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domingo, 5 de janeiro de 2025

Montanha Russa

Olá, pessoas, como estão?


Por aqui as coisas andavam mornas pra frias nos últimos tempos, até por isso meu sumiço de tudo, é como se eu estivesse me escondendo em uma caverna e estivesse esperando que um anjo mágico brotasse na minha frente com um papel dobrado com a resposta.


Mas isso não acontece. Pelo menos não nessa versão da realidade em que o roteirista (ou a roteirista) é uma pessoa meio sádica que não se importa muito com o andamento da história ou o desenvolvimento das personagens, ou talvez a nossa vida perante a existência dessa pessoa seja tão breve que não dá nem tempo de se preocupar com um indivíduo em específico... Enfim, divaguei.


O ano de 2024 estava passando mais depressivo do que eu esperava e não tinha muita esperança pra nada novo até que chegou agosto e conheci uma pessoa que, sem me conhecer, topou ser minha cliente na produção de conteúdo pras redes sociais da empresa dela e a produzir alguns designs pros produtos dela (ela produz canecas personalidades e tals) e tem sido um período muito legal, uns poucos perrengues com as artes e... Hey, não é que eu sei fazer artes? Tava achando que minha personagem gastou pontos demais da ficha em "talento de escrita" e pouco no resto, mas acho que devo ter recebido alguns pontos extras pela jornada e... Ta fluindo legal com a cliente e, no começo do ano que vem, já espero conseguir alguns clientes a mais, antes preciso mapear algumas lojas, definir valores e toda uma gama de coisas que nunca fiz na vida mas estou disposta a seguir em frente e arriscar um pouco mais.


Tirando as novidades profissionais/financeiras eu voltei a fazer terapia. Puta merda como eu tava sentindo falta em ter um espaço seguro pra falar as coisas que eu queria falar, poder dividir um pouco esse peso que sinto nos ombros, sobretudo com a, cada vez maior, ascensão da Lu, cada dia mais eu sinto que ela está amadurecendo e pronta para ficar à superfície.


Esse ano a psi só triscou no assunto de uma eventual transição (escrever isso me dá frio na barriga) mas ela já avisou que, esse ano (eu estou escrevendo no finalzinho de 2024 e programei a postagem para o dia 5 de janeiro de 2025, quem acompanha o blog faz tempo vai saber o motivo, o restante eu vou falar lá no fim) vai aprofundar mais nesse assunto e que vai me ajudar a trazer à tona coisas que eu guardo a sete chaves, mas tudo dentro do meu tempo e respeitando as fases e cada passo que eu for dando... Vou falar na sinceridade: É maravilhoso ter esse apoio, esse "local seguro e de acolhimento" que é aquele consultório com uma bela paisagem na janela.


Estava quase dando por encerrado esse escrito e fui ver outros aqui do blog e tem um, de 2021, que eu digo que não sou trans, incrível como aquilo envelheceu mal haha

A grande e única verdade, a gigantesca resposta que eu sempre esperei, que estava na minha cara e há de me completar é essa e eu vou adorar a jornada que está por vir, prometo tentar escrever aqui com mais frequência, quem sabe usar esse blog como um diário (que não vai ser diário) pra ir guardando minhas palavras conforme o tempo avança e as coisas vão se cristalizando.


Ah e por que dia 5 de janeiro? Oras, é o dia que a minha primeira saia chegou. Ela que foi responsável por dividir o meu universo em antes dela e depois dela e agora uma nova etapa se inicia...  Mas é como falei com a Pam: A coisa ta saindo da imobilidade e isso dá um puta frio na barriga, mas é tipo montanha-russa: eu quero estar ali e vou curtir o que vem pela frente. E ela respondeu: Levanta os braços e grita, mas aproveita a experiência.

Haha, dona Pam, cê é foda e sabe que tem "culpa" por ter posto a gota que transbordou o copo e eu nunca vou conseguir agradecer por aquele incentivo carinhoso pra eu comprar a primeira saia: compra logo essa merda.


Enfim, era isso o que eu queria dividir hoje. Cuidem-se, bebam água e mantenham-se fiéis a vocês.


Até qualquer hora

~ Lu 

domingo, 30 de junho de 2024

DDD

Enfim consegui emprestada a tecnologia da Jazz Corp. que me permite falar com uma versão minha do passado, ela usou para falar com sua versão de cinco anos atrás, porém eu reconfigurei a máquina e entrei em contato com minha versão de mais de vinte anos atrás. Por estar ligando para o ano de 1998 não tem como usar vídeo chamada nem e-mail... Por isso apelei para a boa e velha ligação telefônica. A data atual é algum dia entre abril e junho. Não consegui definir um dia específico, só o dia de um acontecimento e um horário aproximado. Silêncio, ta chamando.

- Alô? - Eu tinha me esquecido como minha voz era mais aguda quando era mais nova.

- Alô, tudo bem?

- Tudo... Quem ta falando?

- Antes de responder essa pergunta eu quero te pedir que espere eu terminar de falar, não desligue, pode ser?

- Pode... É trote né? É o primo do Ronaldo né?

- Não, não é trote - Suspirei, merda, eu devia ter planejado isso melhor antes de ter feito essa ligação, ter feito um briefing, uma cadeia de perguntas e afirmações... Bom, o negócio é improvisar - Vai soar estranho, mas... Eu sou você, do futuro.

- Que? - A voz parecia incrédula, não julgo, me conheço o suficiente pra desconfiar de tudo - Vou desligar.

- Espera, espera... Eu sei de coisas sobre você que mais ninguém sabe.

- Prove.

- Você odeia a fase 5 do Duke Nukem porque ela é um labirinto e você odeia labirintos, sempre odiou a sensação de desorientação, por isso sempre aprendeu a criar pontos de referência.

- T-tá... - A voz dele estava hesitante - C-como você...

- Eu sei porque eu sou você, sei que do lado do telefone tem um colchão dobrado, senta nele, vamos conversar um pouco...

- Eu... É... E... Quando você ta? Tipo o ano.

- 2024 - Acho que consegui, respirei fundo, consegui a abertura - Pois é, o mundo não acabou nos anos 2000 e o bug do milênio não afetou quase nada, teve o caso de um hospital que foram registrar no sistema e a criança nasceu em 1900, mas, fora isso, não teve nada de relevante.

Ele riu enquanto o ouvia sentar. O chão daquela casa de madeira rangia e aquele telefone branco tinha espaço para ser pego e posto ao lado do tal colchão que ouvi ele sentar. Não podia perder muito tempo porque sabia que, por mais que a tecnologia da Jazz Corp. fosse estável não sustentava a ligação com o passado tão longínquo por muito tempo.

- Caralho... - Ele suspirou - E como você... Eu... Nós estamos?

- Olha... Não vou mentir, a gente não anda muito bem, mas nada que não possa ser remediado, algumas coisas a curto prazo e outras a médio... Mas vivi... Ou melhor nós vivemos muita coisa legal, conhecemos muita gente, perdemos o contato com muitas pessoas que pro seu eu de agora é importante, doeu, mas foi para o melhor, o futuro mostrou que elas não eram tão boas pessoas... Além disso moramos muitos anos bem perto do mar.

- E... Casamos? Digo - Tinha certeza dessa pergunta tanto quanto a de que nós dois ruborizamos com ela - A Ariadne casou com a gente...?

- É... Não, na verdade depois do Ensino Médio você nem vai mais morar aí.

- Como assim?

- Eu tenho pouco tempo na ligação... A tecnologia que estou usando ainda não sustenta longas ligações, ainda mais com um passado tão remoto.

- Mas aí não é só ligar de novo?

- Em teoria sim, só que o quê você acha que é uma ligação longa na verdade está durando alguns segundos e, depois que desligar, você não vai lembrar de praticamente nada de nossa conversa, talvez ache que o que viveu é sua criatividade... Porque cara, você é muito criativa, sua imaginação é foda.

- Eu... Obrigad... Espera - Merda, um ato falho - Você disse "criativa"?

- É... Eu sei do seu desejo de ter um feitiço, algo pra se transformar nas modelos da revista só pra sentir as roupas, as poses... poder ter aquela sensação... Aliás - Hora de gastar a melhor carta - Liguei hoje justamente por ser um dia diferente do seu habitual, eu sei o quê você acabou de fazer e, antes de tente negar eu quero te dizer que ta tudo bem ta?

- O... O quê eu fiz? - Típica atitude minha: negar até o fim - O quê você acha que eu fiz?

- Você acordou mais cedo - Um sinal de interferência cortou um pouco o som - E Foi ver o guarda-roupas dos seus pais, esses dias você viu algo lá que te despertou uma curiosidade diferente, te deu a fagulha de um novo desejo, o toque do tecido na ponta dos dedos foi gostoso né?

- Foi... - O tom culposo dele era pesado, quase uma confissão dum crime - Mas é errado...

- Não, não é errado, é o quê você é.

- Mas e o quê vão falar de mim se souberem que eu...

- ... Que você vestiu uma saia, se olhou no espelho e sorriu?

- Não sei se gosto dessa conversa...

- Eu sei que tudo isso é confuso hoje, que você se sente sozinho por não ter com quem conversar e eu queria poder te dizer que as coisas vão melhorar daqui pra frente... Mas vou ser sincera e dizer que não vai - Suspirei pesadamente - A gente vai passar muitos problemas antes de que qualquer tipo de ajuda possa existir ou qualquer apoio possa aparecer...

- V-você ligou para me dar noticias ruins?

- Não é esse o ponto... Eu só quero ser sincera com voc... Digo, comigo pra que você esteja preparado pro que está por vir - Um latido ao fundo, minha primeira cachorrinha, reconheceria aquele ganido de longe - E que tudo isso que vai acontecer vai te transformar em uma pessoa melhor...

- Não sei o que pensar.

- Ta tudo bem, vou te dizer que, de uma forma torta, mas tudo vai ficar até que bem... - Outro chiado na ligação e o cheiro de plástico derretendo começou a aguçar minhas narinas - Eu não tenho muito mais tempo e, por isso vou te falar algo que, agora, não vai fazer muito sentido...

- Ta... Ta bem.

- Acredite em você, vai acontecer muita merda, muita gente vai sair de nossa vida e algumas outras vão aparecer e vão ser ótimas e vão ser o apoio que você precisa pra se sentir feliz, porque eu sei que esse teu coraçãozinho vive apertado, desejando ser o que você acha que não tem como ser, mas, num futuro... Vai ser.

- O que quer dizer com isso?

- Pode ser que o feitiço que você tanto desejou ser real... Pode ser que ele possa existir realmente.

- Pode??? - A animação na voz voltou, pelo visto eu era bipolar desde aquela época - Como?

- No futuro você vai conhecer uma pessoa que vai te... An... empurrar a comprar uma saia sua, só sua, nada mais de usar a da nossa mãe escondida... O tamanho pode ser que não seja o ideal, mas vai te fazer, me fazer sorrir de novo como você sorriu agora a pouco com aquela saia da sua... Nossa mãe.

- Quanto no futuro? O quê vai acontecer depo - Um ruído cortou a voz - Alô? Alô??

- Meu equipamento está superaquecendo, mas quero te dizer pra sempre acreditar em você, ser fiel ao que você acredita e deixando abertura pra acreditar em coisas novas... Ah e nunca pare de escrever, você escreve bem pra caralh - Um ruído alto atravessou a ligação, hora de começar a finalizar - Vai demorar um tempo até você aceitar e entender tudo isso que estou dizendo... Na real vai demorar anos, mas quando começar a entender vai conseguir se aceitar como a linda mulher que nasceu pra ser... Eu... - Hesitei um instante - ainda não cheguei lá, mas, sinto que entrei nesse processo e, até agora, tem sido um caminho de umas descobertas internas tão lindas que... Apesar de não aparentar externamente que estávamos avançadas, cá dentro estamos nos aprontando para os próximos passos...

- E... Eu... - A respiração ofegante e a pausa denunciava a emoção - E... Por que agora? Tipo... Por que demorar tanto tempo? Por que eu não comecei isso... Sei lá, hoje?

- Essa é a pergunta mais foda que eu tento responder todos os dias, do por que esperar tanto tempo... Porém acho que tudo acaba acontecendo no tempo certo - Essa era uma resposta que eu me dava toda hora, como se fosse totalmente convincente, mas não era, no entanto por agora eu não preciso que meu eu-do-passado saiba de todo o peso das dúvidas e dores n'alma que ele vai sentir nos próximos anos, melhor dar uma analogia que faça sentido - Tipo os gols do Marcelinho batendo falta... - Assim como os jogos no computador, o futebol, mais especificamente o Corinthians, foram, e ainda são, um lugar de consolo, uma quase fuga da realidade que me ajuda a segurar as pontas até aqui - Quando menos se espera ele bate e faz aquele golaço...

- Entendi... - A respiração dele estava mais calma - Acho.

- Meu tempo está acabando... Queria poder te falar tanta coisa... Mas o quê eu posso te dizer é que vai passar e a gente, apesar tudo, vai sobreviver e vai fazer o feitiço funcionar... Nunca duvide disso, Lu... Te amo.

- Lu...? Eu... - A ligação começou a falhar mais - Alô? Alô? Al...

Um som metálico atravessou nossas vozes e o silêncio se fez junto com o cheiro de queimado. A tecnologia superaqueceu e derreteu a tomada. Preciso trocar a tomada e devolver tudo pra Jazz Corp. Suspirei enrolando o fio. Espero que meu eu entenda. Levantei para colocar tudo na mochila. Ao passar na frente do espelho com o cabelo solto parei um instante e o espelho me sorriu. Acho que minha versão do passado entendeu a mensagem. Arrumei uma mecha de cabelo atrás da orelha e segui... Merda, esqueci de falar das bitcoins.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Viagem ao passado e outras reflexões

 E aí pessoas, como estão?


Eu sei, passei muito tempo sem postar nada aqui e não foi por falta de vontade e sim pela depressão nossa de cada dia, ela tem me impedido de fazer algumas coisas pela minha vida e... enfim, acho que agora estou superando algumas partes e entendendo outras.


A coisa é que dia 5/1 eu não comemorei esse ano, a data passou com um sentimento agridoce, ao mesmo tempo que eu gosto da saia eu estava conflitante com ter ela ali, parecia um símbolo de algo que eu ainda não compreendo totalmente e isso me descaralha a cabeça mais do que o normal haha


Acontece que, dia desses, estava conversando com um amigo de longa data (que sim, sabe todo o rolê da saia e aceitou muito de boas) e do nada a gente estava falando sobre o ensino médio e do nada ele fala "se você voltasse naquela idade, naquele ano, com o que você sabe sabe hoje, o que você faria?" na hora soltei "compraria bitcoin em 2010" e hoje estaria rica hahahahaha


Mas acontece que eu fiquei com essa pergunta flutuando na cabeça, quem já leu o blog antes sabe que eu tenho esse "lado" feminino desde uns 11~12 anos e na época do ensino médio eu tinha uns 17... se fosse com a cabeça de hoje, naquele corpo e época eu vou ser bem direto o quê eu faria (além de comprar bitcoin, claro):


Teria começado minha transição ali, naquela idade. Hoje com 36 a coisa vai ficando cada vez mais inviável e impraticável... não que seja impossível, pelo contrário, é que eu já não poderia viver umas coisas típicas de menina de uns 20 e poucos, tipo pintar o cabelo de roxo e tals... ok, eu sei que é possível eu fazer isso com qualquer idade, só que é mais... inapropriado. Sei lá. "Ah Lu, mas cê quer transicionar e ta preocupada com isso?" Sim, eu tenho desses sentimentos conflitantes o tempo todo.


Esses dias reabri meu tumblr, nunca postei nada, só seguia alguns perfis e... depois daquela crise do tumblr que eles baniram conteúdo adulto só ficou coisa de empoderamento trans e afins... e ver aqueles posts, aquelas pessoas repostando fotos de vestidos, de roupas, quadrinhos... me fez sorrir. Acho que a ideia de que, em um momento futuro, eu possa me desfazer dessa casca masculina que cobre meu corpo é uma das poucas coisas que me faz ainda ter esperança em mim.


Lembrei do Fernando Pessoa "crer em mim? Não, nem em nada"


Mas voltando a minha versão de 17 anos sabendo que a casca masculina é errada: aos 18 eu já estaria morando fora daquela cidadezinha de merda no interiorrrrrr e teria a coragem de me arriscar mais e estaria disposta a encarar o que quer que viesse. Quase fui buscar na conversa com aquele amigo a pergunta que hoje eu responderia "Hoje você não teria um amigo e sim uma amiga", porque sim.


Cada dia que passa me sinto mais sufocada dentro dessa máscara (novamente Pessoa se faz presente "quando quis tirar a máscara estava pegada a cara e quando tirei e me vi ao espelho, já tinha envelhecido") e sei que, mais cedo ou mais tarde, esse copo vai transbordar.


Esses dias estava sozinha em casa de manhã e vesti a saia 2 (a preta, que eu ainda não postei foto aqui, mas ela é do meu tamanho e veste MUITO bem) e fiquei dando umas voltas pela casa e... o sentimento diante do espelho foi maravilhoso. Quase uma redescoberta da mulher maravilhosa que eu tenho cá dentro pronta pra sair.


Esse post não é algo pedindo socorro, é só algo... um desabafo. Um exercício mental.


Ah: Ultimamente nem tenho tentado esconder nada da mãe, ela inventou de fazer umas mandalas (é um treco bonito e ela faz mó  bem) e eu pedi uma em azul, rosa e branco... ela ainda não fez, mas quando fizer vou por na minha parede, atrás do meu monitor pra eu não esquecer o objetivo principal que é deixar essa borboleta que mora aqui dentro sair, voar, ganhar os céus.


No mais é isso.


Cuidem-se, sejam fieis a vocês, bebam água e pratiquem atividades físicas.


Beijinhos,

~ Lu



ps.: eu vou tentar postar mais esse ano, ando precisando desse cantinho pra desabafar as coisas que tão me incomodando e comemorar as pequenas vitórias ;)

sábado, 9 de janeiro de 2021

Dois

 

Passou o dia 5 e, por N motivos eu não consegui postar o que eu queria... então esperei o dia certo pra fazer esse post. Então é hora de estralar os dedos e escrever um pouco.


Mas o que tem o dia 5 de janeiro de tão especial? Simples: faz 2 anos que eu recebi a saia, aquela que foi o divisor de águas do que eu era pro que eu sou. Foram tantas descobertas, tantas coisas que fixei no meu novo eu que acho que não consigo descrever em palavras sabe? Mas vou tentar.

Tive sessão de terapia (menines, papo sério: façam terapia! Procurando bem sempre acha uma bem gente boa e bem em conta) e comentei o quanto eu sentia que tinha mudado depois da saia e minha terapeuta (que vai ler aqui, pq vou mandar o link pra ela haha) disse "e a terapia?" e eu "a terapia ajudou pra caralho" e ajudou mesmo, porque ajudou a fixar algumas coisas cá dentro.

A primeira e talvez mais importante pra mim é: Não, eu não sou trans. Longe disso ser um problema, mas eu me identifico de boas com meu sexo de nascimento e só curto parecer, a ideia de deixar esse meu lado mais feminino sair pra dar umas voltas, pra fazer umas fotos, passar horas em lojas online fuçando é o meu objetivo.

Uma das coisas que me aquece o coração é a ideia de modelar, fazer do crossdressismo (transformei crossdresser em verbo haha) uma arte e quando eu digo arte é no objetivo principal da arte que é chocar, é causar a estranheza, é provocar o que já está estabelecido e, com isso, transformar um pouquinho que seja a realidade do mundo... aliás, se meus relatos, minhas dúvidas e minhas conclusões ajudarem UMA pessoa a se encontrar nesse mundo confuso já vai me deixar feliz num nível que não vou conseguir explicar.

A segunda é eu ter descoberto que crossdresser é o objetivo que quero, como já disse, é um processo lento, doloroso mas que hoje olho pra trás e vejo que, velho, valeu a pena... ta valendo a pena. E o projeto é seguir em frente, por enquanto não vou falar muito, mas conforme a coisa for ganhando forma vocês vão saber!

Um parênteses antes de encerrar: Os escritos de Fernandes vão voltar, essa temporada (a terceira) é a última... o que não quer dizer que não vou escrever mais pros Contos de Fernandes, mas né... quando eu terminar e escrever tudo que planejei a história vai fechar e depois acaba virando novelão e... não esse é o objetivo.


E que esses dois anos virem três, seis, dez, vinte e que eu possa inspirar outres crossdressers a saírem, fazerem o que der na telha quando quiser! Quem foi que definiu que vestido/saia é exclusivo do vestuário feminino? Nos próximos meses vou trazer um termo novo aqui pro blog que quero expandir, o tal do genderless que se aplica mais à moda e tals, mas ainda vou boltar um conteúdo show sobre isso! Me aguardem ;)

Ah, você menina/mulher que gosta de se montar como menino, aqui tem espaço pra vocês também viu? Se tem uma coisa que esse blog quer é ouvir a voz de todo mundo!


Agora pra comemorar esses dois anos da minha saia (ainda solitária) eu fiz uma foto na laje, durante o dia... não é uma mega foto mas fica de marco especial pra data que passou! Ei-la: 




Cuidem-se, bebam bastante água, cuidado com os embustes, sejam felizes e fieis a vocês em primeiro lugar! 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Sessão de Terapia

Olá pessoas, como estão?

Sei que quase ninguém lê aqui e depois do livro que virou a história de Fernandes (CdF, pra quem chegou faz pouco tempo, é 'Cronicas de Fernandes') menos gente ainda lê (a média de acessos diz que tem entre 3 e 10 views por post), porém como o objetivo aqui nunca foi fazer sucesso e sim escrever uma história que foi surgindo conforme minhas dúvidas surgiam... é, até que rendeu né? E teremos uma temporada 3? Quién lo sabe? Eu adoro trilogias, quem sabe né? Mas por ora, vamos deixar assim.

A verdade é que criei esse blog como válvula de escape pra mim, uma pessoa confusa no que dizia respeito a sua sexualidade e suas neuras internas. Comprar a saia, pra mim, foi um divisor de águas imenso, me fez bem, melhorou minha auto-estima, porém trouxe consigo dezenas de dúvidas que vou escrever aqui mais como um desabafo do que como algo pra inspirar ninguém ok? Eu estou escrevendo a MINHA jornada até aqui.

O começo


Quando eu comprei a saia em finais de 2018 (juro, parece muito mais tempo) eu dividi minha personalidade, o Lu era o menino-hétero-bonitinho-que-curte-automobilismo e a Fê que era a menina-que-curte-rosa-e-tudo-do-universo-feminino, só que eu não me sentia bem com isso, aí eu comecei a "matar" a Fê, só que né, ficou uma sensação meio de vazio e resolvi pegar a personagem que eu já tinha criado (o Fernando é uma personagem que criei quase como uma fanfic dos escritos da Senhora Pam, o incrível e super recomendado Senhora de Três) e a minha ideia quando comecei a escrever era ir tateando as coisas sabem? Primeiro a ideia da personagem ser a sissy de uma domme era o meu desejo na época, depois a personagem "evoluiu" pra crossdresser (onde passei também) e por fim se descobriu que a personagem é, na verdade, uma mulher trans.

Eu não sei quantos de vocês que leem aqui também tem o hábito de escrever, mas quando eu escrevo eu não controlo o que minhas personagens vão fazer sabe? Eu tenho a ideia e deixo fluir e no fim eu acabo me surpreendendo com os rumos do que escrevo, por isso o próximo paragrafo...

No meio pro fim do ano passado eu estava realmente achando que eu poderia ser uma pessoa trans, sério mesmo, já estava lendo relatos, vendo os remédios que se toma e todo o processo, porém a ideia não me satisfazia, ela era como uma febre terçã, durava pouco e não era o caminho que eu queria... e assim o ano de 2019 se arrastou comigo usando a saia vez ou outra e contanto pra algumas pessoas e aí vem o próximo parágrafo.

Felicidade compartilhada


Como já contei naquele post eu senti uma alegria tão intensa e imensa por ter realizado isso que eu quis berrar pra todo mundo. Só que quase instantaneamente veio a realidade e falou "ow peraê" e lembrei que moro em Santa Catarina, um dos estados mais homofóbicos/racistas do Brasil (aqui é tutu alemón) então respirei fundo e, durante o ano de 2019, eu fui escolhendo a dedo as pessoas que eu falaria sobre e todas (até o momento umas 10 mulheres e 2 homens (tenho mais amigas que amigos, fazer o que né?)) super compreensivos, alguns até me falaram que era tão bom me ver feliz com algo (relembrar isso me mareja as vistas), porém tem uma única pessoa que eu queria falar só que por ora não tenho como que é minha mãe (Fernandes, te invejo) e acho que é isso que me falta pra ter uma felicidade interna plena... mas se a reação de todo mundo foi boa por que eu acho que da minha mãe vai ser diferente? Não sei. Esse é um dos mistérios da vida.

Um outro caminho


Comecei 2020 com um emprego na área que sou formado (publicidade) e o panorama era o melhor possível, estava conseguindo guardar uma grana, no meio do ano ia viajar pra SP pra "sentir" a cidade e conhecer pessoalmente algumas pessoas que só conheço da internet e em dezembro/janeiro eu pegaria as férias e ia de novo pra SP procurar emprego na minha área e, encontrando, eu me demitiria e ia pra cidade que quero morar sozinho já tem um tempo... só que aí veio o coronga e miou tanto os meus planos quanto da empresa que eu trabalhava, ou seja: fui demitido em abril, por sorte o Lu aqui é uma pessoa precavida e tinha uma reserva que durou até julho (pois é, daqui pra frente vai ser osso...) e agora estou correndo atrás de uns freelazinhos.

E como a vida é uma caixinha de surpresas minha prima me manda um vídeo de um cara chamado Guilherme Rocker, figura magricela com um cabelo incrível... pois bem, assisti alguns vídeos dele curtindo o estilo, porém o gatilho que fez a chave virar foi o documentário sobre o Walter Mercado que tem na netflix nossa de cada dia... lá alguém falou que o Walter era andrógino e essa palavra tipo explodiu na minha cabeça saca? Tipo aquele gif.. wooooow

Fui ler sobre e passei a me interessar pelo estilo e veio de encontro com algo que eu já tinha na cabeça desde o começo do ano...

Falando no começo do ano de volta: Quando eu entrei no emprego eu resolvi fazer terapia (menines, façam terapia, é ótimo!) e fui logo falando pra ela minhas neuras e tudo mais e ela tem me ajudado a normatizar essa coisa de usar saia na minha cabeça... eu falei uma frase que ela até guardou e foi uma paráfrase duma "ministra" do governo atual: Meninos usam azul e meninas rosa... e eu? Eu gosto do roxo.

(quem não sabe roxo é a mistura de azul com vermelho)

E aí sigo aqui, encantado por coisas roxas e cada vez mais interessado na ideia de ser andrógino, parece que o "não-escolher" também é uma forma de escolha afinal.

No mais é isso que eu queria dividir com vocês! E não se esqueçam de se permitir porque sim, você merece ser feliz hoje!

Até a próxima 
~ Lu

quarta-feira, 20 de maio de 2020

CdF s2 e14: Firmeza

A segunda-feira chegou e com ela toda aquela ressaca do final de semana mais incrível da minha vida. Quis o destino que ele fosse ao lado da mulher que eu amo. Aliás, quis não, foi premeditado né, senhor destino? Depois de tantos anos eu estava novamente com um anel no dedo, mas dessa vez tinha um sentido. O sol na cobertura da Lótus era a lembrança de que eu sou maior que tudo isso aqui, de que eu posso tudo mais, eu posso ser quem eu quiser e pronto.

- Você é previsível - Freya sentou do meu lado, uma lata de coca-cola se colocou entre a gente - Sabia que ia ter encontrar aqui.

- Só sou previsível em horário comercial - Ri - Depois... vish.

- Ah, disso não duvido - Ela bebeu um gole do refrigerante - A propósito, parabéns pelo noivado, quando vai ser o casório?

- Você tem um futuro melhor que a Rafaela - A olhei de canto - Tem uma visão mais aguçada, é mais detalhista, tem um tom irônico na fala...

- Você acha? - Ela ficou introspectiva um instante - Talvez num futuro bem distante.

- Ou nem tão distante assim...

- Falando nisso - Freya bebeu mais um gole me oferecendo, ao que declinei - Gostei da dona Rafaela vindo do espaço, pensa em continuar a história?

- Do que está falando, garota?

- Olha como fala comigo, mocinha, ainda sou sua chefe direta - ela gargalhou brevemente - Digamos que eu li aquele seu conto da Rafaela vindo de outro planeta e tals, tem potencial... pensa em continuar?

- Como você sabe desse escrito?

- Tenho boas fontes.

- Falando sério - Me virei para ela - Andou hackeando meu computador?

- Claro que não, tenho uma boa amiga, só isso.

- Desde quando você e a Bê são amigas?

- Desde quando vocês ficaram a primeira vez... ela foi ver seu guarda-roupas de menina e surtou né, aliás, você me deve uma por isso.

- Devo?

- Sim, ela veio aqui em cima e eu vim achando que era você - Ela me olhou - Mas quando cheguei era ela, depois ela contou a história toda e no fim eu falei que ela devia te pressionar para que falasse toda a verdade... ou seja, no final das contas eu sou a cupido particular de vocês.

- Nossa, não sabia dessa... obrigada.

- Então é oficial? - Freya deu um gole longo na bebida voltando a olhar pro horizonte de prédios - Você vai mesmo adiante?

- Como assim? Casar com a Bethina? Vou sim, eu amo ela e...

- Não, garota, não se faz de lerda - Ela franziu o cenho um pouco - Vai mesmo transicionar e virar uma menina completa?

- Eita... - Prendi a respiração um instante, olhei para o horizonte e deixei escapar um suspiro longo - Pelo visto as notícias chegam rápido do lado de lá.

- Quem acha que conseguiu o restaurante sexta-feira? - Freya sorriu - Assim como Rafaela, eu quero te ver voando fora do casulo.

- Você é foda... - Foi impossível conter uma lágrima de felicidade que rolou pelo contorno do meu nariz - E a situação da empresa, como tá?

- Como assim?

- Trabalho como locutora na rádio corredor, preciso de novidades para noticiar.

- Logo terá, agora vamos voltar ao trabalho... escrava.

- Você não manda em mim - Mostrei a língua para Freya cruzando os braços - Eu vou porque eu quero.

- Porque quer e precisa comprar um guarda-roupas inteiro, não só metade.

- Também.

- E porque vai casar - Estávamos em pé rumando para a porta que ligava a cobertura às escadas quando Freya, em um movimento rápido se virou me abraçando, correspondi - Parabéns! Já tem data o noivado?

- Não, ainda não pensamos em nada... 

- Pois trate de pensar, soube que você quer tirar duas semanas de folga mês que vem né.

- Caralho velho - Rimos - O que você não sabe?

- Os pedidos do RH passam por mim... mas vai antecipar a Lua de mel?

- Não - Caminhamos pela escadaria até chegar ao corredor onde o déspota tentava sugar ao máximo o lucro em detrimento das pessoas - É algo maior que eu preciso resolver.

- Tipo o que?

- Tipo falar com a minha mãe...

- ... Sobre tudo isso, uau - Ela arqueou as sobrancelhas - A borboleta resolveu sair do casulo e voar a toda velocidade, gostei disso.

- Uma hora ia ter que acontecer né.

- Verdade, bom conversar contigo, precisando, sabe onde estou.

E assim nos despedimos. Mesmo que não tão direto era bom ver o apoio de Freya porque sabia que ela era apenas a porta-voz da aprovação dos membros da cobertura. Pode parecer estranho, mas a chancela dela me fazia ganhar mais força e aceitar que era o caminho e pronto. Sem mais dúvidas, só tinha de seguir o fluxo e tudo ia encaminhar para o meu futuro. Aliás, meu futuro agora não era só meu, era meu e de Bethina.

domingo, 10 de maio de 2020

CdF s2 e13 - Relicário

Fernanda se calou tentando captar cada mínimo sinal do que estava ao seu redor. Apesar do álcool em seu sangue tentava lembrar qual tinha sido o caminho e, baseado nisso, poderia pensar o que havia no lado da cidade que estivesse. Da boate para a esquerda, reto alguns quarteirões e a venda. Depois disso uma para a direita e incontáveis quilômetros para frente com curvas esporádicas. Se o GPS interno dela estivesse funcionando bem estariam em um lado mais antigo da cidade.

Depois do quebra-molas e da conversa rápida da motorista com alguém externo o carro rodou não mais que um minuto. Tão logo o veículo parou Bethina foi logo abrindo a porta, o que trouxe uma lufada de ar gelado do lado exterior. Com as orelhas em pé tal qual uma criatura felina que ouve um ruído e busca mais sobre, Fernanda tentava ouvir alguma coisa. Só murmúrios, foi quando o outro lado do carro foi aberto e a aspirante à sequestradora tocou sutilmente o ombro da sequestranda.

- Vem cá, deixa eu tirar isso aqui... não sei porque a Bê quis por isso - Tão logo o pulso ficou livre Fernanda desceu ficando em pé - Segura em mim, espero que goste do que ela planejou.

- Ela planejou?

- Sim, ela não entrou em detalhes, mas disse que viu alguma coisa e resolveu te dar esse presente... como minha agenda tava vazia esse final de semana, topei na hora, tudo pra ver minha prima feliz.

- Prima?

- Ops - As duas caminhavam lentamente para dentro de uma estrutura - Eu não falei nada.

- O que as duas estão conversando hem? - Bethina tinha um tom duro, mas ao mesmo tempo doce. - Aposto que a linguaruda aí abriu o bico né.

- Eu não... sei que sua mão é pesada - As duas riram enquanto Fernanda tentava entender onde estava, o chão era duro e os sons da cidade eram mais baixos - leva ela? Vou pegar o equipamento.

- Claro! Já vou ligando as luzes também... - E assim Bethina segurou o braço da namorada e entraram na estrutura - O que está achando da noite, amor?

- Estou adorando esse mistério - Ela franziu o cenho - Quando chegarmos em casa vou gastar tudo que aprendi com minhas antigas Dommes.

- Vai nada, você é doce demais pra isso - O ambiente parecia vazio pelo eco das vozes - Sabe, amor... esses dias estava trabalhando e achei um meio que diário seu, curiosa que sou acabei lendo.

- É? - Fernanda tentava se lembrar do que tinha escrito, a verdade é que, quando foi parar a terapia anos atrás por falta de dinheiro, foi recomendado fazer um diário, nem que fosse uma vez por semana, pro caso de conseguir voltar às sessões poder falar tudo que aconteceu - E o que achou lá?

- Um dos seus desejos mais lindos... eu até imprimi - Da bolsa Bethina tirou uma folha de papel dobrado - "Semana dezenove: hoje depois de entregar alguns freelas que mal vão cobrir as contas do mês me peguei pensativo, onde eu quero chegar com tudo isso? Vesti a saia pra pensar melhor, talvez essa maluquice do BDSM seja só uma fuga pra algo maior, em uma situação onde sou obrigado a estar em uma posição que é a que eu quero estar na vida, não só durante uma sessão. Posso estar me precipitando, mas se hoje fosse a data final pra escolha eu escolheria ser menina, nem que fosse só pra modelar, me sinto melhor assim."

Foi impossível para Fernanda não lacrimejar debaixo da venda. Passou todo um filme na sua cabeça de tudo que passou até chegar aqui. Toda a curiosidade adolescente até descobrir um termo que lhe fez encontrar seu caminho depois de inúmeros desvios. Com ou sem permissão tirou a venda. "Foda-se a surpresa". As lágrimas a impediam de ver onde estava. Sem aviso abraçou Bethina.

- Se você não existisse eu tinha que te inventar, garota - Era nítida a emoção das duas naquele instante - Eu te amo, amo, amo e amo muito!

- E eu nem li a segunda parte - Bethina ainda tinha o papel à mão, levou alguns segundos para se recompor - "Semana vinte e um: Passei um dia inteiro de saia, cada vez que passava em frente do espelho ele me sorria, as fotos também... acho que nunca tirei tanta selfie linda. O foda é que eu não me sinto atraído por outros homens, mas que mulher vai querer uma criatura como eu? Tudo isso me deixa confuso. Cogitei comentar isso com minha antiga terapeuta, mas deixa pra quando voltar à normalidade das sessões..."

- E olha só - Fernanda limpava o rosto tentando não estragar a maquiagem - Encontrei uma mulher que quis a criatura que eu sou.

- Uma criatura linda! - Beijaram-se - Uma criatura maravilhosa que eu amo!

- Que coisa mais linda - A voz vinha da motorista carregando equipamento de fotografia e com a câmera na mão - Vocês são um casal lindo.

- Então, amor - Bethina se recompôs e saiu do abraço - Essa é minha prima, Bruna, ela é fotógrafa, adora fazer ensaios de minorias mas faz casamentos e velórios pra pagar as contas.

- Prazer - Fernanda ameaçou esticar a mão, mas Bruna já foi logo dando dois beijos, um em cada face do rosto - Eu já ouvi sua voz em algum lugar...

- Provavelmente, eu volte e meia estava na Lótus tirando umas fotos.

- Olha só! Sabia! Suas fotos são ótimas!

- Obrigada! Agora vamos posar, meninas?

E assim, uma noite que começou com inúmeras dúvidas e um glaciar completo na barriga de Fernanda, ganhava cores e calores de luzes profissionais instaladas no antigo prédio que era, também, o estúdio de Bruna. Ali achou todas as roupas que tinham sumido de seu guarda-roupas e muito mais. Seu coração quase saiu pela boca quando viu um vestido de noiva como sempre imaginou, inteiro feito de renda e com saia de tule por baixo... infelizmente ela era muito grande para a peça, porém Bethina foi para dentro da indumentária nupcial. Nesse meio tempo Fernanda estava dentro de um vestido preto com bolinhas pretas, saia de tule preto por baixo, uma perfeita pinup dos anos cinquenta, foi quando teve um estalo.

- Bê - Fernanda tomou a mão de Bethina na sua, apoiou o joelho direito no chão - Quer se casar comigo?

- Caralho - O coração de Bethina bateu uma vez em falso, quase sentiu o corpo desfalecer, o choro veio acompanhado do sorriso bobo de quem sempre sonhou com essa cena, talvez não dela dentro dum vestido de noiva e a namorada de pinup, mas, ainda assim era melhor do que ela jamais sonhou - Claro que eu aceito!

domingo, 3 de maio de 2020

CdF s2e12: Passeio

Devo confessar que essa sexta-feira passou mais rápido do que esperava. Aos poucos as coisas iam se encaixando e a chefia incomodava menos aqui em baixo. Enquanto estivesse todo mundo em silêncio e produzindo eles não tinham motivo para vir visitar a plebe. Pisquei e o dia já findava com toda a campanha de reajustes colocada no ar... a hora que Rafaela voltar ela vai ter muito trabalho para recolocar a Lótus em pé. Mas é aquela coisa: o passarinho do fio de baixo tem que aceitar o que vier do fio de cima.

Uma vez na rua e o fluxo de trânsito me levou completamente no automático até a terapia. Sem um motivo aparente eu tive algumas lembranças no decorrer do dia e partilharia elas com minha analista. A velocidade de minha chegada me trouxe quase quinze minutos antes. Perguntei qual era a janta, Bethina não respondeu. Insisti. Ela disse que íamos jantar fora. Era uma boa, já fazia um bom tempo que ou fazíamos algo em casa ou pedíamos comida por delivery... a verdade é que eu estava em um fluxo de trabalho para casa, casa para o trabalho. Vez por outra terapia, mercado, feira... nada além disso.

Ao entrar na sala da terapeuta me deparei com um divã novo, totalmente preto, uma luz mais intimista, um pouco mais escuro, um abajur estranho e duas poltronas além de um tapete extremamente macio.

- Ficou chique.

- E não é menina? Resolvi dar uma repaginada, ganhei um divã novo, chegou agorinha, você vai ser a primeira a experimentar.

- Que honra! - Me sentei, era óbvio que era novo, era duro e levemente desconfortável - Só esse abajur...

- Ah, isso aí vou botar fora, a menina que faz estágio aqui a tarde trouxe... achei horrível. - Me ajeitei soltando o cabelo e respirando fundo - Mas e como foi a sua semana?

- Foi corrida, trabalhei, assisti alguns filmes... nada muito relevante... Eu só tive uma lembrança vindo pra cá.

- Que tipo de lembrança?

- De quando fiz terapia a primeira vez... uns anos atrás, antes mesmo da Flávia, era uma época estranha, eu tinha me formado e estava em um emprego bonzinho, ainda morava no interior, uma cidade grande, mas no interior - forcei o R para dar ênfase - eu já cheguei disposta a falar tudo, abrir o jogo total sabe? Não tinha falado pra ninguém do meu lado... lado entre muitas aspas... tinha algumas amigas próximas que sabiam, mas nunca tinham visto ao vivo sabe? Aí resolvi que ia usar a terapia pra isso, afinal, eu tava lá pra isso né? Demorei uns dois meses de sessões semanais até conseguir coragem pra pedir pra usar... e quando usei, tudo pareceu fazer tanto sentido sabe? Era como se a minha vida tivesse se dividido em antes e depois daquele momento, eu ainda estava em conflito, mas naqueles quarenta minutos de sessão eu fiquei... nas nuvens. Ao voltar pra casa aquele dia eu não acreditava que tinha feito isso mesmo... pena que depois de um tempo eu tive que parar por falta de grana.

- Puts - Ela parecia saber como era isso - E ainda tem o contato dela?

- Tenho! Ela mora na mesma cidade que a minha mãe... veja que mundo pequeno.

- Ah que legal - A ouvi rabiscar algo - E ela já sabe dos seus passos futuros?

- Ainda não... quero mostrar ao vivo.

- Manter a tradição, saquei - Rimos - Eu posso notar aqui, Fê, que você ficou muito tempo esperando sabe? Não vou julgar seus motivos nem nada, mas esse tempo... - Ela tocou meu braço de leve - ... deve ter sido difícil né.

- F-foi... - Mordi o lábio, não estava afim de chorar - Mas foi importante.

- Importante?

- É, me trouxe até aqui.

- Own modeuzo... não adianta, garota, eu sou firme e você não vai me fazer chorar.

Rimos. Depois daquela lembrança a sessão aconteceu sem maiores histórias, só o cotidiano da empresa, de casa e o quanto me cortava o coração ao ter que deixar Bethina em casa sozinha. Findada aquele momento eu fui para casa pensar na minha existência e tirar essa casca de Fernando que tanto me sufocava mas ainda era necessária. Necessária por que? Eu precisava dum rompante para assumir de vez minha real identidade.

Ao chegar em casa Bethina estava jogando. Pista de Interlagos, conhecia cada curva daquele local. Esperei ela ganhar a subida do café para dar boa noite e ver que não bateu meu recorde por meio segundo.

- Provavelmente está errando o laranjinha...

- Não, é o bico de pato.

- Ali joga a primeira e faz por dentro a primeira perna porque vai tracionar melhor a segunda...

- Vai tomar banho vai, recebi um freela inesperado e ganhei uma graninha legal, dá pra gente jantar fora, quem sabe pegar uma baladinha suave, sair um pouco desse apartamento... que acha?

- Eu gosto... vamos onde?

- Surpresa, agora vai, garota, vou dar mais uma volta aqui e vou me arrumar.

Com a certeza que meu tempo não seria batido hoje entrei no banho e deixei as energias ruins fluírem pelo meu corpo e escorrerem pelo ralo. Era aquela ducha vaporosa do The Sims que fazia os Sims saírem radiantes. Passei creme no rosto, no cabelo... chegava a dar dó eu ter que ser menininho pra sair. Na verdade era irritante mesmo. 

Saí do banheiro enrolada na toalha e Bethina estava na cozinha, saia e comprimento médio, uma blusa com mangas curtas, cabelo levemente armado, uma maquiagem linda e uma sandália baixa nos pés. Que mulher maravilhosa. Fui para o quarto onde uma blusinha de mangas três quartos e uma saia longa me aguardavam em cima da cama. "Boa tentativa" pensei já abrindo o guarda-roupas. Não haviam outras roupas.

- Amor... cadê minhas roupas?

- Veste o que deixei em cima da cama.

- Mas a gente não ia sair?

- A gente vai, quando terminar de se vestir vem aqui que vou te maquiar.

- Mas...

- Mas o quê, garota? - Eu ainda estava enrolada na toalha quando ela entrou no quarto - Olha, amor, eu super entendo na empresa você ainda ter que manter o Fernando, mas comigo, você não precisa disso, eu quero sair com você, mas a você real saca? Me apaixonei pelo Fernando e agora eu amo a Fernanda, você é maravilhosa, linda, não precisa se esconder em casa... você merece o mundo.

Ela me abraçou forte, choramos juntas por alguns minutos, em seguida, recobrando o papel de quem quer me forçar a sair da zona de conforto, ela mandou eu me apressar. O arrepio que senti ao vestir aquela blusa e depois a saia fpo diferente, foi algo completamente novo, talvez só comparável à primeira vez que me mostrei, lá pra terapeuta, anos atrás. Arrumei a saia na altura certa, o sutiã com bojo me fazia parecer mais feminina, um peito pequeno, mas convincente. Nos pés uma rasteirinha.

- Vai se foder - Assim que coloquei o pé fora do quarto Bethina me recebeu com aquele jeito dela - Como que eu fui arrumar uma namorada tão linda? Senta aqui, vou te maquiar pra gente sair - Abri a boca para repensarmos e ela cortou em cima - E nem pensar em arregar agora, temos uma reserva e duas entradas pra um pagode - Fiz careta - Brincadeira, é uma baladinha tecno suave... bem gostosinho, dá aqui a orelha - O brinco de argola quase tocava meu ombro - a outra... e voilá, a namorada mais linda do mundo está perfeita. Agora vamos.

Ao mesmo tempo que queria sair por quela porta quis voltar para dentro do quarto e me esconder debaixo das cobertas. Bethina não era terapeuta mas notou minha hesitação e me puxou pelo braço, não com força, mas com a gentileza de quem sabe que aquele passo era de extrema importância para meu crescimento e minha aceitação. 

Ao passar a soleira da porta eu quase congelei. No elevador eu, mentalmente, rezei para que não entrasse nenhum vizinho. No décimo andar o diminuto veículo parou. Entrou o síndico com a esposa. Bethina tomou sua mão na minha e, de repente, eu senti que poderia enfrentar o mundo inteiro, foi como um estalo. Ao descer no andar da garagem o representante de Tim Maia desejou boa noite e, em tom brincalhão, juízo às jovens. Passamos pelo hall de entrada dando um honesto boa noite ao porteiro, o mesmo que eu discutia futebol às vezes. 

Logo o carro do aplicativo chegou e eu sentei no meio. Senti os olhares do motorista, ao mesmo tempo que gostei de ser desejada como a mulher que sempre quis ser eu me senti um pouco invadida por aquele par de orbes que deviam estar na estrada. Quando estávamos perto do restaurante puxei Bethina para perto e dei um beijo nela, nada muito épico, apenas para deixar claro que eu não tinha o menor interesse em Rubens, o motorista.

O jantar delicioso, em um ambiente com luz baixa onde mal dava para ver as outras pessoas. Pude gastar todo o meu talento nas horas vendo técnicas de afinação vocal que vi na internet nos últimos anos. Até minha namorada percebeu que me joguei naquela situação e estava tentando aproveitar ao máximo. A casa noturna ficava dois quarteirões dali, em uma parte da cidade cheia de espaços de festa, bares, pessoas diferentes... imediatamente na nossa frente na fila tinha uma drag, maquiagem carregada, vestido curto. Quase quis dar umas dicas de como se arrumar, mas cada um cada um. Algumas horas depois estava exausta e pronta para um belo sono de beleza.

Bethina assentiu com a cabeça. O carro veio e notei que estávamos indo para outro lado.

- Para onde estamos indo?

- Ahhhh... ficou curiosa?

- Fiquei - A voz chegou a sair um pouco do tom - Sério, pra onde está me levando agora, dona Bethina?

- Segredo - Ela puxou da bolsa uma fita de pano - Coloca isso.

- Uma venda? Sério?

- Sério, anda logo, garota.

Com a destreza de alguém levemente alcoolizada eu cobri os olhos com a venda e, fazer isso, me aguçou os outros sentidos e a lembrança. Bethina não tinha chamado carro nenhum. Esse aqui tinha os bancos de couro. Quem dirigia era um par de olhos felinos que sorriu ao me ver. Agora fiquei bolada. Antes de eu poder fazer algo senti um ferro frio ao redor dos meus pulsos.

- Bethina - Meu tom de voz saiu como um trovão - o que está acontecendo aqui?

- Eu disse que ela não ia notar - a voz veio do banco da frente - A propósito, você é linda, Fernanda... agora, se puder ficar caladinha, eu agradeço, odiaria ter que pedir pra Bê colocar uma mordaça em você e estragar essa make divina, já estamos chegando.

Por essa eu não esperava. E o foda é que aquela voz não me era estranha. Já tinha ouvido ela em outros lugares mas não conseguia ligar o som à pessoa. Bem dizem que nervosismo afeta o raciocínio. Pensa Fernanda, pensa. Quem teria cacife de fazer isso? Conseguir reserva para aquele restaurante? Amaciar o corpo na balada? O único nome que me passava na cabeça era de Rafaela. Flávia talvez, mas essa hora ela devia estar curtindo a vida em algum lugar da Inglaterra. A voz da motorista deu boa noite à outra voz externa, passamos um quebra molas... não conseguia imaginar a surpresa que viria nos próximos minutos. Você me paga, Bethina.

sábado, 18 de janeiro de 2020

CdF s2e2: Raiz-2

Não vou dizer que não tenha aproveitado as férias, mas é aquela coisa: é uma merda ter que voltar a trabalhar. Não que eu não gostasse do meu trabalho, pelo contrário, eu amava. Mas preferia um milhão de vezes ficar em casa curtindo a ter que acordar cedo e vir trabalhar. Por sorte tinha Fernando do meu lado. Mesmo que às vezes ele desse umas opiniões completamente idiotas.

Falar nele era bom vê-lo assim, tranquilo. Quando falei com a psicologa dele a primeira vez me assustei, ele havia tentado se matar meses antes da gente se conhecer. Também não consigo imaginar a barra que é se sentir uma pessoa e ser outra por fora. Não que ter me assumido lésbica tenha sido moleza, mas eu ainda era a mesma mulher que nasci, agora ele queria mudar completamente o que nasceu. E eu fui me apaixonar por uma criatura assim, pode parecer estranho, mas só reforçou minha predileção por mulheres.

Só que até ele virar ela completa levaria um bom tempo ainda e eu estava disposta a seguir todo esse processo, aturar as mudanças hormonais, as mudanças do corpo... pelo que pesquisei seria como ter uma puberdade forçada e condensada em dois anos de tratamento hormonal que daria uma penca de reações adversas além de dores da musculatura se adaptando com a nova carga hormonal... a psicologa sugeriu que eu passasse a fazer sessões com ela para suportar tanta mudança assim, isso, claro, se eu quisesse ficar com ele. E, como eu queria, marquei as sessões pras quartas-feiras, era o dia que o lado menino de Fernando aflorava vendo futebol, nada exagerado ou fanático, ele apenas gostava e não era nocivo, no entanto acabei não falando com ele que, a partir da próxima semana, eu também bateria ponto na psicóloga.

Talvez por ainda não ter chego em um ponto espiritual tão singular quanto o dele meditar era difícil, mas gostava de estar perto dele, queria aceitar as propostas dele de morarmos juntos, mas não agora, faria algumas sessões de terapia para confirmar que eu conseguiria segurar esse rojão praticamente sozinha. Eu era forte, decidida, não havia porque duvidar da minha capacidade... porém né, ajuda nunca é demais e, por isso mesmo, vê-lo atravessar tudo isso só com ajuda psicológica e a minha não era certo, já havíamos conversado algumas vezes dele falar logo para seus pais sobre a transsexualidade e os passos que iria seguir nos próximos meses, mas escorpiano como é, emburrava e nada o fazia mudar de ideia. Resolvi insistir mais uma vez.

- Eu acho que você devia falar logo - Ele permaneceu de olhos fechados, como se não tivesse me ouvido - Sério mesmo, quanto mais demorar pior vai ficar.

- Melhor não... - Como sempre ficou na defensiva, tinha que começar as consultas para saber lidar com isso, essa negação dele me incomodava pra caralho - ... eles não vão receber bem.

- Que não recebam ué - Lembrei de quando me assumi lésbica, não foi fácil, mas foi necessário - O que não pode é você ficar enganando eles mais tempo.

- Eu não estou enganando eles - Apesar de amar meu cabelo achava lindo o movimento do cabelo dele, mesmo que fosse para prender - Estou poupando eles de...

- ... De quem você é - Interrompi, francamente, eu devia parar, mas me senti tomada pelo gênio briguento, acho que estava para entrar na TPM - Eu acho isso super errado, cara, sério, uma coisa é você não contar pra ninguém aqui da empresa, outra coisa é não contar pros seus pais... - suspirei - sua família!

- Sabe que eu não tenho essa ligação toda com a família né?

- Sei e acho errado pra caralho.

- Errado por que?

- Depois de tudo que tive com o Lucca ninguém ficou do meu lado - Relembrar meu antigo namorado era um saco, odiava saber que ele já tinha cumprido a pena e estava pela rua, por sorte eu consegui uma ordem restritiva o que obrigou ele a ir morar no nordeste com algum parente distante, mesmo um merda como ele teve o apoio da família e era isso que eu queria botar na cabeça desse idiota - Só minha mãe, ela me levou no hospital, ela me levou na delegacia, ela pegou turno dobrado para pagar terapia pra mim por um tempo...

- Cada caso é um caso - Senti o sangue ferver, odiava quando ele relativizava - Nunca tive essa ligação toda com meu pais.

- Pois nunca é tarde pra isso, amanhã depois eles morrem e aí, fica como?

- Sei lá - Decididamente essa discussão ia acabar em tragédia, só que o trem desgovernado não pára simplesmente porque as pessoas dizem que não querem o descarrilamento - Não faço a menor ideia.

- Pois quando fizer - Levantei ao passo que ele ficou sentado no banco de concreto, dei um beijo suave nos cabelos - Me procura, posso até ir com você pra explicar tudo.

- Não vai rolar... não vai rolar mesmo.

- Por besteira da sua parte né, Fernando.

- Ah sim - Pronto, agora a merda estava feita, eu podia só ter dado o beijo e saído, mas não, tive que continuar provocando, parabéns pra mim - E o que acha que eu devia fazer, dona Bethina? Chegar "oi mãe, então, sabe o seu filho? Ele é uma mulher trans, daqui pra frente chama ela de Fernanda e ele vai cortar o pinto fora... sabe o teu sonho de ter netos? Pois é, já era." sem chance né?

- Nossa cara - Eu realmente fiquei puta da cara, que merda, confesso que a vontade foi dar um soco bem dado no meio desse nariz, colocar dentes na boca do estômago, mas respirei fundo e, mentalmente, tentei contar até dois, nada feito - Quando quer você consegue ser escroto pra caralho.

Esperei um segundo a resposta dele. Não vinha nada, eu sabia que tinha passado de um limite, mas ele também não colabora, cada vez que tento ajudar, a buscar uma solução, a escavar mais pra desenterrar todas as raízes dos problemas dele ele vira um caminhão em cima e esconde tudo. Já estava puta demais para continuar ali, por isso resolvi voltar para o setor, com sorte ninguém teria voltado e eu podia ficar sozinha em um pufe pensando o que faria dali pra frente. Cheguei a pegar o celular pra ouvir alguma música, mas não queria contaminar canção alguma com esse sentimento ruim. Ouvi passos, tinha certeza que era ele. Dito e feito. Tinha horas que ele era extremamente previsível.

- Desculpa - Ele esticou o dedo minimo, não correspondi - Falei besteira.

- Sabe, cara - Suspirei tentando não dar a ele o gosto de ver uma lágrima minha - Você fala assim de família e quer que eu seja a sua família... não dá sabe?

- Nada a ver, você...

- Eu o quê? - Senti o sangue borbulhar dentro das veias - Amanhã depois você passa a me achar complexada como sua mãe e passa a esconder coisas de mim... super entendo esconder a parada do crossdresser durante a adolescência e até sair de casa, mas agora você está em outro patamar, você é adulto, paga suas contas... está perto de mudar completamente para deixar de suprimir, pra deixar uma parte sua tão linda ver a luz e fica procurando formas de soterrar tudo isso... é meio como sua psicóloga me disse dia desses, parece que a cada vez que chega em uma raiz de problema você enterra elas cada vez mais fundo... eu tô cansada disso sabe? Quando você se decidir de mostrar pro mundo inteiro o que você é e foda-se o resto... me avisa.

Eu sabia que ele iria dizer algo e eu acabaria me derretendo pela fala macia dele. Mas eu precisava dar pra ele esse choque de realidade, mostrar que não é só a forma como ele vê o mundo e as coisas é que estão certas, existem muitas maneiras de se recortar uma imagem, algumas são melhores pra uns, outras pra outros e assim é a vida, aprender com os outros técnicas para suportar melhor essa coisa que é o mundo. Por isso me levantei, dei um beijo na testa dele e me sentei em frente do computador. Torci para ele não se sentar logo em seguida, pois me veria não controlar as duas lágrimas que rolaram pela minha face.

Sinceramente eu queria ajudar ele mais do que tudo, mas não via meios, toda forma que eu tentava recebia um bloqueio, um beco sem saída ou uma pá de terra. Espero que a psicologa me dê uma luz quanto a isso tudo. Porque, mesmo com todos os seus defeitos eu amava a pessoa que ele era, fosse masculino carregando as compras do mercado sozinho, fosse super feminina usando uma saia godê com avental enquanto cozinhava com extrema habilidade. Restava saber o quanto eu estava disposta a ir na toca do coelho. Pensar nisso me lembrou de Alice, a primeira mulher com quem tive uma relação maior que sexual... talvez fosse a hora de dar uma de chapeleira maluca e buscar outra saída para essa disputa. Ponderei mil vezes me virar e aceitar as desculpas de Fernando, mas mil e uma vezes me impedi disso, hoje eu precisava ficar na minha e deixá-lo pensar por si mesmo. Lá vinha o Borges e o pessoal do setor. Ótimo.

CdF s2e1: Raiz

As férias da empresa tinham sido boas e o começo do ano não prometia grandes sobressaltos além dos habituais: pessoas saindo, pessoas chegando, produtos novos, produtos saindo de cena. Curioso como estando no meu terceiro ano aqui tudo parecia entrar em uma espécie de automático, pois logo já era fevereiro, março e só me dei conta do mês quando comecei a ver ovos de páscoa no mercado e os estagiários da comunicação fizeram artes para a páscoa e pediram minha opinião.

Bethina ainda declinava da ideia de morarmos juntos. Dizia que cada um precisava do seu espaço e que ainda tinha mágoas do passado para curar. Claro que isso não impedia que, vez por outra, dormíssemos na mesma cama, fizéssemos viagens juntos, mas às vezes era estranho chegar em casa sozinho. Claro que tudo podia ser questão de tempo. Nosso relacionamento não era segredo na empresa e não afetava nossa produtividade - pelo contrário, só azeitou mais a afinidade - e como não havia reclamação dos passarinhos do galho de cima, tudo seguia em paz.

A terapia estava avançando e a decisão já estava tomada, claro que ainda não tínhamos batido o martelo e eu esperava pela opinião de outros dois psicólogos para chancelarem o "diagnóstico" e isso era demorado pois eu tinha que fazer algumas sessões com outros profissionais, contar a história toda de novo... era quase um telemarketing psiquiátrico. Ri pensando isso enquanto meditava ao lado de Bethina no terraço. 

Foi interessante como convenci ela de almoçar rápido e vir aqui pra cima meditar. Também era notável o quanto as hortaliças produzidas aqui eram de boa qualidade mesmo com a poluição da Metrópole. Metade do terraço se tornou lar de pés de alface, brócolis, cenoura, tomate, manjericão, orégano, tomilho além de morangos que só brotavam perto do final do ano. Para fazer troça Leonardo, uma espécie de valete de Rafaela, dizia que só faltava criar galinhas aqui em cima, minha vontade era perguntar se família dele iria gostar de morar aqui. Mas, claro, guardava respostas ácidas dentro de mim.

- Eu acho que você devia falar logo. - Ela abriu os olhos lentamente - Sério mesmo, quanto mais demorar pior vai ficar.

- Melhor não... - Bethina tentava me convencer de que era melhor eu falar logo para meus pais dos meus planos de transicionar gênero - ... eles não vão receber bem.

- Que não recebam ué, o que não pode é você ficar enganando eles mais tempo.

- Eu não estou enganando eles - Joguei a cabeça pra trás prendendo meu cabelo que agora já era passível de fazer um rabo-de-cavalo honesto - Estou poupando eles de...

- ... De quem você é - Abri os olhos olhando o horizonte repleto de prédios - Eu acho isso super errado cara, sério, uma coisa é você não contar pra ninguém aqui na empresa, outra coisa é não contar pros seus pais... sua família.

- Sabe que eu não tenho essa ligação toda com a família né?

- Sei e acho errado pra caralho.

- Errado por que?

- Depois de tudo que tive com o Lucca ninguém ficou do meu lado - Ela me olhava fixamente, um olhar que, devo dizer, era como um imã, pois me fez virar a cabeça e olhar para ela - Só minha mãe, ela me levou no hospital, ela me levou na delegacia, ela pegou turno dobrado pra pagar terapia pra mim por um tempo...

- Cada caso é um caso - Odiava essa história, em parte porque eu sentia o sangue subir e a vontade de fazer esse cara pagar usando de violência era imensa e, em parte, porque minha família era toda desunida mesmo - Nunca tive essa ligação toda com meus pais...

- Pois nunca é tarde pra isso, amanhã depois eles morrem e aí, fica como?

- Sei lá - O assunto estava me chateando, voltei a olhar para o panorama de edifícios - Não faço a menor ideia...

- Pois quando fizer - Ela se levantou, me deu um beijo nos cabelos - Me procura, posso até ir com você pra explicar tudo.

- Não vai rolar - Sorri de canto - Não vai rolar mesmo...

- Por besteira da sua parte né, Fernando.

- Ah sim - Me levantei me virando pra ela - E o que acha que eu devia fazer, dona Bethina? Chegar "oi mãe, então, sabe o seu filho? Ele é uma mulher trans, daqui pra frente chama ela de Fernanda e ele vai cortar o pinto fora... sabe o teu sonho de ter netos? Pois é, já era." sem chance né?

- Nossa cara - Ela balançou a cabeça negativamente - Quando quer você consegue ser escroto pra caralho.

Aquela frase havia sido pesada. Eu não tinha resposta, afastei os lábios, porém nada saiu, no entanto não adiantaria nada, pois logo em seguida ela rodou nos calcanhares e sumiu na escada que dava acesso aos andares inferiores. Joguei a cabeça para trás respirando fundo. 

Merda. 

Trinta segundos haviam se passado e eu resolvi tentar resolver a situação. A sala da comunicação estava vazia, apenas Bethina com o corpo jogado em um dos puffes parecia ocupar a sala toda com sua presença. Eu, ao contrário, me sentia pior que a mosca do coco do cavalo do bandido. Me aproximei dela já me abaixando para ficarmos na mesma altura.

- Desculpa - ofereci o dedo minimo para ela - Falei besteira.

- Sabe, cara - Ela não retribuiu o gesto, estava magoada, pois olhava para o vazio da parede - Você fala assim de família e quer que eu seja a sua família... não dá sabe? 

- Nada a ver, você...

- Eu o quê? Amanhã depois você passa a me achar complexada como sua mãe e passa a esconder coisas de mim... super entendo esconder a parada do crossdresser durante a adolescência e até sair de casa, mas agora você está em outro patamar, você é adulto, paga suas contas... está perto de mudar completamente para deixar de suprimir, pra deixar uma parte sua tão linda ver a luz e fica procurando formas de soterrar tudo isso... é meio como sua psicóloga me disse dia desses, parece que a cada vez que chega em uma raiz de problema você enterra elas cada vez mais fundo... eu tô cansada disso sabe? Quando você se decidir de mostrar pro mundo inteiro o que você é e foda-se o resto... me avisa.

Quando eu fiz menção de continuar a conversa ela se levantou do puffe, me deu um beijo na testa e se sentou no computador. Fiquei congelado naquela posição como se o beijo fosse de um dementador que sugou de mim a capacidade de locomoção. Todas as palavras tinham sido jogadas no chão como um quebra-cabeças e eu não conseguia achar a ordem correta para colocá-las. Na hora que tudo começou a se encaixar o setor voltou a ter mais pessoas tornando impossível qualquer outra conversa além de trabalho.

Respirei fundo tentando entender qual o problema que havia comigo. Por que tinha essa mania de enterrar tudo o que eu sentia? De onde vinha essa coisa de não ser eu mesmo com medo de incomodar os outros? Me reprimir para que as pessoas ficassem bem com elas mesmo. Sempre fui assim, para manter os outros em paz eu me colocava em posição inferior. Não conseguia concatenar as palavras que queria dizer à Bethina, dois metros do meu lado, tudo que pensava era apenas mais uma desculpa, mais uma fuga, mais uma pá de terra soterrando as raízes das minhas neuras. Por sorte Borges me encheu de trabalho, assim eu podia parar de pensar em quem eu sou. Ótimo.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Ano Um

Olá pessoas, como estão?

Hoje pode ser só um domingo a mais (ou a menos) no calendário, mas, um ano atrás, dia 5 de janeiro de 2019, era sábado e eu estava sozinhe em casa. Foi ali que, umas dez horas da manhã o carteiro bateu, assinei a entrega da encomenda e... puta merda! Minha saia! Minha primeira (e ainda única) saia!

Olhando pra trás vejo que algumas coisas mudaram em mim depois disso, confesso que quando comprei fui mais movido pelo tesão da situação do que por tudo que podia desencadear. E como desencadeou coisa! A começar por algumas amigas que viram as fotos deram total apoio, falaram inclusive que era bom me ver feliz... e sim, naquele dia, naquela noite, eu fiquei em um nível de felicidade tão grande, mas tão grande que cheguei a achar errado ter ele. Aí desencadeou o outro lado, as inquietas sombras vieram com tudo nos dias seguintes... mas olha só: sobrevivi!

Fora isso 2019 foi o ano que tive uma Domme remota e, por N motivos, deixei que ela fosse embora. Felizmente depois a amizade acabou restando e pude conhecer melhor a pessoa, despida daquela autoridade toda. Tá sendo divertido, fora que ela também é mais gênero fluído... wait, no.

Sobre isso tanta coisa correu na minha cabeça esse ano que passou que olha, não sei se conseguiria expor tudo em palavras nem que tentasse. A verdade é que ando lendo/vendo muita coisa pra compor Fernandes e acabo me identificando com algumas histórias e... enfim.

Já que eu falei dos contos, quem diria que eu conseguiria compor uma personagem crossdresser que começou como um spinoff de outra história e desabrochou como personagem com mais de 20 páginas escritas! Realmente o material acabou rendendo mais do que o esperado e, no fim, eu adorei o caminho que a personagem tomou. E sim, foi a personagem que tomou o caminho, não eu, eu só escrevi, quem faz as escolhas é ela, eu só transcrevo o que acontece.

Vou confessar que esperava estar alguns passos adiante no que tange a minha pessoa, queria ter mais peças de roupa, um empreguinho fixo e tals... mas 2019 não rolou isso. Mas 2020 vai rolar, nem que seja na marra haha

No mais é isso, estava com saudade de escrever mais sobre meus corres aqui. Só não passo o twitter porque logo devo mudar o user, mas lá tenho falado mais sobre minhas neuras, meus dilemas filosóficos, minhas experiências e sentimentos/sensações.

Cuidem-se, pessoas! As Cronicas de Fernandes voltam logo! Quem sabe amanhã ou depois não volto trazendo boas notícias? Vamos ter fé um pouco.

E não esqueçam: Mantenham-se fiéis ao que vocês acreditam e, se não fizer mal pra ninguém (sobretudo você mesme!) não se prive de fazer. Se quer fazer, vai lá e faz. 


ps.: só que como vivemos em tempos estranhos, cuidem-se, mesmo! Nunca se sabe quando um bocó vai aparecer disposto a querer descer a porrada na gente.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

CdF: Alta

Nunca o espaço entre uma sexta-feira e o sábado demorou tanto para Fernando. Passou a acreditar na relatividade do tempo, enquanto tomava uma ducha gelada para acordar notava que havia um silêncio quase irreal na Metrópole, deveriam fazer uns bons anos que ele não sabia o que era acordar cedo no final de semana, talvez só quando viajava, mas mesmo assim agora era diferente.

Tomou um gole do refrigerante de cola que tinha na geladeira, comeu uma maçã e se vestiu, chamou um carro pelo aplicativo já pensando se Bethina ficaria na sua casa ou iria para a casa dela própria. Na cabeça dele não fazia a menor diferença, tudo que queria era que ela se sentisse o mais confortável possível, até porque uma vez confessados os sentimentos e aquela quantidade inenarrável de mensagens trocadas nos últimos dois dias deveria querer dizer alguma coisa.

- Quer dizer alguma coisa - Balbuciou Fernando trancando a porta - ... não quer? - Deu uma rápida olhada para cima como se perguntasse a algum deus que estivevesse de plantão no final de semana.

Ao entrar no carro o motorista parecia pouco propenso à conversas e Fernando também não sabia se queria conversar, estava com tantas caraminholas dentro da cabeça que preferia não abrir a boca com medo de que as palavras fugissem e se nunca mais voltassem. Cada pensamento besta que acabou sorrindo de canto o que foi prontamente percebido por Astolfo, o motorista.

- Pelo sorriso está indo buscar alguém querido no hospital...

- Tá tão na cara assim?

- Ô se tá, ta exalando.

- É? - Fernando sentiu o rosto queimar - Exalando, gostei dessa palavra.

- Bonita né? - O motorista pareceu se entreter com o som dela - Dia desses entrou uma psicóloga muito falante e acabou falando essa palavra, aí fiquei com ela na cabeça... mas acho que é mais que uma palavra - Virou uma esquina, o destino estava no meio do quarteirão seguinte - é um sentimento, tipo estar exalando uma sensação boa.

- Sinestesia, a relação de planos sensoriais diferentes, tipo dizer que a cor azul é fria ou que uma música faz arrepiar.

- O senhor é professor?

- Publicitário, gosto de brincar com as palavras.

- Legal, tenho um filho estudando isso aí, cada dia que ele volta da aula é uma coisa nova que eu e minha velha passamos a perceber nas propagandas... vocês são tinhosos hem.

- Só o suficiente - Fernando riu enquanto o motorista estacionava - Obrigado pela conversa e um ótimo dia pra ti.

- Pro senhor também!

E assim, como se fosse carregado pelo vento Fernando entrou no hospital já perguntando pelo quarto de Bethina e, enquanto aguardava notou uma das funcionárias decorando uma árvore de natal, estranhou a cena, puxou o celular e faltavam menos de duas semanas para a época que menos gostava no ano, mas é a melhor época para fazer peças, todas muito iguais entre si, poucas palavras já causavam um impacto grande no público.

Tão logo soube o número do quarto foi guiado até lá pela mesma força mística que fez tantos homens lançarem-se ao mar em todas as histórias épicas. Por um instante sentiu-se Ulisses atravessando mares e perigos indo atrás da pessoa amada. Porta cento e um. Bateu suavemente três vezes.

- Pode entrar - A voz de Bethina foi como o canto de uma ninfa dentro da cabeça de Fernando.

Ao abrir a porta a imagem de Bethina, em um vestido florido, de alças finas, solto do corpo, nos pés uma rasteirinha e o cabelo solto mostrando ao mundo todo seu volume quase lhe fez desfalecer tamanha a emoção em vê-la ali. O abraço que culminou em um beijo foi apenas a cereja daquela profusão de sentimentos que, mantendo as palavras do motorista, exalavam entre eles. Palavras essas que sumiam entre um beijo e outro emendado por sentenças quase sem sentido para quem visse de fora aquela situação. Passados não mais que um par de minutos Fernando tomou a iniciativa.

- Já está liberada ou ainda precisa esperar mais?

- O médico assinou minha alta tem uns cinco minutos, estava vendo as mensagens lá da firma... até a dona Freya perguntando de mim.

- E você respondeu ela?

- Eu não - Bethina deu de ombros - Terça-feira eu respondo com o atestado, não sou obrigada.

Foi impossível não sorrir com a petulância da jovem que caminhava com certa lentidão para o lado de fora do quarto ao que Fernando, tal qual o bom cavalheiro que era carregava a mochila com os pertences da moça.

Optaram por motivos óbvios que o melhor era ela ficar no apartamento de Fernando para se resguardar e evitar esforço, fora que eles tinham muito a conversar e um final de semana parecia tão pouco tempo que passou voando e logo era segunda-feira. Ele foi para a empresa e ela voltou para o seu apartamento, oito quadras distante.

Aquele dia restou para ele transmitir as notícias acerca da designer tentando não demonstrar que ele estava mais apaixonado por ela como jamais esteve por qualquer outra mulher em sua vida. Ainda que estar com esse sentimento lhe deixasse um pouco confuso, mas... quando nada foi extremamente confuso na cabeça dele? Confuso para Fernando era o normal.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Libertador

Olá, como estão?

Pode soar idiota, mas hoje, 10h da manhã o carteiro bateu aqui em casa, eu sozinha (ainda moro com a mãe, porém essa semana ela viajou) abri a janela, assinei a encomenda e... meu! Era minha fucking saia xadrez com pregas, claro que não era tão bonita quanto no anúncio mas ainda assim... é a minha primeira saia, a primeira peça que compro pra esse "lado" meu que nunca teve seu espaço...

A epopeia dessa saia começou dia 28 de dezembro, quando soube que estaria sozinha em casa durante o prazo de entrega, falava com a Senhora (um dia conto essa história) e ela mandou eu me virar. Sei que soa estranho, mas era o empurrão que faltava, eram 6 e pouco da manhã quando gerei o boleto do Mercado Livre, a impressora aqui de casa estava sem tinta então coloquei no pendrive e fui dormir, acordei eram 9h da matina e fui procurar um lugar que imprime, por R$ 1,00 achei um lugar que duas lojas do lado da lotérica! Como sei que ninguém está com o calendário à mão (muito menos o calendário do ano passado) dia 28 de dezembro de 2018 foi uma sexta-feira, pensei que ia pegar fila na lotérica, mas só tinham 3 pessoas na fila então em menos de 10 minutos eu já estava de volta na rua, quando chego em casa tem um e-mail na minha caixa de entrada:


É aquela coisa né, boleto só desconta na virada do dia, então fiquei tranquila... mentira, quando deu meia noite e não descontou fiquei bolada, será que deu ruim? Mas aí me liguei que era sábado, fui dormir completamente preocupada... Mas, quando acordei...


Agora era com o vendedor, passou o dia 30 (domingo), dia 31 (segunda), dia 1 (terça), dia 2 (quarta) e nada de enviar... já estava pensando que tomei um calote, foi quando me deu a ideia de enviar uma mensagem nas perguntas do anúncio dizendo que eu já tinha pago, que precisava para o quanto antes porque era um presente de aniversário (rs), o vendedor respondeu que já estava no malote, aí o coração pulou!

Isso já no dia 3 pro dia 4... depois disso não deu nem tempo de printar! Em um dia saiu do vendedor (dia 3) e no dia 5 de manhã (também conhecido como hoje) estava na minha mão, no meu corpo e... cara. Que sensação deliciosa!

Não sei precisar quanto tempo eu esperei por esse momento, quantos anos passei namorando as saias do aliexpress, fantasiando eu dentro delas, o toque devia ter, o vento por baixo, as sensações e... eu não sei descrever. Se antes de comprar eu tinha receio de que, talvez, essa "coisa" de CD/sissy não fosse pra mim (sou insegura demais, um dia falo sobre) e que eu estava jogando dinheiro fora, confesso que quando eu estava rasgando a embalagem eu fiquei achando que não ia servir, que o tecido ia se desmanchar nas minhas mãos, que eu fiz besteira... mas ao tocar o tecido, ao cheirar ele na minha mão, ao soltar no ar e ver o caimento... foi inevitável, tirei a bermuda que estava usando e fui colocar ela. 

Na hora chamei todas as pessoas que sabem desse meu lado, só uma estava online, fui mandando fotos e ela opinando, me ensinou até a empinar a bunda haha

O resultado bom é essa foto que encerra essa postagem, eu ainda estou dentro da saia, acho que vou esperar chegar mais a madrugada pra ir tirar umas fotos lá na laje, nessa hora eu queria que alguma de minhas amigas que sabem morassem aqui, assim eu poderia pedir pra elas tirarem umas fotos legais... por sorte eu tenho um tripé e algum conhecimento de fotografia (coisas que aprendi na faculdade) e o photoshop pra dar aquela melhorada nas cores, no ângulo... mas a minha primeira foto (decente vai, deletei umas 20 antes dessa) e que eu postei até no fetlife, é essa aqui:


Obrigada à todas as pessoas que me apoiaram, acompanharam (e aturaram) meus dias de espera e agora vão ter que aturar foto volte e meia (mentira, nem vou floodar ninguém, sou respeitosa)


Agora... Na boa, estou apaixonada por essa foto (e por mim mesma!) e essa sensação, na cabeça de alguém que tem uma auto-imagem terrível desde seus 12~13 anos é libertador.