sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

CdF s2e4 - Trovão

- Então foi isso, doutora - Tinha contado tudo que tinha acontecido nos últimos dias, minha conversa com Bethina no terraço, o vácuo dela, as respostas simples - E eu não sei o que fazer.

- Bom - Ela terminou de anotar algo - Se me permite a intimidade... cara, você foi meio cuzão com ela né? Aliás, você quer mesmo transicionar?

- Quero.

- Então, é pode pá ou nem rola - Adorava quando ela soltava uma gíria dessas, me lembrava alguns colegas da empresa - Se você ta com certeza do que vai fazer, o mundo inteiro vai ter que saber, inclusive seus pais.

Aquelas palavras eram como um tapa na cara. Mas era isso, eu precisava acordar, a decisão estava tomada, a junta de psicólogos estava marcada para começar logo depois da páscoa e eu sentia que essa era a resposta que eu tanto buscava, o que me impedia de passar mais de dois minutos na frente do espelho.

Uma garoa fina molhava a rua no caminho de volta para casa naquela sexta-feira. É como dizem em Portugal: chuva molha-tolos. Aparentemente eu não devia me molhar mas cheguei em casa ensopado, como precisava pensar fui direto para o banho. Teríamos alguns dias de folga no meio do ano por algo como alguma reforma pequena, troca dos servidores ou algo assim, eu realmente não ligava, mas seria uma semana inteira de folga. Talvez fosse essa a data que eu precisava.

Escancarei a janela do quarto pro ar de chuva entrar, no entanto ao longe já via algumas estrelas que venciam a poluição visual da Metrópole, por algum motivo resolvi colocar um vestido vermelho com cintura definida por um cinto preto, por baixo uma saia de tule ajudava a dar um volume maior pra bunda. Parei diante do espelho. Eu estava linda. Tsc. Ela tem razão. Hora de dar um salto de fé. Com a mão ainda tremendo suavemente digitei olhando o sorriso de Bethina na foto de avatar.

"No meio do ano."
"Quer ir comigo? Preciso do seu apoio."

O visor do pequeno aparelho mostrava vinte e duas horas e oito minutos. Ela ficou online e saiu. Merda. Eu sabia que ela não estava disposta a ir tão longe assim. Bem feito pra mim, fui confiar na pessoa errada e... calaboca, Fê. Ela te ama. Você ama ela. Talvez ela nem tenha visto ainda, do jeito que ela ralou com os novatos essa semana devia estar morta de cansada. Não surta ainda, espera pelo menos o dia raiar. Odiava minha consciência.

Fiquei trocando de canal na televisão até achar algo simples o suficiente para que não precisasse pensar, só ocupar o espaço entre meu inconsciente e meu consciente. Com cuidado me sentei no sofá tentando evitar ao máximo amarrotar esse vestido. Só agora notei que tinha colocado as luvas brancas, só faltava uma maquiagem digna pra completar. Certamente Freya faria algo maravilhoso em minutos.

Não conseguia prestar atenção na imagem de uma raposa tentando pegar um coelho na neve. A cada seis segundos tinha de verificar se Bethina me respondia. E a merda é que a bateria do celular estava próxima do zero. Droga. Caminhei até a cozinha, coloquei o aparelho para carregar. A tela acendeu "vinte e duas e cinquenta e quatro minutos". Melhor ir dormir. A campainha tocou. Merda. Merda. Merda.

Como que o irresponsável da portaria não avisa que tem alguém subindo? Eu levaria essa reclamação pro síndico na próxima reunião, francamente... com todo o cuidado do mundo caminhei até a porta, o olho mágico não mostrava absolutamente nada. Trote de crianças? Sério? Com receio abri um pouco a porta e a lufada de ar quente do corredor trouxe a figura de Bethina empurrando a porta.

- Olha só ela - O tom era amistoso ao mesmo tempo que era ácido - Então temos um martelo batido mesmo?

- S-sim! - Respirei fundo - Meio do ano!

- Certeza certeza? - Ela entrou fechando a porta e já me envolvendo em um abraço - Tu não me enrola, garota.

Era a primeira vez que ela me chamava de garota, pelo menos em todas as falas. Por algum motivo que desconhecia isso me deu mais energia, mais certeza de que aquele caminho, aquela decisão, era a ideal. Respondi concordando com a cabeça.

- É sim meu amor - Roubei um selinho rápido - Você vai comigo né?

- Se a chefia liberar eu vou sim.

- Vai liberar, falo com a Rafaela e tudo bem.

- Rafaela... - O olhar dela ficou perdido alguns instantes - É, vamos ver.

- E o que trouxe na sacola?

- Ahhhhh... a mocinha já está curiosa?

- Estou sim.

- Pois bem - Ela tirou a fita do cabelo já colocando em meus olhos - Vai ser uma surpresa - Pude sentir a respiração quente dela ao pé do meu ouvido - Você confia em mim?

- Cegamente - Com a venda eu mal conseguia ver sombras do que acontecia, foi nesse instante que a mão dela tomou a minha - Pra onde vamos?

- Calada - Ao menos estávamos caminhando pra dentro do apartamento até que Bethina parou de súbito - Aqui... ajoelha e fica caladinha enquanto eu me preparo.

- Vai brincar de Domme... - falei com um sorriso fino já mordiscando o lábio inferior - Gostei.

- Eu não te mandei calar a boca?

- Desculpa... - resolvi entrar na brincadeira, vamos ver até onde ela iria - ... senhora.

Ela não respondeu, na real eu não ouvia ela em lugar nenhum. Será que aquela maluquinha tá achando que vai me deixar de joelhos no meio da sala? Ah, foda-se, vou erguer a venda e ver o que tá rolando, ela não é a Rafaela.

- Tira esse dedo daí - A voz dela foi se aproximando - Abre bem a boca.

Confesso que tinha uma vaga ideia do que viria ali, provavelmente ela ainda estava decidindo o que fazer. Ah essas Dommes de primeira viagem. Fiquei quase um minuto de boca aberta esperando algo acontecer, fechei a boca respirando fundo.

- Quer ajuda?

- Eu já não te mandei calar essa boca, Fernanda? Será que vou ter que te amordaçar?

- Olha ela... até parece uma Domme.

- Pareço é? - Ela puxou meu cabelo fazendo minha cabeça ir rá trás - Vou te mostrar o que aprendi... ou melhor, a surpresa que te comprei.

- S-surpresa?

- Ah, agora a menina quer saber o que planejei pra esse momento... na-na-ni-na-não. - O tom de voz dela era intenso, decidido, lembrava quando ela saiu do hospital ou ainda quando discutimos no terraço da empresa - Levanta e fica paradinha - Atendi prontamente - Adorei o vestido... até com a saia de tule por baixo, é uma mocinha linda essa minha namorada, dá vontade de morder... - Alguns segundos de silêncio e a voz dela veio ao pé do meu ouvido, sussurrando - ... ou comer ela, que tal?

Confesso que não era uma das coisas mais inesperadas vindas de Bethina, mas ao mesmo tempo não encaixava direito a voz com o que era dito, essas frases caberiam facilmente na Flávia, Rafaela ou até mesmo na Freya, agora nela? O foda é que eu estava ficando excitado com a possibilidade do que estava por vir. O silêncio imperou quando a ouvi ir até a televisão e ligar alguma coisa, reconhecia o estilo, as batidas de LoFi HipHop eram hipnóticas e, certamente, mexiam com as ondas alfas do cérebro. Feito isso ela voltou a pegar minha mão.

- Pra onde agora, senhora?

- Mas que menina falante essa que eu arrumei... - Ela me guiava enquanto eu tentava lembrar a planta do apartamento, parecia ser a cozinha, mas o vento fresco denunciou o quarto - Deita aqui, de barriga pra cima... - Ao que deitei a mão gelada dela subiu por minhas coxas - Sem calcinha? Olha que menina safada essa... e essa coisinha durinha aqui? - Senti um peteleco na cabeça do meu pau que latejava frente a toda aquela cena que, por mais que a visão estivesse bloqueada, outros sentidos se intensificavam e me faziam vê-la em uma sinestesia quase perfeita do meu corpo - Hoje não vamos usar ela, agora afasta as pernas pra cima... - Não ousei desobedecer, queria ver até onde iria essa toca de coelho - isso, boa menina, se continuar assim vai ganhar um doce... aliás - Senti o corpo quente dela sobre o meu - Vamos tirar isso daqui e começar a brincadeira, não quero que perca nenhum detalhe.

Dito isso a venda saiu e meus olhos levaram alguns instantes até se habituarem à luz normal do quarto. Tão logo a imagem ganhou definição corri meu corpo com a vista, Bethina estava com uma blusa regata preta e uma leggin igualmente preta, algo destoava ao correr da cintura. Ergui o corpo e minhas suspeitas estavam se tornando fatos. Quis esboçar alguma reação, mas minha voz não saiu, sobretudo quando ela colocou o lubrificante pegajoso e gelado na entrada de meu cu, soltei a cabeça na cama sentindo o gelado escorrer pra além, tudo pra ser recolhido por algo maleável, um pouco escorregadio e grande.

Minha respiração se acelerava enquanto aquele membro de borracha tentava entrar, sentia minhas pregas cedendo, uma após a outra, até a cabeça daquele colosso me penetrava, a respiração se acelerou, os batimentos também subiram de ritmo, ainda assim a dor era menor que o prazer envolvido. O exato instante que a ponta ultrapassou a última barreira abri os olhos e afastei os lábios, a respiração outrora acelerada agora beirava a ofegância.

O tempo deixou de existir, só havia aquele objeto entrando cada vez mais fundo e a sensação de algo ia subir pelo meu canal intestinal e continuar sua escalada até onde fosse possível, o rosto virou lentamente na direção da janela no instante que uma chuva de pingos grossos romperam o céu. Quando, enfim, senti a pele de Bethina tocar a minha soube que acabou. Deixei as pálpebras fecharem uma ou duas vezes sentindo toda a extensão daquele consolo imenso dentro de minha bunda. Claro que já tinha tido experiências com brinquedos assim, mas nunca com alguém que eu amava e a sensação estava sendo praticamente indescritível. Ao fundo a música baixa era a única coisa que dizia que o tempo ainda estava andando.

Quando senti o corpo dela se afastando suavemente um raio rompeu o céu e a primeira estocada completou seu ciclo no exato instante que a energia acabou deixando toda aquela parte da Metrópole às escuras. Conforme minha excitação aumentava sentia que Bethina acelerava o ritmo, decididamente eu não duraria muito tempo nas mãos dela. Foi quando a velocidade diminuiu e o corpo dela veio sobre o meu, os lábios dela procuravam os meus, uma vez beijo iniciado o movimento outrora pausado voltou com cadência máxima até o instante em que o orgasmo explodiu em meu pau duro entre nossos corpos. Com delicadeza Bethina saiu lentamente tirando o brinquedo de dentro da minha bunda. Quando, enfim, saiu senti o dedo dela alisando.

- Acha que acabou, menina? - Voltei a sentir o corpo dela no meu - Eu também estou com tesão... - E antes que eu pudesse balbuciar qualquer palavra os joelhos dela pararam um de cada lado de minha cabeça - Me chupa, amor?

E assim, entre um trovão e outro toquei minha língua na intimidade de Bethia que continha os gemidos baixos passando a mão pelo corpo, vez por outra jurava que ela me olhava "trabalhando", mas era inevitável que logo ela não suportaria muito meu ritmo que agora tinha uma sutil ajuda do dedo indicador, os gemidos dela ganhavam volume conforme se aproximava do orgasmo até que pararam completamente. Antes que eu pudesse falar alguma coisa a boca dela voltou à minha e, entre trovões e barulho de chuva nos deixamos adormecer em um sono de reconciliação e com novos prazeres redescobertos.

Uma salva para o amor.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

CdF s2e3: Prometida

Vou confessar que não gostava de fazer isso com Fernando, mas às vezes ele parecia uma criança mimada. Até concordo no começo quando ele tinha suas dúvidas quanto que caminho seguir ficar na sua, mas agora... tinha decidido, não conheço ele tempo suficiente mas sei que aquela decisão deve ter sido a mais crucial na vida dele até hoje.

"Dele", pensar no gênero masculino quando penso é natural, por fora ainda é um homem bonito, uma barba rala, um corpo relativamente largo e coxas definidas, braços okay... a única coisa que poderia denunciar algo é o cabelo, extremamente bem cuidado, sempre com cheirinho de creme de pentear, escovado e preso em um rabo-de-cavalo tão sutil que mal dava para notar que estava preso. Quando ele virava a cabeça em um movimento rápido é lindo ver aquele chicote capilar batendo no pescoço... e cá estava eu chamando de "ele" de novo.

Em parte nossa discussão veio a calhar, eu precisava de um final de semana inteiro sozinha pra pensar. Eu amo ele... ela... whatever, eu amo aquela pessoa e estou disposta a ir com ela onde ela for, só queria que ela tivesse um pouco mais de confiança, aceitasse logo tudo e fosse falar com seus pais, ou pelo menos sua mãe que parece ter um certo respeito maior, uma admiração. Por sorte Fernando tinha aprendido a respeitar esses meus espaços assim como eu respeitava os momentos de introspecção dele. A verdade é que, mesmo me magoando um pouco, eu entendia o lado dela no que tangia família e tals, só me é estranho uma família que não tem meia dúzia tudo morando perto se ajudando... Se bem que com o Lucca só minha mãe ficou perto. Talvez Fê não estivesse tão errado assim.

No começo da tarde de domingo um convite dele pra pedalarmos no parque quase me tirou de minha nuvem introspectiva. Hoje não estava com o menor saco de colocar o pé na rua. Recusei o convite. Sim, estou bem, só estou com preguiça. Merda. A merda dele é que ele era compreensível ao extremo. Um "tudo bem, qualquer coisa estou por aqui" seguido de um coraçãozinho roxo me fez suspirar como uma adolescente idiota. Como você se apaixonou por uma mulher trans hem, Bethina? Como?

Felizmente a semana começou o que tirava o tempo de conversa pro trabalho. Na hora do almoço era fácil sair com as meninas que gostavam de ir em um restaurante vegano, Fê jamais pisaria em um lugar assim... gosto de um bom bife, mas como "punição" resolvi deixar Fê no vácuo até a primeira consulta com a psicóloga. Era um auto-exílio pra mim e uma forma de pressão pra que ele tomasse uma atitude.

Na terça-feira já no final da tarde fui levar um material de páscoa que foi impresso na sala da chefia, seria algo rápido, deixava as artes com a secretária pessoal, a tal da Freya, e voltava para minha caverna ouvindo Tim Maia nos fones produzindo artes pro dia das mães... logo eu que nunca quis ser mãe. A vida é estranha. Dona Freya não estava. Podia largar as peças ali com um post-it pedindo a aprovação, mas não, dona Bethina tem que se meter onde não é chamada, por uma fresta de porta vi algo que nunca imaginei de dona Rafaela... todo aquele ar sombrio, aquela cena... será que? Fui vista. Merda. Merda. Merda. Corri pelas escadas voltando pra minha baia. Fui seguida? Acho que não.

Enfim chegou a quarta. Não que eu ache que precise de terapia agora, mas eu precisava de mais informações sobre como lidar com uma pessoa trans, o Google não pareceu uma fonte tão confiável, por isso nada melhor que a própria psicóloga dele, assim eu podia ter uns spoilers do que viria a seguir e de como eu devia lidar com tudo aquilo. "Não, Fê, vou encontrar umas amigas da faculdade, é amanhã a gente conversa melhor... sim sim, ta tudo bem entre a gente". E um beijo pra selar o que eu dizia, provavelmente eu não descendia de Eva e sim de Lilith. Enfim minha vez de entrar no consultório, já sabia o caminho.

- Bethina... certo? - Ela tomou um pequeno caderno nas mãos anotando algo - Eu já imagino o que te traz aqui... mas quero ouvir de você: o que te traz aqui?

- Então... - Suspirei jogando a cabeça para trás - Minha vida é até bem boa sabe? Tive um relacionamento ruim com um homem no passado, com agressão e o caralho a quatro - Coloquei a mão sobre a boca - Desculpa o palavreado.

- Relaxa - Ela sorriu de forma tranquila - Fala como você se sente melhor... somos adultas aqui.

Puta merda. Minha cabeça pensou em um plot daqueles pornôs vagabundos que perneiam a internet inteira. Eu me aproximaria "então somos adultas é..." e ela responderia "como assim?" e eu roubaria um beijo e transaríamos no meio do consultório. Credo. Eu devia ter alguma coisa em escorpião, depois precisava checar meu mapa astral de novo.

- Beleza - Respirei fundo - Então, depois desse relacionamento com o cara que me agredia e cumpriu dois anos e pouco por isso, eu decidi nunca mais me relacionar com homem nenhum na vida sabe? Tipo um pacto comigo mesma.

- Que forma interessante de lidar com um trauma...

- Foi a forma que consegui lidar - Dei de ombros - Mas então quando cheguei aqui... tipo, eu já tinha trabalhado como designer em algumas agências pequenas do interior, feito alguns freelas pra agências aqui da Metrópole, foi quando vi a vaga no meu atual emprego, pensei "por que não?", deu dois dias e fui contratada, isso já faz mais de um ano... - Suspirei - No começo foi bem barra porque eu até tinha morado sozinha, mas não em uma cidade tão grande.

- Aqui é tudo no superlativo né? - Ela anotou algo - Então depois daquele relacionamento abusivo você não se relacionou com ninguém?

- Claro que não - Ri corando de leve - Comecei a me relacionar só com meninas, pensa, eu devia ter uns dezesseis pra dezessete anos e já estava definindo que meu lance eram as pepekas e não as pirocas... caralho, desculpa!

- Tudo bem - Rimos enquanto ela anotava mais alguma coisa - Então você se descobriu lésbica?

- Exatamente! - Tinha curiosidade em saber o que tanto ela anotava - Mas aí apareceu, na época, o Fernando na minha frente...

- Aí fodeu de vez?

- Tirou as palavras da minha boca - Eu devia estar com aquele sorriso bobo na cara - Me apaixonei e, quando soube dos rolês de crossdresser eu fiquei meio confusa, cheguei a pensar que era pegadinha de Olodumare... mas não, era real... e pior: ele queria virar ela! Puta merda, muito sinal divino!

- E como você lida com isso?

- Ah cara... é um pouco estranho, mas é algo pra ele se sentir bem consigo mesmo saca? Já vi ele ter crises de auto-imagem e é meio punk... mesmo bem montadinha ele se olhava no espelho e via algo ruim, uma figura errada... então se for algo que vai fazer bem, eu super apoio... pelo que li na internet é um processo foda mas necessário pra transição rolar numa boa.

- Que bom que você é esclarecida... - Ela me olhou, sorriso bonito, sombra nos olhos, brinco discreto, pescoço com um colar pequeno de pérolas - E no que mais eu posso te ajudar?

- Assim... tem uma coisa que ta me irritando nele que é tipo: beleza, ele vai transicionar e virar mulher tanto por dentro quanto por fora, belê - Olhei em volta como se procurasse as palavras - O que fode é que tipo, ele ta protelando a coisa de ir falar pros pais dele sabe? E isso me incomoda profundamente, porra... como que ele vai virar mulher e não vai contar pra família de sangue?

- É realmente algo complicado sabe, Bethina - Ela grifou algo - É algo que estou tentando construir nele, ter essa confiança, esse último salto de fé, se expor sem medos, bater no peito e dizer "olha só, essa sou eu", desde algumas experiências recentes onde ele ficou montada no meio de várias pessoas em uma chácara ele dava sinais de que ia sair disso mas... regrediu um pouco, avança duas casas, volta três - A mão dela veio à minha - Acho que você tem mais influência sobre ele do que eu... insiste, faz greve, se afasta dele até ele tomar alguma atitude... eu acho que você ele vai ouvir, até mais que eu ou a... - Freio de mão - enfim, consegue isso?

- Consigo - Ela tinha segurado um nome, será que era quem eu pensava? Dammit - A senhora cutuca ele na próxima sessão... e eu sito dando um gelo.

- Perfeito! - Selamos o acordo com um aperto de mão - infelizmente por hoje nosso tempo acabou... te vejo semana que vem?

- Vê sim... é bom ter com quem conversar, desde que cheguei aqui só saí com algumas conhecidas pra falar amenidades e com Fê...

- Vai dar tudo certo - O sorriso extremamente sincero era capaz de fazer a paz mundial acontecer - Seja forte.

- Serei!

E assim acabou a minha primeira sessão de terapia. Voltei pra casa pensativa, tanto pra resolver e tão poucas ideias. Bem dizem que santo de casa não faz milagre... ou será que faz? Em uma passada rápida pelo shopping uma loja me chamou a atenção... Merda. E aquela cena de ontem? Puta que pariu. Tive uma ideia nefasta. Assim que Fernando se decidisse eu daria uma noite pra ele não esquecer. Assim que cheguei em casa avisei pra ele que tinha chego em casa e ia dormir, afinal, ainda tinham dois dias na semana. "Dorme bem, te amo". Esses redatores e suas vírgulas. 

Me senti babá na quinta-feira ensinando meia dúzia de trainee sobre a empresa, mostrando os setores, apresentando a história... graças a oxalá a Isadora - uma ruiva dona de um lindo par de coxas - fez uma apresentação e foi a oradora na maior parte da caminhada. Na sexta um dos trainees foi parar na comunicação e lá fui eu colocar ele em seu devido lugar: junto dos estagiários, sou sucinta  "se ajudem, se virem, fucem esse material, qualquer coisa eu estou ali na frente, mas sugiro mandar mensagem pela rede interna porque o Borges não suporta gente zanzando". E assim o dia passou com minha helpdesk de estagiários. Tentei ser o mais didática possível e as coisas iam se encaixando. 

Fernando ia para a terapia e eu pra casa, uma passada no mercadinho e a janta se tornou uma bela omelete. Janta feita, banho tomado, pijama confortável, série de terror no streaming, nada como a fantasia pra tirar a gente da realidade um pouco, Freud deve ter alguma explicação pra isso e deve envolver a mãe de alguém. 

Vinte e duas horas e oito minutos. A tela do celular acende.

"No meio do ano."
"Quer ir comigo? Preciso do seu apoio."

Foda-se a hora. Troquei de roupa, fiz uma mochila rápida, tranquei tudo, reguei as plantinhas. Chamei um carro pelo aplicativo. Preço dinâmico. O dobro do preço habitual, foda-se. Não tinha respondido a mensagem, me cocei várias vezes para responder, mas me controlei. O porteiro já me conhecia e, depois do meu pedido, ele não avisou da minha chegada.

Vinte e duas horas e cinquenta e quatro minutos. Toquei a campainha. Hoje a noite prometia.

sábado, 18 de janeiro de 2020

CdF s2e2: Raiz-2

Não vou dizer que não tenha aproveitado as férias, mas é aquela coisa: é uma merda ter que voltar a trabalhar. Não que eu não gostasse do meu trabalho, pelo contrário, eu amava. Mas preferia um milhão de vezes ficar em casa curtindo a ter que acordar cedo e vir trabalhar. Por sorte tinha Fernando do meu lado. Mesmo que às vezes ele desse umas opiniões completamente idiotas.

Falar nele era bom vê-lo assim, tranquilo. Quando falei com a psicologa dele a primeira vez me assustei, ele havia tentado se matar meses antes da gente se conhecer. Também não consigo imaginar a barra que é se sentir uma pessoa e ser outra por fora. Não que ter me assumido lésbica tenha sido moleza, mas eu ainda era a mesma mulher que nasci, agora ele queria mudar completamente o que nasceu. E eu fui me apaixonar por uma criatura assim, pode parecer estranho, mas só reforçou minha predileção por mulheres.

Só que até ele virar ela completa levaria um bom tempo ainda e eu estava disposta a seguir todo esse processo, aturar as mudanças hormonais, as mudanças do corpo... pelo que pesquisei seria como ter uma puberdade forçada e condensada em dois anos de tratamento hormonal que daria uma penca de reações adversas além de dores da musculatura se adaptando com a nova carga hormonal... a psicologa sugeriu que eu passasse a fazer sessões com ela para suportar tanta mudança assim, isso, claro, se eu quisesse ficar com ele. E, como eu queria, marquei as sessões pras quartas-feiras, era o dia que o lado menino de Fernando aflorava vendo futebol, nada exagerado ou fanático, ele apenas gostava e não era nocivo, no entanto acabei não falando com ele que, a partir da próxima semana, eu também bateria ponto na psicóloga.

Talvez por ainda não ter chego em um ponto espiritual tão singular quanto o dele meditar era difícil, mas gostava de estar perto dele, queria aceitar as propostas dele de morarmos juntos, mas não agora, faria algumas sessões de terapia para confirmar que eu conseguiria segurar esse rojão praticamente sozinha. Eu era forte, decidida, não havia porque duvidar da minha capacidade... porém né, ajuda nunca é demais e, por isso mesmo, vê-lo atravessar tudo isso só com ajuda psicológica e a minha não era certo, já havíamos conversado algumas vezes dele falar logo para seus pais sobre a transsexualidade e os passos que iria seguir nos próximos meses, mas escorpiano como é, emburrava e nada o fazia mudar de ideia. Resolvi insistir mais uma vez.

- Eu acho que você devia falar logo - Ele permaneceu de olhos fechados, como se não tivesse me ouvido - Sério mesmo, quanto mais demorar pior vai ficar.

- Melhor não... - Como sempre ficou na defensiva, tinha que começar as consultas para saber lidar com isso, essa negação dele me incomodava pra caralho - ... eles não vão receber bem.

- Que não recebam ué - Lembrei de quando me assumi lésbica, não foi fácil, mas foi necessário - O que não pode é você ficar enganando eles mais tempo.

- Eu não estou enganando eles - Apesar de amar meu cabelo achava lindo o movimento do cabelo dele, mesmo que fosse para prender - Estou poupando eles de...

- ... De quem você é - Interrompi, francamente, eu devia parar, mas me senti tomada pelo gênio briguento, acho que estava para entrar na TPM - Eu acho isso super errado, cara, sério, uma coisa é você não contar pra ninguém aqui da empresa, outra coisa é não contar pros seus pais... - suspirei - sua família!

- Sabe que eu não tenho essa ligação toda com a família né?

- Sei e acho errado pra caralho.

- Errado por que?

- Depois de tudo que tive com o Lucca ninguém ficou do meu lado - Relembrar meu antigo namorado era um saco, odiava saber que ele já tinha cumprido a pena e estava pela rua, por sorte eu consegui uma ordem restritiva o que obrigou ele a ir morar no nordeste com algum parente distante, mesmo um merda como ele teve o apoio da família e era isso que eu queria botar na cabeça desse idiota - Só minha mãe, ela me levou no hospital, ela me levou na delegacia, ela pegou turno dobrado para pagar terapia pra mim por um tempo...

- Cada caso é um caso - Senti o sangue ferver, odiava quando ele relativizava - Nunca tive essa ligação toda com meu pais.

- Pois nunca é tarde pra isso, amanhã depois eles morrem e aí, fica como?

- Sei lá - Decididamente essa discussão ia acabar em tragédia, só que o trem desgovernado não pára simplesmente porque as pessoas dizem que não querem o descarrilamento - Não faço a menor ideia.

- Pois quando fizer - Levantei ao passo que ele ficou sentado no banco de concreto, dei um beijo suave nos cabelos - Me procura, posso até ir com você pra explicar tudo.

- Não vai rolar... não vai rolar mesmo.

- Por besteira da sua parte né, Fernando.

- Ah sim - Pronto, agora a merda estava feita, eu podia só ter dado o beijo e saído, mas não, tive que continuar provocando, parabéns pra mim - E o que acha que eu devia fazer, dona Bethina? Chegar "oi mãe, então, sabe o seu filho? Ele é uma mulher trans, daqui pra frente chama ela de Fernanda e ele vai cortar o pinto fora... sabe o teu sonho de ter netos? Pois é, já era." sem chance né?

- Nossa cara - Eu realmente fiquei puta da cara, que merda, confesso que a vontade foi dar um soco bem dado no meio desse nariz, colocar dentes na boca do estômago, mas respirei fundo e, mentalmente, tentei contar até dois, nada feito - Quando quer você consegue ser escroto pra caralho.

Esperei um segundo a resposta dele. Não vinha nada, eu sabia que tinha passado de um limite, mas ele também não colabora, cada vez que tento ajudar, a buscar uma solução, a escavar mais pra desenterrar todas as raízes dos problemas dele ele vira um caminhão em cima e esconde tudo. Já estava puta demais para continuar ali, por isso resolvi voltar para o setor, com sorte ninguém teria voltado e eu podia ficar sozinha em um pufe pensando o que faria dali pra frente. Cheguei a pegar o celular pra ouvir alguma música, mas não queria contaminar canção alguma com esse sentimento ruim. Ouvi passos, tinha certeza que era ele. Dito e feito. Tinha horas que ele era extremamente previsível.

- Desculpa - Ele esticou o dedo minimo, não correspondi - Falei besteira.

- Sabe, cara - Suspirei tentando não dar a ele o gosto de ver uma lágrima minha - Você fala assim de família e quer que eu seja a sua família... não dá sabe?

- Nada a ver, você...

- Eu o quê? - Senti o sangue borbulhar dentro das veias - Amanhã depois você passa a me achar complexada como sua mãe e passa a esconder coisas de mim... super entendo esconder a parada do crossdresser durante a adolescência e até sair de casa, mas agora você está em outro patamar, você é adulto, paga suas contas... está perto de mudar completamente para deixar de suprimir, pra deixar uma parte sua tão linda ver a luz e fica procurando formas de soterrar tudo isso... é meio como sua psicóloga me disse dia desses, parece que a cada vez que chega em uma raiz de problema você enterra elas cada vez mais fundo... eu tô cansada disso sabe? Quando você se decidir de mostrar pro mundo inteiro o que você é e foda-se o resto... me avisa.

Eu sabia que ele iria dizer algo e eu acabaria me derretendo pela fala macia dele. Mas eu precisava dar pra ele esse choque de realidade, mostrar que não é só a forma como ele vê o mundo e as coisas é que estão certas, existem muitas maneiras de se recortar uma imagem, algumas são melhores pra uns, outras pra outros e assim é a vida, aprender com os outros técnicas para suportar melhor essa coisa que é o mundo. Por isso me levantei, dei um beijo na testa dele e me sentei em frente do computador. Torci para ele não se sentar logo em seguida, pois me veria não controlar as duas lágrimas que rolaram pela minha face.

Sinceramente eu queria ajudar ele mais do que tudo, mas não via meios, toda forma que eu tentava recebia um bloqueio, um beco sem saída ou uma pá de terra. Espero que a psicologa me dê uma luz quanto a isso tudo. Porque, mesmo com todos os seus defeitos eu amava a pessoa que ele era, fosse masculino carregando as compras do mercado sozinho, fosse super feminina usando uma saia godê com avental enquanto cozinhava com extrema habilidade. Restava saber o quanto eu estava disposta a ir na toca do coelho. Pensar nisso me lembrou de Alice, a primeira mulher com quem tive uma relação maior que sexual... talvez fosse a hora de dar uma de chapeleira maluca e buscar outra saída para essa disputa. Ponderei mil vezes me virar e aceitar as desculpas de Fernando, mas mil e uma vezes me impedi disso, hoje eu precisava ficar na minha e deixá-lo pensar por si mesmo. Lá vinha o Borges e o pessoal do setor. Ótimo.

CdF s2e1: Raiz

As férias da empresa tinham sido boas e o começo do ano não prometia grandes sobressaltos além dos habituais: pessoas saindo, pessoas chegando, produtos novos, produtos saindo de cena. Curioso como estando no meu terceiro ano aqui tudo parecia entrar em uma espécie de automático, pois logo já era fevereiro, março e só me dei conta do mês quando comecei a ver ovos de páscoa no mercado e os estagiários da comunicação fizeram artes para a páscoa e pediram minha opinião.

Bethina ainda declinava da ideia de morarmos juntos. Dizia que cada um precisava do seu espaço e que ainda tinha mágoas do passado para curar. Claro que isso não impedia que, vez por outra, dormíssemos na mesma cama, fizéssemos viagens juntos, mas às vezes era estranho chegar em casa sozinho. Claro que tudo podia ser questão de tempo. Nosso relacionamento não era segredo na empresa e não afetava nossa produtividade - pelo contrário, só azeitou mais a afinidade - e como não havia reclamação dos passarinhos do galho de cima, tudo seguia em paz.

A terapia estava avançando e a decisão já estava tomada, claro que ainda não tínhamos batido o martelo e eu esperava pela opinião de outros dois psicólogos para chancelarem o "diagnóstico" e isso era demorado pois eu tinha que fazer algumas sessões com outros profissionais, contar a história toda de novo... era quase um telemarketing psiquiátrico. Ri pensando isso enquanto meditava ao lado de Bethina no terraço. 

Foi interessante como convenci ela de almoçar rápido e vir aqui pra cima meditar. Também era notável o quanto as hortaliças produzidas aqui eram de boa qualidade mesmo com a poluição da Metrópole. Metade do terraço se tornou lar de pés de alface, brócolis, cenoura, tomate, manjericão, orégano, tomilho além de morangos que só brotavam perto do final do ano. Para fazer troça Leonardo, uma espécie de valete de Rafaela, dizia que só faltava criar galinhas aqui em cima, minha vontade era perguntar se família dele iria gostar de morar aqui. Mas, claro, guardava respostas ácidas dentro de mim.

- Eu acho que você devia falar logo. - Ela abriu os olhos lentamente - Sério mesmo, quanto mais demorar pior vai ficar.

- Melhor não... - Bethina tentava me convencer de que era melhor eu falar logo para meus pais dos meus planos de transicionar gênero - ... eles não vão receber bem.

- Que não recebam ué, o que não pode é você ficar enganando eles mais tempo.

- Eu não estou enganando eles - Joguei a cabeça pra trás prendendo meu cabelo que agora já era passível de fazer um rabo-de-cavalo honesto - Estou poupando eles de...

- ... De quem você é - Abri os olhos olhando o horizonte repleto de prédios - Eu acho isso super errado cara, sério, uma coisa é você não contar pra ninguém aqui na empresa, outra coisa é não contar pros seus pais... sua família.

- Sabe que eu não tenho essa ligação toda com a família né?

- Sei e acho errado pra caralho.

- Errado por que?

- Depois de tudo que tive com o Lucca ninguém ficou do meu lado - Ela me olhava fixamente, um olhar que, devo dizer, era como um imã, pois me fez virar a cabeça e olhar para ela - Só minha mãe, ela me levou no hospital, ela me levou na delegacia, ela pegou turno dobrado pra pagar terapia pra mim por um tempo...

- Cada caso é um caso - Odiava essa história, em parte porque eu sentia o sangue subir e a vontade de fazer esse cara pagar usando de violência era imensa e, em parte, porque minha família era toda desunida mesmo - Nunca tive essa ligação toda com meus pais...

- Pois nunca é tarde pra isso, amanhã depois eles morrem e aí, fica como?

- Sei lá - O assunto estava me chateando, voltei a olhar para o panorama de edifícios - Não faço a menor ideia...

- Pois quando fizer - Ela se levantou, me deu um beijo nos cabelos - Me procura, posso até ir com você pra explicar tudo.

- Não vai rolar - Sorri de canto - Não vai rolar mesmo...

- Por besteira da sua parte né, Fernando.

- Ah sim - Me levantei me virando pra ela - E o que acha que eu devia fazer, dona Bethina? Chegar "oi mãe, então, sabe o seu filho? Ele é uma mulher trans, daqui pra frente chama ela de Fernanda e ele vai cortar o pinto fora... sabe o teu sonho de ter netos? Pois é, já era." sem chance né?

- Nossa cara - Ela balançou a cabeça negativamente - Quando quer você consegue ser escroto pra caralho.

Aquela frase havia sido pesada. Eu não tinha resposta, afastei os lábios, porém nada saiu, no entanto não adiantaria nada, pois logo em seguida ela rodou nos calcanhares e sumiu na escada que dava acesso aos andares inferiores. Joguei a cabeça para trás respirando fundo. 

Merda. 

Trinta segundos haviam se passado e eu resolvi tentar resolver a situação. A sala da comunicação estava vazia, apenas Bethina com o corpo jogado em um dos puffes parecia ocupar a sala toda com sua presença. Eu, ao contrário, me sentia pior que a mosca do coco do cavalo do bandido. Me aproximei dela já me abaixando para ficarmos na mesma altura.

- Desculpa - ofereci o dedo minimo para ela - Falei besteira.

- Sabe, cara - Ela não retribuiu o gesto, estava magoada, pois olhava para o vazio da parede - Você fala assim de família e quer que eu seja a sua família... não dá sabe? 

- Nada a ver, você...

- Eu o quê? Amanhã depois você passa a me achar complexada como sua mãe e passa a esconder coisas de mim... super entendo esconder a parada do crossdresser durante a adolescência e até sair de casa, mas agora você está em outro patamar, você é adulto, paga suas contas... está perto de mudar completamente para deixar de suprimir, pra deixar uma parte sua tão linda ver a luz e fica procurando formas de soterrar tudo isso... é meio como sua psicóloga me disse dia desses, parece que a cada vez que chega em uma raiz de problema você enterra elas cada vez mais fundo... eu tô cansada disso sabe? Quando você se decidir de mostrar pro mundo inteiro o que você é e foda-se o resto... me avisa.

Quando eu fiz menção de continuar a conversa ela se levantou do puffe, me deu um beijo na testa e se sentou no computador. Fiquei congelado naquela posição como se o beijo fosse de um dementador que sugou de mim a capacidade de locomoção. Todas as palavras tinham sido jogadas no chão como um quebra-cabeças e eu não conseguia achar a ordem correta para colocá-las. Na hora que tudo começou a se encaixar o setor voltou a ter mais pessoas tornando impossível qualquer outra conversa além de trabalho.

Respirei fundo tentando entender qual o problema que havia comigo. Por que tinha essa mania de enterrar tudo o que eu sentia? De onde vinha essa coisa de não ser eu mesmo com medo de incomodar os outros? Me reprimir para que as pessoas ficassem bem com elas mesmo. Sempre fui assim, para manter os outros em paz eu me colocava em posição inferior. Não conseguia concatenar as palavras que queria dizer à Bethina, dois metros do meu lado, tudo que pensava era apenas mais uma desculpa, mais uma fuga, mais uma pá de terra soterrando as raízes das minhas neuras. Por sorte Borges me encheu de trabalho, assim eu podia parar de pensar em quem eu sou. Ótimo.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Ano Um

Olá pessoas, como estão?

Hoje pode ser só um domingo a mais (ou a menos) no calendário, mas, um ano atrás, dia 5 de janeiro de 2019, era sábado e eu estava sozinhe em casa. Foi ali que, umas dez horas da manhã o carteiro bateu, assinei a entrega da encomenda e... puta merda! Minha saia! Minha primeira (e ainda única) saia!

Olhando pra trás vejo que algumas coisas mudaram em mim depois disso, confesso que quando comprei fui mais movido pelo tesão da situação do que por tudo que podia desencadear. E como desencadeou coisa! A começar por algumas amigas que viram as fotos deram total apoio, falaram inclusive que era bom me ver feliz... e sim, naquele dia, naquela noite, eu fiquei em um nível de felicidade tão grande, mas tão grande que cheguei a achar errado ter ele. Aí desencadeou o outro lado, as inquietas sombras vieram com tudo nos dias seguintes... mas olha só: sobrevivi!

Fora isso 2019 foi o ano que tive uma Domme remota e, por N motivos, deixei que ela fosse embora. Felizmente depois a amizade acabou restando e pude conhecer melhor a pessoa, despida daquela autoridade toda. Tá sendo divertido, fora que ela também é mais gênero fluído... wait, no.

Sobre isso tanta coisa correu na minha cabeça esse ano que passou que olha, não sei se conseguiria expor tudo em palavras nem que tentasse. A verdade é que ando lendo/vendo muita coisa pra compor Fernandes e acabo me identificando com algumas histórias e... enfim.

Já que eu falei dos contos, quem diria que eu conseguiria compor uma personagem crossdresser que começou como um spinoff de outra história e desabrochou como personagem com mais de 20 páginas escritas! Realmente o material acabou rendendo mais do que o esperado e, no fim, eu adorei o caminho que a personagem tomou. E sim, foi a personagem que tomou o caminho, não eu, eu só escrevi, quem faz as escolhas é ela, eu só transcrevo o que acontece.

Vou confessar que esperava estar alguns passos adiante no que tange a minha pessoa, queria ter mais peças de roupa, um empreguinho fixo e tals... mas 2019 não rolou isso. Mas 2020 vai rolar, nem que seja na marra haha

No mais é isso, estava com saudade de escrever mais sobre meus corres aqui. Só não passo o twitter porque logo devo mudar o user, mas lá tenho falado mais sobre minhas neuras, meus dilemas filosóficos, minhas experiências e sentimentos/sensações.

Cuidem-se, pessoas! As Cronicas de Fernandes voltam logo! Quem sabe amanhã ou depois não volto trazendo boas notícias? Vamos ter fé um pouco.

E não esqueçam: Mantenham-se fiéis ao que vocês acreditam e, se não fizer mal pra ninguém (sobretudo você mesme!) não se prive de fazer. Se quer fazer, vai lá e faz. 


ps.: só que como vivemos em tempos estranhos, cuidem-se, mesmo! Nunca se sabe quando um bocó vai aparecer disposto a querer descer a porrada na gente.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

CdF: Fogos

- Eu não sabia que dava pra subir aqui - A voz de Bethina me tirou de meus devaneios acerca do ano que havia passado - A vista é linda, olha esse céu...

Ela parecia deslumbrada ao ver o céu repleto de pequenas bolas de plasma com diferentes idades e algumas que nem mesmo deveriam existir mais mas, devido a grandiosidade do universo, lá estava seu brilho chegando em ondas radioativas no espectro de luz visível.

- É bonito né? - Tinha crescido numa cidade pequena, a maioria das estrelas sumia com a poluição luminosa da Metrópole - Tem que ver longe da cidade.

- Eu imagino - Ela foi se aproximando, a iluminação aqui em cima era inexistente - Como que você tem a chave daqui?

- Pedi pro síndico, disse que queria plantar hortaliças e ele deu.

- Você sempre consegue as chaves que quer - ela segurou o riso - você já podia roubar casas... chegaria nas portas "oi, vim plantar hortaliças, me dá uma cópia da sua chave?" e te dariam.

Rimos por alguns segundos enquanto eu, com o canto do olho tentava ver a roupa dela. Meu prédio ficava acima dos prédios ao redor e longe o suficiente para não chegar luz onde estávamos, a única luz visível era da escada e da pequena lâmpada vermelha que piscava em cima do para-raios alguns metros acima de nossas cabeças.

A verdade é que, meia hora atrás, Bethina me perguntou onde era o melhor lugar para ver os fogos do ano novo. Falei que tinha as chaves do terraço e ela mandou que eu viesse que ela já subiria, provavelmente terminaria de se arrumar, mandar mensagens para parentes distantes ou até mesmo dar aquela última passada no banheiro, como bom obedecedor de regras que sou, acatei e subi. Agora eu tinha curiosidade na roupa dela e no que ela tinha nas mãos. Burro, estava com o celular no bolso. Não sei de quem foi a ideia de colocar uma lanterna no aparelho, mas era uma daquelas coisas do tipo "como ninguém pensou nisso antes?", puxei-o do bolso trazendo luz ao ambiente.

Um vestido branco, longo, com flores amarelas bordadas na altura dos joelhos, o cabelo com volume todo armado, no colo uma medalhinha que nunca tinha reparado que ela usava, nos pés a boa e velha sandália de dedos famosa. No braço esquerdo diversas pulseiras e o braço direito, tão logo viu a luz, escondeu-se atrás.

- Pode-se saber o que a senhorita está aprontando?

- Você subiu tão rápido que quase dá vontade de brincar aqui em cima... - ela tinha um sorriso perverso nos lábios - ... já deve ter ouvido falar de BDSM né?

- Claro - Confesso que um arrepio me subiu do cócs até a nuca, desceu e subiu novamente, hora de dar linha pra essa pipa - Já tive uma Senhora uma vez...

- Ah é? - Ela não pareceu surpresa - E quem foi?

- Você não conhece - hora de história pela metade - Faz uns anos tive um relacionamento com uma Senhora e tals... foi divertido enquanto durou.

- E essa Senhora tem um nome? - Ela viu que a história tinha buracos - Quero dizer... é alguém que eu conheço?

- Só se você estivesse em Belô uns três anos atrás. - Suspirei brevemente - O nome dela é Flávia, hoje mora em Londres acho... o pai dela é dono de diversas empresas e ela só fica recebendo os dividendos e tals.

- Entendi - Ela entendeu que era história não resolvida e não era ideal para o clima festivo - Na real eu tenho um pedido e uma pequena confissão pra fazer...

- Ih, lá vem - Ri um segundo enquanto notava que ela estava um pouco incomodada - Qual é o pedido?

- Que você use isso - Ela tirou o braço direito de trás revelando meu vestido branco usado no reveillon do ano passado, confesso que me pegou completamente no contra-pé - E depois a gente conversa.

Olhei em volta, não havia mais ninguém no terraço e as janelas dos arredores não era tão visível o que fazíamos aqui em cima. Mas, claro, a sensação de estar me montando em público trazia um imenso frio na barriga, o flagrante, as mil histórias prontas na cabeça, a possibilidade de quem ver filmar tudo e colocar na internet... hesitei um instante. Se o objetivo já era fazer isso um dia, que seja hoje. Tirei a camiseta, a bermuda e coloquei a peça que ficou um pouco justa na parte da barriga, acho que precisava voltar a me alimentar direito. 

Passados dois minutos eu estava dentro do vestido sentindo o vento frio entrando por baixo e me aplacando o calor nas partes íntimas. Em seguida Bethina me puxou para perto dela e fez uma maquiagem simples, mas que, com certeza, deve ter ficado infinitamente melhor que as que eu tentava fazer por conta própria.

- P-pronto... - confesso, estava morrendo de medo - C-como estou?

- Você está linda meu amor - Ela colou os lábios rosados aos meus rubros, confesso, a sensação daquele beijo que misturava os batons era algo que eu não tinha experimentado, o ato só foi interrompido pelos primeiros fogos do ano que se iniciava ali - Dizem que o que fazemos na virada do ano é o que faremos o resto do ano.

- Te beijar o ano todo? - Fiz caretinha - Parece bom...

- Só bom?

- Bom foi só o primeiro adjetivo... - hora da fuga linguística - parece maravilhoso mesmo!

- Ah bom, achei que era só bom - Ela fez um bico por um instante - Mas maravilhoso é ótimo.

- É sim - Tomei a mão na dela - Agora... o que ia confessar?

- Então - ela olhava os fogos, ao passo que eu fazia o mesmo - Lembra aquele dia que fui na sua psicologa?

- Lembro sim.

- Então... - Senti a mão dela esfriar subitamente, apertei um pouco como se buscasse passar confiança à Bethina - Ela me contou parte da sua história, dos seus traumas, seus rolês e tals

- Que fofoqueira - Merda, esse era o momento que ela iria terminar comigo ou algo assim, merda, já sentia o coração despedaçar inteiro - E...?

- E ela... na verdade eu joguei verde e colhi maduro - A mão dela ganhou calor novamente - Eu perguntei se você era algo além de crossdresser, se ia dar o passo seguinte e... bem... ela não negou - Cogitei falar algo mas ela não deixou - A verdade é que antes de te conhecer eu tinha decidido não ter mais relacionamento nenhum com homens sabe? Tive umas fitas mó complicadas, agressão e o caralho a quatro, por isso eu só estava me relacionando com meninas e já tinha definido dentro da minha cabeça que só teria um relacionamento sério com outra mulher e aí do nada você apareceu, puta cara gentil me mostrando a empresa, gente boa pra caralho, demorou um pouquinho pra tomar a iniciativa mas quando tomou teve um pouco de receio de se mostrar por inteiro e eu te entendo perfeitamente sabe? - Estávamos cara a cara, mesmo com a penumbra eu podia ver os olhos dela rasos em lágrimas - Aquele dia que saí daqui eu fui conversando com alguma entidade superior perguntando se isso era alguma pegadinha... aí meu apêndice deu ruim e não consegui te contatar nem nada e... 

- Fala logo - Ela parecia cansada de tanto falar e aproveitou minha interrupção para respirar - Pra ti, qual seria esse passo seguinte?

- Qual era o termo... - ela olhou para o lado dois segundos - ... transicionar gênero... é isso? É esse seu caminho?

- Provavelmente - Minha vez de olhar para o vazio - Sempre me senti meio errado por dentro e, quando invadi um quarto que não o meu e usei uma saia tive um clique... e acho que é por aí que devo seguir, não vai ser um caminho fácil, pelo que li os remédios tem reações bem tensas, fora as mudanças externas que não vai dar pra esconder muito tempo... A minha pergunta é: você quer, realmente, estar comigo nesses momentos?

- Quero sim - Ela me deu um beijo - Cara, eu te amo e tava em um puta conflito interno por me deixar seduzir por um homem de novo... e aí você, sem querer, resolveu isso pra mim.

- Quer dizer que você se vê mais...

- ... Como lésbica, tem anos essa história de não relacionar com homens - Ela respirou aliviada - Obrigada, Fê.

- Uau - Foi impossível conter uma lágrima fujona - Isso parece série da netflix - rimos - uma lésbica que se apaixona por um homem que, na verdade, é uma mulher trans... 

- Puta merda - Bethina também chorava copiosamente agora - Vamos escrever isso e ficar ricas!

- Feito!

E assim, entre risos, lágrimas e confissões os fogos iluminavam o céu da grande Metrópole. Não sabia porque mas agora me sentia ainda mais seguro em poder ser quem eu realmente era, dar aquele passo com a certeza que não vou querer voltar, seguir em frente, sem mais medos ou receios. Na real eu sabia o motivo dessa força toda que imbuiu meu ser e o nome dela era tão simples quanto complexo, além de ser uma das forças primordiais do universo. Essa força chama-se amor.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

CdF: Alta

Nunca o espaço entre uma sexta-feira e o sábado demorou tanto para Fernando. Passou a acreditar na relatividade do tempo, enquanto tomava uma ducha gelada para acordar notava que havia um silêncio quase irreal na Metrópole, deveriam fazer uns bons anos que ele não sabia o que era acordar cedo no final de semana, talvez só quando viajava, mas mesmo assim agora era diferente.

Tomou um gole do refrigerante de cola que tinha na geladeira, comeu uma maçã e se vestiu, chamou um carro pelo aplicativo já pensando se Bethina ficaria na sua casa ou iria para a casa dela própria. Na cabeça dele não fazia a menor diferença, tudo que queria era que ela se sentisse o mais confortável possível, até porque uma vez confessados os sentimentos e aquela quantidade inenarrável de mensagens trocadas nos últimos dois dias deveria querer dizer alguma coisa.

- Quer dizer alguma coisa - Balbuciou Fernando trancando a porta - ... não quer? - Deu uma rápida olhada para cima como se perguntasse a algum deus que estivevesse de plantão no final de semana.

Ao entrar no carro o motorista parecia pouco propenso à conversas e Fernando também não sabia se queria conversar, estava com tantas caraminholas dentro da cabeça que preferia não abrir a boca com medo de que as palavras fugissem e se nunca mais voltassem. Cada pensamento besta que acabou sorrindo de canto o que foi prontamente percebido por Astolfo, o motorista.

- Pelo sorriso está indo buscar alguém querido no hospital...

- Tá tão na cara assim?

- Ô se tá, ta exalando.

- É? - Fernando sentiu o rosto queimar - Exalando, gostei dessa palavra.

- Bonita né? - O motorista pareceu se entreter com o som dela - Dia desses entrou uma psicóloga muito falante e acabou falando essa palavra, aí fiquei com ela na cabeça... mas acho que é mais que uma palavra - Virou uma esquina, o destino estava no meio do quarteirão seguinte - é um sentimento, tipo estar exalando uma sensação boa.

- Sinestesia, a relação de planos sensoriais diferentes, tipo dizer que a cor azul é fria ou que uma música faz arrepiar.

- O senhor é professor?

- Publicitário, gosto de brincar com as palavras.

- Legal, tenho um filho estudando isso aí, cada dia que ele volta da aula é uma coisa nova que eu e minha velha passamos a perceber nas propagandas... vocês são tinhosos hem.

- Só o suficiente - Fernando riu enquanto o motorista estacionava - Obrigado pela conversa e um ótimo dia pra ti.

- Pro senhor também!

E assim, como se fosse carregado pelo vento Fernando entrou no hospital já perguntando pelo quarto de Bethina e, enquanto aguardava notou uma das funcionárias decorando uma árvore de natal, estranhou a cena, puxou o celular e faltavam menos de duas semanas para a época que menos gostava no ano, mas é a melhor época para fazer peças, todas muito iguais entre si, poucas palavras já causavam um impacto grande no público.

Tão logo soube o número do quarto foi guiado até lá pela mesma força mística que fez tantos homens lançarem-se ao mar em todas as histórias épicas. Por um instante sentiu-se Ulisses atravessando mares e perigos indo atrás da pessoa amada. Porta cento e um. Bateu suavemente três vezes.

- Pode entrar - A voz de Bethina foi como o canto de uma ninfa dentro da cabeça de Fernando.

Ao abrir a porta a imagem de Bethina, em um vestido florido, de alças finas, solto do corpo, nos pés uma rasteirinha e o cabelo solto mostrando ao mundo todo seu volume quase lhe fez desfalecer tamanha a emoção em vê-la ali. O abraço que culminou em um beijo foi apenas a cereja daquela profusão de sentimentos que, mantendo as palavras do motorista, exalavam entre eles. Palavras essas que sumiam entre um beijo e outro emendado por sentenças quase sem sentido para quem visse de fora aquela situação. Passados não mais que um par de minutos Fernando tomou a iniciativa.

- Já está liberada ou ainda precisa esperar mais?

- O médico assinou minha alta tem uns cinco minutos, estava vendo as mensagens lá da firma... até a dona Freya perguntando de mim.

- E você respondeu ela?

- Eu não - Bethina deu de ombros - Terça-feira eu respondo com o atestado, não sou obrigada.

Foi impossível não sorrir com a petulância da jovem que caminhava com certa lentidão para o lado de fora do quarto ao que Fernando, tal qual o bom cavalheiro que era carregava a mochila com os pertences da moça.

Optaram por motivos óbvios que o melhor era ela ficar no apartamento de Fernando para se resguardar e evitar esforço, fora que eles tinham muito a conversar e um final de semana parecia tão pouco tempo que passou voando e logo era segunda-feira. Ele foi para a empresa e ela voltou para o seu apartamento, oito quadras distante.

Aquele dia restou para ele transmitir as notícias acerca da designer tentando não demonstrar que ele estava mais apaixonado por ela como jamais esteve por qualquer outra mulher em sua vida. Ainda que estar com esse sentimento lhe deixasse um pouco confuso, mas... quando nada foi extremamente confuso na cabeça dele? Confuso para Fernando era o normal.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

CdF: Terapia

Ao chegar no consultório hoje me dei conta de que fazia exatamente um mês que eu não vinha à terapia. Primeiro foi um cancelamento por causa de urgência que nunca foi reposto, depois a doutora tirou duas semanas pra ir em um simpósio, congresso ou coisa assim e, semana passada, fui eu que faltei por causa de uma luxação. Nossa. E revendo mentalmente tudo que aconteceu parece que uma sessão seria pouca.

- Fernando - a recepcionista me chamou pelo nome - Pode entrar.

- Obrigado!

Já conhecia o caminho, quase um ano vindo aqui toda sexta-feira depois do trabalho, o tapete característico na porta. Soltei os ombros, respirei fundo e dei duas batidas suaves já abrindo e entrando. Decididamente a doutora nunca foi de cerimônias, pelo menos não comigo. Até torcíamos pro mesmo time. Se eu tivesse tido um apoio assim desde a infância certamente metade dos meus fantasmas jamais teriam surgido. Se bem que... foram importantes, apesar do sofrimento que causaram.

- Fernandes! - Ela saiu de trás da mesa e veio ao meu encontro me abraçando - Saudade de você! Como está?

- Saudade também - Correspondi ao abraço, ela já não era mais só minha terapeuta, era minha amiga, pelo menos era o que transparecia - Me-ni-na, aconteceu tanta coisa nesse mês que olha...

- Senta aí, vamos conversar! Aliás, antes... - Abraço desfeito, ela foi para a sua cadeira e eu fui pra minha - Tá com fome? Você é meu último paciente hoje e esse final de semana é do Thomas ficar com a Bia... então, sem hora pra chegar em casa!

- Quase falei um "coisa boa" - Rimos - Mas eu aceito sim - Thomas era o ex-marido e Beatrice a filha do casal, que tinha onze anos - Ajudo até a pagar.

- Mas aí a coisa ficou boa! O que vai querer?

- Ah, publicitários adoram pizza...

- Sério? Sempre achei que fosse um esteriótipo.

- E é, mas eu adoro mesmo.

- Beleza... vou pedir de calabresa e uma de chocolate com morango pra sobremesa... - ela me viu pegar o cartão - e deixa que eu pago, pela sua cara já sei que temos longas histórias! Então, manda bala!

- Bom... vejamos - Me levantei e caminhei até o sofá que tinha numa das paredes do consultório - Eu conheci alguém...

- A moça da empresa? - Ela checou as anotações - Bethina com "TH" né?

- Isso... então, lembra que semana passada eu torci o pé? Então, ela foi lá em casa cuidar de mim e tals e rolou.

- Aff - Ela fez uma cara de tédio - Conta tudo, não me esconda nada!

- Tá bem - Respirei fundo - Ela foi lá em casa, jantamos, bebemos um pouco e transamos, foi... como eu posso dizer... mágico.

- Gostei dessa palavra - Era nítido que a doutora grifava a palavra - E o que mais?

- Bom, antes da gente ir pros finalmentes aconteceu uma coisa - Bateram na porta, era o entregador das pizzas da pizzaria do outro lado da rua - Rápido hem.

- Muito e ali é a melhor da região - Sem esperar nem nada ela já tomou uma fatia nas mãos e mandou que eu me servisse - E que coisa aconteceu antes de vocês transarem de forma mágica?

- Como tá esfriando eu resolvi lavar a camisola pra guardar limpinha, só que nisso eu deixei secando na lavanderia e, bem... Bethina viu.

- Puta merda, e aí?

- Aí o redator publicitário aqui inventou uma história de que tinha lavado roupa para uma vizinha e tals e não é que colou?

- Fernando... o que falamos sobre esconder?

- Eu sei, eu sei, isso foi uma reação natural, eu não controlei, quando eu vi já tinha dito e vida que segue, ela colocou a camisola e ficou linda... disse que achou muito grande e eu mantive a história de que a vizinha era mais ou menos da minha largura e, no fim, rolou, transamos... de forma mágica.

- Certo - A doutora serviu o refrigerante - E agora vocês tão namorando?

- Não, ainda não! - Tomei um gole da bebida pegando mais uma fatia - Teve o dia seguinte!

- Sei - Ela também se serviu de mais uma fatia - Vocês transaram magicamente de novo?

- Antes fosse! Enquanto eu dormia por causa do remédio pra dor, vinho e magia ela fuçou o apartamento inteiro e, advinha, achou meu guarda-roupa CD...

- Puta merda! - Ela engasgou, tinha horas que eu esquecia completamente que ela era uma das psicólogas mais caras e renomadas do país, mas no perfil dela dizia que ela se adaptava a cada paciente, se a pessoa prezava a norma culta ela virava uma catedrática, se a pessoa era mais simples ela não tinha receio de falar em linguagem mais popular, fico curioso como ela tratava da Rafaela, uma hora eu pergunto  - E depois?

- Depois ela me acusou de ter mentido pra ela, que eu tinha um relacionamento e não queria assumir e tudo mais! Foi mó merda na hora, quase joguei tudo fora... só que, como que eu vou jogar fora o que eu sou? Não posso jogar fora a minha verdade.

- Isso mesmo! Mandou bem... mas, por favor, me fala que você abriu o jogo com ela...

- Claro, segunda-feira chamei ela lá em casa e não só falei como mostrei, ao vivo!

- Wow! - Ela me estendeu a mão, correspondi - Parabéns! E ela?

- Obrigado, tenho uma ótima terapeuta - Fiz caretinha - Ela reagiu como qualquer um reagiria né? Ficou em choque, sem saber o que dizer... ah, nesse meio tempo a gente confessou atração!

- Porra, essa história ta melhor que a maioria das séries da netflix hem! Devia escrever e vender pra eles, faria sucesso, certeza!

- Maybe a day - Suspirei ponderando a ideia - No dia seguinte ela não veio trabalhar e minha caixinha de maquinações aqui despirocou né... aí na quarta cobrei um favor do Borges e peguei o endereço dela e fui ver qual foi, o porteiro disse que ela não aparecia ali desde terça de manhã... véi, foram os piores momentos, porque pensei mil merdas, mas voltei pra casa pra tentar recolocar a cabeça no lugar...

- E colocou? Quero dizer... não teve certos pensamentos de novo né?

- Não deu tempo - Peguei o celular - Quarta a noite recebi essa mensagem - Deixei que ela lesse, claro que já tínhamos conversado mais, mas o resto era só nosso. - Aí eu fiquei num misto de sorrir feito idiota e chorar.

- ... um choro de alegria, isso merece um brinde! - Brindamos - Se você não se importar e ela quiser... pode trazer ela aqui semana que vem? Quero ter um particular com a moça.

- Virou minha mãe é? - Sorri, mas a doutora ficou séria - Trago sim.

- Tem coisas que eu acho que você não vai conseguir dizer direito pra ela... passos que, imagino que ainda queira tomar, que agora tem mais uma pessoa na caminhada.

- Verdade...

- Mas hey, parou de introspecção, 'bora sorrir e... caralho, quase dez horas da noite, vamos antes que tranquem a gente aqui dentro!

- Vamos sim - Foi uma sessão de duas horas regada a pizza e coca-cola - Obrigado.

- Pelo que? Ah, já sei - ela me deu a pizza doce - Pela pizza né... - De repente fiquei pensativo, ela me abraçou - Relaxa, vai ficar tudo bem, eu posso te ajudar a explicar pra moça tudo... quer dizer, ainda tá com os planos né?

- Tô sim, não posso fugir da minha verdade!

- Puta merda, te doutrinei muito bem, que orgulho!

Nos despedimos e rumei para casa. Amanhã tinha que acordar cedo, pegar um carro do aplicativo e ir buscar Bethina, tínhamos tanto para conversar e tantos pingos nos is para colocar que acho que o final de semana não seria suficiente.