sábado, 18 de julho de 2020

CdF s2e19: Encaixe

A buzina do barco significou o fim daquelas pequenas férias, importantes não só para descansar como também para Fernanda colocar seus demônios sob seu controle. Tantos anos planejou àquela conversa e quando ela veio foi algo tão leve que se sentiu idiota de ter ficado tanto tempo protelando. 

Conforme o veículo se afastada do pier onde Sônia havia ficado Bethina ofereceu o colo à noiva ciente de que aqueles dias todos seriam o gás que precisava para encarar uma nova realidade. Muito embora uma mensagem, recebida no dia anterior a fez sorrir e ficar mais leve. Era algo tão incrivelmente bom que não conseguia imaginar como aconteceu, porém, assim que chegasse marcaria um café com a portadora de boas notícias. Mas esperaria chegar na Metrópole para as boas novas.

A travessia entre a ilha e o continente não costumava demorar mais do que quarenta minutos, uma hora se o mar estivesse mais agitado. Por ser fora de temporada haviam poucas pessoas na embarcação, meia dúzia de nativos, outra meia dúzia de turistas além do casal que não notava os olhares de estranhamento de um homem de idade aproximada dos cinquenta anos.

Uma vez atracado no continente todos os ocupantes desembarcaram tendo em Bethina e Fernanda os últimos a saírem do veículo. Caminhavam conversando alegremente sobre bons ensaios que fariam na próxima visita à ilha, sem nenhum pudor Fernanda dizia quais vestidos usaria e em quais horários, Bethina, por sua vez comentava ângulos de câmera, valores de exposição e detalhes técnicos. Ao sentarem para esperar o ônibus que as levaria até a cidade próxima onde passariam a noite para, só então, voltarem à Metrópole o homem não se aguentou.

- Chega a ser um desperdício uma mulher dessas com um viadão desses...

- Como é que é? - O espírito guerreiro de Bethina inflamou - Tá falando com a gente?

- Além de viadão é frouxo - o homem escarrou no chão em um ato que, na sua cabeça, significava desprezo - Não se fazem mais homens como antigamente... no meu tempo mulher minha não ia nem sair na rua com uma saia tão curta.

- Repete - Fernanda deixou a testosterona que ainda circulava nas veias dominar a ação se levantando e indo na direção do homem - Anda seu monte de bosta, repete.

- Olha só, a bichinha resolveu virar homem - O algoz gargalhava frente aos olhares perplexos do outro casal de turistas que aguardava o mesmo ônibus - Começa cortando esse cabelo, puta cabelo de viadão.

- Deixa pra lá, amor - Bethina respirou um segundo deixando o sangue esfriar - Não vale a pena brigar com um frustrado desses...

Quando Bethina deu um passo para o lado o homem passou como um vulto pelo seu lado indo na direção de Fernanda que, rememorando suas aulas de karatê na infância, desviou do golpe batendo com o ombro no queixo do agressor. Como se fosse um golpe de luta livre a morena fez posicionou as duas mãos para segurar o homem enquanto Fernanda lhe aplicava uma rasteira para, em seguida, imobilizá-lo. Toda a cena não durou mais do que dez segundos, mas para o casal foi epifania de que o relacionamento estava em perfeita sintonia.

Os outros dois que não participaram da briga, nesse meio tempo, haviam acionado a polícia que chegava para levar o homem. Queixa e flagrante. Desde que o antigo governo tinha sido varrido para fora do poder as poucas células de intolerância que restavam iam sendo dissolvidas. Os que não demonstravam aptidão em aprender a, no mínimo, aceitar que aquele tipo de pensamento não tinha mais vez no mundo atual, eram convidados a se retirar da sociedade. Soava um pouco ditatorial, mas era a única forma que o novo governo encontrou para resolver a situação diante da terra arrasada que encontrou.

Passados os instantes acalorados naquela tarde de final de julho os dois casais seguiram juntos para a cidade. Eles eram de lá mesmo, trabalhavam no setor portuário mas almejavam ir para o setor de logística ou até mesmo comunicação. Esse foi o mote para longas horas de conversa regados à boa comida e bebida gelada.

Já instaladas no hotel enquanto Fernanda estava no banho Bethina respondia às mensagens que recebia. Ao sair do banho a recém-empossada mulher quis saber o que tanto a noiva falava no celular. A morena se recusava em dar um fim às dúvidas, apenas dizia que sentia algo bom vindo no horizonte e era melhor elas dormirem pois o ônibus saía ao amanhecer.

Uma vez instaladas e ganhando a estrada Bethina não cabia dentro de si tamanha a alegria que tinha na palma da mão, Fernanda, em um lance rápido, tomou o celular da noiva e foi procurar, sob protestos, o que trazia tantos sorrisos ao rosto dela. Leu diversas mensagens aleatórias até chegar em um nome específico. Reconhecia a foto. Ousou ler.

- É sério isso?

- Sim! Seríssimo!

- Puta merda... - Fernanda não conteve as lágrimas - Motorista, acelera isso que estamos com pressa!

Nunca desejou tanto estar em um avião indo de Mar Redondo para a Metrópole. Tanta coisa para resolver e tantos quilômetros adiante, oito horas de estrada pela frente e um dia inteiro em casa para poder desarrumar as malas e lavar a roupa. Tentou enviar mensagem do seu número para a portadora de boas notícias, mas o sinal era péssimo e, entre ter uma crise de ansiedade e aprender a esperar, optou pela segunda e se deixou cochilar. Tudo estava, finalmente, se encaixando.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

CdF s2e18: Mansidão

Ver Fernanda na água, brincando de pular ondas me fazia sorrir. Puxei o ar sendo brindada pelo cheiro salgado do mar e de café. Sônia, mãe dela vinha com uma térmica e duas canecas.

- É uma pata né? - Ela se sentou ao meu lado na pedra - Posso te confessar uma coisa, minha filha?

- Claro! - Uma das xícaras veio à minha mão e logo a bebida dos deuses se fez presente - Sou toda ouvidos.

- Não fala pra ele... ela... mas eu ainda tô bem confusa com tudo isso sabe?

- Sei e te entendo perfeitamente...

- O desabafo é meu mas pode falar se quiser - Brindamos com café - Acredita que não consegui ensinar ela a beber isso aqui?

- Ah, nem me fala - Suspirei bebendo um gole e todo aquele vento gelado dissipou - Quando fui no apartamento dela eu estranhei.

- Aproveitando o ensejo - Ela bebeu um gole e a reação foi igual a minha - Como vocês se conheceram?

- A gente trabalhava na mesma empresa, papo vai, papo vem... ela é minha melhor dupla de criação, ela é, como redatora, o que eu sou como designer, nos completávamos tão bem que fomos notando afinidades e um dia ela torceu o pé e tirou uns dias de folga, quando fui lá, já com más intenções - Ri ruborizando um pouco - Acabou que nos conhecemos melhor...

- E ela já foi te falando desses... - Ela ponderou um instante - Desejos?

- Não! Isso eu fui descobrir na manhã seguinte... 

- Manhã seguinte - Dona Sônia franziu o cenho - Esses jovens de hoje - Rimos - Mas continue.

- ... Então, na manhã seguinte eu fui fuçar, porque na minha cabeça eu tava 'como que um cara legal desses, bonito, com um apartamento tão bem cuidado não tem ninguém?' e cheguei no guarda-roupas, achei saias, vestidos, sapatos... - A sogra tentava achar normal, mas a situação ainda era incômoda para ela, não tiro a razão - ... Fui pro conflito, falei que ela tinha alguém e tudo mais...

- E aí? Ele... ela confessou tudo?

- Não, ficou quieta e como eu também sou sangue quente saí de lá... resumindo: o stress da situação fez meu apêndice estourar e fui às pressas pro hospital, fiquei quase uma semana internada e sem conseguir falar com ela.

- Nossa senhora - Sônia deu um gole curto no café - E aí?

- Aí eu expliquei que não sumi por vontade própria, pressionei e ela assumiu tudo... foi bem... chocante... - Bebi um gole longo, puta merda como eu amo essa bebida - Por isso te entendo, sei o quanto é assustador tudo isso, ainda mais com filho, mas, com o tempo, você nota que é a mesma pessoa, não mudou, tudo o que você gostava nela está ali ainda e tem um milhão de coisas novas pra gostar... - Bebi mais um gole - Ou não, e assim é a vida.

- Nossa - Olhei para o lado e ela chorava copiosamente - Você devia trabalhar de terapeuta, leva jeito.

Nos abraçamos evitando desperdiçar o café já semi frio nas xícaras. Se para mim, que logo cedo, me descobri bissexual com preferência em meninas já foi difícil ter aceitação em casa, imagina isso, de repente o filho único vira... filha. O baque ia ser foda e era algo que ela só podia aceitar sozinha.

- Desculpa perguntar isso... - Desfizemos o abraço - Mas... a senhora é divorciada né?

- Eita - Ela enxugou a lágrima - Senhora é sua vovózinha - Rimos - Mas sim, nos separamos tem mais de dez anos...

- E o pai dela, por onde anda?

- Não sei ao certo, perdemos contato, mas a última vez que soube ele estava saindo do Uruguai e ia para o Chile, dizia querer conhecer o Atacama e quem sabe ser abduzido pela espaçonave que o trouxe...

- Sério?

- A parte da espaçonave é brincadeira, ele sempre gostou dessa coisa de alienígenas e tals - Ela sorriu um sorriso saudoso - Mas a parte do Chile sim.

- Que doideira... Ela nunca fala dele.

- Normal, o divórcio foi um tanto traumático pra ele - Ela passou a olhar o horizonte - Do nada as fundações da vida somem, até me admira que vocês estejam de anel e tudo - Olhei para meu anel - Ele sempre disse que não ia casar e tudo mais... digo, ela - Um longo suspiro - Vou demorar pra acostumar.

- Mas logo acostuma, eu precisei de uns dias pra assimilar tudo também...

- Ah, mas você é jovem - Ela se serviu de mais uma caneca de café - Vocês aprendem tudo rápido.

- Nahhh - Fiz careta - Fui fazer terapia pra aceitar bem...

- E aceitou? - Ela me olhou de canto - Quero dizer, está sendo, como dizem vocês jovens, de boa?

- Nem tanto viu, tem dias que é um pouco difícil assimilar tudo ainda...

- Se é difícil pra gente - Dona Sônia tomou um farto gole da bebida enquanto Fernanda ia saindo da água e vindo na nossa direção - Imagina pra ela - Eu não tinha resposta pra isso - Mas sei que vai cuidar bem dela.

- Sabe?

- Claro que sei.

- E como tem tanta certeza?

- Se não cuidar eu quebro sua cara - Ela me olhou rindo - Olha que imensidão de lugar pra enterrar um corpo... brincadeira, vejo que você é uma pessoa do bem, Bethina, vai ficar tudo bem.

Realmente essa viagem não era só para Fernanda, era pra mim também. O tanto de coisa que eu acabei descobrindo e encontrando aqui era, sem sombra de dúvidas, muito mais do que eu esperava. Dentro de mim uma mansidão se fazia vendo ela vindo, aspirei profundamente aquele ar delicioso. Foda-se minha cidade natal ou a Metrópole, aqui era meu novo lugar favorito no planeta. Essa senhorinha do alto dos seus sessenta e poucos anos me trouxe algo que eu não tinha, algo que eu não conseguia definir bem na bagunça que é a vida em uma grande cidade, a voz calma, a confusão em entender tudo, o café quase sem açúcar... acho que ganhei uma segunda mãe.

terça-feira, 9 de junho de 2020

CdF s2 e17 - Sujeira

- E aí - Bethina se sentou do meu lado na pedra em frente do mar - Como se sente?

- Como se tivesse tirado o mundo inteiro dos meus ombros.

- Não posso dizer que sei como é, mas acho que foi mais ou menos como quando falei pra minha mãe sobre gostar de meninas...

- Somos um nicho interessante - Ri arrumando uma mecha de cabelo que o vento insistia em tirar de trás da orelha - Quer dizer, eu sou o nicho do nicho.

- Mas ela nem se acha - Ela fez careta rindo em seguida - Falando um pouquinho sério agora... fiquei muito feliz pelo passo que você deu aqui, eu imagino que era isso que faltava para que se sentisse melhor...

- Era sim - Mexi os ombros - Era tudo que eu precisava para dar o próximo passo...

- Que vai ser?

- Você sabe - Hesitei um segundo - Transicionar.

- Muito bom te ouvir falar isso, sabe?

- É?

- Sua psi falou que a voz tem um poder fundamental na aceitação e compreensão das coisas, por isso falar, com a voz é fator primordial para que tudo se encaixe... tipo quando a gente estuda pra prova e conversa sobre com alguém.

- Faz sentido.

- Claro que faz, sou eu que estou dizendo.

- Ah, bem eu que me acho né. - Rimos - 'bora tomar um banho de mar?

- Cê ta doida, menina? Ta mó frio.

- Frio?

- Tô morrendo de frio, até toparia aquele teu chá fraco agora...

- E depois eu que sou fresca - Me levantei soltando o nó do vestido na nuca e o deixando cair revelando meu maiô roxo escuro, com o canto do olho notava Bethina me olhando, resolvi provocar - Que foi?

- Que bunda linda, puta merda, se não fosse minha noiva eu ia ter que te inventar... que ódio da sua bunda.

- Falou quem tem uma bunda mais redonda que a minha.

- Calaboca, vai logo nadar antes que eu te jogue na água.

Sabia que Bethina jamais teria força para me levantar e jogar no mar, mas o vento começava a mudar de lado e logo o frio viria tornando meu banho completamente impossível, no primeiro mergulho me virei para a imensidão agradecendo tudo que estava acontecendo. Não sei quanto tempo fiquei ali, em uma espécie de oração com o oceano. Quando saía da água pude ver minha mãe se aproximar de Bethina, conversarem algo e ela sair. Fiquei encucada nadando até a pedra.

- A água não ta gelada não? - Ela sorria me vendo sair e entregando uma toalha - Você sempre esqueceu da toalha...

- Obrigada - Sequei o corpo e deixei a toalha sobre os ombros - A água tá começando a esfriar, esse inverno vai ser frio.

- Provavelmente...

- Tem algo te incomodando, dona Sônia - Sabia reconhecer as microexpressões dela - diz ae.

- Eu passei os últimos dois dias lendo sobre o que você vai fazer, li relatos de pessoas que passaram pelo processo todo e... - Ela não conteve uma lágrima - Eu não sei o que pensar sabe? Quando você me mandou mensagem dizendo que vinha passar duas semanas aqui meu coração ficou radiante e apertado duma saudade estranha, eu sentia que vinha algo aí... E quando falou que ia trazer alguém achei que ia ser... - O choro foi interrompido pela face ruborizada - ... Um outro cara.

- Ah, mãe... - Ri em meio às lágrimas - Por muito tempo eu pensei que fosse gay ou algo assim sabe? Lutei comigo mesma, cheguei a ter algumas experiências... Digamos assim exóticas... Mas no fim a que mais faz sentido, a que me acalmou o espirito é como estou hoje.

- E por que nunca me falou sobre?

- Essa é a pergunta de um milhão de dinheiros... - O frio tomou minha espinha, mordi o lábio inferior pensando em quais palavras usar, como concatenar as ideias - Em parte porque nem eu sabia onde ia chegar, qual era o objetivo disso tudo, por que eu... - Respirei fundo - E em parte porque eu sentia aqui dentro que eu devia ser alguém antes de fazer qualquer coisa, ter um bom emprego, estabilidade financeira, um canto só meu...

- ... Acho que tenho que te pedir desculpas, então.

- Como assim?

- Sempre te cobrei tudo isso antes de querer ser quem se é, sempre disse coisas como 'pra ter seu lugar tem que ser alguém primeiro' - Ela não conteve às lágrimas, muito menos eu - Você me perdoa, filho?

Não consegui responder. Tudo que fiz foi chorar e abraça-la tão forte que pouco importava se eu estava molhada ou ela tivesse me chamado de filho, era impossível pra mim mensurar a avalanche de informações que ela havia recebido nos últimos dias e tinha que lidar assim, do nada. Perdi a noção de quanto tempo se passou, sei que quando reabri os olhos já estava escuro, a noite caiu tão pesada e rápida que as estrelas já polvilhavam o céu. Desfizemos o abraço, recoloquei o vestido e fui ofereci a mão.

- Não tem nada que pedir desculpa... - Começamos a caminhar até a casa - Vai parecer presunção... Mas faz terapia um tempo, ajuda pra caralho pra colocar os pensamentos em ordem.

- É uma... - Ela apertou minha mão - Você ta fazendo?

- Tô sim, a empresa paga uma muito boa... Falando nisso, a senhorita anda se cuidando né?

- Ando sim, mas não tomo mais os remédios - Fiz menção de falar algo - Esse cenário, minha casinha, o quintal... Vale mais que qualquer terapia.

- Dona Sônia dona Sônia - Entramos no carreiro que ia até a casa - Mas pelo menos marca com a doutora Pâmela... 

- Nossa... Você foi nela um tempão atrás... É desde aquela época?

- As dúvidas e questionamentos? Sim...

Entramos no pátio sendo saudadas pelo magnífico cheiro de molho carbonara feito pela Bethina. Nadar sempre me deixou com fome. Mas antes precisava de um banho pra tirar o sal da pele.

- Arrumei uma nora prendada - Sem a menor cerimônia minha mãe abriu a porta, Bethina dançava ao som de tell'me bout it, eu já conhecia aquele nível de felicidade dela ao cozinhar - E ao que tudo indica boa dançarina.

- Bondade sua, sogrinha.

- Quer ajuda? Aliás - Dona Sônia me olhou - Vai tomar banho, criatura que eu botei no mundo.

Não ousei questionar. Afinal, mães não se questionam, se obedecem. Passei pelo quarto e peguei uma calça mais larga e uma camiseta. Afinal, estava ficando friozinho e eu não pretendia sair de novo. Era notável o quanto essa casinha evoluiu desde a última vez que estive aqui, o banheiro agora tinha azulejo até o teto, o box era novo, fora as toalhas com cheiro de amaciante. Quando aquela ágora morna molhou a primeira camada do meu corpo senti o peso completo de tudo escorrer de meus ombros e seguir pelo ralo, como se fosse sujeira saindo do corpo. Pensando assim era uma boa metáfora. Nossos medos são sujeiras. Algumas persistentes. Algumas irremovíveis. Algumas chatas. Mas todas sujeiras. Mas uma sujeira que só sai com o sabão certo.

No meu caso, as lágrimas de felicidade.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

CdF s2 e16: Oceano

Sempre torci para que esse dia não chegasse e, ao mesmo tempo, era a coisa que eu mais queria que acontecesse. Tenho certeza que se Bethina não estivesse ao meu lado eu jamais teria a coragem do que estava prestes a fazer. Desde que saímos da Metrópole eu me fechei em uma introspecção tão profunda que, todas as dúvidas que eu ainda tinha, desmanchavam-se tal qual linhas de tetris.

Sentados na mesa da cozinha, cheiro de bolo de cenoura fiz as apresentações de Bethina, falei do nosso noivado e que tínhamos planos. Minha mãe apenas sorria acompanhando tudo com uma generosa xícara de café. Mesmo sendo uma ilha era frio essa época do ano. Não sabia se queria minha cúmplice do meu lado ou não. No fim a própria disse que ia fazer uma ligação e já voltava. Esse era o momento. Eu sabia que não tinha telefonema nenhum e que ela estaria debaixo da janela ouvindo tudo e intervindo caso fosse necessário.

- A senhora não mudou nada, mãe... - Tomei a mão dela na minha - Só esse cabelo platinado.

- Gostou? Fiz luzes - Rimos - Já você... voltou ao cabelo comprido... conheceu alguém... ta trabalhando no que gosta...

- Verdade...

- ... Mas tem algo que está te incomodando - A habilidade analítica dela seguia afiada - Vai, fala.

- Eu não sei como começar essa conversa - Sorri amarelo - Na minha cabeça fiz tantos planos, tantas vezes e tantas possibilidades...

- Se não sabe como começar, vai pelo meio.

- Parece fácil... - Respirei fundo pegando o celular do bolso, achando uma das fotos daquele final de semana e mostrei para ela - ... Que acha?

- O que isso tem... - Ela olhou mais atentamente, acho que dona Sônia precisava refazer os óculos - ... é você?

- Sim.

- Ficou muito bonito... mas e o que tem a ver com o que você quer me falar?

- Então, mãe... - Respirei fundo, uma, duas, três, pensei nela como se fosse minha terapeuta, em tudo que vivi até aqui e o quanto tudo parecia reduzido nesse funil que agora não passava uma gota d'água sequer - ... Sabe, minha terapeuta disse que não seria fácil falar mas que eu precisava... até Bethina me encheu o saco pra eu definir uma data e vir aqui te falar sobre tudo isso que está acontecendo comigo.

- Continua enrolado - Ela deu um gole no café com um sorriso sincero nos lábios - Vai, um, dois e...

- ... eu não me identifico mais como menino e sim como menina - Ela parou - Nunca me identifiquei como menino sabe? Por fora eu podia até ficar mais tempo com essa aparência mais masculina, mas por dentro isso foi machucando, foi magoando, por isso que quando pintou o primeiro trabalho fora daqui eu fui sem muito planejamento sabe? Eu queria meu espaço sozinha pra pensar nisso tudo, poder fixar umas ideias na cabeça, descartar outras e chegar nesse ponto atual... eu quero viver o resto da vida como a mulher que eu sou por dentro mas, daqui pra frente, por fora também... - Respirei fundo, força - Eu sou uma mulher trans.

- Pronto - Ela lentamente pousou a xícara na mesa e se levantou vindo me abraçar, foi inevitável o choro - Eu sempre imaginei algo assim, sabia?

- S-s-sempr... - minha voz estava horrível e com a mão macia de minha mãe me acariciando os cabelos era como se toda aquela espera, todos aqueles anos esperando e planejando essa situação encontrassem aqui, nesse instante - C-c-como voc...

- Como eu sabia? - Ela deu um beijo na minha testa - As mães sempre sabem das coisas - Ela sorriu enxugando minhas lágrimas - Fora que tinha épocas que você nem tentava disfarçar... por muito tempo achei que você fosse gay, cheguei a cogitar isso...

- Quando isso?

- Lá pelos seus quatorze anos eu via que meu guarda-roupas sempre estava meio bagunçado, minhas calcinhas do avesso... primeiro pensei que fosse algo da puberdade, depois fiquei um tempo tentando entender, mas vi que você foi tomando um rumo e agora ta aí, me enchendo de orgulho...

- Orgulho?

- Lógico, você é uma pessoa de bem, não faz coisas erradas... - Outra onda de choro que fez outro abraço se fazer - ... eu só fiquei curiosa com a moça, é sua amiga ou é noiva mesmo?

- É noiva mesmo!

- Mas você acabou de dizer que é mulher...

- ... sim - Sorri ruborizando - E acho que lésbica. - Fiz uma caretinha - É meio confuso, mas eu amo ela e ela me ama.

- Ah bom, se tem amor o resto que se foda.

- Que isso, mãe.

- É a real meu filh... aliás, como eu devo te chamar daqui pra frente?

- Pode ser... Filha, Fê...

- ... Vou acabar errando às vezes, então me perdoe antecipadamente ta bem? - Ela sorriu - Sua mãe é um pouco lerda com isso... 

- Normal, todo mundo demora pra entender... 

- Pode sair daí, Bethina - Minha mãe ergueu a voz - Você é uma péssima ninja - Rimos enquanto ela saía de debaixo da janela e entrava pela porta da cozinha - Vê se faz ele feliz, digo, ela.

- Não precisa nem pedir.

- Mas e como vocês se conheceram? Aliás - Minha progenitora me olhou - Eu imagino que você queira ficar mais a vontade, não? Vai lá no quarto enquanto eu faço uma sabatina nessa moça aqui...

- Pega leve, dona Sônia.

- Vai logo - As duas falaram em uníssono e riram.

Os passos até o quarto foram como se caminhasse em um chão feito completamente e nuvens, a sensação de que aquilo era um sonho era tão intensa que me belisquei inúmeras vezes no corredor da cozinha até o que um dia já foi meu quarto e hoje era escritório e quarto de hóspedes. Ao longe ouvia as vozes, risadas e um papo fluindo tão leve que acho que as duas já eram melhores amigas de outra vida. Fechei a porta do quarto e me despi inteira. O corpo depilado. Comecei com sutiã com bojo, um calessom azul escuro e um vestido azul escuro com mangas bem curtas que tinha comprado alguns dias atrás com o objetivo de andar aqui. 

Era incrível como às vezes a gente protela coisas que na nossa mente são tempestades imensas e para os outros são apenas uma garoa fina. Diante do espelho passava uma escova rápida no cabelo só para separar os fios, da mala peguei a necessaire com base suave, com habilidade aprendida em centenas de horas de tutoriais do YouTube eu me julgava uma aprendiz, mas cobri as olheiras, fiz uma maquiagem suave am redor dos olhos, batom que deveria ser nude mas era três tons mais escuros que minha pele reforçava o contorno dos meus lábios, um brinco pequeno e nos pés o bom e velho chinelo de dedos. 

O espelho me sorriu.

Meu retorno à cozinha foi sorriso e elogios. Bethina se ofereceu para assumir as panelas enquanto eu e minha mãe caminhávamos pela praia, que tínhamos mais coisas para conversar. Essa minha noiva era abusada às vezes e o foda é que essa era uma das características que eu mais gostava nela.

E foi assim que, mais de vinte anos de enrolação viraram uma conversa que não durou meia hora e teve uma aceitação tão boa que me senti idiota por ter enrolado tanto tempo. Caminhamos em silêncio enquanto o vento gelado vindo do mar subia por minhas pernas. Durante aqueles passos diante do mar dezenas de outras perguntas vieram e todas respondidas com tanta maestria que se fosse a banca do TCC eu tiraria a maior nota possível. O mar cadenciava os questionamentos e a sua dissolução completa e, conforme falava, sentia ainda mais força para seguir adiante, cada palavra que dizia a confiança dobrava. Ao fim de mais de uma hora e com a boca seca voltamos para casa. Antes, parei um instante sozinha diante daquela imensidão. Juntei as palmas das mãos, inclinei a cabeça para frente sentindo-me abraçada pelo vento que agora era impossivelmente morno. Uma última lágrima rolou pela face. Abri os olhos.

Obrigada, Oceano.

CdF s2 e15: Mão

Eu podia sentir na mão dela a hesitação quando a voz quase robótica anunciou o nosso portão de embarque. Poderíamos ir de avião, mas a grana estava curta, mais a mais não havia voos para a cidade onde estávamos indo. Segurei firme a mão de Fernanda enquanto dava o primeiro passo com um sorriso fino nos lábios. Ela respirou fundo e deu o passo completamente fraco. Posso apostar que se eu não estivesse aqui ela não faria essa viagem, muito menos daria o salto de fé que, espero, que ela dê quando cheguemos à cidadezinha onde a mãe dela morava.

Quando entramos deixei que ela ficasse com a janela. Seriam quase dez horas de viagem, por isso cada uma trouxe sua própria playlist. Embora meu plano fosse dormir algumas dessas horas, friozinho, tão logo ganhamos a rodovia e as luzes do corredor se apagaram pude notar o silêncio dela e isso me cortava o coração. Mas não podia fazer nada agora, cada quilômetro era como uma badalada de um relógio que ela achou que nunca fosse despertar.

Fê gostava de ouvir alguns rocks pesados, podcasts de comédia e de saúde mental. Eu até gostava de alguma coisa que ela ouvia, mas minha playlist ia por algo mais introspectivo, jazz, soul, podcasts sobre política, empoderamento... coisas assim me davam ânimo e confiança no em mim mesma. Talvez por isso logo que saí da Lótus eu não tenha demorado dois dias para arranjar alguma outra coisa. Se bem que aquela mensagem da Freya me deixou encucada.

A verdade que aquele som baixo, o ar condicionado fresco e apaguei. Fui acordar já nos arredores do ponto final. Sentia a cara mais amassada que roupa depois de sair da máquina de lavar. A mão de Fernanda na minha, ela sorrindo de canto ao rever paisagens que já conhecia. Descer em uma rodoviária quase sem movimento onde aquele ônibus parecia o mais avançado da tecnologia que aquele lugar via foi a primeira sensação estranha.

- Bem-vinda a Mar Redondo, amor - Era a primeira vez desde que saímos da Metrópole que ouvia ela falar algo, aquele silêncio era ensurdecedor, porém eu entendia - Vem, vamos pegar um táxi.

- Chama pelo aplicativo...

- ... Ah, aqui não tem essas modernidades.

- Como assim? - Arrastava minha mala ao passo que Fê fazia o mesmo - Aqui está realmente no século vinte e um?

- Besta - Ela riu - Está sim, só que uma lei municipal proibiu de ter, só isso.

- Ah ta - Entramos no táxi, as duas sentadas no banco de trás, ela passou o endereço e ficamos a viagem toda em silêncio - Boa oportunidade para ganhar uns trocados aqui.

- Pode tentar, mas fora da temporada isso aqui é tão morto quanto qualquer cidade pequena.

- Mas os hotéis ainda funcionam...

- Ah sim, sempre tem viajantes.

A verdade é que a mãe dela morava em uma ilha. Não era sentido figurado, era uma ilha mesmo. Uma hora de barco do pier em frente do hotel até onde ela tinha um pequeno chalé. Boa forma de curtir a aposentadoria. Hotel horrível, mas confortável o suficiente para dormir em paz. Me surpreendi com o silêncio noturno, era quase irreal, assim como Fernanda dormindo com uma camisola... quem diria.

Com os primeiros raios de sol Fernanda despertou e fez questão de me despertar também. Pelo menos o café daqui era bastante tolerável e me acordou. Apesar do sono não queria perder esse ânimo todo que imbuiu-se da alma dela. Devo confessar que a ideia de entrar em um barco de madeira, motor barulhento, lento não me agradou nada, mas ouvi-la falar dos lugares onde brincou quando criança, do quanto gostava de pegar esse mesmo barco e passar o dia naquela ilha me convenceu de que tudo ida ficar bem.

Assim que chegamos agradeci por estar vestindo shorts e chinelos de dedo, odiaria ter que trocar de calçado na areia. Quase me lembrei de uns anos atrás quando eu fazia esse tipo de aventura com as amigas, era legal acampar, acho que logo vou bolar um acampamento e arrastar dona Fernanda, dariam ótimas fotos.

Ao longe uma figura veio se aproximando. Uma mulher, não mais que um e sessenta, cabelos brancos e brilhantes como se fossem cromados, pele bronzeada, roupa simples. Sônia. Mãe dela. Ou melhor, dele. Até que Fernanda falasse eu não podia errar e a sensação de estar andando sobre ovos era horrível. Mas ver o mar me acalmava e as ondas me diziam que tudo ia ficar bem.

Saravá, Iemanjá.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

CdF s2 e14: Firmeza

A segunda-feira chegou e com ela toda aquela ressaca do final de semana mais incrível da minha vida. Quis o destino que ele fosse ao lado da mulher que eu amo. Aliás, quis não, foi premeditado né, senhor destino? Depois de tantos anos eu estava novamente com um anel no dedo, mas dessa vez tinha um sentido. O sol na cobertura da Lótus era a lembrança de que eu sou maior que tudo isso aqui, de que eu posso tudo mais, eu posso ser quem eu quiser e pronto.

- Você é previsível - Freya sentou do meu lado, uma lata de coca-cola se colocou entre a gente - Sabia que ia ter encontrar aqui.

- Só sou previsível em horário comercial - Ri - Depois... vish.

- Ah, disso não duvido - Ela bebeu um gole do refrigerante - A propósito, parabéns pelo noivado, quando vai ser o casório?

- Você tem um futuro melhor que a Rafaela - A olhei de canto - Tem uma visão mais aguçada, é mais detalhista, tem um tom irônico na fala...

- Você acha? - Ela ficou introspectiva um instante - Talvez num futuro bem distante.

- Ou nem tão distante assim...

- Falando nisso - Freya bebeu mais um gole me oferecendo, ao que declinei - Gostei da dona Rafaela vindo do espaço, pensa em continuar a história?

- Do que está falando, garota?

- Olha como fala comigo, mocinha, ainda sou sua chefe direta - ela gargalhou brevemente - Digamos que eu li aquele seu conto da Rafaela vindo de outro planeta e tals, tem potencial... pensa em continuar?

- Como você sabe desse escrito?

- Tenho boas fontes.

- Falando sério - Me virei para ela - Andou hackeando meu computador?

- Claro que não, tenho uma boa amiga, só isso.

- Desde quando você e a Bê são amigas?

- Desde quando vocês ficaram a primeira vez... ela foi ver seu guarda-roupas de menina e surtou né, aliás, você me deve uma por isso.

- Devo?

- Sim, ela veio aqui em cima e eu vim achando que era você - Ela me olhou - Mas quando cheguei era ela, depois ela contou a história toda e no fim eu falei que ela devia te pressionar para que falasse toda a verdade... ou seja, no final das contas eu sou a cupido particular de vocês.

- Nossa, não sabia dessa... obrigada.

- Então é oficial? - Freya deu um gole longo na bebida voltando a olhar pro horizonte de prédios - Você vai mesmo adiante?

- Como assim? Casar com a Bethina? Vou sim, eu amo ela e...

- Não, garota, não se faz de lerda - Ela franziu o cenho um pouco - Vai mesmo transicionar e virar uma menina completa?

- Eita... - Prendi a respiração um instante, olhei para o horizonte e deixei escapar um suspiro longo - Pelo visto as notícias chegam rápido do lado de lá.

- Quem acha que conseguiu o restaurante sexta-feira? - Freya sorriu - Assim como Rafaela, eu quero te ver voando fora do casulo.

- Você é foda... - Foi impossível conter uma lágrima de felicidade que rolou pelo contorno do meu nariz - E a situação da empresa, como tá?

- Como assim?

- Trabalho como locutora na rádio corredor, preciso de novidades para noticiar.

- Logo terá, agora vamos voltar ao trabalho... escrava.

- Você não manda em mim - Mostrei a língua para Freya cruzando os braços - Eu vou porque eu quero.

- Porque quer e precisa comprar um guarda-roupas inteiro, não só metade.

- Também.

- E porque vai casar - Estávamos em pé rumando para a porta que ligava a cobertura às escadas quando Freya, em um movimento rápido se virou me abraçando, correspondi - Parabéns! Já tem data o noivado?

- Não, ainda não pensamos em nada... 

- Pois trate de pensar, soube que você quer tirar duas semanas de folga mês que vem né.

- Caralho velho - Rimos - O que você não sabe?

- Os pedidos do RH passam por mim... mas vai antecipar a Lua de mel?

- Não - Caminhamos pela escadaria até chegar ao corredor onde o déspota tentava sugar ao máximo o lucro em detrimento das pessoas - É algo maior que eu preciso resolver.

- Tipo o que?

- Tipo falar com a minha mãe...

- ... Sobre tudo isso, uau - Ela arqueou as sobrancelhas - A borboleta resolveu sair do casulo e voar a toda velocidade, gostei disso.

- Uma hora ia ter que acontecer né.

- Verdade, bom conversar contigo, precisando, sabe onde estou.

E assim nos despedimos. Mesmo que não tão direto era bom ver o apoio de Freya porque sabia que ela era apenas a porta-voz da aprovação dos membros da cobertura. Pode parecer estranho, mas a chancela dela me fazia ganhar mais força e aceitar que era o caminho e pronto. Sem mais dúvidas, só tinha de seguir o fluxo e tudo ia encaminhar para o meu futuro. Aliás, meu futuro agora não era só meu, era meu e de Bethina.

domingo, 10 de maio de 2020

CdF s2 e13 - Relicário

Fernanda se calou tentando captar cada mínimo sinal do que estava ao seu redor. Apesar do álcool em seu sangue tentava lembrar qual tinha sido o caminho e, baseado nisso, poderia pensar o que havia no lado da cidade que estivesse. Da boate para a esquerda, reto alguns quarteirões e a venda. Depois disso uma para a direita e incontáveis quilômetros para frente com curvas esporádicas. Se o GPS interno dela estivesse funcionando bem estariam em um lado mais antigo da cidade.

Depois do quebra-molas e da conversa rápida da motorista com alguém externo o carro rodou não mais que um minuto. Tão logo o veículo parou Bethina foi logo abrindo a porta, o que trouxe uma lufada de ar gelado do lado exterior. Com as orelhas em pé tal qual uma criatura felina que ouve um ruído e busca mais sobre, Fernanda tentava ouvir alguma coisa. Só murmúrios, foi quando o outro lado do carro foi aberto e a aspirante à sequestradora tocou sutilmente o ombro da sequestranda.

- Vem cá, deixa eu tirar isso aqui... não sei porque a Bê quis por isso - Tão logo o pulso ficou livre Fernanda desceu ficando em pé - Segura em mim, espero que goste do que ela planejou.

- Ela planejou?

- Sim, ela não entrou em detalhes, mas disse que viu alguma coisa e resolveu te dar esse presente... como minha agenda tava vazia esse final de semana, topei na hora, tudo pra ver minha prima feliz.

- Prima?

- Ops - As duas caminhavam lentamente para dentro de uma estrutura - Eu não falei nada.

- O que as duas estão conversando hem? - Bethina tinha um tom duro, mas ao mesmo tempo doce. - Aposto que a linguaruda aí abriu o bico né.

- Eu não... sei que sua mão é pesada - As duas riram enquanto Fernanda tentava entender onde estava, o chão era duro e os sons da cidade eram mais baixos - leva ela? Vou pegar o equipamento.

- Claro! Já vou ligando as luzes também... - E assim Bethina segurou o braço da namorada e entraram na estrutura - O que está achando da noite, amor?

- Estou adorando esse mistério - Ela franziu o cenho - Quando chegarmos em casa vou gastar tudo que aprendi com minhas antigas Dommes.

- Vai nada, você é doce demais pra isso - O ambiente parecia vazio pelo eco das vozes - Sabe, amor... esses dias estava trabalhando e achei um meio que diário seu, curiosa que sou acabei lendo.

- É? - Fernanda tentava se lembrar do que tinha escrito, a verdade é que, quando foi parar a terapia anos atrás por falta de dinheiro, foi recomendado fazer um diário, nem que fosse uma vez por semana, pro caso de conseguir voltar às sessões poder falar tudo que aconteceu - E o que achou lá?

- Um dos seus desejos mais lindos... eu até imprimi - Da bolsa Bethina tirou uma folha de papel dobrado - "Semana dezenove: hoje depois de entregar alguns freelas que mal vão cobrir as contas do mês me peguei pensativo, onde eu quero chegar com tudo isso? Vesti a saia pra pensar melhor, talvez essa maluquice do BDSM seja só uma fuga pra algo maior, em uma situação onde sou obrigado a estar em uma posição que é a que eu quero estar na vida, não só durante uma sessão. Posso estar me precipitando, mas se hoje fosse a data final pra escolha eu escolheria ser menina, nem que fosse só pra modelar, me sinto melhor assim."

Foi impossível para Fernanda não lacrimejar debaixo da venda. Passou todo um filme na sua cabeça de tudo que passou até chegar aqui. Toda a curiosidade adolescente até descobrir um termo que lhe fez encontrar seu caminho depois de inúmeros desvios. Com ou sem permissão tirou a venda. "Foda-se a surpresa". As lágrimas a impediam de ver onde estava. Sem aviso abraçou Bethina.

- Se você não existisse eu tinha que te inventar, garota - Era nítida a emoção das duas naquele instante - Eu te amo, amo, amo e amo muito!

- E eu nem li a segunda parte - Bethina ainda tinha o papel à mão, levou alguns segundos para se recompor - "Semana vinte e um: Passei um dia inteiro de saia, cada vez que passava em frente do espelho ele me sorria, as fotos também... acho que nunca tirei tanta selfie linda. O foda é que eu não me sinto atraído por outros homens, mas que mulher vai querer uma criatura como eu? Tudo isso me deixa confuso. Cogitei comentar isso com minha antiga terapeuta, mas deixa pra quando voltar à normalidade das sessões..."

- E olha só - Fernanda limpava o rosto tentando não estragar a maquiagem - Encontrei uma mulher que quis a criatura que eu sou.

- Uma criatura linda! - Beijaram-se - Uma criatura maravilhosa que eu amo!

- Que coisa mais linda - A voz vinha da motorista carregando equipamento de fotografia e com a câmera na mão - Vocês são um casal lindo.

- Então, amor - Bethina se recompôs e saiu do abraço - Essa é minha prima, Bruna, ela é fotógrafa, adora fazer ensaios de minorias mas faz casamentos e velórios pra pagar as contas.

- Prazer - Fernanda ameaçou esticar a mão, mas Bruna já foi logo dando dois beijos, um em cada face do rosto - Eu já ouvi sua voz em algum lugar...

- Provavelmente, eu volte e meia estava na Lótus tirando umas fotos.

- Olha só! Sabia! Suas fotos são ótimas!

- Obrigada! Agora vamos posar, meninas?

E assim, uma noite que começou com inúmeras dúvidas e um glaciar completo na barriga de Fernanda, ganhava cores e calores de luzes profissionais instaladas no antigo prédio que era, também, o estúdio de Bruna. Ali achou todas as roupas que tinham sumido de seu guarda-roupas e muito mais. Seu coração quase saiu pela boca quando viu um vestido de noiva como sempre imaginou, inteiro feito de renda e com saia de tule por baixo... infelizmente ela era muito grande para a peça, porém Bethina foi para dentro da indumentária nupcial. Nesse meio tempo Fernanda estava dentro de um vestido preto com bolinhas pretas, saia de tule preto por baixo, uma perfeita pinup dos anos cinquenta, foi quando teve um estalo.

- Bê - Fernanda tomou a mão de Bethina na sua, apoiou o joelho direito no chão - Quer se casar comigo?

- Caralho - O coração de Bethina bateu uma vez em falso, quase sentiu o corpo desfalecer, o choro veio acompanhado do sorriso bobo de quem sempre sonhou com essa cena, talvez não dela dentro dum vestido de noiva e a namorada de pinup, mas, ainda assim era melhor do que ela jamais sonhou - Claro que eu aceito!

domingo, 3 de maio de 2020

CdF s2e12: Passeio

Devo confessar que essa sexta-feira passou mais rápido do que esperava. Aos poucos as coisas iam se encaixando e a chefia incomodava menos aqui em baixo. Enquanto estivesse todo mundo em silêncio e produzindo eles não tinham motivo para vir visitar a plebe. Pisquei e o dia já findava com toda a campanha de reajustes colocada no ar... a hora que Rafaela voltar ela vai ter muito trabalho para recolocar a Lótus em pé. Mas é aquela coisa: o passarinho do fio de baixo tem que aceitar o que vier do fio de cima.

Uma vez na rua e o fluxo de trânsito me levou completamente no automático até a terapia. Sem um motivo aparente eu tive algumas lembranças no decorrer do dia e partilharia elas com minha analista. A velocidade de minha chegada me trouxe quase quinze minutos antes. Perguntei qual era a janta, Bethina não respondeu. Insisti. Ela disse que íamos jantar fora. Era uma boa, já fazia um bom tempo que ou fazíamos algo em casa ou pedíamos comida por delivery... a verdade é que eu estava em um fluxo de trabalho para casa, casa para o trabalho. Vez por outra terapia, mercado, feira... nada além disso.

Ao entrar na sala da terapeuta me deparei com um divã novo, totalmente preto, uma luz mais intimista, um pouco mais escuro, um abajur estranho e duas poltronas além de um tapete extremamente macio.

- Ficou chique.

- E não é menina? Resolvi dar uma repaginada, ganhei um divã novo, chegou agorinha, você vai ser a primeira a experimentar.

- Que honra! - Me sentei, era óbvio que era novo, era duro e levemente desconfortável - Só esse abajur...

- Ah, isso aí vou botar fora, a menina que faz estágio aqui a tarde trouxe... achei horrível. - Me ajeitei soltando o cabelo e respirando fundo - Mas e como foi a sua semana?

- Foi corrida, trabalhei, assisti alguns filmes... nada muito relevante... Eu só tive uma lembrança vindo pra cá.

- Que tipo de lembrança?

- De quando fiz terapia a primeira vez... uns anos atrás, antes mesmo da Flávia, era uma época estranha, eu tinha me formado e estava em um emprego bonzinho, ainda morava no interior, uma cidade grande, mas no interior - forcei o R para dar ênfase - eu já cheguei disposta a falar tudo, abrir o jogo total sabe? Não tinha falado pra ninguém do meu lado... lado entre muitas aspas... tinha algumas amigas próximas que sabiam, mas nunca tinham visto ao vivo sabe? Aí resolvi que ia usar a terapia pra isso, afinal, eu tava lá pra isso né? Demorei uns dois meses de sessões semanais até conseguir coragem pra pedir pra usar... e quando usei, tudo pareceu fazer tanto sentido sabe? Era como se a minha vida tivesse se dividido em antes e depois daquele momento, eu ainda estava em conflito, mas naqueles quarenta minutos de sessão eu fiquei... nas nuvens. Ao voltar pra casa aquele dia eu não acreditava que tinha feito isso mesmo... pena que depois de um tempo eu tive que parar por falta de grana.

- Puts - Ela parecia saber como era isso - E ainda tem o contato dela?

- Tenho! Ela mora na mesma cidade que a minha mãe... veja que mundo pequeno.

- Ah que legal - A ouvi rabiscar algo - E ela já sabe dos seus passos futuros?

- Ainda não... quero mostrar ao vivo.

- Manter a tradição, saquei - Rimos - Eu posso notar aqui, Fê, que você ficou muito tempo esperando sabe? Não vou julgar seus motivos nem nada, mas esse tempo... - Ela tocou meu braço de leve - ... deve ter sido difícil né.

- F-foi... - Mordi o lábio, não estava afim de chorar - Mas foi importante.

- Importante?

- É, me trouxe até aqui.

- Own modeuzo... não adianta, garota, eu sou firme e você não vai me fazer chorar.

Rimos. Depois daquela lembrança a sessão aconteceu sem maiores histórias, só o cotidiano da empresa, de casa e o quanto me cortava o coração ao ter que deixar Bethina em casa sozinha. Findada aquele momento eu fui para casa pensar na minha existência e tirar essa casca de Fernando que tanto me sufocava mas ainda era necessária. Necessária por que? Eu precisava dum rompante para assumir de vez minha real identidade.

Ao chegar em casa Bethina estava jogando. Pista de Interlagos, conhecia cada curva daquele local. Esperei ela ganhar a subida do café para dar boa noite e ver que não bateu meu recorde por meio segundo.

- Provavelmente está errando o laranjinha...

- Não, é o bico de pato.

- Ali joga a primeira e faz por dentro a primeira perna porque vai tracionar melhor a segunda...

- Vai tomar banho vai, recebi um freela inesperado e ganhei uma graninha legal, dá pra gente jantar fora, quem sabe pegar uma baladinha suave, sair um pouco desse apartamento... que acha?

- Eu gosto... vamos onde?

- Surpresa, agora vai, garota, vou dar mais uma volta aqui e vou me arrumar.

Com a certeza que meu tempo não seria batido hoje entrei no banho e deixei as energias ruins fluírem pelo meu corpo e escorrerem pelo ralo. Era aquela ducha vaporosa do The Sims que fazia os Sims saírem radiantes. Passei creme no rosto, no cabelo... chegava a dar dó eu ter que ser menininho pra sair. Na verdade era irritante mesmo. 

Saí do banheiro enrolada na toalha e Bethina estava na cozinha, saia e comprimento médio, uma blusa com mangas curtas, cabelo levemente armado, uma maquiagem linda e uma sandália baixa nos pés. Que mulher maravilhosa. Fui para o quarto onde uma blusinha de mangas três quartos e uma saia longa me aguardavam em cima da cama. "Boa tentativa" pensei já abrindo o guarda-roupas. Não haviam outras roupas.

- Amor... cadê minhas roupas?

- Veste o que deixei em cima da cama.

- Mas a gente não ia sair?

- A gente vai, quando terminar de se vestir vem aqui que vou te maquiar.

- Mas...

- Mas o quê, garota? - Eu ainda estava enrolada na toalha quando ela entrou no quarto - Olha, amor, eu super entendo na empresa você ainda ter que manter o Fernando, mas comigo, você não precisa disso, eu quero sair com você, mas a você real saca? Me apaixonei pelo Fernando e agora eu amo a Fernanda, você é maravilhosa, linda, não precisa se esconder em casa... você merece o mundo.

Ela me abraçou forte, choramos juntas por alguns minutos, em seguida, recobrando o papel de quem quer me forçar a sair da zona de conforto, ela mandou eu me apressar. O arrepio que senti ao vestir aquela blusa e depois a saia fpo diferente, foi algo completamente novo, talvez só comparável à primeira vez que me mostrei, lá pra terapeuta, anos atrás. Arrumei a saia na altura certa, o sutiã com bojo me fazia parecer mais feminina, um peito pequeno, mas convincente. Nos pés uma rasteirinha.

- Vai se foder - Assim que coloquei o pé fora do quarto Bethina me recebeu com aquele jeito dela - Como que eu fui arrumar uma namorada tão linda? Senta aqui, vou te maquiar pra gente sair - Abri a boca para repensarmos e ela cortou em cima - E nem pensar em arregar agora, temos uma reserva e duas entradas pra um pagode - Fiz careta - Brincadeira, é uma baladinha tecno suave... bem gostosinho, dá aqui a orelha - O brinco de argola quase tocava meu ombro - a outra... e voilá, a namorada mais linda do mundo está perfeita. Agora vamos.

Ao mesmo tempo que queria sair por quela porta quis voltar para dentro do quarto e me esconder debaixo das cobertas. Bethina não era terapeuta mas notou minha hesitação e me puxou pelo braço, não com força, mas com a gentileza de quem sabe que aquele passo era de extrema importância para meu crescimento e minha aceitação. 

Ao passar a soleira da porta eu quase congelei. No elevador eu, mentalmente, rezei para que não entrasse nenhum vizinho. No décimo andar o diminuto veículo parou. Entrou o síndico com a esposa. Bethina tomou sua mão na minha e, de repente, eu senti que poderia enfrentar o mundo inteiro, foi como um estalo. Ao descer no andar da garagem o representante de Tim Maia desejou boa noite e, em tom brincalhão, juízo às jovens. Passamos pelo hall de entrada dando um honesto boa noite ao porteiro, o mesmo que eu discutia futebol às vezes. 

Logo o carro do aplicativo chegou e eu sentei no meio. Senti os olhares do motorista, ao mesmo tempo que gostei de ser desejada como a mulher que sempre quis ser eu me senti um pouco invadida por aquele par de orbes que deviam estar na estrada. Quando estávamos perto do restaurante puxei Bethina para perto e dei um beijo nela, nada muito épico, apenas para deixar claro que eu não tinha o menor interesse em Rubens, o motorista.

O jantar delicioso, em um ambiente com luz baixa onde mal dava para ver as outras pessoas. Pude gastar todo o meu talento nas horas vendo técnicas de afinação vocal que vi na internet nos últimos anos. Até minha namorada percebeu que me joguei naquela situação e estava tentando aproveitar ao máximo. A casa noturna ficava dois quarteirões dali, em uma parte da cidade cheia de espaços de festa, bares, pessoas diferentes... imediatamente na nossa frente na fila tinha uma drag, maquiagem carregada, vestido curto. Quase quis dar umas dicas de como se arrumar, mas cada um cada um. Algumas horas depois estava exausta e pronta para um belo sono de beleza.

Bethina assentiu com a cabeça. O carro veio e notei que estávamos indo para outro lado.

- Para onde estamos indo?

- Ahhhh... ficou curiosa?

- Fiquei - A voz chegou a sair um pouco do tom - Sério, pra onde está me levando agora, dona Bethina?

- Segredo - Ela puxou da bolsa uma fita de pano - Coloca isso.

- Uma venda? Sério?

- Sério, anda logo, garota.

Com a destreza de alguém levemente alcoolizada eu cobri os olhos com a venda e, fazer isso, me aguçou os outros sentidos e a lembrança. Bethina não tinha chamado carro nenhum. Esse aqui tinha os bancos de couro. Quem dirigia era um par de olhos felinos que sorriu ao me ver. Agora fiquei bolada. Antes de eu poder fazer algo senti um ferro frio ao redor dos meus pulsos.

- Bethina - Meu tom de voz saiu como um trovão - o que está acontecendo aqui?

- Eu disse que ela não ia notar - a voz veio do banco da frente - A propósito, você é linda, Fernanda... agora, se puder ficar caladinha, eu agradeço, odiaria ter que pedir pra Bê colocar uma mordaça em você e estragar essa make divina, já estamos chegando.

Por essa eu não esperava. E o foda é que aquela voz não me era estranha. Já tinha ouvido ela em outros lugares mas não conseguia ligar o som à pessoa. Bem dizem que nervosismo afeta o raciocínio. Pensa Fernanda, pensa. Quem teria cacife de fazer isso? Conseguir reserva para aquele restaurante? Amaciar o corpo na balada? O único nome que me passava na cabeça era de Rafaela. Flávia talvez, mas essa hora ela devia estar curtindo a vida em algum lugar da Inglaterra. A voz da motorista deu boa noite à outra voz externa, passamos um quebra molas... não conseguia imaginar a surpresa que viria nos próximos minutos. Você me paga, Bethina.