domingo, 3 de maio de 2020

CdF s2e12: Passeio

Devo confessar que essa sexta-feira passou mais rápido do que esperava. Aos poucos as coisas iam se encaixando e a chefia incomodava menos aqui em baixo. Enquanto estivesse todo mundo em silêncio e produzindo eles não tinham motivo para vir visitar a plebe. Pisquei e o dia já findava com toda a campanha de reajustes colocada no ar... a hora que Rafaela voltar ela vai ter muito trabalho para recolocar a Lótus em pé. Mas é aquela coisa: o passarinho do fio de baixo tem que aceitar o que vier do fio de cima.

Uma vez na rua e o fluxo de trânsito me levou completamente no automático até a terapia. Sem um motivo aparente eu tive algumas lembranças no decorrer do dia e partilharia elas com minha analista. A velocidade de minha chegada me trouxe quase quinze minutos antes. Perguntei qual era a janta, Bethina não respondeu. Insisti. Ela disse que íamos jantar fora. Era uma boa, já fazia um bom tempo que ou fazíamos algo em casa ou pedíamos comida por delivery... a verdade é que eu estava em um fluxo de trabalho para casa, casa para o trabalho. Vez por outra terapia, mercado, feira... nada além disso.

Ao entrar na sala da terapeuta me deparei com um divã novo, totalmente preto, uma luz mais intimista, um pouco mais escuro, um abajur estranho e duas poltronas além de um tapete extremamente macio.

- Ficou chique.

- E não é menina? Resolvi dar uma repaginada, ganhei um divã novo, chegou agorinha, você vai ser a primeira a experimentar.

- Que honra! - Me sentei, era óbvio que era novo, era duro e levemente desconfortável - Só esse abajur...

- Ah, isso aí vou botar fora, a menina que faz estágio aqui a tarde trouxe... achei horrível. - Me ajeitei soltando o cabelo e respirando fundo - Mas e como foi a sua semana?

- Foi corrida, trabalhei, assisti alguns filmes... nada muito relevante... Eu só tive uma lembrança vindo pra cá.

- Que tipo de lembrança?

- De quando fiz terapia a primeira vez... uns anos atrás, antes mesmo da Flávia, era uma época estranha, eu tinha me formado e estava em um emprego bonzinho, ainda morava no interior, uma cidade grande, mas no interior - forcei o R para dar ênfase - eu já cheguei disposta a falar tudo, abrir o jogo total sabe? Não tinha falado pra ninguém do meu lado... lado entre muitas aspas... tinha algumas amigas próximas que sabiam, mas nunca tinham visto ao vivo sabe? Aí resolvi que ia usar a terapia pra isso, afinal, eu tava lá pra isso né? Demorei uns dois meses de sessões semanais até conseguir coragem pra pedir pra usar... e quando usei, tudo pareceu fazer tanto sentido sabe? Era como se a minha vida tivesse se dividido em antes e depois daquele momento, eu ainda estava em conflito, mas naqueles quarenta minutos de sessão eu fiquei... nas nuvens. Ao voltar pra casa aquele dia eu não acreditava que tinha feito isso mesmo... pena que depois de um tempo eu tive que parar por falta de grana.

- Puts - Ela parecia saber como era isso - E ainda tem o contato dela?

- Tenho! Ela mora na mesma cidade que a minha mãe... veja que mundo pequeno.

- Ah que legal - A ouvi rabiscar algo - E ela já sabe dos seus passos futuros?

- Ainda não... quero mostrar ao vivo.

- Manter a tradição, saquei - Rimos - Eu posso notar aqui, Fê, que você ficou muito tempo esperando sabe? Não vou julgar seus motivos nem nada, mas esse tempo... - Ela tocou meu braço de leve - ... deve ter sido difícil né.

- F-foi... - Mordi o lábio, não estava afim de chorar - Mas foi importante.

- Importante?

- É, me trouxe até aqui.

- Own modeuzo... não adianta, garota, eu sou firme e você não vai me fazer chorar.

Rimos. Depois daquela lembrança a sessão aconteceu sem maiores histórias, só o cotidiano da empresa, de casa e o quanto me cortava o coração ao ter que deixar Bethina em casa sozinha. Findada aquele momento eu fui para casa pensar na minha existência e tirar essa casca de Fernando que tanto me sufocava mas ainda era necessária. Necessária por que? Eu precisava dum rompante para assumir de vez minha real identidade.

Ao chegar em casa Bethina estava jogando. Pista de Interlagos, conhecia cada curva daquele local. Esperei ela ganhar a subida do café para dar boa noite e ver que não bateu meu recorde por meio segundo.

- Provavelmente está errando o laranjinha...

- Não, é o bico de pato.

- Ali joga a primeira e faz por dentro a primeira perna porque vai tracionar melhor a segunda...

- Vai tomar banho vai, recebi um freela inesperado e ganhei uma graninha legal, dá pra gente jantar fora, quem sabe pegar uma baladinha suave, sair um pouco desse apartamento... que acha?

- Eu gosto... vamos onde?

- Surpresa, agora vai, garota, vou dar mais uma volta aqui e vou me arrumar.

Com a certeza que meu tempo não seria batido hoje entrei no banho e deixei as energias ruins fluírem pelo meu corpo e escorrerem pelo ralo. Era aquela ducha vaporosa do The Sims que fazia os Sims saírem radiantes. Passei creme no rosto, no cabelo... chegava a dar dó eu ter que ser menininho pra sair. Na verdade era irritante mesmo. 

Saí do banheiro enrolada na toalha e Bethina estava na cozinha, saia e comprimento médio, uma blusa com mangas curtas, cabelo levemente armado, uma maquiagem linda e uma sandália baixa nos pés. Que mulher maravilhosa. Fui para o quarto onde uma blusinha de mangas três quartos e uma saia longa me aguardavam em cima da cama. "Boa tentativa" pensei já abrindo o guarda-roupas. Não haviam outras roupas.

- Amor... cadê minhas roupas?

- Veste o que deixei em cima da cama.

- Mas a gente não ia sair?

- A gente vai, quando terminar de se vestir vem aqui que vou te maquiar.

- Mas...

- Mas o quê, garota? - Eu ainda estava enrolada na toalha quando ela entrou no quarto - Olha, amor, eu super entendo na empresa você ainda ter que manter o Fernando, mas comigo, você não precisa disso, eu quero sair com você, mas a você real saca? Me apaixonei pelo Fernando e agora eu amo a Fernanda, você é maravilhosa, linda, não precisa se esconder em casa... você merece o mundo.

Ela me abraçou forte, choramos juntas por alguns minutos, em seguida, recobrando o papel de quem quer me forçar a sair da zona de conforto, ela mandou eu me apressar. O arrepio que senti ao vestir aquela blusa e depois a saia fpo diferente, foi algo completamente novo, talvez só comparável à primeira vez que me mostrei, lá pra terapeuta, anos atrás. Arrumei a saia na altura certa, o sutiã com bojo me fazia parecer mais feminina, um peito pequeno, mas convincente. Nos pés uma rasteirinha.

- Vai se foder - Assim que coloquei o pé fora do quarto Bethina me recebeu com aquele jeito dela - Como que eu fui arrumar uma namorada tão linda? Senta aqui, vou te maquiar pra gente sair - Abri a boca para repensarmos e ela cortou em cima - E nem pensar em arregar agora, temos uma reserva e duas entradas pra um pagode - Fiz careta - Brincadeira, é uma baladinha tecno suave... bem gostosinho, dá aqui a orelha - O brinco de argola quase tocava meu ombro - a outra... e voilá, a namorada mais linda do mundo está perfeita. Agora vamos.

Ao mesmo tempo que queria sair por quela porta quis voltar para dentro do quarto e me esconder debaixo das cobertas. Bethina não era terapeuta mas notou minha hesitação e me puxou pelo braço, não com força, mas com a gentileza de quem sabe que aquele passo era de extrema importância para meu crescimento e minha aceitação. 

Ao passar a soleira da porta eu quase congelei. No elevador eu, mentalmente, rezei para que não entrasse nenhum vizinho. No décimo andar o diminuto veículo parou. Entrou o síndico com a esposa. Bethina tomou sua mão na minha e, de repente, eu senti que poderia enfrentar o mundo inteiro, foi como um estalo. Ao descer no andar da garagem o representante de Tim Maia desejou boa noite e, em tom brincalhão, juízo às jovens. Passamos pelo hall de entrada dando um honesto boa noite ao porteiro, o mesmo que eu discutia futebol às vezes. 

Logo o carro do aplicativo chegou e eu sentei no meio. Senti os olhares do motorista, ao mesmo tempo que gostei de ser desejada como a mulher que sempre quis ser eu me senti um pouco invadida por aquele par de orbes que deviam estar na estrada. Quando estávamos perto do restaurante puxei Bethina para perto e dei um beijo nela, nada muito épico, apenas para deixar claro que eu não tinha o menor interesse em Rubens, o motorista.

O jantar delicioso, em um ambiente com luz baixa onde mal dava para ver as outras pessoas. Pude gastar todo o meu talento nas horas vendo técnicas de afinação vocal que vi na internet nos últimos anos. Até minha namorada percebeu que me joguei naquela situação e estava tentando aproveitar ao máximo. A casa noturna ficava dois quarteirões dali, em uma parte da cidade cheia de espaços de festa, bares, pessoas diferentes... imediatamente na nossa frente na fila tinha uma drag, maquiagem carregada, vestido curto. Quase quis dar umas dicas de como se arrumar, mas cada um cada um. Algumas horas depois estava exausta e pronta para um belo sono de beleza.

Bethina assentiu com a cabeça. O carro veio e notei que estávamos indo para outro lado.

- Para onde estamos indo?

- Ahhhh... ficou curiosa?

- Fiquei - A voz chegou a sair um pouco do tom - Sério, pra onde está me levando agora, dona Bethina?

- Segredo - Ela puxou da bolsa uma fita de pano - Coloca isso.

- Uma venda? Sério?

- Sério, anda logo, garota.

Com a destreza de alguém levemente alcoolizada eu cobri os olhos com a venda e, fazer isso, me aguçou os outros sentidos e a lembrança. Bethina não tinha chamado carro nenhum. Esse aqui tinha os bancos de couro. Quem dirigia era um par de olhos felinos que sorriu ao me ver. Agora fiquei bolada. Antes de eu poder fazer algo senti um ferro frio ao redor dos meus pulsos.

- Bethina - Meu tom de voz saiu como um trovão - o que está acontecendo aqui?

- Eu disse que ela não ia notar - a voz veio do banco da frente - A propósito, você é linda, Fernanda... agora, se puder ficar caladinha, eu agradeço, odiaria ter que pedir pra Bê colocar uma mordaça em você e estragar essa make divina, já estamos chegando.

Por essa eu não esperava. E o foda é que aquela voz não me era estranha. Já tinha ouvido ela em outros lugares mas não conseguia ligar o som à pessoa. Bem dizem que nervosismo afeta o raciocínio. Pensa Fernanda, pensa. Quem teria cacife de fazer isso? Conseguir reserva para aquele restaurante? Amaciar o corpo na balada? O único nome que me passava na cabeça era de Rafaela. Flávia talvez, mas essa hora ela devia estar curtindo a vida em algum lugar da Inglaterra. A voz da motorista deu boa noite à outra voz externa, passamos um quebra molas... não conseguia imaginar a surpresa que viria nos próximos minutos. Você me paga, Bethina.

sábado, 25 de abril de 2020

CdF s2e11 - Lembranças

Confesso que era um pouco doloroso ver dia após dia Fernanda ter que deixar sua realidade e ir de "menino" para a empresa. Sempre fingia dormir pra acompanhar o ritual de tirar o pijama, escovar o cabelo, colocar calça, camiseta, tênis... alguns dias atrás me cortou o coração ver ela abraçando a camisola e deixando sobre a poltrona. Queria resolver toda essa situação o quanto antes... mas não dependia de mim muito menos dela, era questão de tempo.

Tão logo ela saiu em um passo de fazer inveja a qualquer felino sorrateiro me levantei. Desde que vim morar aqui essa casa tinha café, logo, estávamos mais próximos de uma civilidade humanamente aceita. Enquanto passava a bebida dos deuses pensava em artes que tinha enviado ontem para aprovação o que me deixou com relativamente pouca coisa para fazer. Até pretendia limpar o banheiro, mas Fernanda tinha um hábito quase inumano em limpar o banheiro quase todos os dias.

Um gole na bebida quente e a alma saiu da cama e entrou em meu corpo. Agora sim estava pronta para começar o dia. E-mail aberto, uma aba com música eletrônica menos paulada. Saudades de ir à uma balada, será que Fê iria comigo? Podia esperar a tempestade passar e acho que ela toparia, uma baladinha suave, beber um pouquinho, acho que ela trajar a liberdade fora das paredes desse apartamento vai fazer bem pra ela. Era uma ideia.

Um arquivo gigantesco vindo, centenas de fotos de um restaurante para ter um banco de dados para futuras postagens. Ótimas fotos, porém eram daqueles pratos refinados, onde se come pouco e se paga caro. Locais onde Rafaela certamente deveria ir.

Rafaela. Pensar nela me trouxe a situação de merda que acabou ficando a empresa. Um engomadinho daqueles certamente iria mandar embora todo mundo se pudesse, tudo em nome do lucro. Mas aposto que ela daria um jeito de reverter, tipo naqueles filmes bobos que Fê adorava assistir. Será que a vida imita a arte? Será que não somos frutos da arte de alguém? Perguntas estranhas para uma sexta-feira.

Só agora me liguei que era sexta-feira. Dia de correções, artes no maior estilo dedo no cu e gritaria. Na Lótus esse era o dia mais fraco, todas as artes já tinham sido feitas na quinta e na sexta era só arrumar o que precisasse. Não era raro o setor pedir pizza, salgado ou alguma coisa, ainda lembro do dia que, sem nenhum motivo, estávamos comendo salgados com refrigerante quando Rafaela e Freya entraram, geral achou que iam acabar demitidos ou levar um puta esporro, mas não, ela se juntou à plebe. A aba com nova mensagem pula.

- Bom dia Bethina! - Um dos clientes que eu já fazia arte antes de vir morar aqui - A arte ficou foda, como sempre, só precisa de um tapa sutil saca?

Saco. Saco sim. Juro que pensei em responder isso e testar o limite da amizade com Dora que, ironicamente, tinha uma loja de equipamentos de aventura. Não respondi, apenas refiz e ela aprovou já dizendo que faria o depósito do mês ainda hoje. E acabou. Nenhuma outra demanda, nada para hoje. O café semi frio me fazia ter lembranças e ligar pontos na minha cabeça.

Rafaela. Freya. Tapa. Aquela cena. Fechei os olhos mordendo o lábio inferior. Senti o interior de minhas pernas umedecer. Foda-se. Larguei o computador ligado e fui pra cama. Tirei a blusa, o shorts e arremessei a calcinha pra longe. Aquela cena vinha em flashes.

A mão esquerda veio apalpar os seios e a direita foi direto no ponto de umidade. O toque me arrepiou por completa. E aquela cena. Tudo começou em um dia que fui levar um material para aprovação, em vez de deixar um post-it e colocar na mesa da Freya eu resolvi espiar e acabei vendo, pela fresta da porta, aquilo que não vou esquecer e que agora era o combustível dos meus toques de prazer.

Freya com o corpo deitado na mesa de Rafaela, saia levantada, uma bunda redonda, poderia colocar ela na palma das duas mãos e levantá-la se quisesse. Rafaela estava impecável em seu tailleur em tons escuros, mas na mão tinha uma ferramenta. Algo que só fui aprender o nome muito tempo depois. O som dos tapas que a secretária levava não ecoavam, era como se a sala do escritório fosse feita para isso.

Não sei exatamente o que me fez ficar assistindo aquela cena, nunca fui muito adepta de BDSM mas vendo ali, ao vivo, quase tive vontade de abrir a porta e me oferecer para ser a próxima. Me estiquei e peguei o chinelo da Fê no lado dela da cama. Com a mão esquerda comecei a bater na minha própria coxa, tudo sem parar aquele movimento frenético da mão direita.

Deviam fazer uns dois minutos que eu estava olhando aquela maravilha quando o rosto da Freya se virou para a porta e fui vista. Tenho consciência disso. Fui tomada por um apavoro mas, ao mesmo tempo desejei que Rafaela fosse avisada da stalker e eu tivesse o mesmo destino da secretária. Mas em um segundo de lucidez saí dali e voltei correndo para minha baia.

Claro que agora a imaginação vinha com toda a carga. Quero mais. Fui até o guarda-roupas e peguei meu vibrador. Posicionei ele e ergui a bunda pro espelho. Puta merda, Bethina, que bunda linda. Eu me comeria. Liguei a vibração no máximo enquanto com a, agora livre, mão direita, dava incontáveis chineladas em minha própria raba. Afundei o rosto no travesseiro para que ninguém ouvisse meus gemidos altos. Com esse ritmo eu não duraria muito mais. Em uma batida mais forte o gozo veio com uma intensidade que não vinha fazia algum tempo. 

Desfaleci alguns instantes não sem antes desligar meu amigo vibratório. Completamente nua, corpo todo suado, nem a roupa de cama sobrou no lugar e o pior: zero forças para arrumar tudo isso. Deixei o corpo apagar aos poucos querendo transformar a lembrança assistida em lembrança vivida. Será que se eu ameaçasse falar o que vi Rafaela toparia me dar uma surra daquelas?

Tantas possibilidades que a cabeça estava na lua sem ver o tempo passar. Só dei conta quando um helicoptero passou. Quatro horas da tarde. Me levantei com as pernas tremendo, coloquei toda a roupa de cama na máquina de lavar e me meti no banho.

Hoje Fernanda estava fodida. Eu ia exigir o couro daquela piranha. Preferencialmente o couro da língua e dos dedos dela. Pensar nela e nas possibilidades me deixou excitada de novo. 

Chuveirinho meu amigo, me ajuda.

sábado, 4 de abril de 2020

CdF s2e10: Gratidão

Em minha mesa tentava entender como tudo aquilo havia acontecido. Não tinham sinais de uma mudança tão brusca no conselho, então como? Em uma decisão totalmente arbitrária o reizinho, que é como eu e Borges chamávamos o novo CEO do grupo, dispensou todos os estagiários. O setor que já chegou a ter oito pessoas agora tinha quatro. O mais afetado foi o andar de cima, do T.I. onde das quase vinte pessoas sobraram três. Três pessoas para segurar um servidor daquele tamanho. Esse cara devia comer merda e beber urina... se bem que. Ri sozinho imaginando a cena duma dominadora cagando no peito dele. Rafaela não, ela tinha classe demais pra algo tão chulo, Flávia provavelmente faria algo assim, ela era doida pra testar coisas.

Pensar nela me trouxe uma onda de lembranças. Hoje era dia da terapia, quem diria que a semana passou tão rápido. Certamente o que moveu ela foi a força do ódio. E cá estava eu diante da sala da terapeuta. Respirei fundo e entrei. Depois do relatório semanal resolvi usar a carta de história do passado.

- Opa - Ela se ajeitou na poltrona, agora tinha um divã extremamente confortável - Vamos à história! 'Bora, sem pensar muito, um, dois e três.

- Tá bem - gostava disso, se eu ficasse pensando muito eu tendia a bloquear a história inteira - Lembra quando eu falei que já tenho os desejos crossdressers desde a adolescência né? Então, eu passei uns anos adorando e achando errado, até conhecer a Flávia, minha ex-Domme, acontece que ela, ao saber dos meus desejos resolveu usar como sissy, que é a parte mais sexualizada e nem sempre vai tão longe, normalmente as sissys só se montam pra sessões de BDSM mesmo e eu queria ficar mais tempo e ela não curtiu muito isso... - Tomei um fôlego - Acho que, sem ser por mal, ela enterrou ainda mais meu real objetivo sabe? Minha real natureza, ela basicamente fez o que eu já fazia na adolescência, o famoso achar que ta errado... aí quando acabou aquela residência BDSM foi algo estranho, porque eu tinha algumas peças, mas coisas bem... como vou dizer... meio putiane sabe? - Rimos um instante - E meu estilo é bem diferente, eu até curto uma ou outra peça mais curta, mas, no geral, eu prefiro os vestidões maiores... aí quando eu cheguei aqui na Metrópole e entrei na Lótus eu já tinha meio que definido que ia me montar às vezes e tudo bem, achava que era meu teto...

- ... Aí entrou a Rafaela.

- Exato! Aquela coisa toda, a liberdade que senti com ela foi diferente daquela coisa de me montar com o objetivo puramente sexual, era algo pra eu me libertar, me conhecer melhor... quando passei três dias completamente montada naquele acampamento foi algo indescritível, me abriu a mente de tal forma que, assim que o ano novo nasceu eu senti a necessidade de sair dali, já tinha vivido o BDSM suficiente para me conhecer.

- Então você diria que todas as experiências BDSM foram uma ponte para te fazer se descobrir?

- Completamente! Se não fosse a Flávia eu ainda seria aquela pessoa que se monta e acha errado, talvez nem tivesse muito além de duas ou três peças usadas como estímulo de fetiche em uma masturbação e se não fosse a Rafaela, cara eu devo tanto àquela filha da mãe, ela me fez ver que tudo bem eu, na época, ser homem e me vestir de menina e que tudo bem eu dar o passo seguinte e que ela me apoiaria no que eu precisasse...

- E qual foi esse apoio?

- Um deles - Olhei de canto, ela anotava frenéticamente - Foi marcar aqui pra mim, de verdade, você normatizou isso na minha cabeça de tal forma que eu pude parar, respirar e descobrir que é mais que identificação, é desejo de ser e isso foi tão... foda na minha vida que eu acho que nunca vou ter como agradecer.

- Eu é que fico feliz em poder ajudar e acompanhar todo o seu progresso, Fê... sabe que os próximos passos vão ser ainda maiores e mais complicados né?

- Sei sim, mas aí entra outra pessoa...

- Já sei - Ela falou em tom de deboche - a Bethina.

- Tá com ciúme?

- Eu não, quero mais é que vocês sejam felizes... mais alguma coisa?

- Não, só preciso descobrir um jeito de tirar o reizinho do trono e devolver a coroa pra quem merece.

- Sabe que isso não tá nas suas mãos né?

- Sei sim, mas no que eu puder ajudar... nem que seja jogando da escada.

- Nem vem, Fê, você não combina com isso... perder uma das minhas melhores pacientes por algo besta assim - Ela fez uma careta de desaprovação - 'bora nem pensar nisso, aliás, chega por hoje né? 

- Odeio que o tempo aqui passa muito rápido - Fui me levantando já me espreguiçando - Bem que o Albert dizia que o tempo era relativo.

E assim a sessão acabou e eu fiquei pensativa em tudo que tinha falado. A psicóloga tinha razão, eu não podia resolver os problemas da empresa, o que eu tinha de fazer era ficar na minha e, quando visse alguma oportunidade, agir. Claro que, no caminho até o estacionamento mandei uma mensagem para Freya me colocando a disposição.

"A menos que você possa oferecer o lombo pra apanhar por enquanto não tem como."

Adorava o tom jocoso dela. Certamente ela seria uma dominadora melhor que a Rafaela. Mais sádica, talvez até um pouco menos humana, mas ainda assim com disposição para ensinar novatos, certamente estava sendo bem treinada e logo assumiria o posto de vice-senhora da casa. Resolvi responder na mesma moeda:

"Só se for casal, sabe como é, namorada ciumenta."

O tempo de eu sair do elevador e chegar na garagem onde minha fiel companheira de estrada me aguardava.

"Mas é gado demais hahaha, você acha que ela toparia?"

Essa pergunta flutuo o no ar por dois minutos. Não conseguia imaginar a reação de Bethina em ir para a cobertura de Rafaela pra ver a namorada dela apanhar ou até coisa pior... Um arrepio me correu pela espinha.

"Hoje eu passo, mas obrigada pelo convite, qualquer dia quem sabe né? Se cuida e se precisar de algo além do BDSM é só chamar."

Sabia que ela não responderia e ainda mostraria à Rafaela todas as mensagens. Não ligo. Eu tinha uma dívida de gratidão que jamais conseguiria quitar com a senhora da cobertura. Quem sabe algum dia eu tenha formas de pagar. Melhor parar de pensar, o estômago me lembrou que Bethina devia ter preparado o jantar o que me deixaria, inevitavelmente, com a louça. Merda. Sorri já ganhando a rua e pensando no quanto a vida tinha me proporcionado coisas boas. Em uma rápida olhada para o céu a Lua brigava com as nuvens por um espaço. Agradeci à senhora da noite por tudo até aqui e pedi forças para continuar. 

Sinto que fui atendida.

segunda-feira, 30 de março de 2020

CdF s2e9: Mudanças

Viajar pela empresa não era bem uma novidade, antes de conhecer a Bethina tinha feito um bate e volta na cidade vizinha para visitar uma gráfica que imprimiria um material para a Lótus. Porém agora era diferente. Achei que não me apaixonaria assim de novo, mas a vida é uma caixinha de surpresas e cá estava eu com saudade da minha namorada.

E o ruim agora era ter que viajar com o Borges, longe dele ser má pessoa, mas tinha aquele pensamento antigo, meio machistinha, mesmo casado espichava o olhar pra mulheres na rua. Não que eu não olhasse, mas olhava por outros motivos. Cidade litorânea é o máximo, muitos vestidos lindos, puta merda.

Na última noite a bomba: Bethina foi demitida. Nunca eu desejei que a ponte-aérea fosse tão rápida. E aquela história de Rafaela fora do conselho? Enviava mensagens mas não tinha resposta. Mesma coisa de Freya e Vali, os dois mudos me preocupavam para caralho. Borges também ficou pensativo com a notícia, provavelmente ele temeu por seu emprego. Acho que todo mundo lá estava nessa.

Tão logo pousamos me despedi dele e fomos cada qual para um lado. O motorista do carro de aplicativo não falou uma palavra durante todo o trajeto. A Metrópole envolta em trevas em pleno três horas da tarde. Vinha um temporal aí. Nem mesmo o porteiro falou algo, apenas um cumprimento rápido de cabeça e seguiu separando a correspondência.

Ao chegar em casa Bethina estava no computador, vazava música alta dos fones, ela recortava uma foto de uma clínica médica, típica imagem de banco gratuito com arte simples, nada muito planejado. O cabelo preso atrás. Resolvi me aproximar em silêncio. Home office e suas liberdades: ela trajava um short-doll azul escuro com bordas brancas. Ela apertou para salvar o que estava fazendo, esticou o dedo no teclado e desligou a música.

- Você é uma péssima ninja - Bethina tirou o fone se levantando e vindo me abraçar - Estava com saudade meu amor!

- O que denunciou minha chegada? - A abracei já a beijando - Estava morrendo de saudade!

- Ouvi você destrancando a porta - Nos afastamos um pouco - Você me dá nojo, até de menininho fica linda, se fuder.

- É? Então vou ficar assim.

- Mas neeeeem fudendo, já deixei uma roupa em cima da cama! Aliás... vai tomar um banho antes que você está cheirando a avião.

- Avião tem cheiro?

- Claro que tem.

- Eu vou, depois você me fala tudo que aconteceu.

- Aconteceu que fui demitida né - Bethina já me empurrava para o banheiro - Vai que vou fazer algo pra comer e aí conversamos.

No banheiro tudo estava preparado para um banho, toalha, cheirinho de limpeza... pelo visto alguém aproveitou os momentos em casa para dar aquela geral. Por pura preguiça tomei apenas uma ducha rápida. Aliás, preguiça não, queria saber a história inteira.

Claro que, ao sair do banho já tinha comida pronta, um short-doll roxo com as bordas brancas e ela me contou toda a história e arbitrariedade do ocorrido. Falei de ligar para Rafaela ao que Bethina me dissuadiu da ideia, disse que sabia se virar e não era a primeira vez que era demitida, fora que os trabalhos de freelance pipocaram rápido, teríamos de cortar algumas coisas, mas no geral daria para viver bem.

Claro que eu não dormi bem e, na manhã seguinte, estava a ponto de sair na mão com o tal novo CEO do grupo. Quem ele pensava que era em demitir Bethina? Ainda mais pelo motivo fútil desses. Precisava descobrir se alguém tinha filmado, porque se tivesse eu meteria um processo no meio do rabo desse filho da puta.

Sentei na minha baia e tudo que eu fazia era sentir falta dela do meu lado, a coisa parecia não fluir. Foca Fernanda, foca. Com o passar das primeiras horas da manhã tudo se encaixava e começava a ter os insights e as coisas iam saindo.

Na hora do almoço fui ao terraço, dessa vez falar com Bethina e dar uma olhada nas hortaliças. Antes de ir embora hoje levaria um pouco de manjericão, parece que ela ia fazer pizza. Namorada prendada é outros quinhentos. Tive a sensação de alguém me chamar quando entrei no elevador. Deve ter sido impressão.

Alonguei o pescoço e me sentei para finalizar um conteúdo para a páscoa e já pensar no institucional para a mandar à imprensa sobre as novidades da Lótus, foi quando meu sentido-aranha sentiu a presença. Tirei o fone de uma das orelhas ouvindo um pigarro. Terno preto, cabelo preto, barba rala. Um cosplay pobre do agente Smith do Matrix.

- Interessante o texto rapaz - A voz era desafinada - Você pelo menos faz coisas melhores que aquela mal educada que sentava do seu lado.

Trinquei os dentes. Senti o sangue subindo, fechei o punho. Eu ia ser demitido, talvez até processado, mas eu ia moer esse filho da puta na porrada. Se tem uma coisa que ser submisso te ensina é como bater. E eu bateria tanto nele que a tendência era sair direto para o hospital. Como se fossemos parte de uma confraria Borges chamou aquela criatura para falar alguma coisa. Baixei a cabeça respirando fundo. Calma, não é o momento.

- Pessoal - Borges chamou a atenção de todo mundo - Esse é Henrique Arantes, ele é o novo presidente do conselho...

- ... Pessoal - Ele interrompeu - Atenção aqui, sei que muita gente ainda está se acostumando, mas vamos nos enturmando, beleza? Conto com vocês para fazer a Lótus mais lucrativa, ta ok?! Agora podem voltar a trabalhar.

Nossa, que sujeito babaca. Lembrou o tipo que ocupou a presidência uns anos atrás. Lamentável que esse tipo de gente ainda exista. E lá vinha ele voltando na minha direção. Será que caneta esferográfica pode matar? Me sentei já lendo um pedaço de texto e buscando o ponto que parei.

- E esse cabelão aí, rapaz - Arantes puxou a cadeira que era de Bethina e sentou do meu lado - De costas até parece uma menina.

- Minha namorada diz o mesmo - Ri tão falso que Borges já se preparava para apartar um eventual conflito - Ela tem raiva do meu cabelo.

- Devia raspar, parecer mais macho saca? - Ele esticou o pescoço e baixou o tom de voz - Então, vi que você é um dos mais antigos por aqui, vou falar com o Borges e você me ajuda a fazer uma lista para demitir alguns aqui... tem muito gasto nesse setor aqui e quero enxugar, a Lótus tem chance de lucrar muito mais com menos gente sabe?

- Sei... - Respira fundo, conta mentalmente até dez - Mas acho que se a Lótus é o que é hoje é por causa desse pessoal aqui.

- Entendo - Ele se levantou - Mas puder me agilizar aquela lista eu agradeço.

Eu não faria esse tipo de lista, nem a pau. O resto do dia foi uma busca eterna por uma inspiração que nunca mais voltou. Borges me mandou uma mensagem pedindo ajuda para dar um jeito nesse cara, topei na hora, ele ia conversar com mais gente e tentar trazer Rafaela e Bethina de volta e pediu que eu ficasse tranquilo que tudo ia ficar bem. Será que ele conhecia meu histórico? Não duvido. Os próximos dias seriam terríveis. E minha terapeuta estaria em um congresso. Puta merda. Vou dormir de janelas fechadas.

sábado, 7 de março de 2020

CdF s2e8: Readequar

"Amor, vou passar dois dias fora com o Borges visitando um fornecedor, vou morrer de saudade."

Eu devia saber que mais cedo ou mais tarde Fernanda ia sair em alguma viagem a negócios. Na real por que eu me preocupava? Sempre fui bastante auto-suficiente. Super auto-suficiente. O fato de eu ter jantado miojo não quer dizer absolutamente nada. Só que odeio cozinhar para mim mesma, só isso. A quem você quer enganar, Bethina? Você ama e sente falta daquela criatura e seu jeitinho estabanado. Tem horas que minha consciência é tão filha da puta que olha... acho que ela me odeia.

Dormir, acordar, ir pra empresa. Trabalhar sem alguém do meu lado pareceu tão merda que minha menstruação veio com todos os combos possíveis: cólica, dor de cabeça, corrimento exagerado, falta de apetite e mudanças bruscas no humor. Claro que as meninas do setor super entenderam e até me trouxeram chocolate e alguns meninos ao me verem de fone, em frente do computador, trabalhando extremamente focada em não explodir com nada fizeram o óbvio e se afastaram.

Falar na empresa houveram diversos rumores sobre a saída da Rafaela do conselho, estava todo mundo meio à flor da pele já e eu acabei absorvendo parte dessa animosidade acho. Depois do trabalho precisava de uma bolsa de água quente, quarenta litros de dipirona e silêncio extremo. Primeira vez que dou graças de Fernanda não estar. Aliás, aquela vagabunda nem pra ter tudo o que nós temos tipo essa desgraça mensal. Será que com a transição ela passaria a ter? Boa pergunta.

Trabalhar em arte sobre dia da mulher era ótimo, ajudava a aliviar todo o desconforto demoníaco que sinto. Decididamente a ideia da Fê de, em vez de dar flores, exaltar a força era genial. Aquela vagaba tinha umas ideias fodas às vezes. Por isso em vez de postagem genérica agora fazia uma montagem exaltando as funcionárias da firma. Foi quando um reflexo apareceu no canto do meu monitor.

- O que a senhorita está fazendo?

- Arte para o dia da mulher.

- Quem autorizou isso? - A voz vinha de um engravatado - Aliás, quem autorizou a senhorita a trabalhar com fone de ouvido? Acha que está em casa?

- Quem autorizou foi meu superior direto - Tirei o fone me virando para ver quem era, um tipo pouco atlético, cabelo preto, pele branca, terno feio, barba mal feita, típica cara de quem não entende de nada além de dinheiro - Qualquer problema pode falar primeiro com ele.

- E ainda tem a petulância de me responder? - O sangue subiu, respira Bethina - E essa arte feia? Quer ligar nosso nome a isso daí? Quem é essa mulher velha? Nossa empresa é jovem, pega uma modelo, não esse maracujá-de-gaveta!

- Primeiro - Me levantei, eu devia ter uns vinte centímetros menos que ele, mas foda-se - Essa pessoa é a recepcionista da empresa, dona Vera, que já está na empresa fazem muitos anos e por isso decidimos enaltece-la, não adianta porra nenhuma dar florzinha em um dia e no outro tratar como capacho - Certamente o setor inteiro parou para ver a cena, agora não dava para parar - Segundo: você é meu chefe direto pra dizer o que eu posso ou não fazer? Acho que não né, então, com licença que eu preciso terminar isso aqui ainda hoje para mandar para o meu chefe direto pra aprovar.

- Qual seu nome?

- Quem quer saber?

- Sou o novo presidente do conselho - Fodeu, os boatos da saída da Rafaela eram reais - Também foda-se quem você é, pode pegar suas coisas e ir para o RH, você está demitida.

As palavras vieram em câmera lenta. Em tempo suficiente para que ele saísse sem esperar a minha resposta. Se uma agulha caísse no chão faria mais barulho que o setor. Uma das estagiárias veio falar comigo sobre o cara ter sido escroto ou algo assim, mas não me ative às palavras. A real é que eu queria só sair dali. Fiquei completamente aérea. Passei no RH, assinei o que precisava e outra moça do setor de comunicação veio falar comigo. Se propôs a ir comigo na delegacia prestar queixa pelo abuso sofrido. Recusei. Só queria sair dali. Chamaram um carro do aplicativo e me colocaram dentro. Quando dei por mim estava no apartamento de Fernanda, sentada no box, de roupa e com o chuveiro ligado.

Não soube precisar quanto tempo passou. Mas sei que a noite veio acompanhada de algumas boas horas chorando. Fernanda me ligou, contei do ocorrido, ela falou de se demitir também. Sororidade. Uma mulher trans oferecendo apoio. Recusei, falei que alguém precisava pagar as contas e que eu daria meu jeito. Depois da ligação me senti melhor. Ouvir a voz dela me fazia bem. Odiava admitir isso, mas ela inteira me deixava em uma paz que eu adorava morar.

Bem dizem que mulheres tem um poder especial de chorar uma noite inteira, assistir um filme idiota e, na manhã seguinte, acordar plena. Me permiti dormir até às dez horas, dei uma bela geral no apartamento, almocei bem e procurei nos contatos uma amiga. Carla, ela tinha uma agência que me ajudou em uma época foda, foi graças aos freelances dela que eu pude sobreviver. Dez minutos de conversa e, a partir de amanhã, ela passaria a me mandar alguns conteúdos, alguns briefings, não era muita coisa, mas era melhor que ficar sem nenhum dinheiro.

Felizmente Fernanda tinha um gosto refinado pra jogos e o computador que estava na sala era bom. Talvez melhor do que eu usava na Lótus. Aproveitei o resto do dia para chorar o resto daquela menstruação filha da puta e preparar uma boa janta pra minha namorada. Afinal, ela ia voltar de viagem e ia querer saber todos os detalhes do que aconteceu, como reagi, o que disse, como o pessoal da empresa reagiu... e eu só queria encher a boca dela de comida, beijos e depois uma bela transa. Não sei porque, mas gostei de comer ela. Credo, Bethina, você é mais bipolar que Fernanda. Ri sozinha. Os próximos dias seriam de readequação, mas né... olha onde já cheguei, readequar é mole.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

CdF: s2e7: Vinho

Hoje olhando Bethina cozinhar enquanto eu ficava no computador tentando escrever algo notei o quão idiota eu tinha sido até o momento. Tantos momentos que quase fui flagrada, tantas vezes que quis desistir de tudo apenas por achar que já tinha vivido aquela experiência juvenil. Agora eu estava em um dilema imenso: seguir pelo caminho da operação e virar uma mulher completa ou me manter essa criatura híbrida.
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Já diria o poeta que cada escolha é uma renúncia. Confesso que a ideia de apenas tomar os hormônios me atraía mais do que operar, teria peito, talvez tivesse uma ereção vez ou outra... seria a mulher que sempre quis sem deixar de ser o homem que nasci. "Homem". Pensar nesse termo me deu um peso absurdo. Até mesmo "mulher" me era estranho. Gostava de usar "menino" e "menina", talvez pela inocência das palavras. Enquanto olhava o cursor na tela em branco deixei a vista desfocar algumas vezes, hoje estava com uma bermuda mais larga, camiseta, cabelo preso por uma piranha... Bethina ao contrário estava com um belo vestido, o que contrastava com o fato dela estar limpando a cozinha.
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Desde aquela noite que tomei a decisão morávamos juntos. Ela devolveu o apartamento, trouxe suas coisas pra cá e tentávamos seguir dali. Por sorte eu tinha conseguido um bom espaço e tanto o quarto quanto a sala eram áreas grandes que cabia a pequena coleção de bonecas negras dela. Eram bonitas, alguns dos vestidos, inclusive, entraram na minha lista dos sonhos.
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Aquele cursor piscando me sufocava. Fechei o bloco de notas. Apelei pra uma banda que sempre me apoiou e foi dali que segui, de olhos completamente fechados, escrevendo as próximas linhas, sem pensar muito na ortografia, nas regras linguísticas e, sobretudo, esquecendo aquela maldita regra da redação publicitária de que menos é mais.
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A terapia me ajudou nos últimos tempos a ter uma confiança maior no que eu sou e onde eu quero chegar - ainda que com dúvidas - e, independente das opiniões alheias, eu estou firme nessa escolha. Claro que eu não vou estar firme como uma rocha e sim como um palanque de cerca no banhado, não caio para lado nenhum, porém não estou firme. Pensar isso me trouxe uma certa dor no, um certo desconforto, a vontade de pegar o telefone e ligar para ela agora e dizer tudo que estava entalado em minha garganta era tanta que eu não conseguia conter meus dedos digitando cada vez mais rápido, cada vez mais intensos, cada vez mais visceral. Eu sentia como se as palavras me dominassem e eu estivesse, enfim, pronta para dizer ao mundo inteiro "hey mundo, essa sou eu" e aceitar as consequências.
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Claro que essa síncope não durava muito e logo a racionalidade me dizia para repensar, que tudo não era tão simples como eu gostaria que fosse. Tomar no cu. Qual o problema com você, sociedade? Eu me sinto bem assim, eu gosto disso, eu estou disposta à críticas como "essa saia não combina com essa blusa" ou ainda "você veio de vestido longo? Nossa, ta muito calor pra isso", agora críticas ao fato de, biologicamente, eu ainda ser homem e estar de vestido? Qual o problema? São só pedaços de pano costurados de forma diferente. Merda. Pensar nisso tudo me cansava, me deprimia... mas era preciso.
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Que Bethina - agora no banheiro tomando um demorado banho de sábado - não me visse com a garrafa inteira de vinho diante do monitor. Eu precisava desse momento. Eu precisava dessa liberdade. Dessa fluidez de letras saindo de meu cérebro e indo por minhas terminações nervosas socando o teclado com velocidade e violência e se desenhando letras no monitor. O cursor solitário agora ganhava a companhia de cem, duzentas, trezentas, mil palavras. Estava tão rápido que fiquei com medo de não conseguir parar. Reabri os olhos passando a vista pelo que já fora escrito, nenhum erro. Apenas o nome de Bethina, que, para o corretor, tinha que ser sem o H que lhe dava charme e o transformava em algo único. Botão direito, adicionar palavra ao dicionário. Pronto. Toma essa, Word.
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Ela cantarola uma música. Give me a reason to be... a woman, I just wanna be a woman. Conhecia essa letra. Glory Box do Portishead era uma das música que me fazia soltar pequenos suspiros no começo da vida "adulta". Gostava da ideia de "be a woman", hoje tanto faz. Estaria mentindo se falasse que não gosto da ideia de me transformar em uma mulher completa. Ter, além dos peitos, uma bela vagina penetrável. O foda que isso, agora, se tornava algo tão secundário que já pensava na ideia de tomar os hormônios mas não ir pra mesa de cirurgia. Teria o peito, o rosto ficaria mais feminino, os incômodos pelos do corpo ou cairiam ou ficariam finos o suficiente para que a depilação fosse menos agressiva. E ainda manteria o pinto. Pinto. Que termo bosta.
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De repente bateu uma saudade da cobertura. Uma rápida olhada no relógio. Vinte horas e dois minutos. Certamente Vali estava preparando o jantar enquanto Rafaela e Freya ainda discutiam coisas da empresa. Confesso que a saudade se dissipou ao pensar que a vida ficaria limitada à uma só: o que Rafaela decidir seria a lei. Gostava do conceito. Gostava das práticas. Mas viver aquilo na totalidade? Sem chance. Soube de um dos amigos da minha ex-senhora que teria uma puta festa de carnaval, fechando um clube por três dias. Não lembro o nome da Domme que mandou o convite, mas devia ser algum daqueles nomes toscos baseados em algo dark ou gótico. Tinha horas que eu queria baixar meu lado publicitária naquela galera e dizer que uma Domme pode usar branco e se chamar Silvia. Rafaela, inclusive, era o melhor exemplo disso. Claro que o preto era a cor preferida da galera, mas o bordô, o roxo e até o tons escuros de azul e verde super combinavam com as práticas. Rebranding. Qualquer hora escrevia algo assim e mandava para Rafaela. Na pior das hipóteses ela ia rir.
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O chuveiro parou. Bethina levaria alguns minutos até secar o cabelo, passar todos os cremes, colocar alguma roupa extremamente confortável e reclamar que eu estava indo tomar banho muito tarde. Virei a última dose de vinho da garrafa em um gole longo. Não queimou nem nada. O efeito viria daqui meia hora ou menos, tontura, sentidos largos, sono... acho que o banho vai ficar para amanhã.
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Os olhos seguiam fechados como se eu pudesse sentir cada palavra que escrevia, mas, na verdade, eu pensava em tantas outras coisas enquanto escrevo, que nem sei dizer ao certo mais no que eu penso. A imensa verdade é que, assim, eu escrevo algo mais mental e menos visual, me preocupo menos se eu repeti tal palavra no decorrer desse parágrafo ou tenho que usar um sinônimo. A porta do banheiro abriu. Segui de olhos fechados digitando, estava tentando não pensar na conversa que teria com minha progenitora dali alguns dias sobre absolutamente tudo isso aqui. Pensar nisso, admito, me fez querer outra garrafa de vinho. Não tinha. Será que o mercado ainda estava aberto? "Não fode", foi a voz da minha consciência. Tinha tantas palavras passando ao mesmo tempo por minha cabeça que perdi totalmente a noção de tempo e espaço, eu estava flutuando, minha única certeza de ainda estar no mesmo lugar era o fato da gravidade ainda ser a mesma.
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_ Admiro pra caralho essa sua habilidade - A voz vinha de Bethina, meio metro atrás da minha orelha esquerda - Digitar sem olhar pro teclado ou mesmo pro monitor? Namoral amor, cê é foda.
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_ É prática - Respondi à ela enquanto escrevia exatamente a cena que acontecia - Com o tempo você não pensa mais na sequência do teclado e sim no que você quer dizer, seu cérebro entra em um moto tão automático que você não precisa pensar na ordem das letras e sim na ordem do que quer escrever...
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_ Tipo pedalar? Você diz que pedala no automático - Ela parou um instante - Você está transcrevendo o que estou dizendo? Puta merda, Fê...
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_ Não gosta? - Arqueei a sobrancelha ainda sem abrir os olhos - Quiser eu apago...
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_ Não, deixa... só é meio estranho você de olhos fechados digitando nessa velocidade e sem errar... puta que pariu, até meus palavrões você digita, pára com isso Fê, anda logo, parou.. vai tomar banho enquanto eu leio o que você escreveu.
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_ Não vou tomar banho hoje - Fiz caretinha - Tô com preguiça... mais a mais mal saí de casa.
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_ Namorada porquinha essa minha e... - ela parou completamente, abri os olhos - A senhorita andou bebendo, dona Fernanda? 
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_ Só um pouquin...
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_ Um pouquinho é o caralho, cê bebeu a garrafa toda garota.
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O flagrante é, sem sombra de dúvidas, uma das piores coisas para o mentiroso. Aquela vez da camisola até deu certo, mas a do guarda-roupas... não deu tempo de pensar em uma saída. Enquanto eu digitava Bethina falava algo sobre eu não poder beber tanto porque isso estimulava as inquietas sombras e muitos outros blá-blá-blá que ela falava e eu entrei em um modo onde não mais a ouvia. Podia continuar escrevendo sem me preocupar com o ruído ao meu redor. Quando ela começou a puxar a cadeira me lembrei de minha mãe quando vinha duas e tanto da manhã reclamar que eu ainda estava no computador. Bethina pausou suas palavras e ficou apenas lendo o que eu escrevia, a verdade é que eu adorava a voz dela e, mesmo tomando um bronca por quebrar um dos nossos acordos sobre bebida, eu ainda estava amando ouvir a voz dela. Eu era uma boba apaixonada? Com certeza. Curiosidade do momento: ela estava completamente dividida entre me tirar da frente do computador e me colocar, de roupa e tudo, debaixo do chuveiro e simplesmente seguir olhando o que eu escrevia. Sorri de canto.
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_ Desistiu?
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_ Não... estou te esperando terminar... - o tom de voz dela era amistoso, conciliador eu diria - Que pausa foi essa? Terminou?
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_ Não... se deixar eu fico escrevendo aqui indefinidamente...
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_ E sobre o quê escrevia quando saí do banho?
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_ Sobre... estar flutuando, sobre as possibilidades do meio do ano e todas as nuances que poderia significar aquela revelação...
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_ Poderia??? - O tom de voz dela agora mudou - Você me prometeu que ia falar tudo, garota.
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_ Escolha errada de palavras... poderá!
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_ Acho bom, agora dá um salvar aí que vou te dar banho e cama... chega pra mocinha hoje.
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A verdade é que, a presença do vinho só me fez ter mais inspiração pra escrever e, certamente, embalaria meu sono daqui alguns minutos. Não que precisasse, caminhar com Bethina pelos brechós das redondezas procurando peças tanto para ela quanto para mim era algo que eu nunca imaginei que fosse ter. E, mesmo caminhando horas, não encontramos nada que valesse nosso rico dinheirinho. Mas serviu para que eu tivesse ainda mais certeza que viver como menina a maior parte do tempo era o que eu queria e quero. Com a ameaça de puxar o computador da tomada termino esse longo texto escrito de olhos fechados e com um beliscão que me obriga a dizer algo que eu digo à ela o tempo todo: eu te amo, Bê.CdF

sábado, 22 de fevereiro de 2020

CdF: s2e6: Estelar

"- Data estelar... ah - Rafaela empurrou o teclado que, gentilmente voltou para dentro da parede ocultando-se - Que se foda essa merda de diário de bordo, ninguém vai ouvir mesmo... só restou eu.

- Não é bem verdade.

- Você não é de carne e osso.

- Mas posso lhe servir.

A voz vinha de um humanoide mecânico de pouco mais de um metro e oitenta de altura com inteligência artificial avançada o suficiente para guiar a nave em caso de incapacidade da capitã Rafaela. Claro que ele também poderia supri-la de outras formas menos ortodoxas, mas essa nível interação com uma máquina era algo que sempre foi mal visto no planeta de onde ela tinha vindo, muitos viam tal relação com algo programável como a ruína da civilização. Claro que o colapso veio, mas não por esse motivo.

Enquanto via os pequenos pontos brilhantes no horizonte Rafaela bebia uma grande taça de algo que na Terra seria chamado de vinho. Entre um gole e outro lembrava de como tudo aquilo havia acontecido, como aquela situação havia chego tão longe. Claro que a memória falhava em detalhes, até porque quatrocentos anos terrestres em hibernação foram o suficiente para que diversas lembranças se perdessem na imensidão do cérebro.

Seu planeta, Dommina, apesar de grande era pouco habitado, os poucos que habitavam tinham nos planetas e satélites naturais mais próximos a mão-de-obra que ajudava a manter todo aquele sistema planetário funcionando. De acordo com escrituras antigas foram desses planetas e satélites próximos que vieram os primeiros submissos, seres extremamente dóceis e dispostos a sempre obedecer e receber toda e qualquer punição. Nos primeiros milênios dessa parceria estranha milhões morreram pelas mãos inaptas dos habitantes de Dommina que, não raro, forçavam os submissos para muito além do seu limite físico.

Foi quando surgiu uma Dominadora que fez as primeiras leis. Habitantes de Dommina podiam continuar sua forma de trato com os de fora do planeta, porém teriam de incluir palavras de controle que seriam ditas pelos submissos fosse em qualquer momento, houve à época protestos porém as coisas se encaixaram e os "não-domminantes" agora tinham sua integridade resguardada por leis, tinham mais deveres que direitos, no entanto para eles isso não chegava a ser um problema.

Dois milênios e meio se passaram dessa relação de co-dependência. Submissos vinham aos milhares e serviam, de bom grado, os habitantes de Dommina. Se, vendo da Terra isso parecer cruel, pensemos que é a cultura de outro planeta, milhões de anos-luz do pálido ponto azul na pequena via-láctea. Ocorre que diversos Domminantes decidiram por vontade própria ignorar as leis, milhares morreram e logo os submissos, em um bloco unificado, disseram a palavra para que tudo cessasse e foram embora para seus planetas e satélites natais.

Os poucos que ficaram não sustentavam Dommina com tudo que ela precisava, pior: diversos Domminantes desenvolveram algum sentimento por seus submissos e deixaram o planeta que acabou com uma elite arrogante e cheia de si que sugou até o último recurso natural que havia em abundância - uma bebida semelhante ao néctar, que corria por rios e mares de Dommina - matando, assim, milhares de pessoas por pura soberba.

Quem pensa que Dommina era apenas isso engana-se, muitos daquele planeta tinham outras funções, entre eles diversos optavam por carreiras que iam desde médicos até cientistas. E foram os segundos que deram o veredicto: o planeta estava morrendo e rápido, algo teria de ser feito ou o colapso era inevitável. Como era de se esperar as elites de Dommina ignoraram todos os avisos e seguiram consumindo mais do que o planeta conseguia produzir. No entanto um pequeno grupo - 69 pessoas para ser mais exato - em um esforço homérico construíram naves para deixar o planeta e tentar algum acordo diplomático com os os habitantes do sistema solar próximo. Não havia acordo. Eram irredutíveis e prosperavam a olhos vistos com sua cultura e produção de recursos.

Sem acordo aquele grupo voltou os olhos para as estrelas. Haveria algum lugar para eles naquela vastidão? Pensar nisso tudo incomodava Rafaela. Sua vontade era de poder voltar no tempo e trucidar todos os responsáveis pela ruína do seu planeta. Terminou a taça da bebida e, notando que a garrafa ao seu lado estava vazia, virou-se para o androide que estava parado a espera de ordens.

- Me lembra de novo de porque eu não posso voltar pra hibernação, acho que o álcool derreteu minha memória.

- Quer algum remédio, Senhora?

- Eu fui irônica, criatura.

- Não fui programado para entender ironias, Senhora - Como se puxasse ar dos pulmões que não tinha e notando que Rafaela não mais falaria e aguardava uma resposta a criatura robótica prosseguiu - O módulo de hibernação foi atingido por raios cósmicos vindos de um buraco-negro alguns anos-luz daqui, Senhora, creio que no próximo planeta encontraremos recursos para fazer os reparos necessários na nave e seguir nosso objetivo.

- E qual é nosso objetivo?

- Reestabelecer nossa cultura em outro planeta, buscando um maior equilíbrio entre as práticas de Dommina e as criaturas que serão submissas, buscando uma consensualidade maior, respeitando os limites físicos e psicológicos do ser que será seu escravo pelo tempo que ele desejar.

Rafaela respirou fundo deixando o pensamento ser preenchido por todas aquelas palavras que foram processadas, absorvidas, digeridas e agora faziam com que ela afastasse os lábios como se fosse dizer algo. Mas não havia nada para ser dito, apenas aquele cheiro constante de queimado que era o ar reciclado que vinha do espaço. Engana-se quem pensa que o espaço entre planetas, estrelas e galáxias é bom ou até mesmo inexiste, as poucas partículas que vagam pelo grande vazio tem cheiro de morte.

- E esse planeta que estamos indo tem algum nome? Quero dizer, pra conseguir reparar um módulo de hibernação acredito que eles devam ter algum nível de tecnologia.

- Perfeitamente, Senhora - Como se buscasse dados em uma memória interna uma pausa se fez, o suficiente para que Rafaela deixasse a contemplação das estrelas e focasse no ser alguns metros atrás de si - É um planeta primitivo, ainda divide-se em centenas de pequenos estados que discordam em detalhes e produzem guerras infinitas entre si...

- E você me trouxe para um planeta em guerra?

- De forma alguma, Senhora, esse planeta atualmente encontra-se em conflitos pequenos entre estados menores...

- ... E o que motiva tanta batalha?

- Diversos motivos, religião, disputas por território, disputas históricas, não há um consenso no database da nave sobre o real motivo dos conflitos atuais.

- Que beleza... - A capitã voltou seu olhar para o vazio pontilhado - ... Seria um bom planeta para recomeçar talvez?

- Receio que n... - A voz levemente robótica parou, Rafaela já pensava que teria de pilotar a nave sozinha e ainda reparar o seu valete mecânico - Talvez, Senhora, apesar dos dados estarem bastante incompletos há nessa raça uma necessidade por obedecer ordens, no entanto não todos, mas uma parcela considerável espera uma figura que lhe diga o que fazer em troca de sal.

- Sal?

- Cloreto de sódio, Senhora... parece que é uma forma de pagamento.

- Que bizarro - Rafaela pegou a taça e lembrou-se que estava vazia - Pega mais uma garrafa de Wino, toda essa falação me deu sede.

- Perfeitamente, Senhora - O empregado saiu voltando em alguns instantes com outra garrafa já aberta e servindo sua senhora - Deseja que eu trace curso para esse planeta? - Rafaela sorveu um longo gole vendo um dos pontos do horizonte aumentarem - Senhora?

- Sim, trace o curso para... - Mais um gole e seu corpo se aqueceu por completo - Antes, como chama esse planeta para onde estamos indo?

- Ele nomearam o próprio planeta de... - uma pausa longa o suficiente para fazer com que Rafaela se irritasse suavemente - ... Terra.

Após essa pequena pausa dramática feito por uma criatura robótica a silhueta de outros planetas do sistema solar ficou para trás e a imagem daquele planeta rochoso coberto de água e repleto de criaturas em eterno conflito tomou toda a visão da janela frontal da nave. Tudo aquilo parecia um pesadelo às vezes, ter de ficar vagando planeta após planeta para encontrar um lugar que pudesse se fixar era algo cansativo e temia nunca encontrar esse lugar, ao menos nesse novo mundo poderia reparar o módulo de hibernação e só seria acordada quando seu servo-mecânico encontrasse um local ideal. Por hoje teria de encarar essa bolota insignificante perdida no éter do espaço."

- ... Então amor, o que achou?

- Cara... - Bethina olhava incrédula para a tela do computador, não conseguia concatenar as palavras para o que havia acabado de ler, pediu alguns segundos para respirar e pensar - Ficou muito foda, quando você escreveu isso?

- Tem uns meses, acho que um ano, talvez até mais.

- Tem potencial - Ela se levantava, Fernanda, agora mais segura de si e suas escolhas, trajava um vestido solto, azul, desses de loja popular, usado mais quando ficava em casa, o cabelo preso em coque e o avental completavam o visual - Pensa em continuar?

- Então - Fernanda ponderou um instante - Não sei, um dia escrevi isso, salvei e larguei, já tentei continuar algumas vezes, mas nunca foi pra frente, faltava inspiração.

_ Faltava? Ta dizendo que eu te inspiro é, criaturinha?

Bethina, que, ao contrário de sua namorada, estava o mais despojada possível -calça larga, blusa com ombro caído, cabelo mal penteado - levantou-se da cadeira indo ao encontro de Fernanda. Beijaram-se como adolescentes, mãos pelo corpo, diversas ideias passavam pela cabeça quando a mulher de vestido se afastou.

- Você me inspira muito, você é minha força, meu porto seguro... eu já disse que te amo hoje?

- Várias vezes - Bethina fez uma cara de desdém - Mas eu gosto de ouvir, diz de novo?

- Não - Fernanda fez bico, rodou nos calcanhares deixando Bethina sozinha - Você fica muito convencida depois... e pior

- Pior o que? - A jovem designer de cabelo crespo levantou-se indo atrás da namorada que caminhava com uma habilidade ímpar naquele salto - Fala logo antes que eu mande você ajoelhar.

- Aff - Fernanda desligou o forno onde o escondidinho de carne seca assou e prostou-se de joelhos diante da namorada - ... te odeio.

- Odeia é? - Bethina se aproximou segurando o queixo da namorada e descendo ao nível dela, lhe roubando um selinho - E o que mais?

- Puta jogo baixo... - Fernanda sentia sua última ligação com o masculino erguer-se por baixo do vestido - Por isso que te amo.

- Arrá! Falou!

- Merda - Dito isso um beijo mais intenso das duas ajoelhadas no chão da cozinha fez os dois corpos caírem no piso gelado do ambiente - A janta vai esfriar.

- Ahhhh - Pensando em como era ruim escondidinho de carne seca frio ou até mesmo requentado Bethina controlou-se - Sua empata-foda.

- Depois da janta - Fernanda sorriu lascivamente - o chão vai continuar aqui.

E assim as duas ergueram-se ao passo que Bethina arrumou a mesa enquanto Fernanda trazia o jantar para o deleite das duas, poucos momentos eram tão especiais para as duas quanto aqueles, o sentimento só crescia, dia após dia, mesmo com eventuais brigas no final do dia tudo ficava bem, fosse por uma obra de um deus benevolente que dirigia suas vidas ou fosse por elas mesmas se proporem a nunca irem dormir sem resolver todas as pendências do dia que passou. Houveram alguns dias que nenhum diálogo se ouviu? Houveram, no entanto no final do dia que se seguia tudo ficava bem. Fernanda achou que nunca acharia alguém tão perfeito como Bethina, já Bethina nunca pensou que uma escolha que havia feito na adolescência lhe traria um fruto tão belo.

O amor e seus desdobramentos, dizem, é algo tão misterioso quanto a vida. E como era belo aquele desdobramento. Houvesse mesmo um deus regendo aquelas vidas ele certamente estaria satisfeito do rumo que elas tomaram. Hoje a noite era dedicada ao amor.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

CdF: s2e5: Desvelo

Devo confessar que ainda me causava um pouco de estranheza ver Fernando assim... quer dizer, Fernanda. Fernanda. Fernanda. Foca, Bethina, ela é Fernanda, daqui pra frente vai ser ela e pronto, sem mais dúvidas. Seria um saco segurar a ideia na empresa, mas depois do meio do ano eu ia começar a cutucar pra falar por lá... se bem que eles não tem nada com isso. Se um homem quiser vir trabalhar de vestido qual o problema? É só um pedaço de pano que a sociedade dava algum valor a ele porque ela não sabe viver sem ter um objeto e enche-lo de significados.

Mas era lindo ver ela dormindo. O dia amanheceu tão preguiçoso que podia jurar que toda a Metrópole havia desaparecido, só restou a gente nessa cama. O cabelo jogado pro lado, o vestido completamente amarrotado, a saia de tule fazia parecer que ela tinha uma cintura a mais. Tão linda quanto confusa. Até sem maquiagem essa filha da puta ficava linda... já pensou quando ela começar a virar menina mesmo? Aliás, menina não, mulher. De acordo com minhas pesquisas o queixo afinaria, o rosto também, o nariz ficaria mais arrebitado, a pele mais macia... isso tudo com meus dotes de maquiadora. Perfeito.

- Bom dia, amor - Ela acordou com um sorriso tão sereno que quis morar dentro dele - Dormiu bem?

- Você me fez dormir otimamente bem - Roubei um selinho - Sua safada.

- Eu sou a safada? - Ela me deu um tapa - Bem eu que apareceu com um pintão de borracha e me comeu na moralzinha!

- Ah, agora vai reclamar? - Franzi o cenho - Olha que te boto de joelhos no milho.

- Agora vou ter que chamar de Dona Bethina, é sério isso? - Ela segurou um riso - Nem vem!

- Cala a boca, escrava - Coloquei o indicador sobre os lábios dela, obviamente ela me mordeu o dedo - Filha da...

- Não, mas falando sério - Fernanda me deu um beijo no dedo - Eu adorei, quando quiser repetir...

- Eu tava aqui pensando... você se lembra de quando começou a ter esses desejos? - Me expressei mal - Digo, tipo se vestir de menina e tals.

- Foi aos doze mais ou menos... - Ela olhou pro lado, buscando as memórias - eu entrei no quarto dos meus pais quando eles não estavam, fuçando o guarda-roupa eu achei um tailleur lindo, saia marrom, camisa branca... coloquei a saia e me senti muito bem, mas me senti errado também, fugi dali por uns dias... mas um dia - Ela pausou - Eu montei o look completo e puta merda, eu fiquei linda... mas depois a coisa perdeu um pouco o sentido até eu chegar na internet e descobrir os termos certos, sissy e crossdresser.

- Sissy é o que mesmo?

- Crossdresser só no momento de uma sessão BDSM ou algo assim - Ela falava com uma propriedade que não sei se me assustava ou admirava - Quando eu tive uma Domme eu era mais sissy do que cross...

- Como você conheceu uma Domme?

- História estranha pra um sábado de manhã - Ela riu - Mas então, eu era um garoto juvenil que buscava informações e logo conheceu uma Domme e acabou se mudando pra cidade que ela morava pra fazer faculdade...

- Tu fez faculdade servindo uma domme? 

- Basicamente...

- Que daora, mas continue.

- Então, logo que eu terminei a faculdade ela me levou pra morar com ela, ser submisso em tempo integral... logo ela adotou uma mulher - Confesso que senti uma ponta de ciume - e ficamos por uns meses numa relação regada com sessões esporádicas e tals, foi divertido enquanto durou.

- E por que acabou?

- Ela se mudou pra Londres.

- Carai

- Exato, depois disso eu fiquei recluso em uma quitinete fazendo freelas, me alimentando mal e comprando roupas via internet... devo ter ficado pouco mais de um ano nessas até que surgiu uma oportunidade aqui e eu vim de mala e cuia.

- E quem te mandou fazer terapia? Porque essa doutora é caro para um caralho.

- Segredo - Ela se fechou - Não posso citar nomes, mas digamos que tive uma relação super breve com uma dominadora aqui da cidade... coisa de uma semana, tive um surto psicótico beeeem legal, ia me jogar da janela do vigésimo andar mas né... - Fê respirou fundo - Estou aqui.

- E sem querer me salvou - Sorri a olhando nos olhos - Porque né, eu não sei se ainda estaria nessa empresa se não fosse você.

- Como assim?

- Convenhamos, o trabalho é legal, mas tem umas pessoas ali babacas pra caralho.

- Tipo quem?

- Uns conselheiros, eu estava mostrando pros traines a parte de impressão de prévias e um deles veio botando banca, dizendo que a gente gastava muito em papel, tinta, manutenção e que os traines nem se acostumassem muito porque se tudo desse certo haveriam cortes de funcionários... mó cuzão.

- Lembra o nome?

- E esse povo lá usa crachá? - Tentava lembrar o rosto - Mas era um tipo alto, meio musculoso... acho que já vi ele com Rafaela alguma vez.

Fernanda se fechou mais ainda um instante. Ela ficava linda até pensando seriamente... puta merda, Bethina, você esta completamente apaixonada por essa mulher. Um som de buzina atravessou a janela dando o início de vida para a Metrópole dezenas de metros abaixo. Fê me olhou fixamente por alguns segundos, roubou um selinho.

- Vamos levantar ou ficar aqui mais um tempo?

- Depois de você me falar quem foi a sua Domme relâmpago eu deixo você levantar.

- Eu vou acabar fazendo xixi na cama.

- Problema teu, a cama é tua.

- Olha que filha da puta é essa minha namorada - Ela sabia apertar os botões certos pra me desmontar - Eu não posso expor essas pessoas assim sabe? Se for uma pessoa pública, como fica?

- Hum... Pode levantar, eu autorizo - Fernanda levantou correndo pro banheiro enquanto eu fiquei deitada pensando quem seria essa pessoa pública - Eu acho que já sei.

- Sabe do que, amor? - Caralho, linda até escovando os dentes - Levanta logo, vamos fazer uma feira, comer pastel.

- Boa - Levantei indo até o banheiro - Eu conheço ela?

- Cara, eu não vou te falar, não insiste.

- Pela sua defensiva isso é um sim... vamos fazer assim, eu digo uns nomes e você só diz quente ou frio, que tal?

- Morno.

- Chata pra caralho - Dei um beliscão naquela pele branca do braço - Coloca uma roupa legal pra gente ir fazer a feira... adoro aquele teu vestido amarelho com bolsos na lateral.

- Ainda não né - Podia sentir na voz o desejo - Depois de julho a gente vê tudo isso... feito?

- Feito, até lá você me diz quem é essa senhora que você teve.

- Não vai rolar.

Se havia algo que minha mãe sempre disse ao meu respeito era o quanto eu conseguia ser chata quando tinha interesse em algo. Podia usar da minha chatice habitual até que ela se enchesse e acabasse falando. Tinha de pensar em uma estratégia pra arrancar essa informação, muito embora eu tivesse uma suspeita... até por aquela camisola e a forma um pouco mais carinhosa que a pessoa que eu penso tratava ela. Aquela cena desses dias atrás... tudo fazia sentido, só precisava da confirmação. O dia passou tranquilo, naquela noite decidimos ficar quietinhos na cama quando resolvi soltar a bomba:

- Eu já sei quem é - Dei um gole curto no vinho - Não precisa esconder mais.

- Puta merda - Fernanda estava com um pijama macio de lhamas ao passo que eu estava com um modelo semelhante, mas de flamingos - Você é insistente, diz quem você acha que é.

- A Sandra.

- A auxiliar de recepcionista? - Ele riu - O que te levou a pensar isso?

- Quando você dá bom dia ela responde seca, claramente ela ainda queria dar mais tapas nessa sua bunda rosada. - Segurei o riso - Fora que ela mal olha.

- Nossa - Senti a respiração dela sair inteira - Você descobriu! Você é foda, amor.

- Eu sei - Decididamente assistir o céu noturno era mais divertido que netflix - Mas falando sério... eu sei mesmo.

- Cara, não insiste nisso.

- Relaxa, por mim tanto faz teus relacionamentos antigos, foram eles que te moldaram pra ser essa pessoa maravilhosa que é hoje.

- Tá... - ela deu um gole no vinho - Então quem você acha que é?

- Na sinceridade? - Ela assentiu com a cabeça - É a Rafaela, né?

- Nossa - Fernanda ficou mais branca que a parede, decididamente era essa a resposta, ela tomou mais um gole do vinho deixando a taça no chão enquanto caía na cama, os olhos cerrados, o sorriso fino só confirmava o que eu descobri e, a frase que veio a seguir, inflou meu ego pra caralho, calma Bethina, pé no chão. - Você é foda, amor.

- Eu sei - Caí pro lado a abraçando - Bora dormir né?