sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

CdF: s2e7: Vinho

Hoje olhando Bethina cozinhar enquanto eu ficava no computador tentando escrever algo notei o quão idiota eu tinha sido até o momento. Tantos momentos que quase fui flagrada, tantas vezes que quis desistir de tudo apenas por achar que já tinha vivido aquela experiência juvenil. Agora eu estava em um dilema imenso: seguir pelo caminho da operação e virar uma mulher completa ou me manter essa criatura híbrida.
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Já diria o poeta que cada escolha é uma renúncia. Confesso que a ideia de apenas tomar os hormônios me atraía mais do que operar, teria peito, talvez tivesse uma ereção vez ou outra... seria a mulher que sempre quis sem deixar de ser o homem que nasci. "Homem". Pensar nesse termo me deu um peso absurdo. Até mesmo "mulher" me era estranho. Gostava de usar "menino" e "menina", talvez pela inocência das palavras. Enquanto olhava o cursor na tela em branco deixei a vista desfocar algumas vezes, hoje estava com uma bermuda mais larga, camiseta, cabelo preso por uma piranha... Bethina ao contrário estava com um belo vestido, o que contrastava com o fato dela estar limpando a cozinha.
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Desde aquela noite que tomei a decisão morávamos juntos. Ela devolveu o apartamento, trouxe suas coisas pra cá e tentávamos seguir dali. Por sorte eu tinha conseguido um bom espaço e tanto o quarto quanto a sala eram áreas grandes que cabia a pequena coleção de bonecas negras dela. Eram bonitas, alguns dos vestidos, inclusive, entraram na minha lista dos sonhos.
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Aquele cursor piscando me sufocava. Fechei o bloco de notas. Apelei pra uma banda que sempre me apoiou e foi dali que segui, de olhos completamente fechados, escrevendo as próximas linhas, sem pensar muito na ortografia, nas regras linguísticas e, sobretudo, esquecendo aquela maldita regra da redação publicitária de que menos é mais.
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A terapia me ajudou nos últimos tempos a ter uma confiança maior no que eu sou e onde eu quero chegar - ainda que com dúvidas - e, independente das opiniões alheias, eu estou firme nessa escolha. Claro que eu não vou estar firme como uma rocha e sim como um palanque de cerca no banhado, não caio para lado nenhum, porém não estou firme. Pensar isso me trouxe uma certa dor no, um certo desconforto, a vontade de pegar o telefone e ligar para ela agora e dizer tudo que estava entalado em minha garganta era tanta que eu não conseguia conter meus dedos digitando cada vez mais rápido, cada vez mais intensos, cada vez mais visceral. Eu sentia como se as palavras me dominassem e eu estivesse, enfim, pronta para dizer ao mundo inteiro "hey mundo, essa sou eu" e aceitar as consequências.
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Claro que essa síncope não durava muito e logo a racionalidade me dizia para repensar, que tudo não era tão simples como eu gostaria que fosse. Tomar no cu. Qual o problema com você, sociedade? Eu me sinto bem assim, eu gosto disso, eu estou disposta à críticas como "essa saia não combina com essa blusa" ou ainda "você veio de vestido longo? Nossa, ta muito calor pra isso", agora críticas ao fato de, biologicamente, eu ainda ser homem e estar de vestido? Qual o problema? São só pedaços de pano costurados de forma diferente. Merda. Pensar nisso tudo me cansava, me deprimia... mas era preciso.
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Que Bethina - agora no banheiro tomando um demorado banho de sábado - não me visse com a garrafa inteira de vinho diante do monitor. Eu precisava desse momento. Eu precisava dessa liberdade. Dessa fluidez de letras saindo de meu cérebro e indo por minhas terminações nervosas socando o teclado com velocidade e violência e se desenhando letras no monitor. O cursor solitário agora ganhava a companhia de cem, duzentas, trezentas, mil palavras. Estava tão rápido que fiquei com medo de não conseguir parar. Reabri os olhos passando a vista pelo que já fora escrito, nenhum erro. Apenas o nome de Bethina, que, para o corretor, tinha que ser sem o H que lhe dava charme e o transformava em algo único. Botão direito, adicionar palavra ao dicionário. Pronto. Toma essa, Word.
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Ela cantarola uma música. Give me a reason to be... a woman, I just wanna be a woman. Conhecia essa letra. Glory Box do Portishead era uma das música que me fazia soltar pequenos suspiros no começo da vida "adulta". Gostava da ideia de "be a woman", hoje tanto faz. Estaria mentindo se falasse que não gosto da ideia de me transformar em uma mulher completa. Ter, além dos peitos, uma bela vagina penetrável. O foda que isso, agora, se tornava algo tão secundário que já pensava na ideia de tomar os hormônios mas não ir pra mesa de cirurgia. Teria o peito, o rosto ficaria mais feminino, os incômodos pelos do corpo ou cairiam ou ficariam finos o suficiente para que a depilação fosse menos agressiva. E ainda manteria o pinto. Pinto. Que termo bosta.
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De repente bateu uma saudade da cobertura. Uma rápida olhada no relógio. Vinte horas e dois minutos. Certamente Vali estava preparando o jantar enquanto Rafaela e Freya ainda discutiam coisas da empresa. Confesso que a saudade se dissipou ao pensar que a vida ficaria limitada à uma só: o que Rafaela decidir seria a lei. Gostava do conceito. Gostava das práticas. Mas viver aquilo na totalidade? Sem chance. Soube de um dos amigos da minha ex-senhora que teria uma puta festa de carnaval, fechando um clube por três dias. Não lembro o nome da Domme que mandou o convite, mas devia ser algum daqueles nomes toscos baseados em algo dark ou gótico. Tinha horas que eu queria baixar meu lado publicitária naquela galera e dizer que uma Domme pode usar branco e se chamar Silvia. Rafaela, inclusive, era o melhor exemplo disso. Claro que o preto era a cor preferida da galera, mas o bordô, o roxo e até o tons escuros de azul e verde super combinavam com as práticas. Rebranding. Qualquer hora escrevia algo assim e mandava para Rafaela. Na pior das hipóteses ela ia rir.
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O chuveiro parou. Bethina levaria alguns minutos até secar o cabelo, passar todos os cremes, colocar alguma roupa extremamente confortável e reclamar que eu estava indo tomar banho muito tarde. Virei a última dose de vinho da garrafa em um gole longo. Não queimou nem nada. O efeito viria daqui meia hora ou menos, tontura, sentidos largos, sono... acho que o banho vai ficar para amanhã.
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Os olhos seguiam fechados como se eu pudesse sentir cada palavra que escrevia, mas, na verdade, eu pensava em tantas outras coisas enquanto escrevo, que nem sei dizer ao certo mais no que eu penso. A imensa verdade é que, assim, eu escrevo algo mais mental e menos visual, me preocupo menos se eu repeti tal palavra no decorrer desse parágrafo ou tenho que usar um sinônimo. A porta do banheiro abriu. Segui de olhos fechados digitando, estava tentando não pensar na conversa que teria com minha progenitora dali alguns dias sobre absolutamente tudo isso aqui. Pensar nisso, admito, me fez querer outra garrafa de vinho. Não tinha. Será que o mercado ainda estava aberto? "Não fode", foi a voz da minha consciência. Tinha tantas palavras passando ao mesmo tempo por minha cabeça que perdi totalmente a noção de tempo e espaço, eu estava flutuando, minha única certeza de ainda estar no mesmo lugar era o fato da gravidade ainda ser a mesma.
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_ Admiro pra caralho essa sua habilidade - A voz vinha de Bethina, meio metro atrás da minha orelha esquerda - Digitar sem olhar pro teclado ou mesmo pro monitor? Namoral amor, cê é foda.
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_ É prática - Respondi à ela enquanto escrevia exatamente a cena que acontecia - Com o tempo você não pensa mais na sequência do teclado e sim no que você quer dizer, seu cérebro entra em um moto tão automático que você não precisa pensar na ordem das letras e sim na ordem do que quer escrever...
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_ Tipo pedalar? Você diz que pedala no automático - Ela parou um instante - Você está transcrevendo o que estou dizendo? Puta merda, Fê...
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_ Não gosta? - Arqueei a sobrancelha ainda sem abrir os olhos - Quiser eu apago...
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_ Não, deixa... só é meio estranho você de olhos fechados digitando nessa velocidade e sem errar... puta que pariu, até meus palavrões você digita, pára com isso Fê, anda logo, parou.. vai tomar banho enquanto eu leio o que você escreveu.
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_ Não vou tomar banho hoje - Fiz caretinha - Tô com preguiça... mais a mais mal saí de casa.
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_ Namorada porquinha essa minha e... - ela parou completamente, abri os olhos - A senhorita andou bebendo, dona Fernanda? 
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_ Só um pouquin...
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_ Um pouquinho é o caralho, cê bebeu a garrafa toda garota.
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O flagrante é, sem sombra de dúvidas, uma das piores coisas para o mentiroso. Aquela vez da camisola até deu certo, mas a do guarda-roupas... não deu tempo de pensar em uma saída. Enquanto eu digitava Bethina falava algo sobre eu não poder beber tanto porque isso estimulava as inquietas sombras e muitos outros blá-blá-blá que ela falava e eu entrei em um modo onde não mais a ouvia. Podia continuar escrevendo sem me preocupar com o ruído ao meu redor. Quando ela começou a puxar a cadeira me lembrei de minha mãe quando vinha duas e tanto da manhã reclamar que eu ainda estava no computador. Bethina pausou suas palavras e ficou apenas lendo o que eu escrevia, a verdade é que eu adorava a voz dela e, mesmo tomando um bronca por quebrar um dos nossos acordos sobre bebida, eu ainda estava amando ouvir a voz dela. Eu era uma boba apaixonada? Com certeza. Curiosidade do momento: ela estava completamente dividida entre me tirar da frente do computador e me colocar, de roupa e tudo, debaixo do chuveiro e simplesmente seguir olhando o que eu escrevia. Sorri de canto.
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_ Desistiu?
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_ Não... estou te esperando terminar... - o tom de voz dela era amistoso, conciliador eu diria - Que pausa foi essa? Terminou?
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_ Não... se deixar eu fico escrevendo aqui indefinidamente...
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_ E sobre o quê escrevia quando saí do banho?
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_ Sobre... estar flutuando, sobre as possibilidades do meio do ano e todas as nuances que poderia significar aquela revelação...
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_ Poderia??? - O tom de voz dela agora mudou - Você me prometeu que ia falar tudo, garota.
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_ Escolha errada de palavras... poderá!
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_ Acho bom, agora dá um salvar aí que vou te dar banho e cama... chega pra mocinha hoje.
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A verdade é que, a presença do vinho só me fez ter mais inspiração pra escrever e, certamente, embalaria meu sono daqui alguns minutos. Não que precisasse, caminhar com Bethina pelos brechós das redondezas procurando peças tanto para ela quanto para mim era algo que eu nunca imaginei que fosse ter. E, mesmo caminhando horas, não encontramos nada que valesse nosso rico dinheirinho. Mas serviu para que eu tivesse ainda mais certeza que viver como menina a maior parte do tempo era o que eu queria e quero. Com a ameaça de puxar o computador da tomada termino esse longo texto escrito de olhos fechados e com um beliscão que me obriga a dizer algo que eu digo à ela o tempo todo: eu te amo, Bê.CdF

sábado, 22 de fevereiro de 2020

CdF: s2e6: Estelar

"- Data estelar... ah - Rafaela empurrou o teclado que, gentilmente voltou para dentro da parede ocultando-se - Que se foda essa merda de diário de bordo, ninguém vai ouvir mesmo... só restou eu.

- Não é bem verdade.

- Você não é de carne e osso.

- Mas posso lhe servir.

A voz vinha de um humanoide mecânico de pouco mais de um metro e oitenta de altura com inteligência artificial avançada o suficiente para guiar a nave em caso de incapacidade da capitã Rafaela. Claro que ele também poderia supri-la de outras formas menos ortodoxas, mas essa nível interação com uma máquina era algo que sempre foi mal visto no planeta de onde ela tinha vindo, muitos viam tal relação com algo programável como a ruína da civilização. Claro que o colapso veio, mas não por esse motivo.

Enquanto via os pequenos pontos brilhantes no horizonte Rafaela bebia uma grande taça de algo que na Terra seria chamado de vinho. Entre um gole e outro lembrava de como tudo aquilo havia acontecido, como aquela situação havia chego tão longe. Claro que a memória falhava em detalhes, até porque quatrocentos anos terrestres em hibernação foram o suficiente para que diversas lembranças se perdessem na imensidão do cérebro.

Seu planeta, Dommina, apesar de grande era pouco habitado, os poucos que habitavam tinham nos planetas e satélites naturais mais próximos a mão-de-obra que ajudava a manter todo aquele sistema planetário funcionando. De acordo com escrituras antigas foram desses planetas e satélites próximos que vieram os primeiros submissos, seres extremamente dóceis e dispostos a sempre obedecer e receber toda e qualquer punição. Nos primeiros milênios dessa parceria estranha milhões morreram pelas mãos inaptas dos habitantes de Dommina que, não raro, forçavam os submissos para muito além do seu limite físico.

Foi quando surgiu uma Dominadora que fez as primeiras leis. Habitantes de Dommina podiam continuar sua forma de trato com os de fora do planeta, porém teriam de incluir palavras de controle que seriam ditas pelos submissos fosse em qualquer momento, houve à época protestos porém as coisas se encaixaram e os "não-domminantes" agora tinham sua integridade resguardada por leis, tinham mais deveres que direitos, no entanto para eles isso não chegava a ser um problema.

Dois milênios e meio se passaram dessa relação de co-dependência. Submissos vinham aos milhares e serviam, de bom grado, os habitantes de Dommina. Se, vendo da Terra isso parecer cruel, pensemos que é a cultura de outro planeta, milhões de anos-luz do pálido ponto azul na pequena via-láctea. Ocorre que diversos Domminantes decidiram por vontade própria ignorar as leis, milhares morreram e logo os submissos, em um bloco unificado, disseram a palavra para que tudo cessasse e foram embora para seus planetas e satélites natais.

Os poucos que ficaram não sustentavam Dommina com tudo que ela precisava, pior: diversos Domminantes desenvolveram algum sentimento por seus submissos e deixaram o planeta que acabou com uma elite arrogante e cheia de si que sugou até o último recurso natural que havia em abundância - uma bebida semelhante ao néctar, que corria por rios e mares de Dommina - matando, assim, milhares de pessoas por pura soberba.

Quem pensa que Dommina era apenas isso engana-se, muitos daquele planeta tinham outras funções, entre eles diversos optavam por carreiras que iam desde médicos até cientistas. E foram os segundos que deram o veredicto: o planeta estava morrendo e rápido, algo teria de ser feito ou o colapso era inevitável. Como era de se esperar as elites de Dommina ignoraram todos os avisos e seguiram consumindo mais do que o planeta conseguia produzir. No entanto um pequeno grupo - 69 pessoas para ser mais exato - em um esforço homérico construíram naves para deixar o planeta e tentar algum acordo diplomático com os os habitantes do sistema solar próximo. Não havia acordo. Eram irredutíveis e prosperavam a olhos vistos com sua cultura e produção de recursos.

Sem acordo aquele grupo voltou os olhos para as estrelas. Haveria algum lugar para eles naquela vastidão? Pensar nisso tudo incomodava Rafaela. Sua vontade era de poder voltar no tempo e trucidar todos os responsáveis pela ruína do seu planeta. Terminou a taça da bebida e, notando que a garrafa ao seu lado estava vazia, virou-se para o androide que estava parado a espera de ordens.

- Me lembra de novo de porque eu não posso voltar pra hibernação, acho que o álcool derreteu minha memória.

- Quer algum remédio, Senhora?

- Eu fui irônica, criatura.

- Não fui programado para entender ironias, Senhora - Como se puxasse ar dos pulmões que não tinha e notando que Rafaela não mais falaria e aguardava uma resposta a criatura robótica prosseguiu - O módulo de hibernação foi atingido por raios cósmicos vindos de um buraco-negro alguns anos-luz daqui, Senhora, creio que no próximo planeta encontraremos recursos para fazer os reparos necessários na nave e seguir nosso objetivo.

- E qual é nosso objetivo?

- Reestabelecer nossa cultura em outro planeta, buscando um maior equilíbrio entre as práticas de Dommina e as criaturas que serão submissas, buscando uma consensualidade maior, respeitando os limites físicos e psicológicos do ser que será seu escravo pelo tempo que ele desejar.

Rafaela respirou fundo deixando o pensamento ser preenchido por todas aquelas palavras que foram processadas, absorvidas, digeridas e agora faziam com que ela afastasse os lábios como se fosse dizer algo. Mas não havia nada para ser dito, apenas aquele cheiro constante de queimado que era o ar reciclado que vinha do espaço. Engana-se quem pensa que o espaço entre planetas, estrelas e galáxias é bom ou até mesmo inexiste, as poucas partículas que vagam pelo grande vazio tem cheiro de morte.

- E esse planeta que estamos indo tem algum nome? Quero dizer, pra conseguir reparar um módulo de hibernação acredito que eles devam ter algum nível de tecnologia.

- Perfeitamente, Senhora - Como se buscasse dados em uma memória interna uma pausa se fez, o suficiente para que Rafaela deixasse a contemplação das estrelas e focasse no ser alguns metros atrás de si - É um planeta primitivo, ainda divide-se em centenas de pequenos estados que discordam em detalhes e produzem guerras infinitas entre si...

- E você me trouxe para um planeta em guerra?

- De forma alguma, Senhora, esse planeta atualmente encontra-se em conflitos pequenos entre estados menores...

- ... E o que motiva tanta batalha?

- Diversos motivos, religião, disputas por território, disputas históricas, não há um consenso no database da nave sobre o real motivo dos conflitos atuais.

- Que beleza... - A capitã voltou seu olhar para o vazio pontilhado - ... Seria um bom planeta para recomeçar talvez?

- Receio que n... - A voz levemente robótica parou, Rafaela já pensava que teria de pilotar a nave sozinha e ainda reparar o seu valete mecânico - Talvez, Senhora, apesar dos dados estarem bastante incompletos há nessa raça uma necessidade por obedecer ordens, no entanto não todos, mas uma parcela considerável espera uma figura que lhe diga o que fazer em troca de sal.

- Sal?

- Cloreto de sódio, Senhora... parece que é uma forma de pagamento.

- Que bizarro - Rafaela pegou a taça e lembrou-se que estava vazia - Pega mais uma garrafa de Wino, toda essa falação me deu sede.

- Perfeitamente, Senhora - O empregado saiu voltando em alguns instantes com outra garrafa já aberta e servindo sua senhora - Deseja que eu trace curso para esse planeta? - Rafaela sorveu um longo gole vendo um dos pontos do horizonte aumentarem - Senhora?

- Sim, trace o curso para... - Mais um gole e seu corpo se aqueceu por completo - Antes, como chama esse planeta para onde estamos indo?

- Ele nomearam o próprio planeta de... - uma pausa longa o suficiente para fazer com que Rafaela se irritasse suavemente - ... Terra.

Após essa pequena pausa dramática feito por uma criatura robótica a silhueta de outros planetas do sistema solar ficou para trás e a imagem daquele planeta rochoso coberto de água e repleto de criaturas em eterno conflito tomou toda a visão da janela frontal da nave. Tudo aquilo parecia um pesadelo às vezes, ter de ficar vagando planeta após planeta para encontrar um lugar que pudesse se fixar era algo cansativo e temia nunca encontrar esse lugar, ao menos nesse novo mundo poderia reparar o módulo de hibernação e só seria acordada quando seu servo-mecânico encontrasse um local ideal. Por hoje teria de encarar essa bolota insignificante perdida no éter do espaço."

- ... Então amor, o que achou?

- Cara... - Bethina olhava incrédula para a tela do computador, não conseguia concatenar as palavras para o que havia acabado de ler, pediu alguns segundos para respirar e pensar - Ficou muito foda, quando você escreveu isso?

- Tem uns meses, acho que um ano, talvez até mais.

- Tem potencial - Ela se levantava, Fernanda, agora mais segura de si e suas escolhas, trajava um vestido solto, azul, desses de loja popular, usado mais quando ficava em casa, o cabelo preso em coque e o avental completavam o visual - Pensa em continuar?

- Então - Fernanda ponderou um instante - Não sei, um dia escrevi isso, salvei e larguei, já tentei continuar algumas vezes, mas nunca foi pra frente, faltava inspiração.

_ Faltava? Ta dizendo que eu te inspiro é, criaturinha?

Bethina, que, ao contrário de sua namorada, estava o mais despojada possível -calça larga, blusa com ombro caído, cabelo mal penteado - levantou-se da cadeira indo ao encontro de Fernanda. Beijaram-se como adolescentes, mãos pelo corpo, diversas ideias passavam pela cabeça quando a mulher de vestido se afastou.

- Você me inspira muito, você é minha força, meu porto seguro... eu já disse que te amo hoje?

- Várias vezes - Bethina fez uma cara de desdém - Mas eu gosto de ouvir, diz de novo?

- Não - Fernanda fez bico, rodou nos calcanhares deixando Bethina sozinha - Você fica muito convencida depois... e pior

- Pior o que? - A jovem designer de cabelo crespo levantou-se indo atrás da namorada que caminhava com uma habilidade ímpar naquele salto - Fala logo antes que eu mande você ajoelhar.

- Aff - Fernanda desligou o forno onde o escondidinho de carne seca assou e prostou-se de joelhos diante da namorada - ... te odeio.

- Odeia é? - Bethina se aproximou segurando o queixo da namorada e descendo ao nível dela, lhe roubando um selinho - E o que mais?

- Puta jogo baixo... - Fernanda sentia sua última ligação com o masculino erguer-se por baixo do vestido - Por isso que te amo.

- Arrá! Falou!

- Merda - Dito isso um beijo mais intenso das duas ajoelhadas no chão da cozinha fez os dois corpos caírem no piso gelado do ambiente - A janta vai esfriar.

- Ahhhh - Pensando em como era ruim escondidinho de carne seca frio ou até mesmo requentado Bethina controlou-se - Sua empata-foda.

- Depois da janta - Fernanda sorriu lascivamente - o chão vai continuar aqui.

E assim as duas ergueram-se ao passo que Bethina arrumou a mesa enquanto Fernanda trazia o jantar para o deleite das duas, poucos momentos eram tão especiais para as duas quanto aqueles, o sentimento só crescia, dia após dia, mesmo com eventuais brigas no final do dia tudo ficava bem, fosse por uma obra de um deus benevolente que dirigia suas vidas ou fosse por elas mesmas se proporem a nunca irem dormir sem resolver todas as pendências do dia que passou. Houveram alguns dias que nenhum diálogo se ouviu? Houveram, no entanto no final do dia que se seguia tudo ficava bem. Fernanda achou que nunca acharia alguém tão perfeito como Bethina, já Bethina nunca pensou que uma escolha que havia feito na adolescência lhe traria um fruto tão belo.

O amor e seus desdobramentos, dizem, é algo tão misterioso quanto a vida. E como era belo aquele desdobramento. Houvesse mesmo um deus regendo aquelas vidas ele certamente estaria satisfeito do rumo que elas tomaram. Hoje a noite era dedicada ao amor.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

CdF: s2e5: Desvelo

Devo confessar que ainda me causava um pouco de estranheza ver Fernando assim... quer dizer, Fernanda. Fernanda. Fernanda. Foca, Bethina, ela é Fernanda, daqui pra frente vai ser ela e pronto, sem mais dúvidas. Seria um saco segurar a ideia na empresa, mas depois do meio do ano eu ia começar a cutucar pra falar por lá... se bem que eles não tem nada com isso. Se um homem quiser vir trabalhar de vestido qual o problema? É só um pedaço de pano que a sociedade dava algum valor a ele porque ela não sabe viver sem ter um objeto e enche-lo de significados.

Mas era lindo ver ela dormindo. O dia amanheceu tão preguiçoso que podia jurar que toda a Metrópole havia desaparecido, só restou a gente nessa cama. O cabelo jogado pro lado, o vestido completamente amarrotado, a saia de tule fazia parecer que ela tinha uma cintura a mais. Tão linda quanto confusa. Até sem maquiagem essa filha da puta ficava linda... já pensou quando ela começar a virar menina mesmo? Aliás, menina não, mulher. De acordo com minhas pesquisas o queixo afinaria, o rosto também, o nariz ficaria mais arrebitado, a pele mais macia... isso tudo com meus dotes de maquiadora. Perfeito.

- Bom dia, amor - Ela acordou com um sorriso tão sereno que quis morar dentro dele - Dormiu bem?

- Você me fez dormir otimamente bem - Roubei um selinho - Sua safada.

- Eu sou a safada? - Ela me deu um tapa - Bem eu que apareceu com um pintão de borracha e me comeu na moralzinha!

- Ah, agora vai reclamar? - Franzi o cenho - Olha que te boto de joelhos no milho.

- Agora vou ter que chamar de Dona Bethina, é sério isso? - Ela segurou um riso - Nem vem!

- Cala a boca, escrava - Coloquei o indicador sobre os lábios dela, obviamente ela me mordeu o dedo - Filha da...

- Não, mas falando sério - Fernanda me deu um beijo no dedo - Eu adorei, quando quiser repetir...

- Eu tava aqui pensando... você se lembra de quando começou a ter esses desejos? - Me expressei mal - Digo, tipo se vestir de menina e tals.

- Foi aos doze mais ou menos... - Ela olhou pro lado, buscando as memórias - eu entrei no quarto dos meus pais quando eles não estavam, fuçando o guarda-roupa eu achei um tailleur lindo, saia marrom, camisa branca... coloquei a saia e me senti muito bem, mas me senti errado também, fugi dali por uns dias... mas um dia - Ela pausou - Eu montei o look completo e puta merda, eu fiquei linda... mas depois a coisa perdeu um pouco o sentido até eu chegar na internet e descobrir os termos certos, sissy e crossdresser.

- Sissy é o que mesmo?

- Crossdresser só no momento de uma sessão BDSM ou algo assim - Ela falava com uma propriedade que não sei se me assustava ou admirava - Quando eu tive uma Domme eu era mais sissy do que cross...

- Como você conheceu uma Domme?

- História estranha pra um sábado de manhã - Ela riu - Mas então, eu era um garoto juvenil que buscava informações e logo conheceu uma Domme e acabou se mudando pra cidade que ela morava pra fazer faculdade...

- Tu fez faculdade servindo uma domme? 

- Basicamente...

- Que daora, mas continue.

- Então, logo que eu terminei a faculdade ela me levou pra morar com ela, ser submisso em tempo integral... logo ela adotou uma mulher - Confesso que senti uma ponta de ciume - e ficamos por uns meses numa relação regada com sessões esporádicas e tals, foi divertido enquanto durou.

- E por que acabou?

- Ela se mudou pra Londres.

- Carai

- Exato, depois disso eu fiquei recluso em uma quitinete fazendo freelas, me alimentando mal e comprando roupas via internet... devo ter ficado pouco mais de um ano nessas até que surgiu uma oportunidade aqui e eu vim de mala e cuia.

- E quem te mandou fazer terapia? Porque essa doutora é caro para um caralho.

- Segredo - Ela se fechou - Não posso citar nomes, mas digamos que tive uma relação super breve com uma dominadora aqui da cidade... coisa de uma semana, tive um surto psicótico beeeem legal, ia me jogar da janela do vigésimo andar mas né... - Fê respirou fundo - Estou aqui.

- E sem querer me salvou - Sorri a olhando nos olhos - Porque né, eu não sei se ainda estaria nessa empresa se não fosse você.

- Como assim?

- Convenhamos, o trabalho é legal, mas tem umas pessoas ali babacas pra caralho.

- Tipo quem?

- Uns conselheiros, eu estava mostrando pros traines a parte de impressão de prévias e um deles veio botando banca, dizendo que a gente gastava muito em papel, tinta, manutenção e que os traines nem se acostumassem muito porque se tudo desse certo haveriam cortes de funcionários... mó cuzão.

- Lembra o nome?

- E esse povo lá usa crachá? - Tentava lembrar o rosto - Mas era um tipo alto, meio musculoso... acho que já vi ele com Rafaela alguma vez.

Fernanda se fechou mais ainda um instante. Ela ficava linda até pensando seriamente... puta merda, Bethina, você esta completamente apaixonada por essa mulher. Um som de buzina atravessou a janela dando o início de vida para a Metrópole dezenas de metros abaixo. Fê me olhou fixamente por alguns segundos, roubou um selinho.

- Vamos levantar ou ficar aqui mais um tempo?

- Depois de você me falar quem foi a sua Domme relâmpago eu deixo você levantar.

- Eu vou acabar fazendo xixi na cama.

- Problema teu, a cama é tua.

- Olha que filha da puta é essa minha namorada - Ela sabia apertar os botões certos pra me desmontar - Eu não posso expor essas pessoas assim sabe? Se for uma pessoa pública, como fica?

- Hum... Pode levantar, eu autorizo - Fernanda levantou correndo pro banheiro enquanto eu fiquei deitada pensando quem seria essa pessoa pública - Eu acho que já sei.

- Sabe do que, amor? - Caralho, linda até escovando os dentes - Levanta logo, vamos fazer uma feira, comer pastel.

- Boa - Levantei indo até o banheiro - Eu conheço ela?

- Cara, eu não vou te falar, não insiste.

- Pela sua defensiva isso é um sim... vamos fazer assim, eu digo uns nomes e você só diz quente ou frio, que tal?

- Morno.

- Chata pra caralho - Dei um beliscão naquela pele branca do braço - Coloca uma roupa legal pra gente ir fazer a feira... adoro aquele teu vestido amarelho com bolsos na lateral.

- Ainda não né - Podia sentir na voz o desejo - Depois de julho a gente vê tudo isso... feito?

- Feito, até lá você me diz quem é essa senhora que você teve.

- Não vai rolar.

Se havia algo que minha mãe sempre disse ao meu respeito era o quanto eu conseguia ser chata quando tinha interesse em algo. Podia usar da minha chatice habitual até que ela se enchesse e acabasse falando. Tinha de pensar em uma estratégia pra arrancar essa informação, muito embora eu tivesse uma suspeita... até por aquela camisola e a forma um pouco mais carinhosa que a pessoa que eu penso tratava ela. Aquela cena desses dias atrás... tudo fazia sentido, só precisava da confirmação. O dia passou tranquilo, naquela noite decidimos ficar quietinhos na cama quando resolvi soltar a bomba:

- Eu já sei quem é - Dei um gole curto no vinho - Não precisa esconder mais.

- Puta merda - Fernanda estava com um pijama macio de lhamas ao passo que eu estava com um modelo semelhante, mas de flamingos - Você é insistente, diz quem você acha que é.

- A Sandra.

- A auxiliar de recepcionista? - Ele riu - O que te levou a pensar isso?

- Quando você dá bom dia ela responde seca, claramente ela ainda queria dar mais tapas nessa sua bunda rosada. - Segurei o riso - Fora que ela mal olha.

- Nossa - Senti a respiração dela sair inteira - Você descobriu! Você é foda, amor.

- Eu sei - Decididamente assistir o céu noturno era mais divertido que netflix - Mas falando sério... eu sei mesmo.

- Cara, não insiste nisso.

- Relaxa, por mim tanto faz teus relacionamentos antigos, foram eles que te moldaram pra ser essa pessoa maravilhosa que é hoje.

- Tá... - ela deu um gole no vinho - Então quem você acha que é?

- Na sinceridade? - Ela assentiu com a cabeça - É a Rafaela, né?

- Nossa - Fernanda ficou mais branca que a parede, decididamente era essa a resposta, ela tomou mais um gole do vinho deixando a taça no chão enquanto caía na cama, os olhos cerrados, o sorriso fino só confirmava o que eu descobri e, a frase que veio a seguir, inflou meu ego pra caralho, calma Bethina, pé no chão. - Você é foda, amor.

- Eu sei - Caí pro lado a abraçando - Bora dormir né?

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

CdF s2e4 - Trovão

- Então foi isso, doutora - Tinha contado tudo que tinha acontecido nos últimos dias, minha conversa com Bethina no terraço, o vácuo dela, as respostas simples - E eu não sei o que fazer.

- Bom - Ela terminou de anotar algo - Se me permite a intimidade... cara, você foi meio cuzão com ela né? Aliás, você quer mesmo transicionar?

- Quero.

- Então, é pode pá ou nem rola - Adorava quando ela soltava uma gíria dessas, me lembrava alguns colegas da empresa - Se você ta com certeza do que vai fazer, o mundo inteiro vai ter que saber, inclusive seus pais.

Aquelas palavras eram como um tapa na cara. Mas era isso, eu precisava acordar, a decisão estava tomada, a junta de psicólogos estava marcada para começar logo depois da páscoa e eu sentia que essa era a resposta que eu tanto buscava, o que me impedia de passar mais de dois minutos na frente do espelho.

Uma garoa fina molhava a rua no caminho de volta para casa naquela sexta-feira. É como dizem em Portugal: chuva molha-tolos. Aparentemente eu não devia me molhar mas cheguei em casa ensopado, como precisava pensar fui direto para o banho. Teríamos alguns dias de folga no meio do ano por algo como alguma reforma pequena, troca dos servidores ou algo assim, eu realmente não ligava, mas seria uma semana inteira de folga. Talvez fosse essa a data que eu precisava.

Escancarei a janela do quarto pro ar de chuva entrar, no entanto ao longe já via algumas estrelas que venciam a poluição visual da Metrópole, por algum motivo resolvi colocar um vestido vermelho com cintura definida por um cinto preto, por baixo uma saia de tule ajudava a dar um volume maior pra bunda. Parei diante do espelho. Eu estava linda. Tsc. Ela tem razão. Hora de dar um salto de fé. Com a mão ainda tremendo suavemente digitei olhando o sorriso de Bethina na foto de avatar.

"No meio do ano."
"Quer ir comigo? Preciso do seu apoio."

O visor do pequeno aparelho mostrava vinte e duas horas e oito minutos. Ela ficou online e saiu. Merda. Eu sabia que ela não estava disposta a ir tão longe assim. Bem feito pra mim, fui confiar na pessoa errada e... calaboca, Fê. Ela te ama. Você ama ela. Talvez ela nem tenha visto ainda, do jeito que ela ralou com os novatos essa semana devia estar morta de cansada. Não surta ainda, espera pelo menos o dia raiar. Odiava minha consciência.

Fiquei trocando de canal na televisão até achar algo simples o suficiente para que não precisasse pensar, só ocupar o espaço entre meu inconsciente e meu consciente. Com cuidado me sentei no sofá tentando evitar ao máximo amarrotar esse vestido. Só agora notei que tinha colocado as luvas brancas, só faltava uma maquiagem digna pra completar. Certamente Freya faria algo maravilhoso em minutos.

Não conseguia prestar atenção na imagem de uma raposa tentando pegar um coelho na neve. A cada seis segundos tinha de verificar se Bethina me respondia. E a merda é que a bateria do celular estava próxima do zero. Droga. Caminhei até a cozinha, coloquei o aparelho para carregar. A tela acendeu "vinte e duas e cinquenta e quatro minutos". Melhor ir dormir. A campainha tocou. Merda. Merda. Merda.

Como que o irresponsável da portaria não avisa que tem alguém subindo? Eu levaria essa reclamação pro síndico na próxima reunião, francamente... com todo o cuidado do mundo caminhei até a porta, o olho mágico não mostrava absolutamente nada. Trote de crianças? Sério? Com receio abri um pouco a porta e a lufada de ar quente do corredor trouxe a figura de Bethina empurrando a porta.

- Olha só ela - O tom era amistoso ao mesmo tempo que era ácido - Então temos um martelo batido mesmo?

- S-sim! - Respirei fundo - Meio do ano!

- Certeza certeza? - Ela entrou fechando a porta e já me envolvendo em um abraço - Tu não me enrola, garota.

Era a primeira vez que ela me chamava de garota, pelo menos em todas as falas. Por algum motivo que desconhecia isso me deu mais energia, mais certeza de que aquele caminho, aquela decisão, era a ideal. Respondi concordando com a cabeça.

- É sim meu amor - Roubei um selinho rápido - Você vai comigo né?

- Se a chefia liberar eu vou sim.

- Vai liberar, falo com a Rafaela e tudo bem.

- Rafaela... - O olhar dela ficou perdido alguns instantes - É, vamos ver.

- E o que trouxe na sacola?

- Ahhhhh... a mocinha já está curiosa?

- Estou sim.

- Pois bem - Ela tirou a fita do cabelo já colocando em meus olhos - Vai ser uma surpresa - Pude sentir a respiração quente dela ao pé do meu ouvido - Você confia em mim?

- Cegamente - Com a venda eu mal conseguia ver sombras do que acontecia, foi nesse instante que a mão dela tomou a minha - Pra onde vamos?

- Calada - Ao menos estávamos caminhando pra dentro do apartamento até que Bethina parou de súbito - Aqui... ajoelha e fica caladinha enquanto eu me preparo.

- Vai brincar de Domme... - falei com um sorriso fino já mordiscando o lábio inferior - Gostei.

- Eu não te mandei calar a boca?

- Desculpa... - resolvi entrar na brincadeira, vamos ver até onde ela iria - ... senhora.

Ela não respondeu, na real eu não ouvia ela em lugar nenhum. Será que aquela maluquinha tá achando que vai me deixar de joelhos no meio da sala? Ah, foda-se, vou erguer a venda e ver o que tá rolando, ela não é a Rafaela.

- Tira esse dedo daí - A voz dela foi se aproximando - Abre bem a boca.

Confesso que tinha uma vaga ideia do que viria ali, provavelmente ela ainda estava decidindo o que fazer. Ah essas Dommes de primeira viagem. Fiquei quase um minuto de boca aberta esperando algo acontecer, fechei a boca respirando fundo.

- Quer ajuda?

- Eu já não te mandei calar essa boca, Fernanda? Será que vou ter que te amordaçar?

- Olha ela... até parece uma Domme.

- Pareço é? - Ela puxou meu cabelo fazendo minha cabeça ir rá trás - Vou te mostrar o que aprendi... ou melhor, a surpresa que te comprei.

- S-surpresa?

- Ah, agora a menina quer saber o que planejei pra esse momento... na-na-ni-na-não. - O tom de voz dela era intenso, decidido, lembrava quando ela saiu do hospital ou ainda quando discutimos no terraço da empresa - Levanta e fica paradinha - Atendi prontamente - Adorei o vestido... até com a saia de tule por baixo, é uma mocinha linda essa minha namorada, dá vontade de morder... - Alguns segundos de silêncio e a voz dela veio ao pé do meu ouvido, sussurrando - ... ou comer ela, que tal?

Confesso que não era uma das coisas mais inesperadas vindas de Bethina, mas ao mesmo tempo não encaixava direito a voz com o que era dito, essas frases caberiam facilmente na Flávia, Rafaela ou até mesmo na Freya, agora nela? O foda é que eu estava ficando excitado com a possibilidade do que estava por vir. O silêncio imperou quando a ouvi ir até a televisão e ligar alguma coisa, reconhecia o estilo, as batidas de LoFi HipHop eram hipnóticas e, certamente, mexiam com as ondas alfas do cérebro. Feito isso ela voltou a pegar minha mão.

- Pra onde agora, senhora?

- Mas que menina falante essa que eu arrumei... - Ela me guiava enquanto eu tentava lembrar a planta do apartamento, parecia ser a cozinha, mas o vento fresco denunciou o quarto - Deita aqui, de barriga pra cima... - Ao que deitei a mão gelada dela subiu por minhas coxas - Sem calcinha? Olha que menina safada essa... e essa coisinha durinha aqui? - Senti um peteleco na cabeça do meu pau que latejava frente a toda aquela cena que, por mais que a visão estivesse bloqueada, outros sentidos se intensificavam e me faziam vê-la em uma sinestesia quase perfeita do meu corpo - Hoje não vamos usar ela, agora afasta as pernas pra cima... - Não ousei desobedecer, queria ver até onde iria essa toca de coelho - isso, boa menina, se continuar assim vai ganhar um doce... aliás - Senti o corpo quente dela sobre o meu - Vamos tirar isso daqui e começar a brincadeira, não quero que perca nenhum detalhe.

Dito isso a venda saiu e meus olhos levaram alguns instantes até se habituarem à luz normal do quarto. Tão logo a imagem ganhou definição corri meu corpo com a vista, Bethina estava com uma blusa regata preta e uma leggin igualmente preta, algo destoava ao correr da cintura. Ergui o corpo e minhas suspeitas estavam se tornando fatos. Quis esboçar alguma reação, mas minha voz não saiu, sobretudo quando ela colocou o lubrificante pegajoso e gelado na entrada de meu cu, soltei a cabeça na cama sentindo o gelado escorrer pra além, tudo pra ser recolhido por algo maleável, um pouco escorregadio e grande.

Minha respiração se acelerava enquanto aquele membro de borracha tentava entrar, sentia minhas pregas cedendo, uma após a outra, até a cabeça daquele colosso me penetrava, a respiração se acelerou, os batimentos também subiram de ritmo, ainda assim a dor era menor que o prazer envolvido. O exato instante que a ponta ultrapassou a última barreira abri os olhos e afastei os lábios, a respiração outrora acelerada agora beirava a ofegância.

O tempo deixou de existir, só havia aquele objeto entrando cada vez mais fundo e a sensação de algo ia subir pelo meu canal intestinal e continuar sua escalada até onde fosse possível, o rosto virou lentamente na direção da janela no instante que uma chuva de pingos grossos romperam o céu. Quando, enfim, senti a pele de Bethina tocar a minha soube que acabou. Deixei as pálpebras fecharem uma ou duas vezes sentindo toda a extensão daquele consolo imenso dentro de minha bunda. Claro que já tinha tido experiências com brinquedos assim, mas nunca com alguém que eu amava e a sensação estava sendo praticamente indescritível. Ao fundo a música baixa era a única coisa que dizia que o tempo ainda estava andando.

Quando senti o corpo dela se afastando suavemente um raio rompeu o céu e a primeira estocada completou seu ciclo no exato instante que a energia acabou deixando toda aquela parte da Metrópole às escuras. Conforme minha excitação aumentava sentia que Bethina acelerava o ritmo, decididamente eu não duraria muito tempo nas mãos dela. Foi quando a velocidade diminuiu e o corpo dela veio sobre o meu, os lábios dela procuravam os meus, uma vez beijo iniciado o movimento outrora pausado voltou com cadência máxima até o instante em que o orgasmo explodiu em meu pau duro entre nossos corpos. Com delicadeza Bethina saiu lentamente tirando o brinquedo de dentro da minha bunda. Quando, enfim, saiu senti o dedo dela alisando.

- Acha que acabou, menina? - Voltei a sentir o corpo dela no meu - Eu também estou com tesão... - E antes que eu pudesse balbuciar qualquer palavra os joelhos dela pararam um de cada lado de minha cabeça - Me chupa, amor?

E assim, entre um trovão e outro toquei minha língua na intimidade de Bethia que continha os gemidos baixos passando a mão pelo corpo, vez por outra jurava que ela me olhava "trabalhando", mas era inevitável que logo ela não suportaria muito meu ritmo que agora tinha uma sutil ajuda do dedo indicador, os gemidos dela ganhavam volume conforme se aproximava do orgasmo até que pararam completamente. Antes que eu pudesse falar alguma coisa a boca dela voltou à minha e, entre trovões e barulho de chuva nos deixamos adormecer em um sono de reconciliação e com novos prazeres redescobertos.

Uma salva para o amor.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

CdF s2e3: Prometida

Vou confessar que não gostava de fazer isso com Fernando, mas às vezes ele parecia uma criança mimada. Até concordo no começo quando ele tinha suas dúvidas quanto que caminho seguir ficar na sua, mas agora... tinha decidido, não conheço ele tempo suficiente mas sei que aquela decisão deve ter sido a mais crucial na vida dele até hoje.

"Dele", pensar no gênero masculino quando penso é natural, por fora ainda é um homem bonito, uma barba rala, um corpo relativamente largo e coxas definidas, braços okay... a única coisa que poderia denunciar algo é o cabelo, extremamente bem cuidado, sempre com cheirinho de creme de pentear, escovado e preso em um rabo-de-cavalo tão sutil que mal dava para notar que estava preso. Quando ele virava a cabeça em um movimento rápido é lindo ver aquele chicote capilar batendo no pescoço... e cá estava eu chamando de "ele" de novo.

Em parte nossa discussão veio a calhar, eu precisava de um final de semana inteiro sozinha pra pensar. Eu amo ele... ela... whatever, eu amo aquela pessoa e estou disposta a ir com ela onde ela for, só queria que ela tivesse um pouco mais de confiança, aceitasse logo tudo e fosse falar com seus pais, ou pelo menos sua mãe que parece ter um certo respeito maior, uma admiração. Por sorte Fernando tinha aprendido a respeitar esses meus espaços assim como eu respeitava os momentos de introspecção dele. A verdade é que, mesmo me magoando um pouco, eu entendia o lado dela no que tangia família e tals, só me é estranho uma família que não tem meia dúzia tudo morando perto se ajudando... Se bem que com o Lucca só minha mãe ficou perto. Talvez Fê não estivesse tão errado assim.

No começo da tarde de domingo um convite dele pra pedalarmos no parque quase me tirou de minha nuvem introspectiva. Hoje não estava com o menor saco de colocar o pé na rua. Recusei o convite. Sim, estou bem, só estou com preguiça. Merda. A merda dele é que ele era compreensível ao extremo. Um "tudo bem, qualquer coisa estou por aqui" seguido de um coraçãozinho roxo me fez suspirar como uma adolescente idiota. Como você se apaixonou por uma mulher trans hem, Bethina? Como?

Felizmente a semana começou o que tirava o tempo de conversa pro trabalho. Na hora do almoço era fácil sair com as meninas que gostavam de ir em um restaurante vegano, Fê jamais pisaria em um lugar assim... gosto de um bom bife, mas como "punição" resolvi deixar Fê no vácuo até a primeira consulta com a psicóloga. Era um auto-exílio pra mim e uma forma de pressão pra que ele tomasse uma atitude.

Na terça-feira já no final da tarde fui levar um material de páscoa que foi impresso na sala da chefia, seria algo rápido, deixava as artes com a secretária pessoal, a tal da Freya, e voltava para minha caverna ouvindo Tim Maia nos fones produzindo artes pro dia das mães... logo eu que nunca quis ser mãe. A vida é estranha. Dona Freya não estava. Podia largar as peças ali com um post-it pedindo a aprovação, mas não, dona Bethina tem que se meter onde não é chamada, por uma fresta de porta vi algo que nunca imaginei de dona Rafaela... todo aquele ar sombrio, aquela cena... será que? Fui vista. Merda. Merda. Merda. Corri pelas escadas voltando pra minha baia. Fui seguida? Acho que não.

Enfim chegou a quarta. Não que eu ache que precise de terapia agora, mas eu precisava de mais informações sobre como lidar com uma pessoa trans, o Google não pareceu uma fonte tão confiável, por isso nada melhor que a própria psicóloga dele, assim eu podia ter uns spoilers do que viria a seguir e de como eu devia lidar com tudo aquilo. "Não, Fê, vou encontrar umas amigas da faculdade, é amanhã a gente conversa melhor... sim sim, ta tudo bem entre a gente". E um beijo pra selar o que eu dizia, provavelmente eu não descendia de Eva e sim de Lilith. Enfim minha vez de entrar no consultório, já sabia o caminho.

- Bethina... certo? - Ela tomou um pequeno caderno nas mãos anotando algo - Eu já imagino o que te traz aqui... mas quero ouvir de você: o que te traz aqui?

- Então... - Suspirei jogando a cabeça para trás - Minha vida é até bem boa sabe? Tive um relacionamento ruim com um homem no passado, com agressão e o caralho a quatro - Coloquei a mão sobre a boca - Desculpa o palavreado.

- Relaxa - Ela sorriu de forma tranquila - Fala como você se sente melhor... somos adultas aqui.

Puta merda. Minha cabeça pensou em um plot daqueles pornôs vagabundos que perneiam a internet inteira. Eu me aproximaria "então somos adultas é..." e ela responderia "como assim?" e eu roubaria um beijo e transaríamos no meio do consultório. Credo. Eu devia ter alguma coisa em escorpião, depois precisava checar meu mapa astral de novo.

- Beleza - Respirei fundo - Então, depois desse relacionamento com o cara que me agredia e cumpriu dois anos e pouco por isso, eu decidi nunca mais me relacionar com homem nenhum na vida sabe? Tipo um pacto comigo mesma.

- Que forma interessante de lidar com um trauma...

- Foi a forma que consegui lidar - Dei de ombros - Mas então quando cheguei aqui... tipo, eu já tinha trabalhado como designer em algumas agências pequenas do interior, feito alguns freelas pra agências aqui da Metrópole, foi quando vi a vaga no meu atual emprego, pensei "por que não?", deu dois dias e fui contratada, isso já faz mais de um ano... - Suspirei - No começo foi bem barra porque eu até tinha morado sozinha, mas não em uma cidade tão grande.

- Aqui é tudo no superlativo né? - Ela anotou algo - Então depois daquele relacionamento abusivo você não se relacionou com ninguém?

- Claro que não - Ri corando de leve - Comecei a me relacionar só com meninas, pensa, eu devia ter uns dezesseis pra dezessete anos e já estava definindo que meu lance eram as pepekas e não as pirocas... caralho, desculpa!

- Tudo bem - Rimos enquanto ela anotava mais alguma coisa - Então você se descobriu lésbica?

- Exatamente! - Tinha curiosidade em saber o que tanto ela anotava - Mas aí apareceu, na época, o Fernando na minha frente...

- Aí fodeu de vez?

- Tirou as palavras da minha boca - Eu devia estar com aquele sorriso bobo na cara - Me apaixonei e, quando soube dos rolês de crossdresser eu fiquei meio confusa, cheguei a pensar que era pegadinha de Olodumare... mas não, era real... e pior: ele queria virar ela! Puta merda, muito sinal divino!

- E como você lida com isso?

- Ah cara... é um pouco estranho, mas é algo pra ele se sentir bem consigo mesmo saca? Já vi ele ter crises de auto-imagem e é meio punk... mesmo bem montadinha ele se olhava no espelho e via algo ruim, uma figura errada... então se for algo que vai fazer bem, eu super apoio... pelo que li na internet é um processo foda mas necessário pra transição rolar numa boa.

- Que bom que você é esclarecida... - Ela me olhou, sorriso bonito, sombra nos olhos, brinco discreto, pescoço com um colar pequeno de pérolas - E no que mais eu posso te ajudar?

- Assim... tem uma coisa que ta me irritando nele que é tipo: beleza, ele vai transicionar e virar mulher tanto por dentro quanto por fora, belê - Olhei em volta como se procurasse as palavras - O que fode é que tipo, ele ta protelando a coisa de ir falar pros pais dele sabe? E isso me incomoda profundamente, porra... como que ele vai virar mulher e não vai contar pra família de sangue?

- É realmente algo complicado sabe, Bethina - Ela grifou algo - É algo que estou tentando construir nele, ter essa confiança, esse último salto de fé, se expor sem medos, bater no peito e dizer "olha só, essa sou eu", desde algumas experiências recentes onde ele ficou montada no meio de várias pessoas em uma chácara ele dava sinais de que ia sair disso mas... regrediu um pouco, avança duas casas, volta três - A mão dela veio à minha - Acho que você tem mais influência sobre ele do que eu... insiste, faz greve, se afasta dele até ele tomar alguma atitude... eu acho que você ele vai ouvir, até mais que eu ou a... - Freio de mão - enfim, consegue isso?

- Consigo - Ela tinha segurado um nome, será que era quem eu pensava? Dammit - A senhora cutuca ele na próxima sessão... e eu sito dando um gelo.

- Perfeito! - Selamos o acordo com um aperto de mão - infelizmente por hoje nosso tempo acabou... te vejo semana que vem?

- Vê sim... é bom ter com quem conversar, desde que cheguei aqui só saí com algumas conhecidas pra falar amenidades e com Fê...

- Vai dar tudo certo - O sorriso extremamente sincero era capaz de fazer a paz mundial acontecer - Seja forte.

- Serei!

E assim acabou a minha primeira sessão de terapia. Voltei pra casa pensativa, tanto pra resolver e tão poucas ideias. Bem dizem que santo de casa não faz milagre... ou será que faz? Em uma passada rápida pelo shopping uma loja me chamou a atenção... Merda. E aquela cena de ontem? Puta que pariu. Tive uma ideia nefasta. Assim que Fernando se decidisse eu daria uma noite pra ele não esquecer. Assim que cheguei em casa avisei pra ele que tinha chego em casa e ia dormir, afinal, ainda tinham dois dias na semana. "Dorme bem, te amo". Esses redatores e suas vírgulas. 

Me senti babá na quinta-feira ensinando meia dúzia de trainee sobre a empresa, mostrando os setores, apresentando a história... graças a oxalá a Isadora - uma ruiva dona de um lindo par de coxas - fez uma apresentação e foi a oradora na maior parte da caminhada. Na sexta um dos trainees foi parar na comunicação e lá fui eu colocar ele em seu devido lugar: junto dos estagiários, sou sucinta  "se ajudem, se virem, fucem esse material, qualquer coisa eu estou ali na frente, mas sugiro mandar mensagem pela rede interna porque o Borges não suporta gente zanzando". E assim o dia passou com minha helpdesk de estagiários. Tentei ser o mais didática possível e as coisas iam se encaixando. 

Fernando ia para a terapia e eu pra casa, uma passada no mercadinho e a janta se tornou uma bela omelete. Janta feita, banho tomado, pijama confortável, série de terror no streaming, nada como a fantasia pra tirar a gente da realidade um pouco, Freud deve ter alguma explicação pra isso e deve envolver a mãe de alguém. 

Vinte e duas horas e oito minutos. A tela do celular acende.

"No meio do ano."
"Quer ir comigo? Preciso do seu apoio."

Foda-se a hora. Troquei de roupa, fiz uma mochila rápida, tranquei tudo, reguei as plantinhas. Chamei um carro pelo aplicativo. Preço dinâmico. O dobro do preço habitual, foda-se. Não tinha respondido a mensagem, me cocei várias vezes para responder, mas me controlei. O porteiro já me conhecia e, depois do meu pedido, ele não avisou da minha chegada.

Vinte e duas horas e cinquenta e quatro minutos. Toquei a campainha. Hoje a noite prometia.

sábado, 18 de janeiro de 2020

CdF s2e2: Raiz-2

Não vou dizer que não tenha aproveitado as férias, mas é aquela coisa: é uma merda ter que voltar a trabalhar. Não que eu não gostasse do meu trabalho, pelo contrário, eu amava. Mas preferia um milhão de vezes ficar em casa curtindo a ter que acordar cedo e vir trabalhar. Por sorte tinha Fernando do meu lado. Mesmo que às vezes ele desse umas opiniões completamente idiotas.

Falar nele era bom vê-lo assim, tranquilo. Quando falei com a psicologa dele a primeira vez me assustei, ele havia tentado se matar meses antes da gente se conhecer. Também não consigo imaginar a barra que é se sentir uma pessoa e ser outra por fora. Não que ter me assumido lésbica tenha sido moleza, mas eu ainda era a mesma mulher que nasci, agora ele queria mudar completamente o que nasceu. E eu fui me apaixonar por uma criatura assim, pode parecer estranho, mas só reforçou minha predileção por mulheres.

Só que até ele virar ela completa levaria um bom tempo ainda e eu estava disposta a seguir todo esse processo, aturar as mudanças hormonais, as mudanças do corpo... pelo que pesquisei seria como ter uma puberdade forçada e condensada em dois anos de tratamento hormonal que daria uma penca de reações adversas além de dores da musculatura se adaptando com a nova carga hormonal... a psicologa sugeriu que eu passasse a fazer sessões com ela para suportar tanta mudança assim, isso, claro, se eu quisesse ficar com ele. E, como eu queria, marquei as sessões pras quartas-feiras, era o dia que o lado menino de Fernando aflorava vendo futebol, nada exagerado ou fanático, ele apenas gostava e não era nocivo, no entanto acabei não falando com ele que, a partir da próxima semana, eu também bateria ponto na psicóloga.

Talvez por ainda não ter chego em um ponto espiritual tão singular quanto o dele meditar era difícil, mas gostava de estar perto dele, queria aceitar as propostas dele de morarmos juntos, mas não agora, faria algumas sessões de terapia para confirmar que eu conseguiria segurar esse rojão praticamente sozinha. Eu era forte, decidida, não havia porque duvidar da minha capacidade... porém né, ajuda nunca é demais e, por isso mesmo, vê-lo atravessar tudo isso só com ajuda psicológica e a minha não era certo, já havíamos conversado algumas vezes dele falar logo para seus pais sobre a transsexualidade e os passos que iria seguir nos próximos meses, mas escorpiano como é, emburrava e nada o fazia mudar de ideia. Resolvi insistir mais uma vez.

- Eu acho que você devia falar logo - Ele permaneceu de olhos fechados, como se não tivesse me ouvido - Sério mesmo, quanto mais demorar pior vai ficar.

- Melhor não... - Como sempre ficou na defensiva, tinha que começar as consultas para saber lidar com isso, essa negação dele me incomodava pra caralho - ... eles não vão receber bem.

- Que não recebam ué - Lembrei de quando me assumi lésbica, não foi fácil, mas foi necessário - O que não pode é você ficar enganando eles mais tempo.

- Eu não estou enganando eles - Apesar de amar meu cabelo achava lindo o movimento do cabelo dele, mesmo que fosse para prender - Estou poupando eles de...

- ... De quem você é - Interrompi, francamente, eu devia parar, mas me senti tomada pelo gênio briguento, acho que estava para entrar na TPM - Eu acho isso super errado, cara, sério, uma coisa é você não contar pra ninguém aqui da empresa, outra coisa é não contar pros seus pais... - suspirei - sua família!

- Sabe que eu não tenho essa ligação toda com a família né?

- Sei e acho errado pra caralho.

- Errado por que?

- Depois de tudo que tive com o Lucca ninguém ficou do meu lado - Relembrar meu antigo namorado era um saco, odiava saber que ele já tinha cumprido a pena e estava pela rua, por sorte eu consegui uma ordem restritiva o que obrigou ele a ir morar no nordeste com algum parente distante, mesmo um merda como ele teve o apoio da família e era isso que eu queria botar na cabeça desse idiota - Só minha mãe, ela me levou no hospital, ela me levou na delegacia, ela pegou turno dobrado para pagar terapia pra mim por um tempo...

- Cada caso é um caso - Senti o sangue ferver, odiava quando ele relativizava - Nunca tive essa ligação toda com meu pais.

- Pois nunca é tarde pra isso, amanhã depois eles morrem e aí, fica como?

- Sei lá - Decididamente essa discussão ia acabar em tragédia, só que o trem desgovernado não pára simplesmente porque as pessoas dizem que não querem o descarrilamento - Não faço a menor ideia.

- Pois quando fizer - Levantei ao passo que ele ficou sentado no banco de concreto, dei um beijo suave nos cabelos - Me procura, posso até ir com você pra explicar tudo.

- Não vai rolar... não vai rolar mesmo.

- Por besteira da sua parte né, Fernando.

- Ah sim - Pronto, agora a merda estava feita, eu podia só ter dado o beijo e saído, mas não, tive que continuar provocando, parabéns pra mim - E o que acha que eu devia fazer, dona Bethina? Chegar "oi mãe, então, sabe o seu filho? Ele é uma mulher trans, daqui pra frente chama ela de Fernanda e ele vai cortar o pinto fora... sabe o teu sonho de ter netos? Pois é, já era." sem chance né?

- Nossa cara - Eu realmente fiquei puta da cara, que merda, confesso que a vontade foi dar um soco bem dado no meio desse nariz, colocar dentes na boca do estômago, mas respirei fundo e, mentalmente, tentei contar até dois, nada feito - Quando quer você consegue ser escroto pra caralho.

Esperei um segundo a resposta dele. Não vinha nada, eu sabia que tinha passado de um limite, mas ele também não colabora, cada vez que tento ajudar, a buscar uma solução, a escavar mais pra desenterrar todas as raízes dos problemas dele ele vira um caminhão em cima e esconde tudo. Já estava puta demais para continuar ali, por isso resolvi voltar para o setor, com sorte ninguém teria voltado e eu podia ficar sozinha em um pufe pensando o que faria dali pra frente. Cheguei a pegar o celular pra ouvir alguma música, mas não queria contaminar canção alguma com esse sentimento ruim. Ouvi passos, tinha certeza que era ele. Dito e feito. Tinha horas que ele era extremamente previsível.

- Desculpa - Ele esticou o dedo minimo, não correspondi - Falei besteira.

- Sabe, cara - Suspirei tentando não dar a ele o gosto de ver uma lágrima minha - Você fala assim de família e quer que eu seja a sua família... não dá sabe?

- Nada a ver, você...

- Eu o quê? - Senti o sangue borbulhar dentro das veias - Amanhã depois você passa a me achar complexada como sua mãe e passa a esconder coisas de mim... super entendo esconder a parada do crossdresser durante a adolescência e até sair de casa, mas agora você está em outro patamar, você é adulto, paga suas contas... está perto de mudar completamente para deixar de suprimir, pra deixar uma parte sua tão linda ver a luz e fica procurando formas de soterrar tudo isso... é meio como sua psicóloga me disse dia desses, parece que a cada vez que chega em uma raiz de problema você enterra elas cada vez mais fundo... eu tô cansada disso sabe? Quando você se decidir de mostrar pro mundo inteiro o que você é e foda-se o resto... me avisa.

Eu sabia que ele iria dizer algo e eu acabaria me derretendo pela fala macia dele. Mas eu precisava dar pra ele esse choque de realidade, mostrar que não é só a forma como ele vê o mundo e as coisas é que estão certas, existem muitas maneiras de se recortar uma imagem, algumas são melhores pra uns, outras pra outros e assim é a vida, aprender com os outros técnicas para suportar melhor essa coisa que é o mundo. Por isso me levantei, dei um beijo na testa dele e me sentei em frente do computador. Torci para ele não se sentar logo em seguida, pois me veria não controlar as duas lágrimas que rolaram pela minha face.

Sinceramente eu queria ajudar ele mais do que tudo, mas não via meios, toda forma que eu tentava recebia um bloqueio, um beco sem saída ou uma pá de terra. Espero que a psicologa me dê uma luz quanto a isso tudo. Porque, mesmo com todos os seus defeitos eu amava a pessoa que ele era, fosse masculino carregando as compras do mercado sozinho, fosse super feminina usando uma saia godê com avental enquanto cozinhava com extrema habilidade. Restava saber o quanto eu estava disposta a ir na toca do coelho. Pensar nisso me lembrou de Alice, a primeira mulher com quem tive uma relação maior que sexual... talvez fosse a hora de dar uma de chapeleira maluca e buscar outra saída para essa disputa. Ponderei mil vezes me virar e aceitar as desculpas de Fernando, mas mil e uma vezes me impedi disso, hoje eu precisava ficar na minha e deixá-lo pensar por si mesmo. Lá vinha o Borges e o pessoal do setor. Ótimo.

CdF s2e1: Raiz

As férias da empresa tinham sido boas e o começo do ano não prometia grandes sobressaltos além dos habituais: pessoas saindo, pessoas chegando, produtos novos, produtos saindo de cena. Curioso como estando no meu terceiro ano aqui tudo parecia entrar em uma espécie de automático, pois logo já era fevereiro, março e só me dei conta do mês quando comecei a ver ovos de páscoa no mercado e os estagiários da comunicação fizeram artes para a páscoa e pediram minha opinião.

Bethina ainda declinava da ideia de morarmos juntos. Dizia que cada um precisava do seu espaço e que ainda tinha mágoas do passado para curar. Claro que isso não impedia que, vez por outra, dormíssemos na mesma cama, fizéssemos viagens juntos, mas às vezes era estranho chegar em casa sozinho. Claro que tudo podia ser questão de tempo. Nosso relacionamento não era segredo na empresa e não afetava nossa produtividade - pelo contrário, só azeitou mais a afinidade - e como não havia reclamação dos passarinhos do galho de cima, tudo seguia em paz.

A terapia estava avançando e a decisão já estava tomada, claro que ainda não tínhamos batido o martelo e eu esperava pela opinião de outros dois psicólogos para chancelarem o "diagnóstico" e isso era demorado pois eu tinha que fazer algumas sessões com outros profissionais, contar a história toda de novo... era quase um telemarketing psiquiátrico. Ri pensando isso enquanto meditava ao lado de Bethina no terraço. 

Foi interessante como convenci ela de almoçar rápido e vir aqui pra cima meditar. Também era notável o quanto as hortaliças produzidas aqui eram de boa qualidade mesmo com a poluição da Metrópole. Metade do terraço se tornou lar de pés de alface, brócolis, cenoura, tomate, manjericão, orégano, tomilho além de morangos que só brotavam perto do final do ano. Para fazer troça Leonardo, uma espécie de valete de Rafaela, dizia que só faltava criar galinhas aqui em cima, minha vontade era perguntar se família dele iria gostar de morar aqui. Mas, claro, guardava respostas ácidas dentro de mim.

- Eu acho que você devia falar logo. - Ela abriu os olhos lentamente - Sério mesmo, quanto mais demorar pior vai ficar.

- Melhor não... - Bethina tentava me convencer de que era melhor eu falar logo para meus pais dos meus planos de transicionar gênero - ... eles não vão receber bem.

- Que não recebam ué, o que não pode é você ficar enganando eles mais tempo.

- Eu não estou enganando eles - Joguei a cabeça pra trás prendendo meu cabelo que agora já era passível de fazer um rabo-de-cavalo honesto - Estou poupando eles de...

- ... De quem você é - Abri os olhos olhando o horizonte repleto de prédios - Eu acho isso super errado cara, sério, uma coisa é você não contar pra ninguém aqui na empresa, outra coisa é não contar pros seus pais... sua família.

- Sabe que eu não tenho essa ligação toda com a família né?

- Sei e acho errado pra caralho.

- Errado por que?

- Depois de tudo que tive com o Lucca ninguém ficou do meu lado - Ela me olhava fixamente, um olhar que, devo dizer, era como um imã, pois me fez virar a cabeça e olhar para ela - Só minha mãe, ela me levou no hospital, ela me levou na delegacia, ela pegou turno dobrado pra pagar terapia pra mim por um tempo...

- Cada caso é um caso - Odiava essa história, em parte porque eu sentia o sangue subir e a vontade de fazer esse cara pagar usando de violência era imensa e, em parte, porque minha família era toda desunida mesmo - Nunca tive essa ligação toda com meus pais...

- Pois nunca é tarde pra isso, amanhã depois eles morrem e aí, fica como?

- Sei lá - O assunto estava me chateando, voltei a olhar para o panorama de edifícios - Não faço a menor ideia...

- Pois quando fizer - Ela se levantou, me deu um beijo nos cabelos - Me procura, posso até ir com você pra explicar tudo.

- Não vai rolar - Sorri de canto - Não vai rolar mesmo...

- Por besteira da sua parte né, Fernando.

- Ah sim - Me levantei me virando pra ela - E o que acha que eu devia fazer, dona Bethina? Chegar "oi mãe, então, sabe o seu filho? Ele é uma mulher trans, daqui pra frente chama ela de Fernanda e ele vai cortar o pinto fora... sabe o teu sonho de ter netos? Pois é, já era." sem chance né?

- Nossa cara - Ela balançou a cabeça negativamente - Quando quer você consegue ser escroto pra caralho.

Aquela frase havia sido pesada. Eu não tinha resposta, afastei os lábios, porém nada saiu, no entanto não adiantaria nada, pois logo em seguida ela rodou nos calcanhares e sumiu na escada que dava acesso aos andares inferiores. Joguei a cabeça para trás respirando fundo. 

Merda. 

Trinta segundos haviam se passado e eu resolvi tentar resolver a situação. A sala da comunicação estava vazia, apenas Bethina com o corpo jogado em um dos puffes parecia ocupar a sala toda com sua presença. Eu, ao contrário, me sentia pior que a mosca do coco do cavalo do bandido. Me aproximei dela já me abaixando para ficarmos na mesma altura.

- Desculpa - ofereci o dedo minimo para ela - Falei besteira.

- Sabe, cara - Ela não retribuiu o gesto, estava magoada, pois olhava para o vazio da parede - Você fala assim de família e quer que eu seja a sua família... não dá sabe? 

- Nada a ver, você...

- Eu o quê? Amanhã depois você passa a me achar complexada como sua mãe e passa a esconder coisas de mim... super entendo esconder a parada do crossdresser durante a adolescência e até sair de casa, mas agora você está em outro patamar, você é adulto, paga suas contas... está perto de mudar completamente para deixar de suprimir, pra deixar uma parte sua tão linda ver a luz e fica procurando formas de soterrar tudo isso... é meio como sua psicóloga me disse dia desses, parece que a cada vez que chega em uma raiz de problema você enterra elas cada vez mais fundo... eu tô cansada disso sabe? Quando você se decidir de mostrar pro mundo inteiro o que você é e foda-se o resto... me avisa.

Quando eu fiz menção de continuar a conversa ela se levantou do puffe, me deu um beijo na testa e se sentou no computador. Fiquei congelado naquela posição como se o beijo fosse de um dementador que sugou de mim a capacidade de locomoção. Todas as palavras tinham sido jogadas no chão como um quebra-cabeças e eu não conseguia achar a ordem correta para colocá-las. Na hora que tudo começou a se encaixar o setor voltou a ter mais pessoas tornando impossível qualquer outra conversa além de trabalho.

Respirei fundo tentando entender qual o problema que havia comigo. Por que tinha essa mania de enterrar tudo o que eu sentia? De onde vinha essa coisa de não ser eu mesmo com medo de incomodar os outros? Me reprimir para que as pessoas ficassem bem com elas mesmo. Sempre fui assim, para manter os outros em paz eu me colocava em posição inferior. Não conseguia concatenar as palavras que queria dizer à Bethina, dois metros do meu lado, tudo que pensava era apenas mais uma desculpa, mais uma fuga, mais uma pá de terra soterrando as raízes das minhas neuras. Por sorte Borges me encheu de trabalho, assim eu podia parar de pensar em quem eu sou. Ótimo.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Ano Um

Olá pessoas, como estão?

Hoje pode ser só um domingo a mais (ou a menos) no calendário, mas, um ano atrás, dia 5 de janeiro de 2019, era sábado e eu estava sozinhe em casa. Foi ali que, umas dez horas da manhã o carteiro bateu, assinei a entrega da encomenda e... puta merda! Minha saia! Minha primeira (e ainda única) saia!

Olhando pra trás vejo que algumas coisas mudaram em mim depois disso, confesso que quando comprei fui mais movido pelo tesão da situação do que por tudo que podia desencadear. E como desencadeou coisa! A começar por algumas amigas que viram as fotos deram total apoio, falaram inclusive que era bom me ver feliz... e sim, naquele dia, naquela noite, eu fiquei em um nível de felicidade tão grande, mas tão grande que cheguei a achar errado ter ele. Aí desencadeou o outro lado, as inquietas sombras vieram com tudo nos dias seguintes... mas olha só: sobrevivi!

Fora isso 2019 foi o ano que tive uma Domme remota e, por N motivos, deixei que ela fosse embora. Felizmente depois a amizade acabou restando e pude conhecer melhor a pessoa, despida daquela autoridade toda. Tá sendo divertido, fora que ela também é mais gênero fluído... wait, no.

Sobre isso tanta coisa correu na minha cabeça esse ano que passou que olha, não sei se conseguiria expor tudo em palavras nem que tentasse. A verdade é que ando lendo/vendo muita coisa pra compor Fernandes e acabo me identificando com algumas histórias e... enfim.

Já que eu falei dos contos, quem diria que eu conseguiria compor uma personagem crossdresser que começou como um spinoff de outra história e desabrochou como personagem com mais de 20 páginas escritas! Realmente o material acabou rendendo mais do que o esperado e, no fim, eu adorei o caminho que a personagem tomou. E sim, foi a personagem que tomou o caminho, não eu, eu só escrevi, quem faz as escolhas é ela, eu só transcrevo o que acontece.

Vou confessar que esperava estar alguns passos adiante no que tange a minha pessoa, queria ter mais peças de roupa, um empreguinho fixo e tals... mas 2019 não rolou isso. Mas 2020 vai rolar, nem que seja na marra haha

No mais é isso, estava com saudade de escrever mais sobre meus corres aqui. Só não passo o twitter porque logo devo mudar o user, mas lá tenho falado mais sobre minhas neuras, meus dilemas filosóficos, minhas experiências e sentimentos/sensações.

Cuidem-se, pessoas! As Cronicas de Fernandes voltam logo! Quem sabe amanhã ou depois não volto trazendo boas notícias? Vamos ter fé um pouco.

E não esqueçam: Mantenham-se fiéis ao que vocês acreditam e, se não fizer mal pra ninguém (sobretudo você mesme!) não se prive de fazer. Se quer fazer, vai lá e faz. 


ps.: só que como vivemos em tempos estranhos, cuidem-se, mesmo! Nunca se sabe quando um bocó vai aparecer disposto a querer descer a porrada na gente.