habilidade analítica dela seguia afiada - Vai, fala.

- Eu não sei como começar essa conversa - Sorri amarelo - Na minha cabeça fiz tantos planos, tantas vezes e tantas possibilidades...

- Se não sabe como começar, vai pelo meio.

- Parece fácil... - Respirei fundo pegando o celular do bolso, achando uma das fotos daquele final de semana e mostrei para ela - ... Que acha?

- O que isso tem... - Ela olhou mais atentamente, acho que dona Sônia precisava refazer os óculos - ... é você?

- Sim.

- Ficou muito bonito... mas e o que tem a ver com o que você quer me falar?

- Então, mãe... - Respirei fundo, uma, duas, três, pensei nela como se fosse minha terapeuta, em tudo que vivi até aqui e o quanto tudo parecia reduzido nesse funil que agora não passava uma gota d'água sequer - ... Sabe, minha terapeuta disse que não seria fácil falar mas que eu precisava... até Bethina me encheu o saco pra eu definir uma data e vir aqui te falar sobre tudo isso que está acontecendo comigo.

- Continua enrolado - Ela deu um gole no café com um sorriso sincero nos lábios - Vai, um, dois e...

- ... eu não me identifico mais como menino e sim como menina - Ela parou - Nunca me identifiquei como menino sabe? Por fora eu podia até ficar mais tempo com essa aparência mais masculina, mas por dentro isso foi machucando, foi magoando, por isso que quando pintou o primeiro trabalho fora daqui eu fui sem muito planejamento sabe? Eu queria meu espaço sozinha pra pensar nisso tudo, poder fixar umas ideias na cabeça, descartar outras e chegar nesse ponto atual... eu quero viver o resto da vida como a mulher que eu sou por dentro mas, daqui pra frente, por fora também... - Respirei fundo, força - Eu sou uma mulher trans.

- Pronto - Ela lentamente pousou a xícara na mesa e se levantou vindo me abraçar, foi inevitável o choro - Eu sempre imaginei algo assim, sabia?

- S-s-sempr... - minha voz estava horrível e com a mão macia de minha mãe me acariciando os cabelos era como se toda aquela espera, todos aqueles anos esperando e planejando essa situação encontrassem aqui, nesse instante - C-c-como voc...

- Como eu sabia? - Ela deu um beijo na minha testa - As mães sempre sabem das coisas - Ela sorriu enxugando minhas lágrimas - Fora que tinha épocas que você nem tentava disfarçar... por muito tempo achei que você fosse gay, cheguei a cogitar isso...

- Quando isso?

- Lá pelos seus quatorze anos eu via que meu guarda-roupas sempre estava meio bagunçado, minhas calcinhas do avesso... primeiro pensei que fosse algo da puberdade, depois fiquei um tempo tentando entender, mas vi que você foi tomando um rumo e agora ta aí, me enchendo de orgulho...

- Orgulho?

- Lógico, você é uma pessoa de bem, não faz coisas erradas... - Outra onda de choro que fez outro abraço se fazer - ... eu só fiquei curiosa com a moça, é sua amiga ou é noiva mesmo?

- É noiva mesmo!

- Mas você acabou de dizer que é mulher...

- ... sim - Sorri ruborizando - E acho que lésbica. - Fiz uma caretinha - É meio confuso, mas eu amo ela e ela me ama.

- Ah bom, se tem amor o resto que se foda.

- Que isso, mãe.

- É a real meu filh... aliás, como eu devo te chamar daqui pra frente?

- Pode ser... Filha, Fê...

- ... Vou acabar errando às vezes, então me perdoe antecipadamente ta bem? - Ela sorriu - Sua mãe é um pouco lerda com isso... 

- Normal, todo mundo demora pra entender... 

- Pode sair daí, Bethina - Minha mãe ergueu a voz - Você é uma péssima ninja - Rimos enquanto ela saía de debaixo da janela e entrava pela porta da cozinha - Vê se faz ele feliz, digo, ela.

- Não precisa nem pedir.

- Mas e como vocês se conheceram? Aliás - Minha progenitora me olhou - Eu imagino que você queira ficar mais a vontade, não? Vai lá no quarto enquanto eu faço uma sabatina nessa moça aqui...

- Pega leve, dona Sônia.

- Vai logo - As duas falaram em uníssono e riram.

Os passos até o quarto foram como se caminhasse em um chão feito completamente e nuvens, a sensação de que aquilo era um sonho era tão intensa que me belisquei inúmeras vezes no corredor da cozinha até o que um dia já foi meu quarto e hoje era escritório e quarto de hóspedes. Ao longe ouvia as vozes, risadas e um papo fluindo tão leve que acho que as duas já eram melhores amigas de outra vida. Fechei a porta do quarto e me despi inteira. O corpo depilado. Comecei com sutiã com bojo, um calessom azul escuro e um vestido azul escuro com mangas bem curtas que tinha comprado alguns dias atrás com o objetivo de andar aqui. 

Era incrível como às vezes a gente protela coisas que na nossa mente são tempestades imensas e para os outros são apenas uma garoa fina. Diante do espelho passava uma escova rápida no cabelo só para separar os fios, da mala peguei a necessaire com base suave, com habilidade aprendida em centenas de horas de tutoriais do YouTube eu me julgava uma aprendiz, mas cobri as olheiras, fiz uma maquiagem suave am redor dos olhos, batom que deveria ser nude mas era três tons mais escuros que minha pele reforçava o contorno dos meus lábios, um brinco pequeno e nos pés o bom e velho chinelo de dedos. 

O espelho me sorriu.

Meu retorno à cozinha foi sorriso e elogios. Bethina se ofereceu para assumir as panelas enquanto eu e minha mãe caminhávamos pela praia, que tínhamos mais coisas para conversar. Essa minha noiva era abusada às vezes e o foda é que essa era uma das características que eu mais gostava nela.

E foi assim que, mais de vinte anos de enrolação viraram uma conversa que não durou meia hora e teve uma aceitação tão boa que me senti idiota por ter enrolado tanto tempo. Caminhamos em silêncio enquanto o vento gelado vindo do mar subia por minhas pernas. Durante aqueles passos diante do mar dezenas de outras perguntas vieram e todas respondidas com tanta maestria que se fosse a banca do TCC eu tiraria a maior nota possível. O mar cadenciava os questionamentos e a sua dissolução completa e, conforme falava, sentia ainda mais força para seguir adiante, cada palavra que dizia a confiança dobrava. Ao fim de mais de uma hora e com a boca seca voltamos para casa. Antes, parei um instante sozinha diante daquela imensidão. Juntei as palmas das mãos, inclinei a cabeça para frente sentindo-me abraçada pelo vento que agora era impossivelmente morno. Uma última lágrima rolou pela face. Abri os olhos.

Obrigada, Oceano.

CdF s2 e15: Mão

Eu podia sentir na mão dela a hesitação quando a voz quase robótica anunciou o nosso portão de embarque. Poderíamos ir de avião, mas a grana estava curta, mais a mais não havia voos para a cidade onde estávamos indo. Segurei firme a mão de Fernanda enquanto dava o primeiro passo com um sorriso fino nos lábios. Ela respirou fundo e deu o passo completamente fraco. Posso apostar que se eu não estivesse aqui ela não faria essa viagem, muito menos daria o salto de fé que, espero, que ela dê quando cheguemos à cidadezinha onde a mãe dela morava.

Quando entramos deixei que ela ficasse com a janela. Seriam quase dez horas de viagem, por isso cada uma trouxe sua própria playlist. Embora meu plano fosse dormir algumas dessas horas, friozinho, tão logo ganhamos a rodovia e as luzes do corredor se apagaram pude notar o silêncio dela e isso me cortava o coração. Mas não podia fazer nada agora, cada quilômetro era como uma badalada de um relógio que ela achou que nunca fosse despertar.

Fê gostava de ouvir alguns rocks pesados, podcasts de comédia e de saúde mental. Eu até gostava de alguma coisa que ela ouvia, mas minha playlist ia por algo mais introspectivo, jazz, soul, podcasts sobre política, empoderamento... coisas assim me davam ânimo e confiança no em mim mesma. Talvez por isso logo que saí da Lótus eu não tenha demorado dois dias para arranjar alguma outra coisa. Se bem que aquela mensagem da Freya me deixou encucada.

A verdade que aquele som baixo, o ar condicionado fresco e apaguei. Fui acordar já nos arredores do ponto final. Sentia a cara mais amassada que roupa depois de sair da máquina de lavar. A mão de Fernanda na minha, ela sorrindo de canto ao rever paisagens que já conhecia. Descer em uma rodoviária quase sem movimento onde aquele ônibus parecia o mais avançado da tecnologia que aquele lugar via foi a primeira sensação estranha.

- Bem-vinda a Mar Redondo, amor - Era a primeira vez desde que saímos da Metrópole que ouvia ela falar algo, aquele silêncio era ensurdecedor, porém eu entendia - Vem, vamos pegar um táxi.

- Chama pelo aplicativo...

- ... Ah, aqui não tem essas modernidades.

- Como assim? - Arrastava minha mala ao passo que Fê fazia o mesmo - Aqui está realmente no século vinte e um?

- Besta - Ela riu - Está sim, só que uma lei municipal proibiu de ter, só isso.

- Ah ta - Entramos no táxi, as duas sentadas no banco de trás, ela passou o endereço e ficamos a viagem toda em silêncio - Boa oportunidade para ganhar uns trocados aqui.

- Pode tentar, mas fora da temporada isso aqui é tão morto quanto qualquer cidade pequena.

- Mas os hotéis ainda funcionam...

- Ah sim, sempre tem viajantes.

A verdade é que a mãe dela morava em uma ilha. Não era sentido figurado, era uma ilha mesmo. Uma hora de barco do pier em frente do hotel até onde ela tinha um pequeno chalé. Boa forma de curtir a aposentadoria. Hotel horrível, mas confortável o suficiente para dormir em paz. Me surpreendi com o silêncio noturno, era quase irreal, assim como Fernanda dormindo com uma camisola... quem diria.

Com os primeiros raios de sol Fernanda despertou e fez questão de me despertar também. Pelo menos o café daqui era bastante tolerável e me acordou. Apesar do sono não queria perder esse ânimo todo que imbuiu-se da alma dela. Devo confessar que a ideia de entrar em um barco de madeira, motor barulhento, lento não me agradou nada, mas ouvi-la falar dos lugares onde brincou quando criança, do quanto gostava de pegar esse mesmo barco e passar o dia naquela ilha me convenceu de que tudo ida ficar bem.

Assim que chegamos agradeci por estar vestindo shorts e chinelos de dedo, odiaria ter que trocar de calçado na areia. Quase me lembrei de uns anos atrás quando eu fazia esse tipo de aventura com as amigas, era legal acampar, acho que logo vou bolar um acampamento e arrastar dona Fernanda, dariam ótimas fotos.

Ao longe uma figura veio se aproximando. Uma mulher, não mais que um e sessenta, cabelos brancos e brilhantes como se fossem cromados, pele bronzeada, roupa simples. Sônia. Mãe dela. Ou melhor, dele. Até que Fernanda falasse eu não podia errar e a sensação de estar andando sobre ovos era horrível. Mas ver o mar me acalmava e as ondas me diziam que tudo ia ficar bem.

Saravá, Iemanjá.

domingo, 3 de maio de 2020

CdF s2e12: Passeio

Devo confessar que essa sexta-feira passou mais rápido do que esperava. Aos poucos as coisas iam se encaixando e a chefia incomodava menos aqui em baixo. Enquanto estivesse todo mundo em silêncio e produzindo eles não tinham motivo para vir visitar a plebe. Pisquei e o dia já findava com toda a campanha de reajustes colocada no ar... a hora que Rafaela voltar ela vai ter muito trabalho para recolocar a Lótus em pé. Mas é aquela coisa: o passarinho do fio de baixo tem que aceitar o que vier do fio de cima.

Uma vez na rua e o fluxo de trânsito me levou completamente no automático até a terapia. Sem um motivo aparente eu tive algumas lembranças no decorrer do dia e partilharia elas com minha analista. A velocidade de minha chegada me trouxe quase quinze minutos antes. Perguntei qual era a janta, Bethina não respondeu. Insisti. Ela disse que íamos jantar fora. Era uma boa, já fazia um bom tempo que ou fazíamos algo em casa ou pedíamos comida por delivery... a verdade é que eu estava em um fluxo de trabalho para casa, casa para o trabalho. Vez por outra terapia, mercado, feira... nada além disso.

Ao entrar na sala da terapeuta me deparei com um divã novo, totalmente preto, uma luz mais intimista, um pouco mais escuro, um abajur estranho e duas poltronas além de um tapete extremamente macio.

- Ficou chique.

- E não é menina? Resolvi dar uma repaginada, ganhei um divã novo, chegou agorinha, você vai ser a primeira a experimentar.

- Que honra! - Me sentei, era óbvio que era novo, era duro e levemente desconfortável - Só esse abajur...

- Ah, isso aí vou botar fora, a menina que faz estágio aqui a tarde trouxe... achei horrível. - Me ajeitei soltando o cabelo e respirando fundo - Mas e como foi a sua semana?

- Foi corrida, trabalhei, assisti alguns filmes... nada muito relevante... Eu só tive uma lembrança vindo pra cá.

- Que tipo de lembrança?

- De quando fiz terapia a primeira vez... uns anos atrás, antes mesmo da Flávia, era uma época estranha, eu tinha me formado e estava em um emprego bonzinho, ainda morava no interior, uma cidade grande, mas no interior - forcei o R para dar ênfase - eu já cheguei disposta a falar tudo, abrir o jogo total sabe? Não tinha falado pra ninguém do meu lado... lado entre muitas aspas... tinha algumas amigas próximas que sabiam, mas nunca tinham visto ao vivo sabe? Aí resolvi que ia usar a terapia pra isso, afinal, eu tava lá pra isso né? Demorei uns dois meses de sessões semanais até conseguir coragem pra pedir pra usar... e quando usei, tudo pareceu fazer tanto sentido sabe? Era como se a minha vida tivesse se dividido em antes e depois daquele momento, eu ainda estava em conflito, mas naqueles quarenta minutos de sessão eu fiquei... nas nuvens. Ao voltar pra casa aquele dia eu não acreditava que tinha feito isso mesmo... pena que depois de um tempo eu tive que parar por falta de grana.

- Puts - Ela parecia saber como era isso - E ainda tem o contato dela?

- Tenho! Ela mora na mesma cidade que a minha mãe... veja que mundo pequeno.

- Ah que legal - A ouvi rabiscar algo - E ela já sabe dos seus passos futuros?

- Ainda não... quero mostrar ao vivo.

- Manter a tradição, saquei - Rimos - Eu posso notar aqui, Fê, que você ficou muito tempo esperando sabe? Não vou julgar seus motivos nem nada, mas esse tempo... - Ela tocou meu braço de leve - ... deve ter sido difícil né.

- F-foi... - Mordi o lábio, não estava afim de chorar - Mas foi importante.

- Importante?

- É, me trouxe até aqui.

- Own modeuzo... não adianta, garota, eu sou firme e você não vai me fazer chorar.

Rimos. Depois daquela lembrança a sessão aconteceu sem maiores histórias, só o cotidiano da empresa, de casa e o quanto me cortava o coração ao ter que deixar Bethina em casa sozinha. Findada aquele momento eu fui para casa pensar na minha existência e tirar essa casca de Fernando que tanto me sufocava mas ainda era necessária. Necessária por que? Eu precisava dum rompante para assumir de vez minha real identidade.

Ao chegar em casa Bethina estava jogando. Pista de Interlagos, conhecia cada curva daquele local. Esperei ela ganhar a subida do café para dar boa noite e ver que não bateu meu recorde por meio segundo.

- Provavelmente está errando o laranjinha...

- Não, é o bico de pato.

- Ali joga a primeira e faz por dentro a primeira perna porque vai tracionar melhor a segunda...

- Vai tomar banho vai, recebi um freela inesperado e ganhei uma graninha legal, dá pra gente jantar fora, quem sabe pegar uma baladinha suave, sair um pouco desse apartamento... que acha?

- Eu gosto... vamos onde?

- Surpresa, agora vai, garota, vou dar mais uma volta aqui e vou me arrumar.

Com a certeza que meu tempo não seria batido hoje entrei no banho e deixei as energias ruins fluírem pelo meu corpo e escorrerem pelo ralo. Era aquela ducha vaporosa do The Sims que fazia os Sims saírem radiantes. Passei creme no rosto, no cabelo... chegava a dar dó eu ter que ser menininho pra sair. Na verdade era irritante mesmo. 

Saí do banheiro enrolada na toalha e Bethina estava na cozinha, saia e comprimento médio, uma blusa com mangas curtas, cabelo levemente armado, uma maquiagem linda e uma sandália baixa nos pés. Que mulher maravilhosa. Fui para o quarto onde uma blusinha de mangas três quartos e uma saia longa me aguardavam em cima da cama. "Boa tentativa" pensei já abrindo o guarda-roupas. Não haviam outras roupas.

- Amor... cadê minhas roupas?

- Veste o que deixei em cima da cama.

- Mas a gente não ia sair?

- A gente vai, quando terminar de se vestir vem aqui que vou te maquiar.

- Mas...

- Mas o quê, garota? - Eu ainda estava enrolada na toalha quando ela entrou no quarto - Olha, amor, eu super entendo na empresa você ainda ter que manter o Fernando, mas comigo, você não precisa disso, eu quero sair com você, mas a você real saca? Me apaixonei pelo Fernando e agora eu amo a Fernanda, você é maravilhosa, linda, não precisa se esconder em casa... você merece o mundo.

Ela me abraçou forte, choramos juntas por alguns minutos, em seguida, recobrando o papel de quem quer me forçar a sair da zona de conforto, ela mandou eu me apressar. O arrepio que senti ao vestir aquela blusa e depois a saia fpo diferente, foi algo completamente novo, talvez só comparável à primeira vez que me mostrei, lá pra terapeuta, anos atrás. Arrumei a saia na altura certa, o sutiã com bojo me fazia parecer mais feminina, um peito pequeno, mas convincente. Nos pés uma rasteirinha.

- Vai se foder - Assim que coloquei o pé fora do quarto Bethina me recebeu com aquele jeito dela - Como que eu fui arrumar uma namorada tão linda? Senta aqui, vou te maquiar pra gente sair - Abri a boca para repensarmos e ela cortou em cima - E nem pensar em arregar agora, temos uma reserva e duas entradas pra um pagode - Fiz careta - Brincadeira, é uma baladinha tecno suave... bem gostosinho, dá aqui a orelha - O brinco de argola quase tocava meu ombro - a outra... e voilá, a namorada mais linda do mundo está perfeita. Agora vamos.

Ao mesmo tempo que queria sair por quela porta quis voltar para dentro do quarto e me esconder debaixo das cobertas. Bethina não era terapeuta mas notou minha hesitação e me puxou pelo braço, não com força, mas com a gentileza de quem sabe que aquele passo era de extrema importância para meu crescimento e minha aceitação. 

Ao passar a soleira da porta eu quase congelei. No elevador eu, mentalmente, rezei para que não entrasse nenhum vizinho. No décimo andar o diminuto veículo parou. Entrou o síndico com a esposa. Bethina tomou sua mão na minha e, de repente, eu senti que poderia enfrentar o mundo inteiro, foi como um estalo. Ao descer no andar da garagem o representante de Tim Maia desejou boa noite e, em tom brincalhão, juízo às jovens. Passamos pelo hall de entrada dando um honesto boa noite ao porteiro, o mesmo que eu discutia futebol às vezes. 

Logo o carro do aplicativo chegou e eu sentei no meio. Senti os olhares do motorista, ao mesmo tempo que gostei de ser desejada como a mulher que sempre quis ser eu me senti um pouco invadida por aquele par de orbes que deviam estar na estrada. Quando estávamos perto do restaurante puxei Bethina para perto e dei um beijo nela, nada muito épico, apenas para deixar claro que eu não tinha o menor interesse em Rubens, o motorista.

O jantar delicioso, em um ambiente com luz baixa onde mal dava para ver as outras pessoas. Pude gastar todo o meu talento nas horas vendo técnicas de afinação vocal que vi na internet nos últimos anos. Até minha namorada percebeu que me joguei naquela situação e estava tentando aproveitar ao máximo. A casa noturna ficava dois quarteirões dali, em uma parte da cidade cheia de espaços de festa, bares, pessoas diferentes... imediatamente na nossa frente na fila tinha uma drag, maquiagem carregada, vestido curto. Quase quis dar umas dicas de como se arrumar, mas cada um cada um. Algumas horas depois estava exausta e pronta para um belo sono de beleza.

Bethina assentiu com a cabeça. O carro veio e notei que estávamos indo para outro lado.

- Para onde estamos indo?

- Ahhhh... ficou curiosa?

- Fiquei - A voz chegou a sair um pouco do tom - Sério, pra onde está me levando agora, dona Bethina?

- Segredo - Ela puxou da bolsa uma fita de pano - Coloca isso.

- Uma venda? Sério?

- Sério, anda logo, garota.

Com a destreza de alguém levemente alcoolizada eu cobri os olhos com a venda e, fazer isso, me aguçou os outros sentidos e a lembrança. Bethina não tinha chamado carro nenhum. Esse aqui tinha os bancos de couro. Quem dirigia era um par de olhos felinos que sorriu ao me ver. Agora fiquei bolada. Antes de eu poder fazer algo senti um ferro frio ao redor dos meus pulsos.

- Bethina - Meu tom de voz saiu como um trovão - o que está acontecendo aqui?

- Eu disse que ela não ia notar - a voz veio do banco da frente - A propósito, você é linda, Fernanda... agora, se puder ficar caladinha, eu agradeço, odiaria ter que pedir pra Bê colocar uma mordaça em você e estragar essa make divina, já estamos chegando.

Por essa eu não esperava. E o foda é que aquela voz não me era estranha. Já tinha ouvido ela em outros lugares mas não conseguia ligar o som à pessoa. Bem dizem que nervosismo afeta o raciocínio. Pensa Fernanda, pensa. Quem teria cacife de fazer isso? Conseguir reserva para aquele restaurante? Amaciar o corpo na balada? O único nome que me passava na cabeça era de Rafaela. Flávia talvez, mas essa hora ela devia estar curtindo a vida em algum lugar da Inglaterra. A voz da motorista deu boa noite à outra voz externa, passamos um quebra molas... não conseguia imaginar a surpresa que viria nos próximos minutos. Você me paga, Bethina.

sábado, 4 de abril de 2020

CdF s2e10: Gratidão

Em minha mesa tentava entender como tudo aquilo havia acontecido. Não tinham sinais de uma mudança tão brusca no conselho, então como? Em uma decisão totalmente arbitrária o reizinho, que é como eu e Borges chamávamos o novo CEO do grupo, dispensou todos os estagiários. O setor que já chegou a ter oito pessoas agora tinha quatro. O mais afetado foi o andar de cima, do T.I. onde das quase vinte pessoas sobraram três. Três pessoas para segurar um servidor daquele tamanho. Esse cara devia comer merda e beber urina... se bem que. Ri sozinho imaginando a cena duma dominadora cagando no peito dele. Rafaela não, ela tinha classe demais pra algo tão chulo, Flávia provavelmente faria algo assim, ela era doida pra testar coisas.

Pensar nela me trouxe uma onda de lembranças. Hoje era dia da terapia, quem diria que a semana passou tão rápido. Certamente o que moveu ela foi a força do ódio. E cá estava eu diante da sala da terapeuta. Respirei fundo e entrei. Depois do relatório semanal resolvi usar a carta de história do passado.

- Opa - Ela se ajeitou na poltrona, agora tinha um divã extremamente confortável - Vamos à história! 'Bora, sem pensar muito, um, dois e três.

- Tá bem - gostava disso, se eu ficasse pensando muito eu tendia a bloquear a história inteira - Lembra quando eu falei que já tenho os desejos crossdressers desde a adolescência né? Então, eu passei uns anos adorando e achando errado, até conhecer a Flávia, minha ex-Domme, acontece que ela, ao saber dos meus desejos resolveu usar como sissy, que é a parte mais sexualizada e nem sempre vai tão longe, normalmente as sissys só se montam pra sessões de BDSM mesmo e eu queria ficar mais tempo e ela não curtiu muito isso... - Tomei um fôlego - Acho que, sem ser por mal, ela enterrou ainda mais meu real objetivo sabe? Minha real natureza, ela basicamente fez o que eu já fazia na adolescência, o famoso achar que ta errado... aí quando acabou aquela residência BDSM foi algo estranho, porque eu tinha algumas peças, mas coisas bem... como vou dizer... meio putiane sabe? - Rimos um instante - E meu estilo é bem diferente, eu até curto uma ou outra peça mais curta, mas, no geral, eu prefiro os vestidões maiores... aí quando eu cheguei aqui na Metrópole e entrei na Lótus eu já tinha meio que definido que ia me montar às vezes e tudo bem, achava que era meu teto...

- ... Aí entrou a Rafaela.

- Exato! Aquela coisa toda, a liberdade que senti com ela foi diferente daquela coisa de me montar com o objetivo puramente sexual, era algo pra eu me libertar, me conhecer melhor... quando passei três dias completamente montada naquele acampamento foi algo indescritível, me abriu a mente de tal forma que, assim que o ano novo nasceu eu senti a necessidade de sair dali, já tinha vivido o BDSM suficiente para me conhecer.

- Então você diria que todas as experiências BDSM foram uma ponte para te fazer se descobrir?

- Completamente! Se não fosse a Flávia eu ainda seria aquela pessoa que se monta e acha errado, talvez nem tivesse muito além de duas ou três peças usadas como estímulo de fetiche em uma masturbação e se não fosse a Rafaela, cara eu devo tanto àquela filha da mãe, ela me fez ver que tudo bem eu, na época, ser homem e me vestir de menina e que tudo bem eu dar o passo seguinte e que ela me apoiaria no que eu precisasse...

- E qual foi esse apoio?

- Um deles - Olhei de canto, ela anotava frenéticamente - Foi marcar aqui pra mim, de verdade, você normatizou isso na minha cabeça de tal forma que eu pude parar, respirar e descobrir que é mais que identificação, é desejo de ser e isso foi tão... foda na minha vida que eu acho que nunca vou ter como agradecer.

- Eu é que fico feliz em poder ajudar e acompanhar todo o seu progresso, Fê... sabe que os próximos passos vão ser ainda maiores e mais complicados né?

- Sei sim, mas aí entra outra pessoa...

- Já sei - Ela falou em tom de deboche - a Bethina.

- Tá com ciúme?

- Eu não, quero mais é que vocês sejam felizes... mais alguma coisa?

- Não, só preciso descobrir um jeito de tirar o reizinho do trono e devolver a coroa pra quem merece.

- Sabe que isso não tá nas suas mãos né?

- Sei sim, mas no que eu puder ajudar... nem que seja jogando da escada.

- Nem vem, Fê, você não combina com isso... perder uma das minhas melhores pacientes por algo besta assim - Ela fez uma careta de desaprovação - 'bora nem pensar nisso, aliás, chega por hoje né? 

- Odeio que o tempo aqui passa muito rápido - Fui me levantando já me espreguiçando - Bem que o Albert dizia que o tempo era relativo.

E assim a sessão acabou e eu fiquei pensativa em tudo que tinha falado. A psicóloga tinha razão, eu não podia resolver os problemas da empresa, o que eu tinha de fazer era ficar na minha e, quando visse alguma oportunidade, agir. Claro que, no caminho até o estacionamento mandei uma mensagem para Freya me colocando a disposição.

"A menos que você possa oferecer o lombo pra apanhar por enquanto não tem como."

Adorava o tom jocoso dela. Certamente ela seria uma dominadora melhor que a Rafaela. Mais sádica, talvez até um pouco menos humana, mas ainda assim com disposição para ensinar novatos, certamente estava sendo bem treinada e logo assumiria o posto de vice-senhora da casa. Resolvi responder na mesma moeda:

"Só se for casal, sabe como é, namorada ciumenta."

O tempo de eu sair do elevador e chegar na garagem onde minha fiel companheira de estrada me aguardava.

"Mas é gado demais hahaha, você acha que ela toparia?"

Essa pergunta flutuo o no ar por dois minutos. Não conseguia imaginar a reação de Bethina em ir para a cobertura de Rafaela pra ver a namorada dela apanhar ou até coisa pior... Um arrepio me correu pela espinha.

"Hoje eu passo, mas obrigada pelo convite, qualquer dia quem sabe né? Se cuida e se precisar de algo além do BDSM é só chamar."

Sabia que ela não responderia e ainda mostraria à Rafaela todas as mensagens. Não ligo. Eu tinha uma dívida de gratidão que jamais conseguiria quitar com a senhora da cobertura. Quem sabe algum dia eu tenha formas de pagar. Melhor parar de pensar, o estômago me lembrou que Bethina devia ter preparado o jantar o que me deixaria, inevitavelmente, com a louça. Merda. Sorri já ganhando a rua e pensando no quanto a vida tinha me proporcionado coisas boas. Em uma rápida olhada para o céu a Lua brigava com as nuvens por um espaço. Agradeci à senhora da noite por tudo até aqui e pedi forças para continuar. 

Sinto que fui atendida.