sexta-feira, 30 de abril de 2021

CdF - Epílogo

 Epilogo


"
Ontem foi, provavelmente, o dia mais tenso na vida da Fernanda. A primeira vez que ela foi totalmente como a mulher linda que ela é. Haviam se passado alguns meses e o ano passado acabou voando tão rápido e com tanta coisa sendo feita simultaneamente que, mesmo com tudo agendado, ela não se sentiu a vontade para bagunçar a Lótus. Ainda não.

Lembro bem do dia que fui comunicar a Rafaela que, depois da virada do ano, ela não teria mais um funcionário e sim uma funcionária. Ela quis saber detalhes, me chamou para o almoço naquele restaurante que nunca foi pro meu bico e contei tudo. Falei das crises, das conversas que tínhamos e de todos os próximos passos. Acho que era meio de outubro ou um pouco antes... Ela quis saber até se Fernanda faria a cirurgia. Respondi que sim, dali alguns dias e, por isso, íamos nos ausentar. Por incrível que pareça ela aceitou de boa, era como se ela soubesse o quanto Fê precisava daquele apoio, aquela base.

E pensar que a cirurgia ocorreu tão bem e a recuperação foi tão rápida que me assustei. Ver Fernanda, agora uma mulher por dentro e por fora me causou uma pequena estranheza inicial... mas, tudo estava ali. Rafaela deixou que ela ficasse de licença um prazo maior do que o do atestado. Naquele tempo ela fez inúmeras demandas pro meu setor para algumas propagandas inclusivas de pessoas trans e coisas do tipo. Além disso promoveu cursos, seminários internos... ela tinha o poder de pavimentar um bom caminho até o regresso da borboleta agora dona das próprias asas.

Aquele ano a Lótus entrou em férias alguns dias antes para algumas reformas no prédio ou algo do tipo. Ainda bem, pois nesses dias extras pudemos correr atrás dos documentos. Quando a identidade saiu Fernanda ficou longos minutos olhando para a própria imagem naquela foto minúscula e que todo mundo sai horrível. Por algum complô do universo ela saiu linda, essa desgraçada aprendeu a se maquiar tão bem quanto eu.

Passados alguns dias fomos ao shopping juntas, ela uma mulher mais alta e eu, para não ficar muito baixa, tive que me virar com salto. Naquele dia senti saudade do meu all star. Depois fomos a um pagode e lembrei daquele dia da sessão de fotos... ela estava maravilhosa. Ficamos alguns dias na Ilha que a mãe dela mora e depois fomos passear pela Metrópole. Eu confesso que ia ficando tensa conforme o dia do regresso ao trampo ia chegando... como ela reagiria? Como os outros reagiriam? Que medo.

No dia do regresso todo mundo olhou com estranheza, alguns perguntaram quem era, outros descobriram logo de cara, mas, fora a estranheza, não notei nenhum preconceito ou até mesmo algo que pudesse soar ofensivo. O treinamento somado às constantes evoluções do mundo foram determinantes para que chegássemos aqui... aquela pandemia fez muita gente repensar o que era certo e o que era errado também. A recepcionista olhou estranho, achei que ela ia dizer alguma coisa como não ser de deus ou coisa do tipo... graças que não.

No fim a aceitação dela foi tão boa e tão positiva que acho que tive medo a toa. Mas também, conhecendo minha borboletinha como conheço, sei que ela tem incontáveis voos a realizar ainda. Sobretudo agora que é minha subordinada na empresa... vai ser uma nova fase pra nós duas, um aprendizado. Não sei como acharam que eu era boa o suficiente para substituir o Borges que foi trabalhar numa multinacional de alimentos com, dizem, um salário menor mas com muitas viagens internacionais pra fazer pela nova empresa. Sucesso pra ele.

Guardei esse último instante para olhá-la na janela, escovando o cabelo seminua. A cada passada os fios pareciam ganhar mais brilho, aquela cintura mais desenhada, os seios que vieram um pouco menores que os meus e aquela bunda... ah aquela bunda. Os anos de ciclista dela estavam ali naquele patrimônio que é só meu. O foda de pensar nas mudanças estéticas de Fernanda é ver o quanto ela não mudou por dentro. Continua uma criança que coleciona carrinho e gosta de ver corrida de carro na TV, que cozinha divinamente bem, tem um senso de humor único... o tanto de coisa que mudou nela não mudou em nada o meu sentimento por ela, aliás, mudou sim. Amo ela cada dia mais sendo dona de si, sendo a mulher que ela nasceu para ser e o melhor: sendo minha mulher. Nada é mais perfeito que isso.
"

- E aí, o quê achou?

- Que nós duas - Fernanda me olhou fixamente - temos um futuro brilhante escrevendo.


- Acha mesmo?


- Acho sim - Ela deu uma olhada para a tela - Algumas pequenas adaptações e pode virar um livro, quem sabe filme, série... já pensou?


- Não viaja, mô...


- Não tô viajando.


E assim, selamos o contrato de parceria com um beijo. Oficialmente temos uma história para começar a contar e que irá durar muitos e muitos anos ou, como diria o poeta: infinito enquanto dure. E, enquanto durar, será repleto de amor.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Dois

 

Passou o dia 5 e, por N motivos eu não consegui postar o que eu queria... então esperei o dia certo pra fazer esse post. Então é hora de estralar os dedos e escrever um pouco.


Mas o que tem o dia 5 de janeiro de tão especial? Simples: faz 2 anos que eu recebi a saia, aquela que foi o divisor de águas do que eu era pro que eu sou. Foram tantas descobertas, tantas coisas que fixei no meu novo eu que acho que não consigo descrever em palavras sabe? Mas vou tentar.

Tive sessão de terapia (menines, papo sério: façam terapia! Procurando bem sempre acha uma bem gente boa e bem em conta) e comentei o quanto eu sentia que tinha mudado depois da saia e minha terapeuta (que vai ler aqui, pq vou mandar o link pra ela haha) disse "e a terapia?" e eu "a terapia ajudou pra caralho" e ajudou mesmo, porque ajudou a fixar algumas coisas cá dentro.

A primeira e talvez mais importante pra mim é: Não, eu não sou trans. Longe disso ser um problema, mas eu me identifico de boas com meu sexo de nascimento e só curto parecer, a ideia de deixar esse meu lado mais feminino sair pra dar umas voltas, pra fazer umas fotos, passar horas em lojas online fuçando é o meu objetivo.

Uma das coisas que me aquece o coração é a ideia de modelar, fazer do crossdressismo (transformei crossdresser em verbo haha) uma arte e quando eu digo arte é no objetivo principal da arte que é chocar, é causar a estranheza, é provocar o que já está estabelecido e, com isso, transformar um pouquinho que seja a realidade do mundo... aliás, se meus relatos, minhas dúvidas e minhas conclusões ajudarem UMA pessoa a se encontrar nesse mundo confuso já vai me deixar feliz num nível que não vou conseguir explicar.

A segunda é eu ter descoberto que crossdresser é o objetivo que quero, como já disse, é um processo lento, doloroso mas que hoje olho pra trás e vejo que, velho, valeu a pena... ta valendo a pena. E o projeto é seguir em frente, por enquanto não vou falar muito, mas conforme a coisa for ganhando forma vocês vão saber!

Um parênteses antes de encerrar: Os escritos de Fernandes vão voltar, essa temporada (a terceira) é a última... o que não quer dizer que não vou escrever mais pros Contos de Fernandes, mas né... quando eu terminar e escrever tudo que planejei a história vai fechar e depois acaba virando novelão e... não esse é o objetivo.


E que esses dois anos virem três, seis, dez, vinte e que eu possa inspirar outres crossdressers a saírem, fazerem o que der na telha quando quiser! Quem foi que definiu que vestido/saia é exclusivo do vestuário feminino? Nos próximos meses vou trazer um termo novo aqui pro blog que quero expandir, o tal do genderless que se aplica mais à moda e tals, mas ainda vou boltar um conteúdo show sobre isso! Me aguardem ;)

Ah, você menina/mulher que gosta de se montar como menino, aqui tem espaço pra vocês também viu? Se tem uma coisa que esse blog quer é ouvir a voz de todo mundo!


Agora pra comemorar esses dois anos da minha saia (ainda solitária) eu fiz uma foto na laje, durante o dia... não é uma mega foto mas fica de marco especial pra data que passou! Ei-la: 




Cuidem-se, bebam bastante água, cuidado com os embustes, sejam felizes e fieis a vocês em primeiro lugar! 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

CdF s3e2: Pedal

Eu devia ter tomado uma atitude muito tempo atrás, meses atrás mas não tomei e agora ela parecia tão grande quando, na verdade, era só o que eu sempre desejei e pronto. Confesso que tinham dias que eu não queria tomar os remédios, não queria me olhar no espelho... mas, no fundo, eu notava que aquela silhueta que brotava no espelho era quem eu sempre quis ser, era a criatura que eu tanto namorei nos aplicativos que trocam o rosto, nas malfadadas tentativas de me maquiar... estava vindo, porém eu ia me desapegar do Fernando pra sempre e isso era o que mais me assustava.

Junto da terapia me foi sugerida uma rotina fixa, atividades que eu pudesse me focar cem por cento do tempo até não ter mais tantos surtos quanto tive no começo do ano. A ideia era ótima e o apoio de Bethina era o que me impedia de saltar da janela. Mas, ao mesmo tempo, eu me sentia egoísta obrigando ela a viver isso tudo. 

A imensa verdade é que essa criação de uma rotina ajudou pra caralho, no entanto não posso ficar o tempo todo fazendo alguma coisa, tem momentos que preciso de uma dose de ócio pra aflorar a criatividade, foi numa dessas que eu chamei Bethina pra pedalar no parque depois do trabalho na sexta. Ela quis reclamar mas acho que a exaustão a fez aceitar. Claro que eu não tinha a menor vontade de ficar andando a esmo nas ciclovias e sim achar um banco, respirar um pouco de ar puro...

- Sabê, Bê - Era curioso como o parque estava tão vazio, achar um lugar pra sentar foi extremamente fácil - Às vezes acho que eu tô atrapalhando a sua vida.

- Às vezes você fala umas bobagens - Ela sorriu me olhando de canto - Mas vamos ver, por que você acha isso?

- Ah sei lá - Respirei fundo tentando fugir daqueles olhos - Sou uma criatura meio bizarra ainda... estou na fronteira do que eu sou e quero ser...

- E...?

- E isso atrapalha sua vida cara, você merece alguém mais centrado, mais certo das ideias e não essa...

Não tive como continuar. Bethina puxou meu rosto e me deu um beijo tão apaixonado que não sei como contive a inundação de lágrimas dentro das pálpebras, de repente todo aquele diálogo, todas as minhas palavras, todo o parque, a Metrópole, o país, o planeta, o universo e toda a criação deixaram de existir e só nós duas estávamos ali, não poderia precisar quanto tempo durou, mas foi o suficiente para fazer qualquer núvem que pairava em meu pensamento ficar seriamente desnorteada.

- Sabe qual o seu problema Fê? - Não consegui responder, apenas fiz a negativa com o queixo - Você pensa demais... lembra o dia que você comprou sua primeira saia?

- L-lembro - A lágrima escorreu - Eu já te contei essa história?

- Não, mas eu sou hacker e achei teu blog velho.

- Olha ela - Enxuguei a lágrima - Continue.

- Então... Você teve a decisão, foi lá, comprou, pagou e quando ela chegou pelo correio você se sentiu a pessoa mais realizada do mundo, nada importava, sem passado, sem futuro... só aquele ventinho frio por baixo e a sensação de liberdade... - As lágrimas voltaram - Me diz, as saias seguintes foram tão prazerosas quanto essa?

- Não tanto... não vou dizer que virou algo normal, porque ainda me dá certos calafrios entrar em uma loja e comprar algo pra minha sobrinha, afilhada ou até mesmo noiva...

- Noiva? - Bethina me deu um tapa no braço - A senhorita anda me traindo é?

- Não! - Corei de leve - É só...

- Eu sei boba. - Pausamos um instante - E que você não quer entrar em uma loja e dizer que é pra você? Poder experimentar... me diz, quantas vezes você comprou o tamanho errado e teve que voltar na loja pra trocar?

- Poucas... 

- A maioria você aceita a derrota e joga a peça no canto e na primeira doação de natal você se livra delas, tô ligada.

- Nossa... você tem um jeitinho tão cínico de falar essas coisas...

- Você diz cínico e eu digo verdadeira... agora 'bora pra casa.

Eu estava ali durante todo o trajeto até em casa, eu respondia, falava mas não me sentia aqui, tudo estava martelando dentro da cabeça. Ela tinha razão. Perdi no par ou ímpar e ela escolheu que eu fosse tomar banho primeiro. Acho que ela já esperava essa reação minha e por isso me fez confrontar o espelho. Cá estava eu vendo meu reflexo, cabelo solto, rosto afinando, seios já despontando e ereções quase nulas... e talvez fosse isso aí, esse é o objetivo que eu, desde aquela primeira vez que vi a possibilidade de me montar e agora a oportunidade real de me tornar a mulher que sempre quis ser. Respirei fundo e entrei debaixo do chuveiro enquanto o cheiro de comida vinha da cozinha. 

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

CdF s3e1 - Surpresa

Ainda lembro da primeira crise forte, foi no meio da noite com Fernanda tossindo muito, antes que eu pudesse ampará-la ela saiu para o banheiro e a tosse cessou. Sorri aliviada esperando o sono voltar... mas algo dentro de mim não deixou. Da fresta da janela vinha o ruído típico da Metrópole acordando com uma fina brisa que dava ao sexto dia do ano um ar de outono. Me levantei indo até a porta do banheiro fechada que vazava luz por baixo. Bati uma vez. Silêncio. Bati duas. Nada. Bati a terceira.

- Amor - Falei em tom preocupado voltando a bater - Tudo bem aí?

Silêncio. Com o histórico dela eu odiava o silêncio. Já ponderava como faria pra arrombar a porta e levá-la às pressas pro hospital. Testei a fechadura. Não estava trancada. No fundo do box podia ver uma silhueta abaixada sentada no chão. Meu primeiro pensamento - e que se tornou ação - foi me aproximar.

- Fica longe - A voz desafinada tomou conta do ambiente - Vai embora! - Os soluços de choro se misturavam às ondas sonoras que preenchiam o diminuto cômodo - Eu sou uma aberração!

Tinha dito à psicologa que saberia lidar com as prováveis crises dela durante a parte medicamentosa da transição, mas vê-la se chamar de aberração foi como uma faca entrando no meu peito. Naquele momento tudo que podia fazer foi abraçá-la até a crise passar e dormimos ali mesmo. No dia seguinte ela me pediu desculpa.

Os dias que se seguiram também não foram fáceis. Quase toda noite, nas mais variadas intensidades, Fernanda se achava uma aberração, um ser entre o masculino e o feminino. Toda a puberdade condensada em um ano e meio, talvez dois anos. Pesquisei o que fazer. Perguntei à psicologa e as duas voltaram com o mesmo resultado: só o tempo. Negócio é fazer como minha mãe sempre disse: se você quer mesmo ver o céu noturno iluminado tem que segurar o rojão. Por isso aguentei firme uma semana.

Pensei em pedir ajuda para Freya, mas não tinha como, ela estava na Itália com Rafaela e aquele outro rapaz. Aguenta firme, Bethina. Você é forte. Dez dias se passaram e as férias já estavam no fim. Talvez uma rotina ajudasse. Umas poucas pessoas voltaram dias antes do restante dos funcionários porque teríamos reuniões internas para alinhar discursos. Fernanda preferiu se esconder atrás da máscara de menino, o foda que eu não podia julgar ela, tudo a seu tempo. 

Logo depois da primeira reunião Freya notou meu estado e, tão logo conseguiu, me puxou de lado para conversar.

- Você tá bem? - Ela me olhava preocupada - Parece que você não dorme fazem noites...

- É porque eu não durmo mesmo - Eu estava com tremedeiras - Eu sabia que ia ser difícil... mas tanto...

- Fala de Fernanda?

- Sim.

- Me conta.

- Ah... ela tem tido umas reações adversas aos remédios, tido uns surtos de noite... aí mesmo que nos últimos dias ela esteja mais tranquila eu não consigo pregar o olho direito.

- Entendi... - Freya puxou o celular do bolso, mandou uma mensagem meio longa, achei um pouco falta de respeito mas ela é minha superior, então né, melhor esperar, vai que é algo mais importante que meu drama pessoal - A dona Rafaela quer falar contigo.

- É? - Estava em uma condição tão lamentável que nem me arrepiei com a situação - Sobre o que ela quer falar?

- Surpresa.

Caminhei da pequena sala de reuniões onde estava conversando com Freya pelo corredor até a sala da presidência. Fernanda me mandou mensagem toda amorosa perguntando o que tinha acontecido. A bipolaridade de humor dela era ágil, pelo visto a rotina era o que ela precisava para entrar um pouco nos eixos. Respondi que Rafaela tinha me chamado para discutir alguns detalhes de design de alguns produtos. Uma mentira que não fazia mal algum. Bati de leve na porta e ouvi a voz característica da chefa falando para eu entrar.

- Mandou me chamar, chefa?

- Mandei... - Rafaela estava com o olho fixo no monitor do notebook, dois segundos depois me olhou de cima abaixo - Realmente, Freya tem razão, você está só o pó da gaita.

- Como assim?

- Está com olheiras, ombros caídos... - Ela se levantou e caminhou na minha direção - Eu nem consigo imaginar pelo que você está passando com Fernanda... mas eu tenho uma proposta.

- Proposta? - Arqueei a sobrancelha - Que proposta?

- Vou te dar um final de semana em um spa, só pra você... - Ela me tocou os lábios quando eu ia falar - E pode deixar que eu cuido de Fernanda por esses dias, sei quais botões tocar pra acalmar aquela borboletinha saindo do casulo... e quando Fernanda perguntar diga que vai fazer um curso na Cidade Maravilhosa, se ela não acreditar diga pra vir falar comigo.

Não ousei questionar. Não conseguia reagir. Não que fosse a coisa mais certa do mundo, mas sentia que precisava desse espacinho, desses dois dias para pensar em tudo e relaxar e confiava em Rafaela cuidando de Fernanda. Sem qualquer outra reação a abracei, gesto que foi retribuído. Quem disse que chefe é tudo ruim e não liga pra funcionário mesmo? Pelo visto queimei minha língua.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Sessão de Terapia

Olá pessoas, como estão?

Sei que quase ninguém lê aqui e depois do livro que virou a história de Fernandes (CdF, pra quem chegou faz pouco tempo, é 'Cronicas de Fernandes') menos gente ainda lê (a média de acessos diz que tem entre 3 e 10 views por post), porém como o objetivo aqui nunca foi fazer sucesso e sim escrever uma história que foi surgindo conforme minhas dúvidas surgiam... é, até que rendeu né? E teremos uma temporada 3? Quién lo sabe? Eu adoro trilogias, quem sabe né? Mas por ora, vamos deixar assim.

A verdade é que criei esse blog como válvula de escape pra mim, uma pessoa confusa no que dizia respeito a sua sexualidade e suas neuras internas. Comprar a saia, pra mim, foi um divisor de águas imenso, me fez bem, melhorou minha auto-estima, porém trouxe consigo dezenas de dúvidas que vou escrever aqui mais como um desabafo do que como algo pra inspirar ninguém ok? Eu estou escrevendo a MINHA jornada até aqui.

O começo


Quando eu comprei a saia em finais de 2018 (juro, parece muito mais tempo) eu dividi minha personalidade, o Lu era o menino-hétero-bonitinho-que-curte-automobilismo e a Fê que era a menina-que-curte-rosa-e-tudo-do-universo-feminino, só que eu não me sentia bem com isso, aí eu comecei a "matar" a Fê, só que né, ficou uma sensação meio de vazio e resolvi pegar a personagem que eu já tinha criado (o Fernando é uma personagem que criei quase como uma fanfic dos escritos da Senhora Pam, o incrível e super recomendado Senhora de Três) e a minha ideia quando comecei a escrever era ir tateando as coisas sabem? Primeiro a ideia da personagem ser a sissy de uma domme era o meu desejo na época, depois a personagem "evoluiu" pra crossdresser (onde passei também) e por fim se descobriu que a personagem é, na verdade, uma mulher trans.

Eu não sei quantos de vocês que leem aqui também tem o hábito de escrever, mas quando eu escrevo eu não controlo o que minhas personagens vão fazer sabe? Eu tenho a ideia e deixo fluir e no fim eu acabo me surpreendendo com os rumos do que escrevo, por isso o próximo paragrafo...

No meio pro fim do ano passado eu estava realmente achando que eu poderia ser uma pessoa trans, sério mesmo, já estava lendo relatos, vendo os remédios que se toma e todo o processo, porém a ideia não me satisfazia, ela era como uma febre terçã, durava pouco e não era o caminho que eu queria... e assim o ano de 2019 se arrastou comigo usando a saia vez ou outra e contanto pra algumas pessoas e aí vem o próximo parágrafo.

Felicidade compartilhada


Como já contei naquele post eu senti uma alegria tão intensa e imensa por ter realizado isso que eu quis berrar pra todo mundo. Só que quase instantaneamente veio a realidade e falou "ow peraê" e lembrei que moro em Santa Catarina, um dos estados mais homofóbicos/racistas do Brasil (aqui é tutu alemón) então respirei fundo e, durante o ano de 2019, eu fui escolhendo a dedo as pessoas que eu falaria sobre e todas (até o momento umas 10 mulheres e 2 homens (tenho mais amigas que amigos, fazer o que né?)) super compreensivos, alguns até me falaram que era tão bom me ver feliz com algo (relembrar isso me mareja as vistas), porém tem uma única pessoa que eu queria falar só que por ora não tenho como que é minha mãe (Fernandes, te invejo) e acho que é isso que me falta pra ter uma felicidade interna plena... mas se a reação de todo mundo foi boa por que eu acho que da minha mãe vai ser diferente? Não sei. Esse é um dos mistérios da vida.

Um outro caminho


Comecei 2020 com um emprego na área que sou formado (publicidade) e o panorama era o melhor possível, estava conseguindo guardar uma grana, no meio do ano ia viajar pra SP pra "sentir" a cidade e conhecer pessoalmente algumas pessoas que só conheço da internet e em dezembro/janeiro eu pegaria as férias e ia de novo pra SP procurar emprego na minha área e, encontrando, eu me demitiria e ia pra cidade que quero morar sozinho já tem um tempo... só que aí veio o coronga e miou tanto os meus planos quanto da empresa que eu trabalhava, ou seja: fui demitido em abril, por sorte o Lu aqui é uma pessoa precavida e tinha uma reserva que durou até julho (pois é, daqui pra frente vai ser osso...) e agora estou correndo atrás de uns freelazinhos.

E como a vida é uma caixinha de surpresas minha prima me manda um vídeo de um cara chamado Guilherme Rocker, figura magricela com um cabelo incrível... pois bem, assisti alguns vídeos dele curtindo o estilo, porém o gatilho que fez a chave virar foi o documentário sobre o Walter Mercado que tem na netflix nossa de cada dia... lá alguém falou que o Walter era andrógino e essa palavra tipo explodiu na minha cabeça saca? Tipo aquele gif.. wooooow

Fui ler sobre e passei a me interessar pelo estilo e veio de encontro com algo que eu já tinha na cabeça desde o começo do ano...

Falando no começo do ano de volta: Quando eu entrei no emprego eu resolvi fazer terapia (menines, façam terapia, é ótimo!) e fui logo falando pra ela minhas neuras e tudo mais e ela tem me ajudado a normatizar essa coisa de usar saia na minha cabeça... eu falei uma frase que ela até guardou e foi uma paráfrase duma "ministra" do governo atual: Meninos usam azul e meninas rosa... e eu? Eu gosto do roxo.

(quem não sabe roxo é a mistura de azul com vermelho)

E aí sigo aqui, encantado por coisas roxas e cada vez mais interessado na ideia de ser andrógino, parece que o "não-escolher" também é uma forma de escolha afinal.

No mais é isso que eu queria dividir com vocês! E não se esqueçam de se permitir porque sim, você merece ser feliz hoje!

Até a próxima 
~ Lu

sábado, 25 de julho de 2020

CdF s2e22 - Céu

Nossa, nem dá pra acreditar que já estamos no final de mais um ano. Um ano com tantos altos e baixos, com tantas reviravoltas, provavelmente o ano com mais surpresas da minha vida. A começar por tudo que aconteceu na Lótus, Rafaela tomando um golpe que lembrou aquele que a presidenta levou alguns anos atrás, mas, como se fosse uma história escrita por alguém completamente bipolar e que vai decidindo o que acontece conforme escreve, as coisas foram se encaixando e Rafaela voltou ao posto de CEO da Lótus e recontratou a imensa maioria. Alguns já tinham achado outro emprego e preferiram ficar lá, eu confesso que quase cogitei isso, mas a volatilidade da vida de freelancer é muito grande e não quero mais isso pra vida.

Agora com relação à Fernanda o ano foi uma ascendente tão linda. Tivemos nossos momentos ruins, nossas brigas, ela dormindo no sofá, eu dormindo no sofá... nada que estragasse o sentimento. Caminhei até a geladeira, peguei uma coca gelada. Fernanda está decidida a assumir sua real personalidade e encarar tudo que isso pode acarretar, amo essa coragem dela. Bebi um gole do líquido negro do capitalismo, puta merda que coisa boa.

O caminho daqui em diante seria doloroso pra nós duas, mas eu tenho fé em meus orixás que tudo vai ser bom, que é na dor da caminhada que se valoriza a chegada. Com hoje se vão três meses que Fernanda começou com o tratamento, ela diz que sente algumas dores pequenas, nada que incomode ou estrague o dia, mas sei que ela mente mal, porque à vezes a vejo se contorcer de dor e a merda é que não tenho muito o que fazer além de me mostrar presente. A psicologa inclusive me disse isso: que é ótimo Fernanda ter alguém do lado enquanto passa por tudo isso. Ela teria uma puberdade que dura anos em um ano e meio... ia ser foda, mas a gente segura o rojão. Falar nisso... caminhei até a porta do banheiro.

- Ow princesa - Fazia quase uma hora que ela estava no banho - Assim a gente vai se atrasar.

- Tô quase acabando - A voz abafada me deixou em um misto de preocupação com curiosidade, não era raro ela se trancar no banheiro pra chorar, uma das noites no sofá foi por isso dela esconder seus sentimentos pra não me preocupar - Só escovar o cabelo... aí cê me ajuda com a maquiagem, amor?

- Claro, mas anda logo - Alarme falso, a voz estava serena - Não gosto de chegar atrasada em lugar nenhum e acredito que vai ter trânsito para um caralho até lá.

- Relaxa, dona Bethina - Ela abriu a porta e uma coluna de vapor a seguiu - Ainda temos horas pra chegar lá, além do que não é longe.

- Eu tô super relaxada, aquela sua massagem ontem foi incrível - Fernanda estava enrolada na toalha quando passou indo para o quarto - Ano que vem faz de novo?

- Ano que... - Ela fez careta fechando a porta - Já começou as piadinhas do ano que vem né.

- Ah sim, já postei no grupo das minhas primas várias desse tipo... elas até falaram de me banir.

Ri indo até o banheiro que parecia que tinha sido invadido por uma bomba de fumaça. Desembacei o espelho com a toalha e comecei a me maquiar, nada muito trabalhado, só o suficiente pra valorizar a mulher maravilhosa que eu sou. Até nisso Fernanda me influenciou, minha auto-estima subiu nos últimos tempos. Dez minutos e eu estava pronta. Vestido branco, pouco acima do joelho, decote pequeno, cabelo com os cachos todos definidos, umas pulseiras pra fazer barulho além do anel de noivado. Quando entrei na Lótus e conheci Fernanda eu não me importava muito com minha aparência, qualquer roupa servia. Camiseta, jeans, tênis baixo e pronto. Tinha muito pouca roupa de menininha. Até nisso ela me mudou... No visor do celular já eram quase vinte horas.

Voltei à sala onde calcei a sandália de salto baixo e presa no peito do pé. Bolsa em cima do sofá e estava pronta. A porta do quarto abriu como se fosse em câmera lenta. Fernanda com uma saia longa branca indo até próximo dos pés e uma blusinha dourada, nos pés uma rasteirinha completava o visual hippie-de-cidade dela. Podia jurar que era peruca aquele cabelo, mas não, essa desgraçada conseguiu deixar o cabelo liso com pequenas ondas... ou será que era um efeito dos hormônios? Vai saber.

- Me ajuda com a maquiagem, amor?

- Me dá um segundo...

- Pra que? - Ela me olhou franzindo a testa - Que foi?

- Estou admirando o quão linda é a filha da puta da minha noiva.

- Não exagera... - Senti uma onda de baixa-estima vindo nela - Não ta tanto assim...

- Calaboca - E eu sabia interromper isso, era meio passivo-agressivo, mas funcionava - Você ta maravilhosa! Quer casar comigo?

- A gente já vai casar - Pronto, o cenho dela aliviou - Agora me ajuda com a maquiagem que já estamos atrasadas...

- "Estamos atrasadas" sério? - A fiz sentar, apesar do tom era em tom de brincadeira - A princesa fica mais de uma hora no banho sendo que eu já estava pronta e eu que sou a culpada pelo nosso atraso é? 

- É que você já é maravilhosa, não demora muito pra se arrumar - Ela sentou jogando o cabelo pra trás - Já eu tenho que remar muito pra chegar aos seus pés.

- Besteira - Dei um beijo na testa dela - Você é maravilhosa também.

Dito isso ela se calou enquanto eu fazia uma maquiagem suave. Uma sombra, um pouco de pó, base pra cobrir uma espinha no queixo, batom e ela estava incrível. Ninguém diria que, até meses atrás, ela era ele. Pensar nisso me trouxe uma nostalgia diferente. Me fechei um pouco na minha introspecção. O ano dela provavelmente foi mais emocionante que o meu com uma demissão e demissão cancelada. E agora estávamos as duas dentro de um carro do aplicativo. Fernanda conversava com a motorista que dizia que aquela era a última corrida da noite e que estava indo para casa onde o marido fazia a ceia de ano novo.

Conforme eu previ tinha trânsito, todo mundo queria chegar na avenida central para ver os fogos e o lugar que estávamos indo ficava no caminho. Olhei no relógio da rua e já eram passado das vinte e uma horas. O convite dizia que a ceia era depois da meia noite, após os fogos... mas sentia que a gente tinha que chegar logo. Chegamos na frente daquele prédio alto, Fernanda pagou uma bela gorjeta para a motorista enquanto eu descia. Mesmo menininha ela seguia cavalheiro... cavalheiro... cavalheira. Acho que cavalheirismo é algo além de gênero, depois pesquisaria.

- 'Bora garota - Ela desceu arrumando um eventual amassado no tecido da saia e agora era ela quem me puxava - Não quero perder a comida.

- Nossa - Despertei da minha bolha de introspecção - Depois reclama que engordou né.

- Nem engordo - Passamos pelo porteiro e entramos no elevador, o espelho do veículo evidenciou os quase vinte centímetros de diferença na altura - É culpa dos hormônios.

- Sei, aham - Falei segurando o riso - Tu que é esfomeada, isso sim!

Chegamos no último andar. A cobertura. No mesmo andar apenas mais um apartamento, com um capacho de loja barata. Fernanda tocou a campainha enquanto eu enganchava no braço dela. Uma criatura híbrida abriu a porta. Era nítidamente um homem em trajes de empregada francesa. 

- E-entrem - Rafaela tinha começado um novo experimento? Olhei pra minha companheira - A senhora aguarda vocês na sacada.

- Obrigada - Fernanda agradeceu enquanto a criatura se retirava voltando para a cozinha - A Rafaela não perde tempo...

- Então...

- Yes, uma sissy - Ela sorriu enquanto caminhavamos na direção da sacada - Tem jeito.

- Você já foi assim? Quero dizer... tipo empregadinha.

- Já - Ela corou suavemente - Foi uma época pra me definir e me descobrir.

- Um dia você podia escrever um livro sobre esse rolê todo...

- Quando ficar velha, quem sabe?

Assim que chegamos na sacada foi como aquelas entradas em saloon de filmes de velho oeste. Os poucos convidados todos nos olharam, não cheguei a notar se a música parou, mas Freya e aquele outro rapaz que trabalhava para a Rafaela, se não me engano o nome era Vali, vieram em nossa direção. Cumprimentos feitos ficamos em conversas alheias, filmes, séries, a vida... nada que fosse tão grandioso.

Logo os fogos começaram a colorir o céu, ora vermelho, ora azul, ora verde, amarelo, branco, rosa, roxo... a cobertura de Rafaela ficava próximo do epicentro das festividades na Metrópole e o céu estrelado com pouca poluição dava às luzes ainda mais brilho.

Pelo segundo ano seguido Fernanda passou empoderada de si e da incrível criatura que nascia ali naqueles comprimidinhos diários. Cada nova explosão levava uma mágoa, uma dor em vê-la ter algumas reações adversas... mas fazia parte né? Senti a mão dela apertar mais a minha e só então me dei conta que estávamos com os olhos rasos em lágrimas, a tal da comunicação não-verbal que ela dizia termos. Certa vez minha mãe falou que o choro de felicidade que é compartilhado é o mais lindo que há... e não é que ela tem razão? Antes do fim das explosões que saudavam a chegada de um novo ano um beijo se fez e, a julgar pelo silêncio da sacada, não éramos o único casal agarrados reforçando laços de sentimento.

- Muito bem - Ao fim do espetáculo Rafaela se posicionou na cabeceira da mesa - Cheguem todos aqui mais perto, sentem-se - Ela pegou a taça, movimento repetido por todos os presentes - O ano que passou foi de muita provação e superação de barreiras - Notei o olhar dela à Fernanda que, com um suave inclinar lateral de cabeça agradeceu a parte que lhe cabia - Todos que estão aqui são pessoas que eu confio e quero dividir os momentos de felicidade como os de agora... - Algum buchicho se fez - Eu sei que prometi não falar de trabalho em um momento como esse... mas eu quero dividir com todos vocês, em primeira mão, que, a partir de hoje, a Lótus irá subir de patamar, nosso pioneirismo e qualidade tanto nos materiais quanto no profissional foi recompensado com o que vou dizer agora - Ela pausou, buscou o fôlego, todo esse suspense me deixava bolada - No apagar de luzes do ano saiu o resultado do edital de fornecimento de materiais pro governo do estado e nós fomos a empresa vencedora! Brindemos!

Por essa eu não esperava. Os copos se tocavam, as pessoas riam, conversavam sobre a imensa porta que se abria, definitivamente o próximo ano vai ser de muitas mudanças, a começar por Fernanda dando entrada nos documentos, seguir a terapia, a medicação e, se tudo correr bem, decidir se vai operar ou não... confesso que pra mim tanto faz, desde que ela esteja feliz e comigo eu topo tudo e agora, com a empresa decolando, topar tudo significa ao infinito e além. 

Bem vindo, ano novo, hora de enterrar velhas neuras, superar velhas mágoas e seguir em frente. Como diz Fernanda, Alea jacta est.

domingo, 19 de julho de 2020

CdF s2e21: Arrumação

Nunca desejei que um final de semana passasse tão rápido. Nem mesmo o pit-stop no posto para calibrar os pneus da minha bicicleta a caminho da Lótus me fez mudar de humor e desejar tanto chegar. Assim que passei a portaria dona Vera veio me abraçar, dizer que fiz falta nas manhãs dela. Aquela teoria da Bethina de que ela nutria algum sentimento por mim cada vez fazia mais sentido, ou não, ela era uma pessoa de bom coração e temente ao deus dela, fazia o bem e sempre tinha um sorriso.

Como era de se esperar passei pela operação onde os poucos funcionários conversavam amenidades sobre o final de semana, sobre a atualização mais recente de algum jogo coreano... os nerds seguiam nerds. Cheguei no setor e Borges, em sua mesa, caneca de café preto fumegante olhava as estatísticas da rodada de futebol. Passei por ele deixando minha mochila na cadeira. Foi quanto fui notada.

- Fernando! - Tinha de aguentar mais um tempo com essa persona que não mais me pertencia - Resolveu voltar ao caos da cidade grande? - Sem nenhuma cerimônia ele me abraçou, correspondi ao gesto - Foi boa a viagem?

- ô, foi ótima - Desfizemos o abraço - Fui visitar minha mãe...

- ... E apresentar a nora pra ela?

- Basicamente. - Típico humor masculino, rimos brevemente - E como tão as coisas por aqui?

- Se arrastando... - Ele chegou mais perto olhando em volta - Mas tem algo legal rolando, ouvi dizer que...

- Eu já sei.

- Sabe?

- Claro, eu não seria da área de comunicação se não soubesse das coisas... inclusive já tenho um release pronto na cabeça, só preciso esperar o momento pra ter os detalhes exatos.

Liguei o computador sendo saudado pelo discreto papel de parede do shen-long e ícones posicionados ao redor da imagem ficando o cronograma na base do mitológico dragão. Não teria tempo de escrever nada agora. Em dois minutos tudo isso aqui ia mudar, de novo. Mesmo sendo digital eu podia ouvir o relógio em seu tic-tac, internamente o despertador tocou e veio o chamado para todos irem para a sala de reunião principal, no andar da presidência.

Saí rápido, queria estar na primeira fila para ver o que ia acontecer. Dos setores mais remotos da Lótus até aqui em cima não demoravam cinco minutos, mas tinha muita gente pra poucos elevadores, logo, quando bateram dez minutos o último técnico do setor de produtos chegou.

Henrique Arantes, homem de corpo franzino, terno mal cortado, parcialmente calvo estava no palco, microfone na mão, notebook conectado ao projetor. Começou dizendo o óbvio de que a empresa havia faturado menos do que o esperado e por isso cortes seriam necessários. Só agora tinha me dado conta de que Freya estava sentada do meu lado com seu inconfundível tailleur de grife e um belíssimo sapato loubotin com solado vermelho. Quando chegou nos gráficos extremamente mal feitos a submissa me cutucou jogando as sobrancelhas pra cima como quem diz para prestar atenção no que aconteceria dali em diante, antes que eu pudesse perguntar as duas portas do auditório se abriram atrás de nós.

- Prendam esse homem - Rafaela vinha elegante a um nível que jamais a vi, saia de couro branco colada ao corpo, meia fina, blusa preta por baixo de um blazer branco, cabelos soltos e nos pés um sapato do mesmo designer italiano - Tenho aqui as provas de que há fraude nesses balanços.

- C-como ousa entrar assim? - O atual CEO da Lótus ficou descompassado - Você foi demovida do conselho por...

- ... Por preferir o bem-estar do funcionário a um lucro absurdo para os acionistas - Dois seguranças entravam logo atrás de Rafaela no papel de Domme Rafaela que carregava uma pasta com papéis - Freya, me ajuda aqui.

- Pois não - A jovem pegou das mãos de sua senhora um pendrive que logo projetava uma apresentação super esmerada - A vontade.

- Então, meus caros funcionários - Rafaela tomou o microfone de Henrique Arantes - Eu fui retirada do conselho por dar mais vantagens a vocês do que o habitual do mercado, porém isso tudo refletia em mais produtividade, no entanto, fraudando balanços, esse homem convenceu os acionistas de que a empresa não estava dando o lucro esperado... - Ela respirou e eu puxei o celular para anotar os tópicos do futuro release - Levei alguns meses para recolher todos os documentos e conseguir me reunir com o conselho que, no final da semana passada, me reconduziu à presidencia da Lótus - Se caísse uma agulha no fundo da sala ela pareceria um disparo tamanho o silêncio que estava no ambiente - Seguranças, podem levar esse homem daqui, a viatura já o aguarda para levá-lo às mãos da justiça.

- Não ouçam essa louca - Os dois armários seguraram cada um em um braço do ex-CEO o conduzindo pelo corredor onde as expressões iam de surpresa à vingança realizada - Ela está mentindo, enganando todos vocês!

- Enfim - Logo que o homem foi conduzido para fora todos seguiam completamente perdidos e sem reação até que eu comecei um aplauso que logo ganhou força e todos aplaudiam - É muito bom ver todos vocês aqui... porém creio que faltam alguns não é mesmo? - A chave virou e a Rafaela-Domme saiu dando espaço para a versão mais humana - A partir de agora todas as demissões feitas nos últimos meses estão revogadas e eu irei, pessoalmente, entrar em contato com todos que foram demitidos propondo não só seu religamento à Lótus imediato como também um bônus pelo incômodo... - Ela sorriu dando uma sutil piscada para mim - De resto é isso, agora voltem ao trabalho... temos muita coisa pra fazer!

Os aplausos se intensificaram ganhando a companhia de alguns assobios. Ao fim daquela ovação todos voltaram aos seus postos, no elevador eu já escrevia o release com toda a velocidade para não perder nenhuma ideia que passava pela minha cabeça. Fui o último do setor a chegar, porém logo joguei o texto no computador, revisei e encaminhei para Borges dar seus toques pessoais. Mais uma revisada e o escrito rodou por todos os funcionários da comunicação antes de ser enviado à Freya que, prontamente, encaminhou à Rafaela.

A hora do almoço esse era o único assunto. Mesmo pessoas de empresas vizinhas perguntaram e a história foi se espalhando rápido. Amanhã, provavelmente, a imprensa já estaria ciente de tudo e querendo marcar entrevistas, afinal, a Lótus sempre esteve na vanguarda do ensino e da educação, era um dos tijolinhos dourados da reconstrução de tudo depois daquele governo desastroso.

Ainda tinha a chave do terraço, por isso resolvi fazer o pós-almoço lá. Meditar um pouco, agradecer aos céus tudo que havia acontecido... esse lugar aqui era um dos meus favoritos no mundo. Não era o prédio mais alto muito menos o mais bonito da região, porém sentia algo diferente nele e nem eram por minhas hortaliças. Algo místico. Foi quando o som de passos se fizeram atrás de mim, cadenciados, firmes, decididos. Dei espaço no banco.

- Senti falta desse lugar aqui... - Rafaela se sentou ao meu lado com um café daquela loja cara - Sua hortinha deu uma nova vida pra esse lugar.

- Verdade - Ela estava com o olhar sereno, típico de quem recupera o trabalho inteiro da sua vida em uma jogada de mestre - A propósito, parabéns, seu retorno triunfal foi legal de assistir.

- Gostou? - A dominadora não escondia o sorriso no canto dos lábios - Acredita que fiquei desde sábado a noite escolhendo roupa?

- Valeu a pena.

- Valeu?

- Valeu sim - A olhei com o canto do olho - Não faz muito o meu estilo, mas eu usaria numa boa.

- Me lembrarei disso quando você for minha executiva de comunicação - Ela riu - Soube que andou viajando...

- Sim, fui ver minha mãe.

- Apresentar a Bethina, imagino.

- Não só isso - Respirei fundo - Fui falar sobre tudo até aqui...

- Tudo... - Rafaela ficou pensativa um instante se virando em seguida - Tudo... Tudo?

- Tudo, falei da minha história até aqui, dos próximos passos, da transição e tudo mais.

- E ela?

- Ficou confusa - Tentei segurar uma lágrima fujona - Mas com o tempo ela vai entender...

- Vai sim, as mães sempre entendem nossas escolhas, às vezes demora um pouco, mas ao verem as crias felizes, elas entendem e aceitam... - Mordi o lábio por dentro, não queria que aquela lágrima virasse mais, Rafaela notou - Fico feliz de ter ajudado a lagarta a virar essa borboleta pronta pra voar... e quando vai ser o casamento?

- Ainda não pensamos em data.

- Quando pensar me avisa, temos uma política na empresa de dar bons presentes aos funcionários, aliás, falar nela, Bethina volta a trabalhar aqui ainda essa semana - Ela franziu a cara tentando parecer má - Não me decepcionem, nada de ficar se agarrando pelos cantos.

Gargalhamos nos levantando. Um abraço forte e tudo pareceu tão leve que o restante do dia passou voando. Logo estava em casa e depois outro dia e mais outro e Bethina ao meu lado foi como a cereja de um bolo da melhor delicatesse da Metrópole. Nem mesmo a ida à terapia nas semanas seguintes foi tão marcante e emblemática quanto aquela segunda-feira na parte final do inverno com cara de primavera.

CdF s2e20: Retorno

Viagens de ônibus sempre foram relaxantes, desde sempre, gostava de viajar, ver tudo ir ficando para trás diante dos meus olhos na janela. Não raro eu acabava dormindo e acordando já no destino. Hoje penso que os sons dentro do veículo são como ASMR que meu corpo encontra uma mansidão gostosa.

Mas, dessa vez, desejei que motorista ultrapassasse os limites de velocidade e chegasse antes. Tinha tantas coisas para resolver na Metrópole que estava quase pedindo pra ir correndo na frente, tamanha minha ansiedade. Ao meu lado Bethina cochilava com os fones enterrados na orelha. Na tela do telefone podia ver que era um dos incontáveis podcasts sobre design que ela tanto gostava de ouvir.

A cada quilômetro a quantidade de edificações deixava evidente da aproximação do destino. Já reconhecia uma ou outra silhueta de prédio, nome de rua e, quando o ônibus virou bruscamente para a direita a rodoviária se tornou uma unidade no horizonte. No mesmo instante que estacionamos Bethina acordou. Conhecendo-a como conheço sabia que ela odiava ouvir palavras nos primeiros minutos depois de despertar. Ela se espreguiçou olhando pela janela.

- Chegamos? - Fiz que sim com a cabeça - Boa menina, aprende rápido.

Ri fazendo caretinha. Ela tirou os fones enrolando e jogando na minha mochila. Fiz o mesmo. Pegamos nossas bagagens e chamamos um carro pelo aplicativo. Ambas estávamos cansadas e o motorista notou isso ficando em silêncio quase toda a viagem. A cidade com pouco trânsito fez o trajeto ser cumprido em menos de uma hora quando o normal seriam uma hora e meia.

Tiramos as malas. Subimos ao nosso andar. Abri a porta do apartamento. Bethina foi reto para o banheiro e eu fui ver se tudo estava no seu devido lugar. Mania de quem viaja achar que a casa vai mudar algo. Devia ser algum tipo de TOC ou algo semelhante. Por sorte tudo estava no seu lugar. Reboquei as malas até a lavanderia já tirando as peças e jogando na máquina de lavar.

- Tô morrendo de fome, quer uma pizza? - Bethina veio na minha direção - Aliás, você nem notou que dia é hoje né...

- Pizza é uma boa - Liguei a máquina de lavar - É domingo, amanhã já volto ao batente.

- Não coisa loira - Ela riu pegando o celular - Hoje é sexta, tem o final de semana inteiro ainda... vai tomar um banho enquanto eu peço a pizza.

Ri pegando meu telefone. Estranho, jurava que já era domingo, mas que bom. Entrei no banho e lembrei que meu pijama estava lavando. Nada muito demorado, pela diminuta janela do banheiro notei que já era noite. Ao ir pro quarto uma camisola que se estendia até abaixo dos joelhos me esperava na cama. "De volta ao normal" pensei vestindo ela. Parei um instante na frente do espelho da porta do guarda-roupas. O material não era o mais requintado, mas era confortável e deixava a impressão de não estar usando nada, além disso acompanhava um roupão para usar por cima. Escovei o cabelo displicentemente e voltei à sala. Bethina estava olhando o catálogo do serviço de Streaming.

- Sua vez, aproveita que deixei o banheiro quentinho.

- Não vou precisar de pé de pato né? - Rimos enquanto ela se levantou passando por mim - Puta merda, como você é gostosa amor, se não estivesse cansada te comia aqui mesmo.

- Cansada do que? Foi você que veio dirigindo?

- Besta - Ela me roubou um selinho - O dinheiro da pizza ta ali em cima da mesa, pedi duas e ganhei uma brotinho doce, meia chocolate e meia prestigio além do refrigerante.

- Ótimo uso dos P do marketing.

- Nossa, depois dessa vazei.

Gargalhei enquanto Bethina entrou no banheiro. Coloquei a primeira música que o YouTube me recomendou, fiquei entretida olhando o clipe e o celular tentando saber se era real e oficial o que Bethina tinha me mostrado. Mas ninguém respondia. Provavelmente estavam em suas festinhas privadas. Aproveitei pra mandar mensagem pra terapeuta que respondeu perguntando se trouxe as conchinhas dela. Pior que tinha. A música dos anos noventa só foi quebrada pela campainha. Meu coração parou por um instante. Eu precisaria atender a porta. Puta merda. Respira Fernanda, respira. Assume logo essa mulher maravilhosa que você nasceu pra ser. Um. Dois. Três. Vai. Me levantei pegando o dinheiro na mesa e arrumando o robe por cima de tudo. Destranquei a porta.

- Foi daqui que pediram uma de lombo com catupiri e outra a moda da casa? - A bolsa era muito maior que o entregador, entreguei o dinheiro e ele as pizzas, pareceu uma troca justa - Valeu, boa noite, dona.

Corei suavemente. Fiz questão de demorar alguns segundos pra fechar a porta, queria ver se ele olharia de novo. Dito e feito, uma olhada rápida por cima do ombro esquerdo me fez ser inundada por um sentimento bom. Bethina com a toalha nos cabelos assistiu toda a cena sem comentar uma só palavra. Ela trajava o pijama.

- É gostoso isso né? - Ela veio na minha direção pegando uma das caixas e o refrigerante - Essa coisa de se sentir bonita... desejada... acredito que seja algo novo pra você.

- Vou parar de ir na psicologa - Coloquei a outra caixa na mesa - Você anda manjando mais que ela.

- Não viaja, Fê - Ela já colocava os pratos na mesa - Acredito que quando vivia como menino você nunca se sentiu assim...

- Assim como?

- Bonita.

- Só nas vezes que invadia o quarto dos meus pais.

- Fazia a imagem do espelho saltar - Bethina colocou os copos e destampou as pizzas - Mas nunca teve a aprovação fora dele né...

- Pelo visto alguém andou estudando - Servi o refrigerante pra nós duas - Mas sim, até a Rafaela uns tempos atrás e, principalmente você, eu não teria chego onde cheguei... não estaria pronta nem preparada pra dar o maior salto de fé da minha vida.

- É bom te ouvir dizer isso e que bom que eu posso estar aqui pra te ajudar.

- Te amo, Bê - Tomei a mão dela na minha e dei um beijo suave - Agora 'bora comer antes que esfrie.

Jantamos conversando sobre coisas da viagem e do quanto nada mudou na nossa ausência o que comprovou, pelo menos pra nós, que sem a gente aqui o mundo não mudaria. Porém uma coisa que eu não julgava ser possível de acontecer havia acontecido no nosso período sabático. Seria mais uma virada em minha vida e, quem sabe, na de Bethina também. Mas era algo a se ver segunda-feira. Agora respirei fundo e tratei de relaxar com a escolha cinematográfica de minha cúmplice.